A Bela e a Fera
11 Capítulo 11
Capítulo 11
Rachel tomou o resto do vinho e recolocou tudo na caixa. Brittany ficou tensa ao vê-la levantar-se e caminhar para ela, o roupão fino moldando o corpo esguio.
— Não se aproxime — sussurrou ela, roucamente.
Ela não obedeceu, e Brittany pôde sentir o perfume na pele, nos cabelos dela.
— Rachel...
Estava imóvel, e quando ela ergueu a mão, Brittany segurou-a no ar. Com um gesto rápido ela soltou-se e acariciou o lado do rosto que não tinha cicatrizes. Os dedos deslizaram para os cabelos macios, e ela gemeu, baixinho.
— Não sou Santana, e você não é Cassandra. — Os lábios de Rachel tocaram levemente os dela, e Brittany lutou contra o desejo de colocá-la no colo e saboreá-la com a boca, e as mãos.
— Não tenho medo de você, fera. — Ela se mexeu, os lábios tocando a orelha de Brittany, a voz sedutora enchendo a noite. — Afinal, por que está sempre se aproximando de mim?
Antes que Brittany pudesse responder, afastou-se, escapando para a escuridão do corredor. Ela sabia por que. Estava começando a confiar nela. Tinha lhe contado coisas que jamais dissera a ninguém. E essas duas coisas eram perigosas. Porque quando estava perto dela o que menos lhe importava era a imagem que vira no espelho.
— Rachel? — chamou Melaine da sala. — O que é isto?
Rachel enxugou as mãos numa toalha de papel e atravessou a sala de jantar, parando ao ver a pilha de caixas amarradas com fita verde.
— Bem, querida, por que não descobrimos juntas? — Parando ao lado da mesinha de café, viu o cartão preso na caixa maior. Era endereçado a ela. "Gostaria que mostrasse mais dos seus talentos escondidos". Junto às caixas estava um dos esboços que fizera de Melaine, com um bilhete. "É lindo, você conseguiu retratá-la perfeitamente." Brittany.
— De quem é? — perguntou a garotinha, saltitando em volta das caixas, na expectativa de ganhar um presente.
— O bilhete diz que a caixa de cima é sua. — Soltando as fitas, entregou a caixa à menina, que sentou-se no tapete para abri-la. Dentro havia lápis de cor, purpurina, guache, lápis de cera, aquarelas e papéis. — É da sua mãe — disse Rachel, e Melaine ergueu o olhar, sorrindo.
Rachel também sorriu. Brittany tinha pedido desculpas à filha do único modo possível no momento. Melaine perguntou se podia usá-los, e Rachel assentiu, dirigindo-se à sala de jantar, onde colocou uma toalha velha sobre a mesa, para protegê-la das tintas. Em seguida, entregou à menina uma xícara de água, explicando como poderia pintar.
Depois de ter acomodado Melaine, voltou à sala de estar e olhou as caixas. Com um suspiro, abriu a primeira e encontrou tudo que precisaria para desenhar, além de papéis especiais. A segunda tinha aquarelas, uma palheta e pincéis, a outra tinha um cavalete e um banquinho, além de um bilhete. "O quarto amarelo, na ala oeste, é o que tem a melhor luminosidade, além da linda vista do rio e da cidade." B.P.
As lágrimas encheram os olhos de Rachel, que sentiu a garganta apertada. Ninguém nunca a elogiara por outra qualidade que não fosse a beleza. Mesmo tendo vários desenhos espalhados pelas paredes do apartamento, Cassandra nunca notara, nem fizera algum comentário. Ela adorava desenhar e pintar, mas desistira disso por coisas que julgara ser mais importantes, na época. Havia uma sensação de liberdade que apenas a arte podia lhe dar. Criar algo do nada era como uma mágica poderosa. E Brittany lhe dera tudo isso novamente.
— Também ganhou presentes — disse Melaine, aparecendo ao lado dela e espiando as caixas.
Rachel acariciou os cabelos loiros da menina e sorriu.
— Não é lindo? Teremos de arranjar um lugar especial para trabalhar.
