A Beautiful Lie
18 Capítulo dezoito:The Story
Notas iniciais
explicações na nota final, enjoy :*
Mell acordou quando o sol já não podia mais ser ignorado, espreguiçou-se e massageou brevemente as costas. Então começou a acariciar meu rosto suavemente.
- Você não dormiu? — Peguntou, franzindo o cenho.
- Não. — Respondi com sinceridade.
- Não precisa se sentir culpado. — Mellanie falou, enquanto sua expressão se tornava preocupada.
- Claro que preciso. — Suspirei enquanto tentava prosseguir com o raciocínio — Eu machuquei você. — Dei uma certa entonação na última palavra e afaguei o braço dela
por impulso.
- Já te desculpei por isso. — Mell parecia impaciente — Foi sem querer. — Uma pausa e então — Podemos mudar de assunto?
Fiz que sim com a cabeça e sentei na cama. Mellanie se aproximou e beijou meu rosto várias vezes, antes de encostar os lábios nos meus brevemente. Segurei seu rosto
com cuidado para aprofundar mais o gesto. Ela acariciou meu rosto e deixou o corpo enconstado no meu, levemente inclinado. O contato da sua pele com a minha era
muito bom. Depois que se afastou, Mell me avaliou durante um momento e mordeu os lábios, em dúvida. Sabia que ela estava tentando reprimir a vontade de arrumar
meu cabelo. Soltei uma risada leve, mas que foi interrompida pelo som do meu celular vibrando em cima da mesa de cabeceira. Respirei fundo antes de me esticar para
atendê-lo.
- Jared? — Essa era minha produtora, Megan.
- Diga.
- Será que tem como você vir para cá mais cedo?
Aprendi com muito custo que "mais cedo" significa "agora".
- Sério que você quer que eu vá agora? Ainda está clareando o dia.
Observei Mell ficar emburrada e entendia o porquê disso.
- Sim.
Suspirei, conformado com a idéia.
- Tá bom, chego em meia hora. — Mellanie me deu um tapinha e eu corrigi — Quer dizer, uma hora... Até eu tenho direito aos meus cinco minutos a mais na cama.
Ela riu e perguntou com o tom preocupado diário.
- A propósito, como foi o vôo?
- O de sempre. Agora pare de gastar o tempo que me sobra antes de enfrentar aquelas malucas...
- Ok, convecido.
Ri e desliguei. Já ia me desculpando.
- Desculpa, amor, mas eu tenho mesmo que ir. — Levantei da cama olhando o relógio de pulso. — Quando eu voltar, sou só seu.
- Não me iluda, eu sei que você vai chegar cansado.
Suspirei, enquanto trocava de blusa. Ela estava certa.
- Só não faz essa cara pra mim.
- Não estou fazendo nada. — Ela disse se aproximando e ajeitando minha roupa. Deixei ela me arrumar, sentindo-me como uma criança mimada, que não sabe fazer as
coisas sozinha. Ri mentalmente. Na realidade, eu gostava de ter a atenção dela, mesmo naquele gesto simples. Envolvi sua cintura com os braços e a beijei
sugestivamente. — Amor... É melhor você parar se não, não vai sair daqui tão cedo. — Ri e fiz sinal de inocência, indo pro banheiro. Escovei meus dentes e lavei o
rosto, tentando livrar-me do sono pertinente, sem muito sucesso. Começei a pentear o cabelo, porém Mell me interrompeu e começou a arrumar pra mim. — Agora vai
embora... — Disse, empurrando-me em direção a porta.
- Está me expulsando? — Ergui uma sobrancelha enquanto a deixava me levar.
- Sim. — Respondeu rindo, então me soltou e envolveu minha nuca com os braços. Mellanie ficou na ponta dos pés para eu não ter que abaixar a cabeça. Mordi os lábios
dela, como eu gostava de fazer.
- Te amo, tá bom? — disse, esperando que ela ficasse menos irritada com a minha saída.
- Eu também te amo. — Mell respondeu sem hesitação e encostou os lábios nos meus brevemente antes de me soltar.
