A Beira Da Loucura

5 Surpresas e outros afins


Despertei com umas batidas insistentes na porta, me levantei e dei de cara com um Adair de calça de moletom, tênis de corrida e uma blusa branca sem manga.

– Que droga que você está fazendo aqui ? – Olhei no meu relógio e ainda era quatro e meia da manhã.

– Você disse que queria correr comigo então eu vim te acordar. – Eu e minha boca grande. – Você andou chorando ?

– Não. – Fiz minha melhor cara de obvio que não – sou uma ótima atriz Meryl Streep que se segure.

– E por que seus olhos estão inchados e vermelhos ? – Talvez nem tão ótima assim...

– Você faz muita pergunta e isso é chato. – O feitiço virando contra o feiticeiro.

– Ok, você vai correr ou não ?

– Vou, só espera eu me trocar.

Vesti a primeira roupa que eu achei confortável na mala para correr e coloquei meu velho – e querido – all star, já que eu não havia levado nenhum tênis a não ser aquele. Sai do quarto e ele ainda estava parado no mesmo lugar de antes olhando fixamente para a porta e eu o empurrei de leve para tira-lo daquele “transe”, fomos aquecendo até a porta de saída para o pátio – esse pátio mais parece um parque botânico cheio de arvores, flores, bancos e essas coisas que tem em parques botânicos e também é enorme –, quando eu olhei para frente Adair estava correndo mais que o Usain Bolt, demorei longos minutos para alcança-lo. Corremos durante uma hora e meia e Adair não parecia muito cansado ele estava com a respiração um pouco ofegante e algumas gotículas de suor na testa, enquanto eu só faltava me atirar no chão e ofegar pela ambulância – porque nem força para gritar eu tinha –, mas também Adair já participou de maratonas isso não deve ser nada para ele. Tomamos café da manhã juntos e depois ele sumiu, fui no horário de sempre em seu dormitório mas ele não estava lá, fiquei o resto do dia no meu quarto escrevendo alguns parágrafos do livro e depois resolvi me deitar, quando estava sentindo a dormência dominar meu corpo e minha mente relaxar ouço batidas insistentes na porta.

– O que você está fazendo aqui ? – Ótimo, segunda vez no dia que o Adair atrapalha meu sono.

– Eu não estava no meu quarto hoje porque minha mãe veio me visitar. – Assenti e esperei que aquele não fosse o único motivo dele ter atrapalhado meu sono NOVAMENTE. – E eu vim trazer uma cópia do CD de Belle and Sebastian e um livro. – Falou ele tirando a mão de trás das costas e me estendendo uma sacola azul.

– Eu não acredito, obrigada ! – Eu estava realmente surpresa – e com um sorriso idiota no rosto – então não consegui dizer coisas mais inteligentes.

– O livro não é para você, eu quero que você me devolva quando terminar.

– Ok. – Disse ainda sorrindo.

– Boa noite.

– Boa noite e obrigada de novo. – Dei um beijo em seu rosto e fechei a porta rapidamente sem ao menos esperar a reação dele.

Eu resolvi que me empenharia em ler o livro que ele me emprestou, o nome era “Sanidade ou Loucura?”, pelo que li até aqui o livro conta a história de uma jovem chamada Lucy, ela mora no Canadá, sofre de doenças mentais e atualmente vivia em um hospício, até agora não vi nada de especial nessa tal Lucy, ela era apenas mais uma louca que vivia num hospício e tentava enfrentar seus problemas, nada de muito intrigante.

Abri os olhos e vi pela janela que já fazia um fraco sol lá fora e resolvi me levantar, fiz minha trilha diária para o refeitório, olhei em volta e não avistei o Adair então resolvi sentar na mesa do lado da janela. Comia lentamente minha salada de fruta quando senti mãos geladas em meu ombro, o que causou um rápido estremecer no meu corpo.

– Está gostando do livro ?

– Bom dia Adair, até agora o título está mais interessante que a história.

– Então isso indica que você ainda não terminou de ler.

– Adair você me entregou o livro ontem à noite e ele tem quase quinhentas páginas e eu ainda não adquiri o super poder do Flash, ok ?!

– Para uma escritora você é muito devagar ! Mas tudo bem eu vou esperar. – Eu o olhei furiosamente e esperei que um raio saísse dos meus olhos para que ele tostasse a cara do Adair, mas simplesmente não aconteceu nada, o que é uma pena. Dei um sorriso forçado em sua direção e me levantei para ir pro meu dormitório.

