A Batida do coração 2

33 A Sincronia dos Dias e o Novo Ritmo



​Os dias no Rio de Janeiro ganharam uma leveza que parecia impossível meses atrás. A rotina pós-viagem e o sucesso estrondoso do desfile forjaram uma nova dinâmica entre Rebekah e Jace. Eles já não eram apenas os sobreviventes de uma tragédia, ou os amigos de infância que se apoiavam no luto; a proximidade deles havia se tornado diária, magnética e inevitável.

​Jace praticamente batia ponto no novo loft de Rebekah. Se não estava ajudando a carregar caixas de tecidos novos para a próxima coleção, estava sentado no balcão da cozinha com um bloco de notas, cantarolando melodias enquanto ela cortava moldes de croquis. O quase beijo daquela manhã ensolarada havia deixado uma eletricidade sutil no ar, um compasso de espera onde os olhares duravam mais tempo e os toques casuais pareciam carregar um significado muito mais profundo.

​O Almoço no Ateliê e os Olhares que Falam

​Era uma tarde de quinta-feira ensolarada. O ateliê improvisado na sala do loft estava imerso em um caos criativo: rolos de linho cru, linhas douradas e tesouras espalhadas pela mesa. Rebekah estava de pé diante de um manequim, com os cabelos negros enormes presos num coque alto, segurando várias agulhas com os lábios enquanto tentava ajustar o ombro de um blazer estruturado.

​Jace entrou pela porta da frente usando a sua própria chave, carregando duas embalagens de comida de um restaurante natural que Rebekah adorava. Ele parou perto do sofá, observando-a trabalhar por alguns instantes com um sorriso silencioso. A admiração que sentia pela força e pelo talento dela transbordava em seus olhos escuros.

​— Se você engolir uma dessas agulhas, Laurentis, eu vou ter que praticar os meus primeiros socorros de novo — Jace quebrou o silêncio, a voz grave ecoando mansa pelo espaço enquanto ele colocava as embalagens na mesa de jantar.

​Rebekah tirou as agulhas da boca e virou-se, abrindo um sorriso radiante que iluminou o rosto ainda um pouco pálido. — Eu estava quase tendo um colapso com essa manga, Drake. Você chegou na hora certa. Estou faminta.

​Eles se sentaram lado a lado nas banquetas altas do balcão da cozinha. Enquanto comiam, a conversa fluiu com a intimidade de quem se conhecia por inteiro. Jace gesticulava, contando sobre as novas exigências da gravadora para o próximo álbum instrumental da banda, e Rebekah ouvia com atenção, rindo das imitações que ele fazia dos executivos paulistas.

​Em determinado momento, uma gota de molho caiu perto do canto dos lábios de Rebekah. Jace interrompeu a frase no meio. Sem pensar, ele estendeu a mão esquerda, tocando suavemente o rosto dela com o polegar para limpar o pequeno borrão.

​O toque fez Rebekah estancar. Seus olhos azuis colaram-se instantaneamente nos olhos escuros de Jace. A mão dele permaneceu ali, espalmada contra a bochecha macia dela por alguns segundos a mais do que o necessário. O polegar de Jace acariciou a pele de Rebekah de forma lenta, inconsciente. O coração da designer deu um salto violento no peito.

​— Você... está trabalhando demais, Bekah — Jace sussurrou, a voz descendo um tom, preenchida por uma ternura que ele já não conseguia mais disfarçar. — Tem pequenas olheiras aqui. Você precisa descansar.

​Rebekah não recuou do toque. Pelo contrário, ela inclinou o rosto sutilmente contra a palma da mão dele, sentindo o calor dos dedos calejados do baterista.

​— Eu descanso quando você está por perto, Jace — ela confessou em um fio de voz, a honestidade desarmando qualquer defesa. — Parece que quando você entra por aquela porta, o barulho do resto do mundo simplesmente silencia.

​Jace engoliu em seco, o olhar descendo rapidamente para os lábios dela antes de voltar para os seus olhos. Ele recolheu a mão devagar, com um meio sorriso que carregava uma promessa silenciosa. — Eu não pretendo ir a lugar nenhum, minha linda.