Cheguei no local onde seria feito o show, na noite seguinte, e fui direto pro Camarim, com alguma pressa. Megan estava a minha espera do lado de dentro, com uma
prancheta nas mãos e uma mulher em seu lado. Como sempre, Meg estava debruçada sobre as folhas, com os óculos de abas gossas quase caindo. Quando me viu, não
fez questão de se arrumar, apenas sorriu e abraçou-me brevemente.
- Jared, essa é a Lindsey. — Apertei rapidamente a mão da jovem e retibuí seu sorriso amistoso.
- Prazer Lindsey. Enfim, Megan, pra que me chamou a essa hora da manhã?
- Uma aposta. — Ergui uma sobrancelha e ela me fez sentar em uma cadeira que ficava de frente para o espelho — Na verdade, eu perdi uma aposta, e agora seu cabelo
vai ficar rosa.
- O que? — Perguntei, incrédulo — Não acredito nisso.
- Você pode me matar mais tarde, agora eu tenho que trabalhar.
Com isso ela saiu da sala, deixando-me a sós com a cabeleireira. Fiquei feliz pois ela trabalhava em silêncio, ou era tímida demais para se manifestar. Fechei os olhos
e apoiei o rosto em uma das mãos. Acabei dormindo, pois havia passado a noite passada inteira em claro.
Acordei algum tempo depois, sentindo uma mão em meu ombro.
- Está pronto. — Falou Lindsey em tom de expectativas. Ela devia estar pensando que eu ia comentar alguma coisa.
- Obrigado. — Foi a única coisa que disse depois de fitar-me brevemente. Só conseguia pensar no que a Mell iria falar a respeito daquilo.
Depois de escolher cautelosamente o repertório e sua ordem, verificar alguns assunto técnicos, finalmente estava livre pra ir embora. Já era de noite e tudo que eu
mais queria era chegar no hotel. Mesmo com os olhos cansados e a pressa, obriguei-me a dirigir com cautela. Quando finalmente cheguei na recepção, dei as chaves
do carro para o primeiro funcionário que vi e fui em direção ao elevador, arrancando olhares descrentes de algumas pessoas, que não se preocupavam em olhar
descaradamente para o meu cabelo e fazerem comentários entre si bem em minha frente. Ignorei e continuei meu caminho.
Abri a porta silenciosamente e fui em direção ao quarto. Mellanie estava deitada, lendo um livro.
- Meu Deus...
- Calma, eu posso explicar. — Já fui logo dizendo, enquanto ela olhava meu cabelo rosa.
Mell revirou os olhos e fez sinal dizendo que o assunto havia acabado ali.
- Vem cá. — Disse esticando os braços pra mim. Fui até lá, deitando em seu lado. Ela me abraçou e me senti tão bem de repente.
Mellanie;
Realmente não sabia o que pensar a respeito do cabelo dele. Só tinha certeza de que ele era lindo, e ficava lindo de qualquer jeito, por isso, resolvi ignorar o assunto
temporiariamente. Ele estava cansado, e mesmo assim fez um esforço.
- Quer sair pra comer alguma coisa?
Fiz que não com a cabeça e peguei uma garrafa de refrigerante que eu havia deixado ao lado da cama. O gesto me fez lembrar de muito tempo atrás, e deixei minha
mente vagar naquelas histórias.
- Bom dia. — Disse Jared, quando me aproximei.
Mantive a cabeça baixa, deixando a franja cobrir meus olhos.
- Bom dia. — Repeti, com a voz baixa e trêmula.
Jay suspioru, segurou-me pelo braço e tirou cuidadosamente o cabelo do meu rosto.
- Eu vou matar ele. — Ele disse simplesmente, enquanto percebia uma mancha vermelha, que fora cuidadosamente tampada com maquiagem.
- Não! — Pedi quase chorando — Vai piorar as coisas para mim. Por favor, Jared...
Ele assentiu e passou um braço protetor por cima dos meus ombros.
Fomos caminhando, até chegarmos em um ponto de ônibus deserto.
- Que horas são? — Ele perguntou, bocejando.
- Cedo demais. — Lamentei, abraçando um braço dele, tentando me proteger do frio intenso.
