A Bela e a Fera
13 Capítulo 13
Capítulo 13
Num impulso, ela passou os braços à volta do pescoço de Brittany, beijando-a, ofegante, ignorando a tensão do corpo dela e o fato de que não queria que o tocasse.
— Quero você...
— Não.
— Sim! — Ela abriu um botão da camisa, deslizando a mão para dentro.
— Não. — Ela tirou a mão. — Não vou fazer amor com você no escuro. Se o fizer, vou querer luzes à nossa volta.
— Então acenda as luzes, agora. — Silêncio.
— Você não quer vir para a luz? — Ela não respondeu.
— Entendo. — Ela respirou fundo. — Nem por mim? Nem agora?
— Não.
— Estou cansada de ouvir não, Brittany — disse ela, tentando ficar calma enquanto seu corpo ainda tremia de prazer e a mão dela ainda a tocava.
— Essa é a única resposta que posso lhe dar. — Ela empurrou as mãos dela e afastou-se.
— Pensei que confiasse em mim. Mas aparentemente é impossível. — Ela levantou-se, sem se importar em procurar a calça do pijama no escuro, e saiu correndo do quarto.
Brittany sentou-se, enterrando a cabeça nas mãos, e em seguida passando os dedos por entre os cabelos. Por que de repente parecia mais escuro do que antes?
Melaine não estava no quarto. Quando Rachel a deixara, estava quase dormindo, mas ao entrar para ver se estava bem, viu a cama vazia.
E não respondeu quando ela chamou.
Rachel abriu uma porta, procurando no outro quarto, fechou-a e foi ao quarto seguinte. Chamou Melaine várias vezes, mas não obteve resposta. Tinham brincado muito naquele dia, já que não queria pensar em Brittany. Mas não tinha funcionado. Mesmo depois da cavalgada, das horas brincando na praia, de fazer artesanato com Melaine, ainda sentia os lábios dela em sua pele. Nem mesmo o chuveiro frio, que imaginara amenizar o calor e o desejo que ainda vibravam em seu corpo, tinha adiantado.
— Melaine? Querida? — O som ecoou no quarto vazio.
O tom de voz foi ficando mais alto quando não conseguiu encontrá-la, e o pânico começou a dominá-la. Correndo de um quarto para o outro, chegou à ala oeste, e entrou no quarto amarelo. Ali estavam as telas e pincéis, exatamente como os deixara. Rachel olhou para a calça de pijama caída no chão com expressão de desgosto, ao lembrar como havia se abandonado ao toque de Brittany, esquecendo de tudo. Pegando-a com um gesto brusco, voltou ao corredor principal, abrindo armários, olhando atrás de portas.
— Venha, Melaine! Isso não tem graça.
Parou de repente, pensando ter ouvido um som abafado, na direção do corredor principal. Mas não encontrou nada ali.
Rachel saiu correndo de casa, encontrando Troy na garagem. Ele limpava o carro e ergueu o olhar ao vê-la.
—Ajude-me a procurar Melaine. Não consigo encontrá-la. Acho que deve estar se escondendo de propósito.
Preocupado, Troy largou tudo e saiu para procurar a menina nos jardins e nos outros locais fora da casa, enquanto Rachel retornava para dentro.
Olhando pela janela do salão, procurou ver se havia pegadas na areia, na direção da água, mas não havia nenhum sinal de que Melaine tivesse passado por ali. Rachel sentiu uma ponta de alívio, mas ainda assim, onde ela estaria? Por que não respondia?
Rachel continuou a chamar, checando todos os lugares onde uma criança poderia se esconder. O medo crescia dentro dela. Embora a casa fosse segura, protegida por alarmes, continuava pensando no que Brittany dissera. Que alguém poderia seqüestrar a menina para pedir resgate. Não queria assustá-la, mas Troy entrou e disse:
— Nada, nem sinal dela.
Rachel agradeceu, correu para a escada e subiu os degraus de dois em dois, na esperança de que Melaine tivesse voltado ao quarto. Mas a cama estava vazia. Voltou a chamar, sem obter resposta.
Rachel ouviu ruídos no quarto de Brittany, e a raiva da noite anterior voltou. Subindo a escada, bateu na porta.
— Sim?
— Abra a porta!
— Não.
— Já disse que estou cansada de ouvir isso. Agora, abra, ou juro que vou derrubá-la com uma das suas preciosas espadas antigas.
Brittany olhou para a porta, desejando abri-la e beijar Rachel .
