A Batida do Coração 3: O Acorde final
11 O Contrato do Destino e o Prazo da Estrela
A noite de quarta-feira trazia uma lufada de vento fresco para o bairro da Barra da Tijuca, mas dentro do bar de jazz e rock da família Lâfrer, o clima era de pura eletricidade. O local estava completamente lotado. Clientes se espremiam nas mesas de madeira escura e se enfileiravam ao longo do balcão de granito. Havia um burburinho diferente no ar, uma expectativa quase palpável que fazia o estômago de Kayla Drake dar nós consecutivos por trás da sua postura inabalável.
Após o incidente avassalador no corredor do sexto andar, onde a toalha de Logan havia caído e as barreiras entre eles haviam implodido, Kayla passara as últimas quarenta e oito horas canalizando toda a sua confusão psicológica nas cordas de sua guitarra vermelha. Ela não conseguia tirar a promessa dele da cabeça: “Falta uma semana para o seu aniversário... e eu não vou mais me afastar”.
Para a apresentação daquela noite, ela escolhera um repertório perigoso: apenas composições autorais. Músicas que ela mesma escrevera nas madrugadas silenciosas do loft, repletas de arranjos intensos, batidas pesadas e letras que falavam de ritmos desordenados, orgulho e corações encurralados.
O Olhar do Caçador de Talentos
Nas mesas da frente, o clã Laurentis Drake marcava presença em peso. Jace e Rebekah dividiam o espaço com Garret e Lisa. Candy estava posicionada na lateral do palco, com os olhos brilhando de ansiedade. No fundo do salão, encostado em uma das colunas de tijolos expostos, Logan Lâfrer assistia a tudo. Ele usava uma camisa de linho escura com as mangas dobradas e mantinha os braços cruzados sobre o peito largo. Seus olhos escuros estavam fixos em Kayla, com aquela mesma intensidade possessiva que a dominara no chão do corredor.
Mas não era apenas a família que prestava atenção. Sentado em uma mesa reservada no canto oposto, um homem de terno alinhado, cabelos grisalhos cortados com precisão e um olhar clínico observava Kayla ajustar o pedestal do microfone. Era Roberto Albuquerque, um dos principais diretores executivos e caçadores de talentos da Som Livre. Ele viera discretamente, a convite de uma antiga sondagem que a gravadora fizera com Jace, mas queria ver a garota em seu próprio habitat natural.
As luzes do bar se reduziram a um tom azul-escuro profundo. Kayla jogou os cabelos negros enormes para trás, ajustou a alça da guitarra vermelha e encarou o microfone. Seus impressionantes olhos azuis faiscaram sob os refletores.
A primeira nota da guitarra cortou o salão.
A música autoral de Kayla começou com um dedilhado melancólico que logo evoluiu para um rock moderno, encorpado e vibrante. Quando sua voz ecoou pelas caixas de som — potente, cheia de atitude, com uma rouquidão sensual que arrrepiou a nuca de todos —, o bar inteiro entrou em transe. Ela cantava sobre o perigo de cruzar linhas invisíveis, sobre o diagnóstico de um sentimento que não se podia controlar. Enquanto soltava a voz no refrão mais alto, seus olhos azuis buscaram o fundo do salão e cravaram-se diretamente nos de Logan. Ela cantou para ele, desafiando a rigidez do médico com a força de seu refrão.
Roberto Albuquerque, na mesa do canto, parou o copo de uísque no ar. Ele inclinou-se para a frente, os olhos brilhando com a certeza de quem acabara de encontrar uma mina de ouro musical. A garota de dezessete anos tinha o sangue da realeza do rock, a elegância de uma modelo e uma presença de palco que engolia o ambiente.
O Cartão de Ouro e o Prazo da Maioridade
Quando o último acorde da guitarra vermelha morreu nas caixas de som, o bar do Garret veio abaixo. Clientes gritaram, aplaudiram de pé e Lucas Silva, que assistia do balcão, soltou um assobio ensurdecedor. Jace Drake levantou-se, batendo palmas com os olhos brilhando de um orgulho ancestral, enquanto Rebekah limpava uma lágrima discreta na bochecha.
Kayla sorriu, agradecendo com uma reverência rápida, e desceu os degraus do palco com o coração ainda a mil por hora. Antes mesmo que ela pudesse caminhar até a mesa dos pais, a silhueta imponente de Roberto Albuquerque interceptou seu caminho no meio do salão.
— Com licença, Kayla Drake — o homem disse, a voz educada e firme, estendendo a mão para ela com um sorriso profissional de quem sabe o que quer. — Meu nome é Roberto Albuquerque, diretor de A&R da Som Livre.