Após uma longa espera, finalmente o ônibus escolar deu as caras. Entramos relutantemente e nos sentamos nos bancos que ficavam no fundo do ônibus.
- E ai, cara. — Cumprimentou John, um menino musculoso do time de futebol. Jared apertou a mão dele rapidamente. Os dois conversavam, porém, eu não queria ouvir.
Virei o rosto para o lado da janela, deixando o vento gelado bater no meu rosto, causando leves calafrios. Jay pegou uma mecha do meu cabelo e a enrolou, apenas para
vê-la se desenrolar e voltar para a mesma posição denovo. Era uma espécie de mania viciosa que ele tinha.
- Mell? — Jay ergueu uma sombrancelha para mim.
- O que? — Respondi, com grande desinteresse.
- Então... Você vai? — Perguntou John, com um sorriso no canto dos lábios.
Jared me olhou, percebendo que eu não estava entendendo absolutamente nada.
- ...Na festa, na casa dele. — Continuou.
Fitei-o, brevemente, e resolvi responder a verdade.
- Não.
Conseguimos atravessar o portão da escola antes que o sinal batesse. A professora de Biologia, uma velha gorda e rabugenta, anunciou:
- Dêem as boas-vindas para nossa aluna nova, Anna.
Anna possuía os cabelos louros na altura dos ombros e olhos amendoados. Para o meu azar, ela sentou entre mim e meu melhor amigo. Suspirei, e ouvi Jared imitar o
movimento um segundo depois. Nenhum de nós dois a cumprimentou.
Chaveei a porta e entrei dentro de casa. Jared, já familiarizado com o lugar, se esparramou de costas no sofá. O sol estava batendo em cima dele, e como sempre, não
pude deixar de olhar para as mechas vermelhas que ele possuía nas pontas do cabelo. Tinha um efeito incrível na claridade. Fechei a cortina e sentei no braço do sofá.
- O que você queria me contar?
Jared levantou-se e segurou minhas duas mãos entre as suas.
- Eu vou me mudar. — Ele disse, com a voz quase sufocando.
- Eu escutei certo? — Tinha a frágil esperança de que fosse uma brincadeira.
- Sim. — Assentiu fracamente.
Já sentia as lágrimas nos olhos. Quase não consegui formular palavras.
- Q-quando?
- Um mês.
Não consegui impedir os soluços. Jay me abraçou, cheio de incertezas. Porém, aquilo só dificultou tudo pra mim. Pensar que ficaria sem aquele abraço. Ouvi o barulho
familiar do tilintar das chaves e, quando a porta foi aberta não precisei olhar para saber que era minha mãe.
- O que houve? — Ela perguntou, passando a mão entre meus cabelos. Como a resposta do Jay não veio, ela apenas continuou me acariciando, até que minha respiração
se acalmou. Virei meu rosto para poder fitá-los. Jared continuou com os braços à minha volta, e eu também continuei abraçando-o.
- Ele vai embora. — Consegui dizer com muita dificuldade.
- Filha, acho melhor vocês conversarem. — Mamãe disse naquele tom doce que só ela sabia fazer e caminhou em direção as escadas.
- Você não pode ir. — Disse, enquanto o olhava.
- Eu juro pra você, que fiz de tudo pra não ter que ir. — Ele ainda falava naquele tom sufocado.
Resolvi que estava na hora de mudar de assunto, e de aproveitar o tempo que ainda tinha com ele. Nas semanas seguintes apenas aproveitamos. Quase não íamos para a
escola. Eu vinha pensando em uma coisa, e aos poucos o pensamento virou uma certeza.
- Jared? — Chamei e ele ergueu os olhos incrivelmente azuis para me fitar. — Eu queria te perguntar uma coisa...
Jay desviou a atenção da televisão e passou a se concentrar em mim.
- Pergunte.
Senti um calor no rosto. Sabia que estava incrivelmente vermelha. Fixei meu olhar no chão, desconcertada.
- Eu estava pensando... Só falta uma semana pra você se mudar. — Entristeci ao pensar naquilo, porém mantive a expressão inalterada com algum esforço — E sabe, eu
decidi que quero perder a virgindidade com você.
