A Beautiful Lie

35 Capítulo trinta e cinco: Battle Of One


Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo ;**
A fanfic já fez um aninho awnnn *-*
Obrigada a todos que acompanham A Beautiful Lie... Todos mesmo.

Jared e Shannon me paparicaram de todas as formas possíveis, fazendo com que me sentisse uma meninha mimada de dez anos. De certa forma, gostava de ter a

atenção deles só pra mim. Acordei de manhã cedo. Os dois já haviam levantado, o que me deixou irritada, mais uma vez. Assim que coloquei os pés pra fora da cama, um

frio enorme me acometeu. Correndo, calçei outro par de meias. Fui encolhida até a sala, onde Jay e Shann pareciam empolgados, enquanto olhavam pela grande janela.

Aproximei-me devagar e me enfiei entre os dois. Abraçei Shannon, tentando me proteger do frio, o que ocasionou uma crise de ciúmes em Jared, que também passou a

me envolver.

- Tá nevando. — Comentou Jay com os olhos brilhando de empolgação.

Sorri ao observá-lo.

- E estamos perto do natal, não acha perfeito? — Replicou Shann, com uma felicidade incontível no tom.

- Ótimo. — Fiz uma voz zangada. — Agora saiam da janela, não quero nenhum dos dois doentes, quanto mais você, Jared. Acabou de se recuperar, não pode abusar.

- Só mais um pouquinho? — Insistiu com a voz manhosa.

Com muito esforço, segurei o riso.

- Agora.

Ele saiu batendo o pé, enquanto Shann e eu fechávamos a janela. Sentou-se no sofá, com os braços cruzados e ligou no canal de notícias.

- Estamos transmitindo ao vivo, da Holanda, onde um acidente envolvendo três carros e um ônibus matou quatro pessoas e deixou outras vinte e uma em caso grave. A

polícia está avaliando as câmeras de segurança, e daqui a pouco divulgarão o resultado, indicando qual foi a causa da batida.

A imagem foi cortada para um grupo de bombeiros, que corriam, arrastando uma mulher loira, com o rosto completo de fuligem até a ambulância mais próxima. Seus

olhos azuis se abriram, assustados, quando finalmente se deu conta do que havia acontecido, ao recobrar a consciência.

Engraçado, olhos tão azuis, parecidos com os do...

- Jared!

O telefone tocou. Atendí-o com as mãos trêmulas.

- Assitiu ao noticiário da manhã? — Perguntou Kennan, com uma voz distorcida, indecisa entre alegria e tristeza.

- Eu acabei de ver e... Meu Deus, Jared está em choque.

- Preste bastante atenção...

- Não posso, estou preocupa...

- Ele não vai morrer. Agora me escute! — Desviei os olhos da nuca de Jay e concentrei-os na janela, na neve que caía lá fora. — Se Constance resistir, pode pegar até vinte

anos de prisão, por tentativa de homícidio. Talvez fosse até melhor que não resistisse...

- Você ficou maluco!? — Gritei, me levantando — O que está querendo afirmar com isso, detetive? Se é o que estou pensando...

- Eu ainda não aprendi a ler mentes, Mellanie. Mas sugiro que não se preocupe com nada agora. Os médicos holandeses são muitos bons. E a polícia também. — Desligou.

Resisti ao impulso de quebrar alguma coisa e me ajoelhei, ao lado de Jared.

- Hey, amor... Olha pra mim. Olha pra mim — Insisti, enquanto ele parecia não me ouvir. Shannon ainda estava atento ao noticiário. — Por favor. — Pedi, segurando seu rosto.

Piscou lentamente e passou a me encarar. Beijei sua bochecha com carinho. Abraçei-o, afagando-lhe os cabelos. Lentamente envolveu minhas costas, encostando a face

em meu ombro.

- O que a gente vai fazer? — Questionou Shannon, de repente, parecendo muito assustado. Apenas por vê-lo daquele jeito, um pequeno pânico me invadiu. Ele era meu

porto seguro, e vê-lo daquela maneira me deixava igualmente nervosa.

- Não podemos fazer nada. Só desejar que ela fique bem.

- Não parece certo. — Sussurrou Jared, me puxando para seu colo, num abraço possessivo.

