A Batida do coração 2
36 O Último Refrão no Gramado do Tempo
A noite no Rio de Janeiro avançava mansa, trazendo uma brisa leve que vencia as frestas da janela do loft. No quarto principal, Rebekah estava aninhada de lado, com a cabeça descansando no peito largo de Jace. O braço forte do baterista a envolvia pela cintura em um abraço protetor, firme, um porto seguro que já se tornara o seu lugar favorito no mundo. O sono a envolveu de forma profunda, mas aquela madrugada não reservava os velhos pesadelos de fogo e desespero; reservava um encontro com a paz.
Lentamente, a escuridão do subconsciente de Rebekah começou a se transformar. O cheiro de maresia e o som do trânsito carioca desapareceram, dando lugar ao aroma fresco de grama cortada e ao som distante de um sinal escolar.
Quando abriu os olhos azuis no sonho, ela percebeu que não estava mais no loft, nem tinha seus vinte e cinco anos. Ela olhou para as próprias mãos, menores, e viu o uniforme azul e branco do Colégio Central de Santa Bárbara. Ela tinha quinze anos de novo. O sol da tarde batia suave no imenso campo de futebol da escola, dourando tudo ao redor.
Rebekah olhou para a frente e seu coração deu um salto de pura emoção. Sentado de pernas cruzadas no centro do gramado verde, estava Caio. Ele também tinha quinze anos, vestia a camiseta do colégio com as mangas dobradas e mantinha os olhos castanhos fixos nas cordas de um violão acústico antigo, dedilhando uma melodia suave que ela conhecia de cor.
Com os passos leves, como se pisasse em nuvens, Rebekah se aproximou. O som dos seus tênis na grama fez Caio erguer o rosto. Ao vê-la, aquele sorriso largo, puro e devastadoramente lindo iluminou as feições do menino.
— Eu sabia que você vinha, Laurentis — Caio disse, a voz jovem e aveludada ecoando com uma nitidez impressionante.
— Caio... — Rebekah sussurrou, deixando-se cair de joelhos na grama bem na frente dele, as lágrimas de felicidade já brotando em seus olhos de menina. — É você mesmo?
— Sou eu, minha linda — ele respondeu, colocando o violão de lado e segurando as duas mãos dela. O toque era quente, real, despido da frieza do mármore do cemitério. — Eu pedi permissão para vir. Eu precisava me despedir de você do jeito certo, Bekah. Sem pressa, sem o barulho daquela coletiva. Só eu e você, no lugar onde a nossa história começou.
A Confissão do Príncipe
Eles se sentaram lado a lado no gramado do colégio, exatamente como faziam nos tempos em que matavam as aulas de física para planejar o futuro. O vento balançava os cabelos negros enormes de Rebekah, e ela não conseguia parar de olhar para o rosto dele, decorando cada detalhe.
— Sabe, Bekah... eu nunca tive a chance de te dizer tudo o que senti naquela última noite — Caio começou, o olhar tornando-se maduro, transcendendo a idade do corpo do sonho. Ele buscou os olhos azuis dela. — Quando eu estava naquele palco em São Paulo, e aquele barulho seco aconteceu... eu não senti medo. Não senti dor. A única coisa que aconteceu, no exato milésimo de segundo em que o meu peito queimou, foi que o mundo inteiro silenciou. E a imagem do seu rosto veio na minha mente. Limpa. Iluminada.
Rebekah engoliu em seco, uma lágrima rolando pelo seu rosto jovem. — Caio...
— Eu queria ter tido mais tempo, Bekah — ele confessou, a voz embargada por uma emoção genuína, apertando os dedos dela. — Deus sabe o quanto eu queria aquela vida inteira que te prometi na cama. Queria ver você de noiva, queria construir a nossa casa, queria envelhecer ouvindo a sua risada. Isso foi tirado de nós, e por um tempo, lá de cima, eu vi a sua dor e o meu peito espiritual doeu junto. Eu vi você tentar ir embora naquele mar.
Ele fez uma pausa, e o sorriso dele voltou, dessa vez carregado de uma gratidão profunda, olhando para o céu dourado do sonho.
— Mas aí eu vi o Jace — Caio continuou, e seus olhos castanhos brilharam com uma lealdade inquebrável. — Ver o Jace largar tudo para segurar a sua mão, ver ele te puxar daquela água e te levar para ver o mundo... isso me confortou de um jeito que não dá para explicar, Bekah. O Jace é o meu irmão de alma. Saber que você está com ele, saber que o coração dele agora bate no mesmo compasso que o seu, me deu a paz que eu precisava para seguir o meu caminho na luz. Eu abençoo vocês, com toda a força da minha eternidade.
O Último Abraço e o Beijo de Luz
Rebekah chorava livremente, mas era um choro de libertação, uma cura definitiva que selava a última fresta de sua alma ferida.
— Eu te amei tanto, Caio... — ela conseguiu falar, a voz trêmula de menina. — Eu nunca, nunca vou te esquecer.
— Eu também te amei, Laurentis. E o nosso amor agora faz parte do que o universo tem de mais bonito — Caio respondeu.
Ele se aproximou e a envolveu em um abraço forte, esmagador. Rebekah enterrou o rosto no ombro dele, sentindo o calor do corpo do namorado da adolescência uma última vez. Perto do ouvido dela, Caio sussurrou palavras mansas, que pareceram se gravar diretamente em seu coração: — Viva, Bekah. Viva intensamente por nós dois. Deixa a música continuar.
Eles se afastaram sutilmente. Caio segurou o rosto de Rebekah com as duas mãos, limpando as lágrimas dela com os polegares. Ele inclinou o rosto e selou os lábios dela em um beijo casto, gentil e infinitamente doce. Um beijo que não carregava mais o desejo da terra, mas a pureza de uma despedida celestial.
Ao se afastarem, Caio deu um último toque carinhoso na bochecha dela, piscou o olho esquerdo de forma divertida, exatamente como fazia nos palcos, e se levantou. Ele pegou o violão, girou o corpo e começou a caminhar em direção ao horizonte do campo, onde uma luz branca e radiante começou a se abrir. Conforme ele avançava, sua silhueta de quinze anos foi se misturando à claridade, até sumir por completo, deixando apenas o eco de sua melodia no ar.
O Despertar para o Novo Dia
Rebekah abriu os olhos na vida real.
O quarto do loft estava inundado pela luz dourada e suave do início da manhã carioca. Ela piscou os olhos azuis lentamente, sentindo o rosto molhado por lágrimas reais, mas seu peito estava incrivelmente leve. A pressão, a queimação e o aperto que a acompanharam por um ano haviam desaparecido por completo.
Ela girou a cabeça no travesseiro. Jace continuava dormindo ao seu lado, com o rosto sereno e a respiração calma. Seu braço direito ainda estava firmemente entrelaçado na cintura dela, mantendo-a colada ao seu peito nu.
Rebekah olhou para o homem ao seu lado, passou a ponta dos dedos delicadamente sobre a pequena cicatriz no supercílio de Jace e abriu um sorriso largo, radiante e cheio de vida. Ela se aconchegou ainda mais no abraço do baterista, fechando os olhos com uma certeza inabalável.
A vida agora era diferente. O palco era outro, os figurinos eram novos e o futuro era um horizonte aberto. Caio Souza não estava mais no cemitério ou na dor da perda; ele havia se transformado em luz, uma nota eterna que continuaria a vibrar de forma bonita na memória deles, enquanto Rebekah e Jace escreviam, juntos e apaixonados, os próximos e mais lindos capítulos de suas vidas reais.
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