Ele franziu a testa.
- Comigo...? — Parecia surpreso.
- É. Sabe, você é meu melhor amigo, e eu queria que fosse com alguém que eu gostasse de verdade.
- Você sabe que eu também não sou muito experiente nesse assunto...
- Você quer dizer, experiência zero?
Nunca realmente nos importamos com aquilo, porém, de repente parecia um absurdo não saber. Ele assentiu brevemente.
- É.
- Não me importo. — Dei de ombros levemente.
- Sério?
- Aham. — Ouvi o barulho de um carro, que inconfundivelmente era do meu pai e acrescentei rapidamente. — Amanhã, tá bom? Agora vai — Comecei a puxá-lo do sofá.
- Não. — Ele parou de andar — Você acha que eu vou te deixar sozinha com esse psicopata?
- Jared, vai... — Pedi — Vai ser pior. Ele vai me bater na sua frente. Por favor...
Ele suspirou, beijou meu rosto brevemente e caminhou até a porta dos fundos. Corri escada à cima e me tranquei no meu quarto, passando todas as trincas e cadeados
possíveis. Peguei o celular, colocando os fones e ligando a música no volume máximo. Quase não conseguia ouvir minha mãe gritando no outro cômodo. Eu havia
prometido à ela que não mais me intrometeria, e iria cumprir a promessa, por pior que fosse ouví-la apanhar sem poder fazer nada.
Quando abri os olhos novamente, já era dia. Verifiquei o relógio. Tomei um banho quente e relaxante e preparei-me para ir para a escola. Abri a porta cuidadosamente,
porém, o cuidado fora desnecessário, pois meu pai já não estava mais em casa.
Antes mesmo de ver o Jay do outro lado da rua eu já estava nervosa. As mãos suando frio.
- Tudo bem? — Ele perguntou, já procurando alguma marca no meu rosto.
- Tudo. — Respirei fundo silenciosamente e dei a mão pra ele.
Fomos andando em silêncio até o ponto. Foi Jared quem quebrou a pausa desconfortante.
- Mell... — Ele esperou eu olhá-lo para continuar — Olha, se isso que você quer fazer vai estragar a nossa amizade, então é melhor não fazermos.
- Não é nada disso. Só estou nervosa. — Confessei.
Ele abriu aquele sorriso fácil, que eu sempre gostei.
- Não precisa ficar. Eu sou seu amigo, lembra?
Nesse momento eu o abraçei. Apesar de tudo, tinha uma confiança cega nele.
- Nunca esqueci. — Me afastei e esperei impacientemente o ônibus da escola chegar.
Novamente a Anna sentou entre mim e ele. Aquela mania já estava me irritando. Percebi que ela olhava-o discretamente a aula inteira.
- Não gostei dela. — Suspirei, quando estávamos trocando de sala.
- Acho que ela foi enviada para atrapalhar nossa conversa durante as aulas. — Jared comentou e revirou os olhos.
- Ela não parou de olhar pra você um segundo.
- É? Pena que vou me mudar daqui a cinco dias... — Dei um tapa no braço do Jay e ele riu. — É brincadeira.
O resto das aulas passaram incrivelmente devagar, como se quisessem zombar de mim.
Quando finalmente chegamos no bairro, já era finalzinho de tarde e estava um clima agradável.
- Jay, acho que mudei de idéia sobre ir na festa que o John vai dar.
- Porque?
- Escuta, quero aproveitar o tempo que ainda tenho com você.
- Tudo bem, então. — Ele parou na frente da porta da minha casa e ficou me olhando. — Eu já volto. Preciso fazer algumas coisas em casa, me dá dez minutos.
Fiquei grata por ter um tempo sozinha antes daquele momento tão aguardado. Entrei em casa e certifiquei-me de que estava vazia. Subi as escadas e tomei um banho
rapidamente. Minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui repor as roupas. Bem a tempo, ouvi a campainha tocar. Antes de abrir a porta, respirei fundo.