— Então decidiu apelar para a violência? — provocou.
— Preciso de sua ajuda, Brittany. Melaine desapareceu. — brittany soltou os pesos com que se exercitava, e eles provocaram um baque absurdo ao bater no chão.
— O quê?
— Ela está na casa, tenho certeza. Não há pegadas na areia, e Troy não a encontrou lá fora. Estava dormindo no quarto e desapareceu.
— E a gatinha? — Rachel franziu a testa.
— Também não está em lugar algum. — Ela ouviu um grito abafado.
— Meu Deus, eu posso ouvi-la. Onde estará? — Brittany vestiu uma camiseta.
— Vou encontrá-la.
— Como pode fazer isso trancado aí dentro? Que droga, Brittany, saia! Preciso de ajuda. — Brittany foi até a porta, sem abri-la.
— Calma, querida. Eu vou encontrá-la.
O tom da voz dela acalmou-a. Ela a encontraria. Mas não podia ficar parada, esperando. E decidiu prosseguir em sua busca.
Agarrando uma lanterna, Brittany deslizou para a escada de serviço escondida entre as paredes, e desceu um andar, dirigindo-se ao outro lado da casa.
— Melaine? Melaine?
— Mama?
— Fique onde está, princesa. Já estou chegando.
— Estou com medo... — A gatinha miou.
— Eu sei, querida. Continue falando comigo. — Brittany subiu a escada estreita. — Pode ver a lanterna?
— Não. — Era possível perceber o pânico na voz dela.
— Está tudo bem, princesa. Mama está aqui. Nada vai acontecer.
— Está bem.
Brittany sorriu, percebendo que ela tentava ser corajosa.
Ela virou a curva seguinte, desejando que a passagem estreita tivesse alguma iluminação. A escada de serviço, entre as paredes, percorria todo o castelo, e embora ela conhecesse o caminho no escuro, Melaine poderia ficar presa ali durante vários dias, sem encontrar a saída.
— Como achou a escada na parede?
— Serabi passou por baixo da parede, no canto do meu quarto.
Devia ter deixado parte do painel aberto na noite anterior. A culpa era sua!
— Estou vendo a luz, Mama.
O alívio era evidente na voz da menina. Logo Brittany desviava o facho de luz, localizando-a. Inclinando-se, abraçou-a e pegou-a no colo. Se alguma coisa acontecesse com ela... Melaine passou os braços à volta do pescoço dela, e Brittany beijou-a no rosto, acariciando as costas da menina, que tremia e soluçava.
— Está tudo bem, querida. Mama está aqui.
— Eu estava com tanto medo...
— Eu sei, meu bem, eu sei.
Brittany carregou-a de volta para a saída. Apertando a saliência na parede, a porta se abriu. Ela colocou-a no chão, e Melaine correu para o corredor.
— Rachel! Rachel!
— Oh, Melaine! — ela gritou, correndo para abraçar e beijar a menina. — Melaine começou a rir. Brittany ficou parado na soleira da porta entreaberta, vendo Rachel abraçar a menina. O amor que sentia pela criança refletia-se nos olhos dela, misturado às lágrimas que tentava conter.
— Querida, onde você estava? Fiquei tão preocupada! — Agora ela saberia, pensou Brittany.
— Dentro das paredes.
— O quê?
— Há uma escada de serviço, com passagens escondidas dentro da parede, que percorre toda a casa — explicou Brittany.
Rachel virou-se, olhando para ela. Semi-escondida, podia ver apenas que usava short e uma camiseta preta. A luz refletia-se nos músculos das coxas, e imagens da noite passada voltaram de repente. Mas Rachel afastou-as com raiva.
— Passagens? — repetiu Rachel. — Meu Deus, Brittany! Ela podia ter caído, se machucado. Eu nunca iria encontrá-la! Você devia ter me avisado sobre isso.
— Sinto muito, Rachel — disse Melaine.
— Não é sua culpa — disse Rachel, abraçando-a carinhosamente.
— É assim que vem para o meu quarto, não é, mama? — Melaine olhava para os dois, com expressão curiosa.
— Sim, princesa.
Não era de admirar que ela pudesse andar pela casa tão facilmente. Colocando a menina no chão, Rachel cruzou os braços.
— Que notícia!
— Só fui ao quarto dela — esclareceu Brittany, sabendo o que ela estava pensando.
— Jamais pensaria que fosse ao meu — disparou Rachel. — Afinal, tem muitas luzes.