Depois do momento no refeitório eu criei uma certa obsessão em terminar de ler aquele livro, li a tarde inteira até dar a hora de visitar o Adair. O livro estava começando a ficar de um certo modo legal, a vida de Lucy era mesmo um verdadeiro inferno e ela contava com a ajuda dos seus melhores amigos Nicolas e Mandy – eu tenho quase certeza que o Nicolas tem uma paixonite pela Lucy – para suportar o hospício. A minha visita ao Adair foi normal, ele me perguntou mais uma vez sobre o livro e eu queria bater a cabeça dele contra a quina da cama, já que ele é tão apressado por que me emprestou a droga do livro ?! Depois ficamos ouvindo música e conversando coisas sem relevância.

Acordei com uma tensão muscular tremenda e resolvi tomar um banho relaxante porém não muito longo senão eu perderia o café da manhã, encontrei o Adair no refeitório e nós nos sentamos juntos mas quase não trocamos nenhuma palavra. Após o tedioso café, resolvi continuar lendo o livro e eu simplesmente estava fascinada pelo mesmo, eu não sou nenhuma sádica que adora ver o sofrimento alheio até porque o livro não se resumi só no devasto sofrimento de Lucy como eu imaginava no começo, ele envolve tantas outras coisas e ainda tem o pequeno romance dela com o Nicolas – não que eu seja essas mulheres que adoram romances água com açúcar, é só que na história o pequeno romance se encaixou perfeitamente bem –, agora só faltavam quatro páginas para o final mas já estava no horário de visitar Adair. Bati em sua porta e escutei um grito abafado pela porta dizendo “entra”, ao entrar vi Adair organizando sua pilha de livros e uma densa camada de poeira se instalava no quarto.

– Não tinha pior hora para minha visita. – Falei espirrando.

– Por que ? Sinceramente esperava que você fosse me ajudar com todos esses livros, mas se não quiser pode ficar sentada na cama enquanto eu termino.

– Não é isso, é só que eu tenho um sério problema com pó. – Falei espirrando várias vezes seguidas. – Se você me arranjar uma camisa para eu colocar no nariz eu te ajudo. – Ele pegou uma camisa e se aproximou de mim amarrando ela em volta do meu nariz como se eu não tivesse minhas próprias mãos para fazer tal ato.

– Mãos à obra. – Disse ele se afastando e eu ainda estava meia inebriada pelo ótimo cheiro que exalava da camisa e ia de encontro as minhas narinas.

Começamos pelo os livros mais grossos e ele tinha muito deles, na verdade sua coleção era extensa e magnifica, me senti um pouco envergonhada por não ter nem metade dos livros que ele tinha ali, como uma escritora pode ser tão pobre em leitura ?!

– Talvez eu possa te emprestar algum deles, mas escute bem o “talvez” e não crie expectativas. – Se tem uma coisa que eu aprendi nesses meses aqui é: nunca criar expectativas com o Adair.

Terminamos de arrumar os livros e eu me atirei em sua cama, ele me olhou e fez o mesmo, estávamos ali deitados com os nossos braços roçando um no outro enquanto uma música parcialmente lenta tocava e mais uma vez eu não fazia a mínima ideia de quem estava cantando e nem de que música era, virei meu rosto para o lado e só ai que eu notei que Adair estava me observando, seu rosto agora estava tão perto do meu que pude perceber uma pequena pinta no canto de seus lábios que eu não havia visto antes e por algum motivo meus olhos estavam vidrados nos seus lábios como se tivesse um imã ali, eu por alguns segundos desejei aqueles lábios no meu, mas fui despertada por Adair se levantando, pegando dois livros e os estendendo em minha direção. Eu estava meio decepcionada por ele ter se afastado e ao mesmo tempo surpresa/feliz por ele ter me entregado seus tão valiosos livros, mas procurei não demonstrar nenhuma emoção.

– Esses aqui são livros que eu li a anos atrás e eles são importantes para mim, cuide deles como se estivesse cuidando de sua vida. Eles são antigos porém estão bem cuidados e espero que eles voltem assim.

– Ok. – Falei com um pouco de receio pois o tom dele havia sido um pouco ameaçador, apertei os livros em minhas mãos e me retirei. Esses livros não sabem a sorte que tens pois ninguém nunca foi ou será tão importante na vida de Adair quanto eles são. Talvez eu inveje-os.