Abri espaço para o Jay passar. Ele entrou rapidamente, e esperou enquanto eu fechava a porta e passava a trinca. Quando virei-me de frente o rosto dele já estava
incrivelmente próximo ao meu. Quando todas as nossas dúvidas se aquietaram, ele me beijou. Jared tinha os lábios suaves nos meus, o que, de alguma maneira
me fez sentir-me especial. Afaguei o rosto dele e o deixei me guiar até o sofá ali perto. Ele sentou antes, sem desgrudar sua boca da minha e em seguida me puxou com
cuidado para o seu colo. Tive que abrir meus olhos para conseguir tirar sua camisa, pois minhas mãos ainda tremiam muito. Afastei o rosto do dele, com falta de ar. Jay
começou a beijar meu pescoço enquanto tirava minha calça com alguma dificuldade. Segurei uma mão dele e comecei a puxá-lo para fora do sofá.
- Aqui não... — Consegui dizer depois que ele levantou uma sombrancelha alinhada para mim.
Enquanto subia as escadas facilitei para ele, tirando minha própria blusa. Consegui abrir a porta do meu quarto depois de algumas tentativas. Abri o ziper da calça dele
e a puxei para baixo. Ele mesmo se livrou dela logo depois e me deitou na cama, apertando minha coxa com um desejo evidente. O corpo do Jared já estava entre as
minhas pernas. Ele se inclinou, ficando próximo do meu rosto e me olhou brevemente, como se perguntasse se podia continuar. Fiz que sim com a cabeça e seus lábios
roçaram rapidamente nos meus, antes de eu sentir uma dor e prazer agudos. Automaticamente agarrei sua nuca com força. A outra mão mantive nas suas costas,
arranhei sua pele clara e fechei os olhos, relaxando completamente. O ritmo estava perfeito e depois de alguns minutos, a dor sumiu, e tudo que sentia era prazer.
Durante um bom tempo só conseguia escutar à ele e a mim mesma. Até que contraí minhas pernas ao redor de sua cintura e curvei a cabeça para trás, nós dois chegamos ao
ponto máximo do prazer. Jay saiu de cima de mim, deixando um braço ao redor dos meus ombros. Respirava com dificuldade, assim como eu. Apoei meu queixo em seu
peito para poder fitá-lo. Não resisti à tentação de arrumar o cabelo dele, que grudava na testa com o suor. Jared ficou me observando enquanto o fazia. Quando sua
respiração se acalmou ele perguntou:
- Foi bom pra você?
- Tá brincando? — Franzi o cenho. — A melhor sensação da minha vida.
Ele sorriu. Parecia feliz em me ver feliz. Depois de tudo aquilo, ele era meu melhor amigo, afinal. Senti uma vontade enorme de beijá-lo e não me reprimi. Porém, aquele
beijo foi diferente. Ou eu estava imaginando coisas.
Aconcheguei meu rosto no pescoço quente dele e fechei os olhos. Jared ficou afagando minhas costas até que eu dormi.
Quando abri os olhos novamente Jay ainda estava na mesma posição, com a respiração suave. Pela primeira vez reparei que ele era muito lindo. Afastei o pensamento
e me levantei cuidadosa e silenciosamente para não acordá-lo. Coloquei minhas roupa e desci a escada. Meu estômago roncou. Fiz uma careta e caminhei até a cozinha.
Vasculhei os armários em busca de alguma coisa de meu agrado. Abafei um grito com as mãos, quando achei o último pacote de cookies. Quase sorri quando vi uma
garrafa de refrigerante na geladeira. Peguei tudo e fui pra sala, ligando a televisão no canal de filmes. Jared apareceu uns minutos depois, ainda sem camisa e com o
cabelo completamente desalinhado. Ele se sentou do meu lado, esfregando os olhos. Passei a garrafa, ele a pegou e bebeu no próprio gargalo. Não tínhamos aquela
paranóia anti-higiênica.
Por hábito, passei a mão entre os cabelos dele para arrumá-los.
- Nossa, fui eu que fiz isso? — Perguntou depois de um tempo, referindo-se a uma mancha exageradamente vermelha no meu pescoço.
- Não. — Falei em tom sério — Foi aquele do time de futebol.
Ele arregalou os olhos e eu comecei a rir, ele me acompanhou logo depois, percebendo que era brincadeira.