​A Noite na Varanda e as Linhas que se Cruzam

​Mais tarde, após o sol se pôr e o Rio de Janeiro ser coberto por um céu de veludo negro, a temperatura caiu levemente. Jace havia pegado o violão acústico que ficava na sala e estava sentado no chão da varanda do loft, com as costas apoiadas na parede. Ele dedilhava alguns acordes soltos, uma melodia suave e contínua que parecia conversar com a brisa mansa que vinha do mar.

​Rebekah saiu para a varanda trazendo uma manta de tricô cinza. Ela se aproximou em silêncio e, em vez de sentar-se na cadeira de vime ao lado, acomodou-se no chão, exatamente entre as pernas de Jace, apoiando as costas contra o peito largo dele.

​Jace não hesitou. Ele abriu ligeiramente as pernas para dar espaço a ela, mantendo o violão posicionado por cima do corpo de Rebekah, continuando a dedilhar a melodia como se ela fosse parte do arranjo. Ele estendeu a manta sobre os joelhos dela, cobrindo os dois.

​— Que música é essa? — Rebekah perguntou baixo, fechando os olhos e deixando a cabeça descansar no vão do pescoço de Jace, sentindo o perfume amadeirado dele misturado ao cheiro da noite.

​— Não tem nome ainda — Jace respondeu perto do ouvido dela, a vibração da voz dele ecoando direto nas costas de Rebekah. Os dedos dele continuavam ágeis nas cordas de nylon. — É uma melodia que fica rodando na minha cabeça toda vez que eu olho para você nos últimos tempos. É calma, mas tem uma batida forte por dentro. Igual a você.

​Rebekah sorriu na penumbra, sentindo uma paz profunda e uma felicidade nova começarem a ocupar os espaços que o luto havia deixado vazios. Ela ergueu a mão direita e começou a traçar linhas invisíveis no braço esquerdo de Jace, contornando os músculos fortes que seguravam o violão.

​— Sabe, Jace... há um ano, eu achei que nunca mais seria capaz de sentir o meu coração acelerar por algo bom — ela disse, a voz cheia de uma maturidade madura. — Achei que a minha cota de sentimentos tinha secado. Mas esses dias com você... a forma como você cuida de mim, como você me conhece no olhar... está mudando tudo aqui dentro.

​Jace parou de dedilhar o violão. O silêncio da noite voltou a reinar, quebrado apenas pela respiração dos dois. Ele colocou o instrumento de lado na parede e envolveu os seus braços fortes ao redor da cintura de Rebekah, puxando o corpo dela ainda mais contra o seu peito, colando-os por completo.

​— Eu passei anos tentando forçar as coisas entre nós no passado, Bekah, e só fiz bobagem — Jace desabafou, apoiando o queixo no ombro dela, os olhos fixos nas luzes da cidade ao fundo. — Mas a dor mudou a gente. O mundo girou. Hoje, eu não quero forçar nada. Eu só quero estar aqui. Quero ser o cara que te segura, o cara que te faz rir e o cara que te lembra que você merece ser feliz de novo. Eu me apaixonei pela menina que você era em Santa Bárbara... mas eu sou completamente louco pela mulher que você se tornou.

​Rebekah girou o rosto de lado, ficando com o perfil a milímetros do dele. Seus lábios quase roçaram na bochecha de Jace. Ela estendeu a mão e segurou a nuca dele, os dedos cravando-se nos cabelos escuros do baterista.

​— Então não vá embora, Drake — ela pediu, os olhos azuis brilhando intensamente sob a luz da lua. — Porque eu acho que a minha música favorita agora é aquela que toca quando a gente está junto.

​Jace sorriu, um sorriso cheio de alívio e paixão, e apertou o abraço, deixando um beijo demorado e quente na têmpora dela. Naquela noite, na varanda do loft no Rio de Janeiro, a aproximação deles deixava de ser uma necessidade de amparo para se tornar a escolha consciente de dois corações que, finalmente, haviam encontrado a mes.ma afinação para recomeçar.