— Mama lê para mim todas as noites. — Disse Melaine com um sorriso enorme nos labios. — Rachel olhou para Melaine, sem esconder a surpresa.
— O quê? — Ela fitou Brittany, os braços ao lado do corpo.
— Você lê para ela? Vai até o quarto por trás das paredes?
— Sim.
Rachel deu um passo à frente e colocou o dedo indicador no peito dela.
— Isso é... é... — Ela suspirou, pousando a mão no colo de Brittany. — E maravilhoso, Brittany. Fico feliz por vocês dois.
— Isso muda muito pouco.
— Mas me permite ver que pode se arranjar sozinha, se eu for embora.
Ela inclinou-se e Rachel sentiu o perfume que usava, o aroma unico, e seus sentidos se aguçaram, desencadeando uma onda de desejo.
— Você não vai embora — resmungou ela. Não podia nem pensar nisso. Não agora.
— Por favor, Rachel, não vá! Por favor! — pediu Melaine, e o pânico na voz da menina cortou o coração de Rachel.
— Eu não vou embora, querida. Ainda não — disse, num tom mais baixo, só para Brittany, imaginando como conseguiria deixá-las algum dia. — Eu já disse — murmurou. — Não posso continuar assim.
Brittany inclinou a cabeça, a boca a poucos centímetros dos lábios dela.
— Mas vai continuar. Por Melaine. — Era isso que ele queria dizer. Mas Rachel não concordaria tão facilmente, sem discutir.
— Continuaremos nossa conversa mais tarde, Sra. Pierce — disse, virando-se para Melaie.
— Sim Rachel, tem razão. — As palavras dela soavam como uma ameaça.
— Está zangada com a Mama? — perguntou Melaie, enquanto Rachel segurava a mão dela.
— Sim, querida.
— Por quê?
— Porque ela é... teimosa. — E orgulhosa, desconfiada. Queria que acreditasse nela, que confiasse nela. E que a beijasse, como na noite anterior.
— Oh!
Rachel sorriu. Melaine não entendeu, mas segurou a mão dela.
— Venha, querida. Ainda tem tempo de tirar uma soneca antes do jantar. — Melaine não pareceu muito animada, mas foi para o quarto, apertando Serabi contra o peito. — Quanto a você, Brittany...
— Sim? — retrucou ela, calmamente, observando o corpo delineado pela saia jeans justa e lembrando como era senti-la reagir ao toque de suas mãos.
Ela parou na porta do quarto de Melaie e virou-se, olhando para ela, meio escondida nas sombras.
— Tem pernas fantásticas — provocou, sem deixar de fitá-la.
Brittany riu, sentindo que as palavras dela faziam seu corpo arder de desejo, lembrando a noite anterior. E então, o batente da porta lhe pareceu uma barreira. De um lado havia apenas solidão, rodeando-a como uma nuvem sufocante. Do outro, estava Rachel, a esperança, a liberdade e a oportunidade de ter muito mais.
Rachel virava na cama, inquieta, e pela primeira vez o som de chuva e trovões não a reconfortava. Se não descansasse estaria exausta no dia seguinte, pensou, culpando Brittany. Depois de dar banho e jantar para Melaine, tinha lido um pouco, desenhado, tomado chá de camomila. Mas nem mesmo o alívio de encontrar a menina sã e salva e a alegria de saber que Brittany passava algum tempo com ela conseguiam aliviar a tensão que a dominava.
Estava inquieta, agitada, consumida pela paixão, e a culpada era Brittany. Os momentos que havia passado nos braços dela não lhe saíam da memória. Atirando as cobertas para o lado, levantou-se e foi até a janela. Puxando as cortinas, sentou-se na poltrona próxima e contemplou a tempestade. O mar estava escuro, e as ondas enormes explodiam numa espuma branca que se destacava há luz dos relâmpagos. Ela sentia-se exatamente como aquele mar, vivo, agitado, selvagem.
Olhando para o roupão, sobre a poltrona, imaginou se deveria procurar Brittany e tentar convencê-la a confiar nela. Mas sabia que não adiantaria. Ela o faria quando estivesse pronta. Se algum dia estivesse... Se insistisse, tinha medo que ela recuasse, e pelo bem de Melaine não podia arriscar. Estava ali por causa da menina, lembrou a si mesma. A criança precisava de um mãe de verdade, que pudesse encará-la, e ao resto do mundo, sem qualquer restrição.
Fale com o autor