Quando ouvi o barulho das chaves já era tarde demais. Segui o olhar do Jay até porta, para fitar meu pai, com a expressão irritada. Nós dois nos levantamos rapidamente.
Já estava prestes a me postar entre os dois, porém, dessa vez Jared segurou meu pulso com força e me fez ficar atrás dele.
Meu pai chavama-se Nollan, e ele tinha sérios distúrbios mentais, para não dizer pior. Ele nos observou por um instante e logo percebeu o que se passava ali.
- Eu sabia! — Ele gritou, fazendo-me estremecer — Sabia que você e esse aí tinham alguma coisa. — Jay se manteve em silêncio, apenas olhando-o. — Mas tenho que
admitir... — Continuou após uma breve pausa — Nunca imaginei que você fosse tão burra à ponto de transar com alguém... Dentro da MINHA CASA!
Ele caminhou furiosamente na nossa direção. Jared ergueu um pouco o rosto para poder fitar nos olhos o homem que era um pouco mais alto que ele. Por um breve
momento achei que Nollan fosse bater nele, porém os dois apenas se encararam.
- Você precisa de tratamento. — Falou Jay em um tom sem emoção alguma, o que me assustou um pouco.
Não havia percebido quando, mas o estava abraçando. Nollan riu daquele jeito perverso, deu uma última olhada em nós e saiu do mesmo modo que entrara:
furioso. Suspirei profundamente.
- Não precisava ter feito isso. — Disse, mas na verdade, sentia-me grata por tê-lo ali.
Ele piscou algumas vezes antes de responder.
- Claro que precisava.
Suspirei, antes de admitir a derrota.
- Nem sei como agradecer por tudo que você faz por mim. Se formos anotar já te devo umas sete vidas.
Ele riu e eu o acompanhei.
- Nunca pediria nada em troca. Ah não ser... — Jared fez cara de desentendido — Aquele brigadeiro ótimo que você faz.
Sorri demoradamente.
- Tá bom, tá bom, mas vai por uma blusa. Não quero que ninguém mais fique imaginando coisas.
- Nollan imaginou certo. — Jay riu, dei um tapinha no braço dele e fui até a cozinha, com as bochechas coradas.
Enquanto os dias passavam, ia me sentindo cada vez mais triste. Tudo em que conseguia pensar era que o Jared iria se mudar em dois dias e em como ia viver sem
tê-lo por perto. Estava sozinha em casa, e já era noite, quando a campainha tocou umas três vezes seguidas. Levantei rapidamente e observei o Jay pelo olho mágico.
Ele parecia... Diferente. Algo me dizia isso. Abri espaço pra ele passar, e no mesmo instante ele colou a boca na minha, enquanto agarrava meu corpo.
- Jared, para... — Falei desgrudando sua boca da minha. Segurei o rosto dele com a duas mãos, e percebi, incrédula que o cabelo dele estava curto e desalinhado, como
se alguém o houvesse cortado com uma faca ou algo do tipo. Mesmo assim tinha ficado incrivelmente atrativo. Após alguns segundos de contato com a sua pele, percebi
que ele estava febril — Que houve com você? — Jay respirava com dificuldade, e quando ameaçou desmaiar eu o segurei com o máximo de força que consegui reunir e o
encaminhei até o sofá. — Ei, olha pra mim. — Ele ergueu aqueles olhos lindos que possuía para me fitar. — Fala pra mim o que aconteceu...
- Me abraça — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer e eu não pude fazer outra coisa se não o que ele pedira. Jared parecia extremamente vulnerável hoje. Essa
perspectiva me amedrontava. Nunca o tinha visto dessa maneira. Ele encostou o rosto no meu pescoço e me abraçou pela cintura. Envolvi as costas dele com os braços
e fiquei alisando ali, até ele se acalmar.
- Jay — Chamei com medo — Vou pegar remédio, você está muito quente.
Fiz menção de levantar, porém ele me segurou.
- Não quero remédio. Só fica aqui, por favor...
Deixei algumas lágrimas cairem.
