A Batida do Coração 3: O Acorde final

6 O Painel de Metal e a Inversão Térmica



​Dois dias haviam se passado desde a noite do baile. Durante quarenta e oito horas, KaylaDrake aplicou uma estratégia cirúrgica: evitou ao máximo o loft do andar de baixo. Ela inventou desculpas para Candy, dizendo que estava imersa em novas composições e ajudando a mãe no ateliê, tudo para não correr o risco de esbarrar com o visor gélido de Logan Lâfrer nos corredores do condomínio.

​Naquela tarde de terça-feira, no entanto, ela precisou sair. Seu estoque de cordas de níquel para a guitarra vermelha havia estourado após os ensaios intensos da madrugada. Ela foi até a loja de instrumentos no BarraShopping, comprou os encordoamentos novos e voltou para casa no fim do dia, carregando a pequena sacola de papelão.

​Ao parar no hall de entrada do subsolo do prédio, Kayla apertou o botão do elevador e ficou observando o visor digital dos andares piscar. Ela trazia os cabelos negros enormes presos em um rastro alto e usava uma regata branca simples com shorts de alfaiataria.

​Clang.

​A porta de vidro pesado da garagem se abriu com um estalo rústico. Passos pesados e arrastados ecoaram pelo cimento. Kayla nem precisou virar o rosto para saber quem era; o cheiro de antisséptico hospitalar misturado ao sândalo denunciou a presença imediatamente.

​Logan Lâfrer parecia exausto. Ele vestia uma calça escura e o jaleco branco de médico estava dobrado de forma desleixada sobre o seu braço esquerdo. Seus cabelos castanhos estavam bagunçados e pequenas sombras roxas desenhavam olheiras profundas sob seus olhos escuros — o reflexo nítido de um plantão de trinta e seis horas seguidas na emergência do hospital regional.

​Nenhum dos dois disse uma única palavra. O silêncio entre eles era denso, quase sólido, como se uma barreira de alta voltagem estivesse instalada entre o violão e o estetoscópio. O elevador chegou, as portas de inox se abriram e eles entraram, posicionando-se lado a lado diante do painel de botões espelhado.

​A Alfinetada e o Blefe da Guitarrista

​O elevador começou a subir de forma suave. Logan estendeu a mão e apertou o botão do seu andar, o sexto. Kayla manteve os olhos fixos na sacola da loja de música.

​— Conseguiu assistir ao filme na terça-feira? — Logan quebrou o silêncio. A sua voz saiu ainda mais grave e rouca por conta do cansaço do plantão, impregnada de uma ironia sutil que fez o sangue de Kayla dar uma batida mais forte. — Ou a futilidade da Barra da Tijuca atrapalhou os seus planos estatísticos?

​Kayla mudou a postura, virando o rosto de lado para encará-lo. Ela ergueu o queixo com aquela audácia clássica que herdara do clã Telles.

​— Foi maravilhoso, Doutor — ela respondeu, a voz saindo mansa, destilando um veneno doce. — O shopping estava ótimo, o filme foi assustador na medida certa e... o Otávio é uma companhia incrível. Sabe, ele beija super bem. Tem um ritmo ótimo.

​No mesmo milésimo de segundo em que as palavras saíram da boca de Kayla, a atmosfera dentro do cubículo de metal mudou por completo. Logan estancou o movimento do corpo. Ele girou a cabeça, os olhos escuros faiscando com uma intensidade perigosa que engoliu a exaustão das olheiras.

​Clack!

​Com um movimento rápido e bruto, Logan estendeu a mão direita e bateu com a palma contra o botão vermelho de emergência do painel. O elevador deu um solavanco seco e parou entre o quarto e o quinto andar. O sinal sonoro deu um breve bipe e silenciou.

​Logan soltou uma risada curta, rústica, uma risada sem humor nenhum que arrepiou a nuca de Kayla. Ele deu um passo à frente, encurralando-a contra a parede de inox espelhada.

​— Ele beija bem, Kayla? — Logan perguntou, a voz descendo para um sussurro denso, o maxilar travado a centímetros do rosto dela. — Não me faça rir. Aquele moleque do terceiro ano não saberia o que fazer com uma mulher como você nem se viesse com um manual de instruções médica. Ele não sabe beijar direito. E você sabe disso.

​O Diagnóstico do Primeiro Beijo

​— E como se você soubesse de alguma coisa... — Kayla tentou rebater, a voz vacilando pela primeira vez na vida, o peito subindo e descendo com força contra a proximidade dele.

​Logan não deu tempo para o final da frase. Ele largou o jaleco no chão do elevador e segurou o rosto de Kayla com a mão esquerda, os dedos fortes cravando-se na nuca dela, por baixo dos cabelos negros enormes. Com uma força controlada e possessiva, ele puxou o corpo dela contra o seu e colou seus lábios.