Respirei fundo e fiquei quieta. Shannon andava de um lado para o outro. O telefone tocou novamente, dessa vez Shann o atendeu, com pressa, ansioso por notícias. O

tempo parecia ter congelado naquele instante. Jared estava estranhamente quieto, ainda me apertando com força, enquanto Shannon, se encontrava imóvel, de costas para

nós. Ele falava tão baixo que não pude ouvir, com a respiração acelerada de Jay estalando próxima à meu ouvido. Ficou uns bons minutos de pé, em silêncio. Virou-se pra

nós com uma expressão indecifrável.

- O que houve? — Questionei cautelosamente.

- Megan foi presa e...

Percebi Jared erguer os olhos na direção do irmão.

- E...?

- E admitiu que ajudou Constance...

Fiquei sem palavras. No íntimo, esperava que Megan não tivesse nada a ver com aquilo. Percebi a mesma reação por parte de Jared, que me envolveu com mais força e

voltou a deitar o rosto em meu ombro. Shannon nos deu as costas e passou a observar a janela em profundo e inabalável silêncio. Respirava fundo de tempos em tempos,

como se, para absorver tudo aquilo, tivesse de fazê-lo.

Passaram-se vários minutos, talvez até uma hora inteira... A pausa estabelecida entre nós, apenas para pensar, parecia não ter funcionado. Ouvi o barulho de algo se

quebrando. Levei um susto enorme, tal que cheguei a pular com o som repentino. Percebi que Shannon havia dado um soco no vidro da janela. Este, quebrou-se em

pedaços grandes e pequenos, estilhaçando-se no chão como pequenas estrelas brilhantes. Porém, as estrelas foram manchadas por vermelho, fazendo com que

percebesse que sua mão sangrava. Ele não parecia ligar, pois continuava socando o vidro, até que os pedaços maiores estivessem em migalhas, assim como seu próprio

coração...

Não consegui pedir que parasse, tampouco Jared se manisfestou. Havia um entendimento mútuo entre nós. Shannon precisava daquilo, precisava descontar sua raiva, e

desabafar, não com palavras, e sim com gestos, tudo que sentia. Quando finalmente parou, escorregou até o chão, sentando-se com os joelhos dobrados e os pés

apoiados sobre o piso. Passou a mão pelos próprios cabelos, em sinal de desespero, e ali permaneceu, manchando o piso e as roupas com a própria angústia.

Esperei a reação de Jared, que veio alguns minutos depois. Soltou-me cautelosamente, como se estivesse com medo de desabar sem meu abraço, e caminhou devagar

até chegar no irmão, sem importar-se em desviar os pés nus dos cacos de vidro. Lado à lado, agora dividiam a angústia, tingida de vermelho, como verdadeiros irmãos

deveriam fazer. Com um olhar, pediram que fosse até eles. Não hesitei em fazê-lo, e percebi, que a dor de cortar os pés, não era nada, se comparada a vê-los naquele

estado deplorável.

- Vai ficar tudo bem...

E o meu último pensamento antes de adormecer foi. "Será?"

Quando abri os olhos novamente, ainda me encontrava no chão, dessa vez deitada. Shannon e Jared continuavam ali, adormecidos. Assim que tentei levantar, senti dor.

Tanto nas costas, quanto nos pés. Respirei fundo e consegui ir até o banheiro. Me deitei dentro do box, encolhida e deixei a água gelada percorrer meu corpo sem piedade,

lavando toda a angústia e todo o vermelho de meu corpo. Tentei chorar para livrar meu peito daquele peso enorme. Não consegui.

Saí dali, quando pensei que ia morrer de frio. Vesti roupas quentes, e tomei minha decisão.

Cheguei ao Hall do hotel, e caminhei lentamente em direção as luzes que se encontravam do lado de fora. Cheguei à calçada, sem saber qual rumo seguir. Mas e dai?

Para quem não sabe o caminho, qualquer direção serve, não é mesmo?

Fui para esquerda, com as mãos no bolso, e uma pequena fumaça branca saindo de minha boca.

- Mellanie! Onde você vai?

- Eu não sei...

Pude ouvir seus passos, enquanto se aproximava de mim.

- Por favor, eu preciso tanto de você agora...

Quando estava em minha frente, percebi seus olhos azuis brilhando com intensidade, sabia que estava prestes a chorar.

- Não se preocupe, não vou deixá-lo. Só queria dar uma volta.

Me abraçou com força.

- Promete que não sai mais sem avisar?

- Prometo, amor. — Afaguei seus cabelos suavemente e beijei-o no rosto. — Você está sangrando, vem, vamos subir.

Entrelaçei minha mão na dele e caminhamos de volta até o hotel.

- Shannon está bem?

- Só por fora... Ou talvez nem tanto. Mas ainda dorme.