- Você está se drogando. — Era uma afirmação. — Não posso, nem vou deixar você acabar com a sua vida desse jeito. — Me levantei rapidamente e peguei o primeiro
remédio pra febre que encontrei, assim como um copo de água gelada. Entreguei tudo para ele, porém, Jay negou com a cabeça. — Escuta — Me sentei do lado dele — Deixa
eu cuidar de você. Nunca te faria mal, você sabe. Eu te amo, acredita em mim?
Ele ficou alguns momentos apenas parado me olhando, então, em seguida pegou o copo e o remédio e o tomou. Depois disso Jared dormiu abraçando meu corpo, porém,
não repeti o gesto, pois estava preocupada demais com ele.
Quase gritei de susto quando vi uma pessoa entrando pela porta, ainda aberta, da sala. Porém, era apenas o Shannon. Ele era tão lindo quanto o Jay e possuía olhos
claros, que eram verdadeiros enigmas para mim. Nunca saberia dizer qual era sua cor literal. Reconheci alguns traços do Jared naquele rosto. Repremi o impuslo de
arrumar o cabelo dele, pois uma mecha insistente cismava de cair sobre seu rosto. Shannon possuía uma expressão irritada e preocupada e lá no fundo eu percebi
cansaço. Ele se aproximou de nós e puxou Jay pela gola da camisa, fazendo-o acordar.
Me levantei também, sem saber o que dizer.
- Obrigado — Disse o mais velho dos irmãos. Ergui uma sobrancelha sem entender e ele continuou — Por cuidar dele.
Assenti timidamente e forçei um sorriso. Ele virou as costas e continuou puxando Jared, só que pelo braço agora.
- Shannon? — Chamei e me arrependi logo depois, porém, resolvi continuar — Posso ir com você?
Na verdade eu queria ir apenas para ter a ceteza de que o Jay ficaria bem. Ele me avaliou durante um momento e fez um gesto com a mão para que eu o seguisse.
Peguei meu casaco e corrri até eles. Jared pediu uma mão minha e eu a concedi de boa vontade. A casa deles ficava bem em frente à minha, porém, eu nunca havia
entrado lá. Só agora me perguntei o porquê disso. Afastei o pensamento e observei Shannon abrir a porta. Percebi que estava destrancada, como se soubessem que
os filhos chegariam em breve. Constance, uma mulher loira, esbelta e com bonitos olhos azuis, deu um abraço nos dois, deixando algumas lágrimas caírem.
- Jared, você quer me matar do coração? Onde diabos você estava? — Jay não respondeu, então ela passou a olhar interrogtivamente para o mais velho dos dois.
- Na casa dela. — Ele disse sem mais delongas e me fitou brevemente.
Constance abriu um sorriso largo. Ela me conhecia, e sabia que eu era tão preocupada quanto qualquer mãe, principalmente quando se tratava do Jared. A mulher me
abraçou durante um bom tempo.
- Obrigada, querida.
- Não tem o que agradecer. — Respondi com sinceridade.
- Jay, quero falar com você. — Falou Shannon, e o levou até o lado de fora da casa.
- Você não quer jantar conosco? — Fiz uma cara de indecisão e ela insistiu — Não precisa ficar com vergonha.
Corei levemente e assenti algumas vezes. Ela indicou uma poltrona no centro da sala e foi até a cozinha. Shannon e Jared voltaram alguns segundos depois. Jay, com os
braços cruzados e emburrado, provavelmente por ter levado uma bronca do irmão. Jared sentou em meu lado, encostando levemente o rosto no meu ombro. Passei a
mão, entre os cabelos, agora curtos dele, para ajeitá-los.
Enquanto o fazia, fiquei observando Shannon. Minha visão de que ele estava profundamente cansado se confirmou. Os olhos dele não conseguiam focar na televisão, e
após aluns segundos de resistência, ele desistiu e fechou-os, apoiando a cabeça no encosto do sofá.
Se as vezes pensava que o Jared era excessivamente carente, podia dizer que seu irmão tinha o dobro desse sentimento, só de olhá-lo. Ele era aquele tipo de pessoa
que não tinha nenhum grau de amizade com ninguém. Talvez nem com a própria mãe. Percebi chateada que ele tinha amadurecido muito rápido, e as responsabilidades
passaram a sobrecarregá-lo de uma maneira injusta.