​O impacto fez o ar sumir do elevador. Foi um beijo intenso, quente e avassalador. Os lábios de Logan eram firmes, experientes, ditando um ritmo que Kayla nunca havia experimentado na vida. Nos primeiros dois segundos, ela tentou manter a rigidez, mas o magnetismo daquele homem que ela tanto tentava evitar a desarmou por completo. Ela entregou-se ao toque, as mãos pequenas segurando os ombros largos da camisa dele, o coração batendo em uma frequência cardíaca desordenada.

​Mas o instinto de Logan era cirúrgico. Conforme o beijo se aprofundava, ele percebeu a sutil hesitação nos lábios dela, a forma como ela prendia a respiração de um jeito inocente e o tremor sutil em suas mãos.

​Lentamente, Logan afastou os lábios, mas manteve o rosto a milímetros do dela. Suas respirações estavam misturadas, quentes na penumbra do elevador parado. Ele fixou os olhos escuros nos azuis de Kayla, que estavam dilatados, assustados e brilhantes. Uma percepção cortante passou pela mente do médico.

​Um meio sorriso de canto, carregado de uma arrogância vitoriosa mas preenchido por uma ternura nova, surgiu nos lábios de Logan.

​— Foi o seu primeiro beijo... não foi? — Logan sussurrou, a voz saindo em um fio de certeza absoluto. Ele acariciou a bochecha corada dela com o polegar. — Você passou os últimos três anos fingindo que era a dona do mundo e da música, Kayla Drake... mas você nunca tinha beijado ninguém antes de mim. O Otávio não tocou em você.

​Kayla abriu a boca para soltar uma resposta ácida, mas o orgulho parecia ter travado em sua garganta. Ela estava completamente desmascarada pelo diagnóstico dele.

​Logan deu um passo para trás, recuperando a postura de controle. Ele abaixou-se, pegou o seu jaleco do chão e, sem desviar os olhos dela por um segundo, estendeu a mão e bateu novamente no botão de emergência, liberando o elevador, que voltou a subir com um solavanco místico.

​As portas se abriram exatamente no sexto andar, o dele.

​— Boa noite, Kayla — Logan disse, a voz voltando ao tom calmo e profissional de sempre. — Nos vemos pelo condomínio.

​Ele girou o corpo e saiu com passos firmes pelo corredor do sexto andar, deixando as portas de inox se fecharem logo em seguida.

​O Quarto Escuro do Isolamento

​O elevador subiu mais um andar e abriu no sétimo. Kayla Drake caminhou até a porta de seu loft como se estivesse andando em transe. Suas pernas pareciam de gelatina e seus dedos ainda tocavam os próprios lábios, que queimavam com o gosto do perfume de sândalo dele.

​Ao cruzar a porta da frente, o som ambiente do loft a trouxe de volta. Jace estava sentado no sofá com o violão no colo, ajustando uma tarraxa, enquanto Rebekah andava pela sala com um notebook na mão, checando as vendas da nova coleção.

​— Oi, minha linda! Demorou no shopping. Achou as cordas que queria? — Rebekah perguntou, erguendo o olhar com um sorriso carinhoso.

​— Achei, mãe... — Kayla respondeu de forma automática, a voz saindo aérea, o olhar fixo em um ponto invisível no tapete.

​Jace Drake parou de dedilhar as cordas e franziu a testa, os olhos escuros capturando na hora a agitação interna da filha. O baterista experiente conhecia aquele compasso desordenado. — Tudo bem com você, Kayla? Parece que viu um fantasma no hall.

​— Tudo ótimo, pai. Só... um cansaço da caminhada — ela mentiu, falando qualquer coisa para cortar o assunto. — Vou tomar um banho e organizar minhas coisas para o ensaio de amanhã. Não estou com muita fome para o jantar.

​Sem esperar a resposta dos pais, Kayla caminhou apressada pelo corredor, entrou em seu quarto e bateu a porta com força excessiva, trancando-a por dentro em seguida.

​Ela largou a sacola da loja na escrivaninha e jogou-se de costas na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro para abafar um grito de frustração e confusão pura. Seu peito subia e descencia em uma velocidade assustadora. Ela passara dias dizendo a si mesma que Logan Lâfrer era uma péssima ideia, uma linha que ela jamais cruzaria. Mas ali, na escuridão do seu quarto na Barra da Tijuca, Kayla Drake teve que admitir a pior das verdades: o doutor careta havia acabado de roubar a sua primeira e mais importante nota musical. E o pior de tudo era saber que ela queria repetir o refrão.