A Batida do coração 2
32 A Proximidade do Silêncio e o Despertar do Cora
O loft que antes pertencia a Caio agora era oficialmente de Rebekah. Ela fizera questão de comprar o imóvel, mantendo vivas as memórias, mas redecorando o espaço para que ele ganhasse a sua identidade. As paredes de tijolos expostos continuavam ali, mas agora dividiam espaço com araras de tecidos nobres, croquis emoldurados e uma iluminação mais quente, acolhedora.
Era uma noite de sexta-feira quando Jace, Lucas e Pedro apareceram de surpresa, carregando fardos de cerveja e algumas garrafas de vinho. O clima era de total descontração. Eles se sentaram no tapete da sala, relembrando histórias da turnê, rindo alto e bebendo como há muito tempo não faziam. A presença dos meninos trazia de volta o barulho que aquele lugar pedia.
Passava das duas da manhã quando o cansaço finalmente venceu o grupo. O apartamento, embora amplo, só possuía dois quartos estruturados.
— Bom, se vocês não se importam, eu e o Pedro vamos capotar naquele quarto de solteiro — Lucas disse, levantando-se cambaleante e limpando a calça. — Tocar o dia inteiro e beber metade do Rio de Janeiro acaba com o homem. Juízo vocês dois aí.
Pedro apenas resmungou, acompanhando o guitarrista e fechando a porta logo em seguida, deixando a sala num silêncio repentino.
Rebekah olhou para Jace, que terminava o seu último gole de cerveja. Ela sorriu de canto, recolhendo algumas almofadas do chão. — Bom, Drake... parece que sobrou o quarto principal para a gente. Promete não roncar?
Jace soltou uma risada baixa, levantando-se e pegando o balde de gelo para colocar na pia. — Eu sou um cavalheiro, Laurentis. Durmo no meu canto da cama e não puxo o lençol, prometo.
A Cumplicidade da Madrugada
O quarto principal estava fresco, com a janela levemente aberta deixando entrar o som distante do trânsito da noite carioca. Eles se deitaram na imensa cama de casal. Rebekah, vestindo uma camiseta leve de algodão e shorts, deitou-se do lado esquerdo; Jace, apenas de calça de moletom, ocupou o lado direito.
Nos primeiros minutos, o silêncio entre eles era denso, mas não desconfortável. Eles não se tocaram. Ficaram olhando para o teto escuro, sentindo a presença um do outro após tantos meses de uma caminhada dolorosa e de um recomeço que os unira de forma inseparável. Logo, o cansaço os envolveu e ambos adormeceram.
Por volta das quatro da manhã, Rebekah acordou em sobressalto. Não fora um pesadelo, apenas o hábito de seu sono ainda fragmentado. Ela piscou os olhos lentamente, acostumando-se com a penumbra do quarto iluminado apenas pela luz fraca dos postes da rua.
Ela girou o corpo de lado, apoiando o rosto na palma da mão, e olhou para Jace.
O baterista dormia de forma profundamente calma. Seus traços fortes estavam relaxados, os cabelos escuros bagunçados sobre o travesseiro e a respiração era lenta, compassada. Sob a luz fraca, a pequena cicatriz no supercílio dele parecia uma linha de prata. Rebekah olhou para ele e, de repente, sentiu algo diferente. Não era a dor do luto, nem a carência da solidão. Foi um sobressalto involuntário, uma batida violenta e quente bem no centro do seu peito. Seu coração acelerou, fazendo suas bochechas aquecerem na escuridão.
Ela sorriu, um sorriso bobo, confuso e terneiro. Pela primeira vez, Rebekah percebeu que a presença de Jace não era mais apenas o seu ponto de resgate; ele estava se tornando o seu norte. Confortada por aquele sentimento novo, ela fechou os olhos e adormeceu novamente, embalada pelo som da respiração dele.
O Quase Beijo da Manhã
Quando o sol da manhã começou a cortar as frestas da cortina, o cenário na cama havia mudado por completo. O subconsciente ignorara as distâncias.
Rebekah acordou lentamente, sentindo um calor aconchegante envolvê-la. Quando abriu os olhos azuis, percebeu que estava completamente agarrada a Jace. Suas pernas estavam entrelaçadas às dele, e sua mão direita repousava espalmada contra o peito nu e quente do baterista. Jace, por sua vez, tinha o braço direito firmemente envolvido ao redor da cintura dela, puxando-a para junto de si.
Os rostos dos dois estavam colados, a poucos centímetros de distância, dividindo o mesmo ar.
Jace abriu os olhos escuros no mesmo instante. Ao notar a proximidade, ele não recuou. Seus olhos focaram nos lábios de Rebekah e, depois, subiram para os olhos azuis dela, que o encaravam em um transe silencioso. Um sorriso lento, cúmplice e incrivelmente charmoso surgiu nos lábios de Jace.
— Bom dia, Laurentis... — ele sussurrou, a voz saindo ainda mais grave e rouca pelo sono.
— Bom dia, Drake... — ela respondeu num fio de voz, sentindo o peito dele subir e descer sob a sua palma.
Lentamente, Jace ergueu a mão esquerda e tocou o rosto de Rebekah. Seus dedos grandes e calejados pelas baquetas acariciaram a pele macia de sua bochecha com uma delicadeza infinita, afastando uma mecha dos cabelos negros enormes dela. O polegar dele contornou a linha do maxilar de Rebekah, fazendo-a fechar os olhos por um segundo, entregando-se ao toque.
Jace inclinou o rosto para frente. A distância desapareceu. Rebekah sentiu o calor dos lábios dele roçar de leve nos seus, o início de um magnetismo que vinha sendo construído ao longo de um ano de lealdade e silêncios compartilhados. O ar sumiu do quarto. Era o momento exato do primeiro beijo.
VROOOM! CLANG! PAN!
O som violento de um liquidificador velho sendo ligado na potência máxima, seguido pelo barulho de uma panela de ferro caindo com tudo no chão da cozinha, quebrou o feitiço como uma marretada no vidro.
— Mas que droga de tomada é essa, Pedro?! Pega a jarra do suco aí! — a voz alta e rouca de Lucas ecoou do corredor, seguida pelo som de talheres batendo.
O susto fez Rebekah e Jace se afastarem abruptamente, abrindo os olhos em choque. Jace soltou o ar que segurava em uma mistura de risada e frustração pura, jogando a cabeça para trás no travesseiro e cobrindo os olhos com o braço livre.
— Eu vou matar o Lucas e o Pedro... — Jace resmungou, a voz abafada pelo braço, embora estivesse rindo. — Juro por Deus, eu vou usar as minhas baquetas para quebrar a cara daqueles dois.
Rebekah sentou-se na cama, arrumando a camiseta, com as bochechas completamente vermelhas, mas rindo de forma aberta, uma risada limpa que preencheu o quarto. A tensão romântica havia se transformado em uma divertida realidade.
— Acho melhor a gente levantar antes que eles destruam a minha cozinha nova, Drake — ela disse, dando um tapinha leve no ombro dele antes de sair da cama.
Jace tirou o braço do rosto e olhou para ela caminhando em direção à porta. O beijo não havia acontecido, mas o compasso havia mudado definitivamente. Naquela manhã ensolarada no Rio de Janeiro, ambos sabiam que a música entre eles havia ganhado uma nova e irresistível melodia.
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