- Está tremendo muito. Porque veio aqui fora descalço?

- Porque não tive tempo para pensar em me calçar. Fiquei com medo que fosse embora. É loucura demais.

Entramos no hall do hotel. Jared chamava muita atenção, tanto por sangrar, nas mãos e nos pés, quanto por estar descalço. Ou por ser lindo. Não saberia dizer, mas não

gostava que aquelas mulheres o olhassem.

Continuou tremendo até entrarmos dentro do quarto. Fiquei parada algum tempo, observando Shannon, que dormia tranquilamente, agora no sofá. Resolvi que não iria

acordá-lo, apesar da vontade que tinha de abraçá-lo e perguntar se estava bem.

Uma vontade súbita me acometeu. Envolvi Jared com força, num abraço necessitado e respirei fundo. Seu cheiro me invadiu, acalmando-me aos poucos. Beijei seu pescoço

antes de soltá-lo e peguei sua mão, guiando-o até o banheiro.

- Tome um banho. Não gosto de te ver sangrando. — Falei, encostando-me na pia.

Seus lábios tocaram os meus rapidamente, o que me fez perceber com quanto frio ele estava. Jay encostou a porta silenciosamente e tirou a blusa. Antes de desabotoar a

calça, passou a me fitar.

- Vem comigo?

- Pensei que não fosse pedir. — Respondi.

Consegui arrancar um sorriso seu, o que fez com que me sentisse mais tranquila. Sorri de volta e comecei a me despir. Ele deixou a banheira enchendo enquanto entrava

no box. Quando terminou de lavar os cortes, e estes pararam de sangrar, entrou na primeira. Fui logo em seguida, ouvindo-o suspirar, cansado, e se acomodar de maneira

confortável antes de insuar para que eu fosse. Ao terminar de prender o cabelo, entrei cuidadosamente, com medo de pisar em cima dele. Me deitei em seu lado,

acomodando o rosto em seu pescoço, enquanto seus braços me envolviam.

- Senti tanta falta disso... — Comentei, com os olhos fechados e uma calma assustadora.

- De quê?

- Desse momento. Apenas nós dois...

Beijou-me no cenho e apertou mais o abraço, fazendo com que me sentisse protegida.

- Eu também, meu amor. — Sussurrou contra meus cabelos.

Inconscientemente, fiz uma coisa que não fazia há muito. Comecei a brincar com o ossinho que ele tinha na curva do pescoço, que eu tanto gostava.

Jared apoiou o rosto no topo de minha cabeça e fechou os olhos. Fiquei em silêncio durante alguns minutos, até ter certeza de que já sonhava. Me mantive acordada só

para vê-lo dormir. Lindo e tranquilo. Afaguei seu rosto suavemente e beijei-o nos lábios, antes de fechar os olhos para aquela realidade insana.

E, entre seus braços eu soube, que tudo ia dar certo, finalmente.

Shannon;

Abri meus olhos, dando de cara com o teto branco e repleto de entalhes. Pensei que nunca mais olharia qualquer coisa com os mesmos olhos, depois de todo senso de

confiança ser arrancado de mim. A insegurança sempre me habitou, desde criança. O porquê de eu ter um pé atrás com todas as pessoas, poderia ser justificado pelo

pai alcoólatra e a mãe que sofria abusos. A pressão de ser o irmão mais velho, era sempre presente, e o meu papel era estar entre tudo isso, impedindo que algo pior

acontecesse. Havia perdido a conta de quantas vezes saíra machucado... Por fora e por dentro.

De tempos em tempos, observando Jared, tinha inveja dele. Ele nunca teve medo de dar a cara a tapas, e parecia saber lidar com qualquer situação à maneira dele. Fora

isso, ele tinha Mellanie. Não sabia como ele havia cativado a amizade dela. Para mim, Mellanie sempre fora uma pessoa boa demais e sensível demais para andar com ele.

Quer dizer... Eu nunca deixaria nada acontecer com ela, muito contrário do que Jared faz. Sempre que a via, estava com marcas roxas pelo corpo, e de alguma maneira,

aquilo me afetava. Talvez eu apenas me identificasse com sua realidade...

E como esquecer o dia em que jantou em nossa casa, parecia tão preocupada comigo, coisa que minha própria mãe deixava de lado.

Suspirei e fechei os olhos novamente.

- O que é!? — Questionou Jared, assim que estávamos do lado de fora da casa. Mellanie conversava algo com Constance na sala. Olhando meu irmão, sabia que havia se

drogado, denovo. — Me chamou pra jogar na minha cara, não é? Tão típico, Shannon...