Kayla estancou os passos, segurando o braço da guitarra. — Muito prazer, Senhor Albuquerque. Eu... eu sei quem o senhor é. Meu pai já me falou do seu trabalho.
— Excelente. Então você deve imaginar o motivo de eu estar aqui hoje — Roberto continuou, tirando do bolso interno do paletó um cartão de visitas preto, com letras douradas em alto-relevo da gravadora. Ele o estendeu entre os dedos. — Eu passei a última hora ouvindo as suas composições autorais. Kayla, você tem algo que não se compra e não se ensina em faculdade nenhuma: você tem o ritmo da nova geração. A sua voz e a sua atitude na guitarra são exatamente o que o mercado precisa.
Candy se aproximou por trás, cobrindo a boca com as duas mãos, os olhos castanhos arregalados de choque ao ouvir a proposta. Na mesa dos pais, Jace observava a cena com um sorriso cúmplice, sabendo que o destino da filha estava se cumprindo.
— Nós queremos você na Som Livre, Kayla — Roberto Albuquerque disparou a proposta, o olhar fixo nos olhos azuis dela. Ele apontou para o cartão na mão dela. — Mas eu tenho uma política rígida com novos talentos de linhagem. Eu sei que você faz dezoito anos na próxima semana, na sexta-feira. Então, aqui está o meu trato: eu quero que você guarde esse cartão. Não me ligue amanhã, não me procure na segunda-feira. Você vai curtir a sua maioridade, vai comer com a sua família e, na segunda-feira seguinte ao seu aniversário, com dezoito anos completos e dona do seu próprio nariz, você vai ligar para esse número direto da minha sala. Nós vamos sentar e assinar um contrato para o seu primeiro álbum de estúdio. Combinado?
Kayla olhou para o cartão preto e dourado em seus dedos trêmulos, sentindo uma descarga de adrenalina que parecia um solo de bateria perfeito. A maioridade não trazia apenas a liberdade pessoal; trazia as chaves do seu futuro profissional.
— Combinado, Senhor Albuquerque — Kayla respondeu, a voz saindo firme e cheia daquela determinação inabalável dos Drake. — Na segunda-feira de manhã, o senhor vai receber a minha ligação.
— Estarei esperando, futura estrela — Roberto sorriu, inclinou a cabeça em um cumprimento respeitoso para Jace ao longe e girou o corpo, saindo pelo hall do bar.
A Celebração e a Contagem Regressiva
No segundo em que o empresário cruzou a porta de vidro, a pose de durona de Kayla desmoronou em uma comemoração puríssima de adolescente.
— MIGA, EU NÃO ACREDITO! — Candy berrou, jogando-se com tudo nos braços de Kayla.
As duas amigas começaram a pular e a rodopiar no meio do salão do bar, rindo alto e comemorando a promessa do contrato de estúdio. Jace e Rebekah se aproximaram rapidamente, envolvendo a filha em um abraço familiar coletivo de puro orgulho e emoção.
— Eu sabia, minha linda! Eu sabia que o mundo ia ver o que a gente vê todo dia nesse loft — Rebekah sussurrou, beijando a testa da filha.
— O palco é seu, Kayla. Você conquistou isso com as suas próprias notas — Jace disse, a voz embargada, apertando os ombros dela com força.
No meio do abraço dos pais e dos gritos de Candy, Kayla Drake girou o rosto sutilmente por cima do ombro da mãe. Seus olhos azuis procuraram a coluna de tijolos no fundo do bar.
Logan Lâfrer continuava parado exatamente no mesmo lugar. Ele não havia se juntado à rodinha de comemoração da família, mas seus braços agora estavam caídos ao lado do corpo. Ele mantinha os olhos escuros cravados nela com uma intensidade que parecia queimar a distância do salão. Logan deu um único e sutil aceno de cabeça para ela, um cumprimento de respeito pelo seu talento, mas o sorriso de canto que surgiu em seus lábios carregava o mesmo diagnóstico do corredor do loft.
O prazo do empresário da Som Livre era o mesmo prazo do jovem médico. Faltavam exatamente nove dias para a sexta-feira do seu aniversário. Naquela próxima semana, Kayla Drake assinaria a sua entrada para o mundo dos adultos — tanto no palco da música nacional, quanto nos lençóis do mundo real que Logan Lâfrer prometera não mais evitar. A contagem regressiva havia começado, e a batida do coração de Kayla sabia que aquele seria o refrão mais definitivo de toda a sua vida.
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