A Batida do coração 2

35 As Flores do Recomeço e a Promessa da Terra



​O sol de fim de tarde começava a se deitar sobre o horizonte de Santa Bárbara, tingindo o céu com nuances de violeta e ouro. O vento que vinha do mar trazia um frescor suave, balançando as copas das árvores antigas do cemitério municipal. Era uma calmaria quase sagrada.

​Rebekah Laurentis caminhava sozinha pelas alamedas de paralelepípedos. Ela vestia um vestido de crepe leve azul-marinho e trazia os cabelos negros enormes presos em uma trança lateral. Em suas mãos, não havia mais o peso do desespero ou o tremor do trauma de um ano atrás; apenas um buquê de pequenas flores do campo brancas e lavandas — as favoritas de Caio pela simplicidade e pelo perfume discreto.

​Seus passos desaceleraram quando ela avistou o jazigo da família Souza. A lápide de mármore claro estava limpa, refletindo os últimos raios de sol do dia. Em cima dela, a pequena rosa branca que Rebekah jogara no dia do enterro já não estava mais lá, mas a inscrição dourada com o nome de Caio continuava reluzindo, impecável.

​Rebekah parou bem diante do túmulo. Ela respirou fundo, deixando o ar puro encher os pulmões, e sentiu uma lágrima solitária deslizar fria pelo seu rosto. Mas não era uma lágrima de agonia; era o orvalho de uma saudade que havia aprendido a se acomodar no peito sem rasgar a alma.

​A Conversa com a Saudade

​Ela se ajoelhou lentamente na grama verde e aparada. Com delicadeza, depositou o buquê de flores exatamente sobre a pedra, ajeitando as pétalas com as pontas dos dedos. Ela apoiou a palma da mão esquerda sobre o mármore quente pelo sol e fechou os olhos por alguns segundos, deixando-se levar pelo fluxo das memórias.

​— Oi, meu príncipe... — Rebekah sussurrou, a voz saindo mansa, quase sumindo no murmúrio do vento nas folhas. — Faz um tempinho que eu não vinha aqui sozinha para conversar com você. As coisas estiveram tão corridas no Rio. O desfile... ah, Caio, o desfile foi a coisa mais linda que eu já fiz. Você viu lá de cima, não viu? O Tio Guga tocou o seu baixo. O Palácio de Cristal inteiro chorou com o seu sorriso no telão. Eu fiz cada costura pensando em você.

​Ela abriu os olhos azuis, fixando-os nas letras com o nome dele. Um sorriso terno, nostálgico, iluminou suas feições enquanto um flashback rápido passava por sua mente: a lembrança de Caio correndo atrás dela na chuva no calçadão de Santa Bárbara, rindo alto com o cabelo ensopado, apenas para cobri-la com seu casaco e dizer que ela era o seu porto seguro.

​— Eu nunca vou esquecer tudo o que a gente viveu, Caio — ela continuou, a voz embargada pela emoção, mas mantendo a firmeza de quem havia encontrado a cura. — Você foi o amor da minha juventude. O homem que me pegou pela mão quando eu era só uma menina cheia de medos e me ensinou o que era ser amada de verdade. Dez anos da minha vida pertencem a você, e isso nem o tempo, nem a morte, nem nada nesse universo vai conseguir apagar. Eu te amei incondicionalmente, com cada batida do meu coração. E uma parte de mim vai ser sua para sempre.

​A Confissão e a Bênção Silenciosa

​Rebekah fez uma pausa, engolindo em seco. O momento mais difícil daquela visita havia chegado, a verdade que ela precisava partilhar com o único homem que guardara os seus segredos por tanto tempo. Ela acariciou a borda do mármore, buscando forças na terra.

​— Mas a vida... a vida continuou, meu amor. Exatamente como você disse naquele vídeo. Não dá para refazer o que já foi vivido, e eu precisei sair daquele quarto escuro — ela desabafou, as lágrimas caindo de forma mais livre agora, molhando a grama. — E eu não caminhei sozinha. O Jace... o Jace não soltou a minha mão em nenhum segundo. Quando eu tentei sumir no mar, foi ele quem mergulhou para me puxar de volta. Ele me levou para ver o mundo, ele aguentou meus gritos, o meu choro, a minha fúria... Ele limpou a poeira do meu coração.

​Rebekah sorriu entre as lágrimas, o peito subindo e descendo com a batida acelerada de quem aceitava o próprio destino.

​— Eu estou com ele agora, Caio — ela confessou em um fio de voz sincero, olhando para o céu que começava a escurecer. — Nós estamos morando juntos no seu loft no Rio. No começo, eu tive tanto medo. Medo de estar te traindo, medo de estar errando o acorde. Mas o Jace me mostrou que o amor não diminui quando se divide; ele se transforma. Eu descobri que sou completamente apaixonada por ele. Nós estamos construindo um futuro juntos, nota por nota. E eu sei... eu conheço a sua alma melhor do que ninguém, e eu sei que você está feliz por nós. Sei que você abençoa a nossa música daqui de cima, porque você sempre quis me ver sorrir.

​O Último Acorde do Adeus

​O sol finalmente se pôs, deixando o cemitério na penumbra suave do crepúsculo. Rebekah levantou-se devagar, limpando a grama dos joelhos. Ela olhou uma última vez para o buquê de flores do campo, que parecia dar vida à pedra fria.

​Ela inclinou-se para a frente, levou dois dedos aos lábios e depois tocou o topo da lápide, selando a sua despedida.

​— Eu vou viver por nós dois, meu príncipe — ela sussurrou, a voz agora firme, cheia de uma paz inabalável. — Vou continuar desenhando, vou continuar amando o Jace e vou continuar guardando o seu sorriso na minha caixinha de memórias mais bonita. Descanse em paz, Caio. A sua última melodia vai continuar ecoando em mim para sempre.

​Rebekah girou o corpo e começou a caminhar de volta em direção à saída do cemitério. Conforme se aproximava dos portões de ferro, ela avistou uma silhueta alta, de terno escuro, encostada no capô do carro. Era Jace. Ele estava ali, esperando por ela na penumbra, respeitando o seu tempo, mas pronto para ser o seu ponto de apoio.

​Ao ver Jace, o sorriso de Rebekah se abriu por completo. Ela apressou os passos e foi direto para os braços dele. Jace a acolheu em um abraço apertado, deixando um beijo carinhoso em sua testa enquanto começavam a caminhar juntos em direção ao futuro. Caio Souza pertencia à eternidade e à saudade incondicional, mas o presente e a vida real, com toda a sua beleza e novos acordes, pertenciam definitivamente a Rebekah e Jace.