- Imbecil. — Empurrei-o contra uma parede. — Nunca mais faça isso, entendeu!?

- E porque não!? Você acha que eu estou feliz com essa vida de merda que a gente tem!? — Gritou.

- Fala baixo. Não quero que nossa mãe escute isso... — Fiz uma pequena pausa, esperando que se acalmasse, o que não funcionou muito — Escuta... Eu sei que a

gente vai de mal à pior, mas estamos tentando melhorar... Eu estou tentando melhorar... Mas não posso fazer isso sem você, entendeu? — Ficou quieto, apenas me

observando. Insisti, sacudindo levemente seus ombros — Entendeu!?

- Eu entendi, Shannon... Podemos entrar, agora?

Assenti brevemente, deixando que ele fosse primeiro. Jared estava com uma expressão emburrada, por levar um sermão meu. Entramos na sala e ele se sentou ao lado

de Mellanie no sofá, encostando levemente o rosto em seu ombro. Ela passou a arrumar o cabelo dele, coisa que a via fazer muito, porém, seus olhos vieram em minha

direção. Apesar de olhar para a televisão, sabia que ela me fitava, pois sentia uma queimação incômoda na nuca. Quando virei-me, para me ajeitar no sofá, percebi que

ela parecia muito preocupada comigo... Ou eu estava ficando louco. Desisti de entender, pois estava cansado e acabei dormindo assim que fechei os olhos.

- Vem jantar, filho.

Enquanto caminhava em direção a mesa, olhei-a brevemente. Ela percebeu, mas não pareceu ligar muito. Não falou nada durante metade do jantar. Fitava a sala, com a

maior parte dos objetos encaixotados. Acabou engasgando-se levemente com a comida. Ergueu uma sobrancelha, tanto para mim, quanto para Jared, então voltamos a

nos concentrar em nossos pratos.

Esperamos que terminasse para levantarmos da mesa e, enquanto colocava meu prato na pia, pude ouvir a conversa entre meu irmão e ela.

- Que foi? — Perguntou Jared, após um suspiro por parte dela.

- Eu vou pra casa. — Anunciou.

- Quer que eu vá com você?

Como acontecia com frequência, não pensou muito à respeito.

- Quero.

Saí pela porta da cozinha e me apoiei no muro baixo que dividia o jardim e a casa. Mellanie apareceu alguns segundos depois, com os olhos arregalados, o que fez com

que eu risse brevemente.

- Te assustei?

Se apoiou em meu lado.

- Quase me matou de susto. — Confessou — Você gosta desse lugar?

Observei a rua por um instante, ainda um pouco surpreso com o rumo da conversa, coisa que não deixei transparecer nem por um segundo.

- Não.

- Porque? — Perguntou, curiosa.

- Porque só vou levar más recordações daqui.

Virei o rosto para o outro lado, sem querer encará-la.

- Quem te fez isso? — Questionou.

Sabia que se referia ao hematoma cuidadosamente escondido com a gola da camisa, porém, ergui as sobrancelhas, a fim de que ela me tocasse para se expressar melhor.

E foi o que fez. Seus dedos passearam suavemente sobre meu pescoço.

- Talvez eu tenha esbarrado em algum lugar. — Respondi, sem a intenção de dizer que meu "pai" havia tacado uma chave de fenda ali a poucos dias.

- Shannon...

Não tinha a intenção de deixá-la preocupada, por isso dei-lhe as costas, afastando-me. Pude ouvir Jared se aproximando.

- Vamos.

Percebi que Mellanie ofereceu resistência, mas acabou cedendo. Sorri suavemente antes de entrar em casa.

Abri os olhos, dando de cara com o teto novamente. Suspirei. Porque? Porque eu havia confiado tanto em Constance, e em Megan? Mellanie me mudou, respondi à mim mesmo. Ela parece saber que vai se decepcionar com as pessoas, mas mesmo assim confia nelas.

Levantei-me. Minhas mãos, apesar de doloridas, não sangravam mais. A janela estilhaçada ainda estava em pedaços no chão e não havia sinal de Jared ou Mellanie na casa. Minha guerra mental prosseguia, enquanto procurava ambos pelos cômodos. Perguntas e mais perguntas surgiam, e eu não era capaz de respondê-las.

Abri a porta do banheiro, encontrando os dois abraçados na banheira, dormindo.

É, parece que essa é uma luta em que vou ter que batalhar sozinho.