Senti a louca vontade de abraçá-lo, porém me reprimi mentalmente. Resolvi não pensar mais sobre aquele assunto.
- Jay?
- Hm? — Ele grunhiu distraído.
- O que aconteceu com o seu cabelo? — Perguntei, erguendo uma sombrancelha.
- O que? Como assim "o que aconteceu?" — Parecia não entender nada. Peguei o pó de arroz que sempre levava no bolso interno daquele casaco e o abri. Do lado de
dentro tinha um espelho. Mostrei pra ele o próprio cabelo e Jay apenas chocou-se. — Eu... Não faço a mínima idéia.
Constance interrompeu-nos, enquanto trazia uma travessa quente de lasanha. O cheiro era incrível.
- Sentem-se. — Pediu enquanto servia os quatro pratos colocados sobre a mesa.
Shannon continuou parado do mesmo modo em que eu o havia visto minutos atrás. A loura se aproximou e alisou o rosto dele, ajeitando seu cabelo.
- Vem jantar, filho. — Ela disse suavemente, depois de acordá-lo.
Ele me fitou brevemente antes de se sentar. O jantar inteiro foi silencioso. Eu, particularmente, não tinha a mínima vontade de quebrar a pausa. Sentía-me melancólica,
e a visão de todos os objetos encaixotados não era muito animador.
"O Jay vai embora". Mais uma vez, meu subconsciente gritou, me alarmando tanto, que quase engasguei com a comida.
- Está tudo bem? — Perguntou Constance, para mim.
Fiz que sim com a cabeça, e percebi o olhar do Jared e do Shannon em mim, avaliando-me, como se fossem uma espécie rara de médicos. Ergui uma sombrancelha e os
dois voltaram a se concentrar no prato.
Todos me esperaram terminar, até que fui colocar o prato na pia da cozinha. Esbarrei com o Jay na porta e suspirei.
- Que foi?
- Eu vou pra casa. — Anunciei. Não estava com cabeça pra nada, mal conseguia pensar.
Ele assentiu compreensivamente e acrescentou:
- Quer que eu vá com você?
Como acontecia com frequência, não pensei muito sobre aquela proposta.
- Quero.
- Espera só um minuto.
Fui para a varanda da casa, sentindo-me sufocada. Quase gritei de pavor quando percebi o Shannon apoiado no muro baixo que dividia a casa do jardim. Ele riu
brevemente.
- Te assustei?
Me apoiei no mesmo local, ao lado dele.
- Você quase me matou de susto. — Confessei — Você gosta desse lugar?
Ele observou a rua por um instante, e então.
- Não.
- Porque? — Perguntei com a curiosidade evidente no tom.
- Porque eu só vou levar más recordações daqui.
Ele virou o rosto, e no movimento percebi um hematoma recente abaixo do pescoço dele, cuidadosamente escondido com a gola da camisa.
- Quem te fez isso? — Questionei, vendo um pouco de mim refletido nele. Shannon ergueu uma sobrancelha e eu toquei com cuidado o machucado.
- Talvez eu tenha esbarrado em algum lugar. — Disse simplesmente.
Fiquei de frente pra ele, abaixando um pouco mais sua blusa. Percebi, horrorizada, que o hematoma se estendia pelo peito inteiro dele. Quando estava prestes a saber
mais, ele segurou minha mão.
- Shannon... — Tentei, porém ele negou com a cabeça e se afastou.
Alguns segundos depois Jared apareceu e parou perto de mim.
- Vamos. — Disse e pegou minha mão, puxando-me.
Ofereci um pouco de resistência automaticamente, ainda olhando o ponto por onde Shannon havia desaparecido. Deixei o Jay me encaminhar até em casa. Queria
voltar e conversar com ele, porém, resolvi que seria melhor deixá-lo sozinho.
Abri os olhos percebendo que havia ficado algum tempo ausente, relembrando aqueles tempos.
- Amor, lembra quando nós éramos mais novos?
Jay ergueu os olhos para me fitar e sorriu.
- Lembro.
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