Melaine concordou, voltando para a sala de jantar para terminar o que estava fazendo. Rachel sentou-se no sofá e pegou o estojo com os lápis, imaginando o que desenharia em primeiro lugar. Queria agradecer, mas sabia que Brittany não iria recebê-la. Além disso, tinha muito que fazer. Depois que Melaine terminou o primeiro desenho, pregou-o orgulhosamente na geladeira, antes de levá-la para o banho. Não foi fácil acalmar a menina, que queria experimentar tudo, mas depois do banho e de uma história, conseguiu colocá-la na cama. A caixa com os presentes ficou na mesinha, ao lado da cama, como se isso deixasse a mãe mais próximo.
Deixando a porta de Melaine entreaberta, Rachel parou no corredor, olhando para a escada que levava ao andar de cima, imaginando o que Brittany estaria fazendo. Não falara com ela desde a noite anterior. Tão pouco ela a chamara pelo interfone, nem aparecera nas sombras. Era como se tivesse revelado coisas demais e agora quisesse manter distância. Ainda assim, lhe dera um presente maravilhoso. Era uma mulher complicada, depois de tomar banho, vestiu o roupão e desceu, ansiosa para experimentar os novos lápis e craions.
Quando Brittany ouviu Rachel andando no andar de baixo, entrou no quarto de Melaine apressada para estar com a filha. Sentando-se na cadeira de balanço, observou-a enquanto dormia. O luar que se infiltrava através das cortinas banhava a menina com um brilho prateado.
Serabi mais parecia à rainha da selva, deitada no fundo da cama, enroscada nos cobertores.
— Mama — murmurou Melaine, como se percebesse que ela estava ali. Brittany estendeu a mão, que ela segurou, meio adormecida. — Obrigada pelo presente — disse, sem abrir os olhos.
— Fico feliz que tenha gostado, princesa — sussurrou ela.
— A Rachel também gostou do dela — disse Melaine, bocejando, antes de voltar a adormecer.
Uma onda de alegria a envolveu. Queria tanto ver Rachel, falar com ela... Os momentos que passava ao lado dela eram os únicos em que se sentia humana outra vez, em que as cicatrizes pareciam não importar. Mas, esperando pelo momento certo, pegou o livro no criado-mudo, abriu na página marcada e começou a ler para Melaine. Meio adormecida, ela sorriu. E aquele sorriso fez Brittany sentir-se como uma rainha.
Brittany amaldiçoou o tamanho da casa e entrou na biblioteca, parando ao ver que estava vazia. Rachel não estava no quarto, nem com Melaine. Deixando a biblioteca, foi para a ala oeste da casa, um lugar pouco usado, construído para abrigar hóspedes e empregados. Subindo a escada, começou a procurá-la, já entrando em pânico. E se estivesse machucada, se tivesse caído num dos corredores escuros? Começou a chamá-la, baixinho, e quando não obteve resposta, abriu uma porta atrás da outra, tentando encontrá-la.
— Rachel!
— Estou aqui!
— Aqui, onde? Que droga de lugar! Mais parece um labirinto! — A risada dela era baixa e suave, e parecia encher o ar quando ela abriu a porta.
— Disse que eu podia usar o quarto amarelo, não disse? Sentada numa cadeira, estava de costas para ela, com um cavalete a sua frente e o pincel sobre a folha de papel presa a um painel.
— Não disse?
— Sim, agora me lembro.
— Não costuma andar muito pela casa, não é?
— Não por aqui. Meu Deus, eu me senti uma tola.
— Estava preocupado?
— Sim. Este lugar é muito grande e antigo, e...
— E sempre muito escuro — completou ela, virando-se levemente, mas sem fitá-la. Ela olhava para o chão, e Brittany percebeu que fazia isso por ela, embora houvesse pouca luz no aposento. As cortinas estavam afastadas e o luar entrava pelas janelas.
— Está pintando no escuro, Rachel.
— Você é mesmo esperto, Pierce.
Ela riu, balançando a cabeça e aproximando-se.
Racheel sentiu-a mover-se atrás dela, sentiu o perfume do xampu, e tentou imaginar como seus sentidos haviam se tornado tão apurados. O calor do corpo dela parecia tocar-lhe a pele, e subitamente ficou consciente do roupão fino e do pijama que usava. Queria vê-la, não por curiosidade, mas para que ela confiasse nela o suficiente para deixar que se aproximasse. Tudo que conhecia de Brittany era a imagem que vira nas fotos, tiradas quatro anos antes.
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