A Batida do Coração 3: O Acorde final
7 Maresia e Outras Perturbações
A viagem de fim de semana para a histórica casa de praia em Angra dos Reis era uma tradição que nenhuma das famílias ousava quebrar. O casarão de vidro e madeira rústica, cercado pela vegetação nativa e de frente para o mar calmo, parecia o cenário perfeito para desacelerar o ritmo caótico do Rio de Janeiro.
Desta vez, a comitiva estava completa. Além do clã Laurentis Drake — Jace, Rebekah e Kayla —, os avós Guga e Anya já esperavam por eles com a casa arejada. Derick e Letícia Laurentis trouxeram sua habitual elegância para o litoral, e a família Lâfrer — Garret, Lisa, Candy e, para o completo desalento do sistema nervoso de Kayla, Logan — completava a mesa cheia. O jovem médico conseguira uma folga rara de quarenta e oito horas da residência e fora intimado pelos pais a respirar um pouco de ar puro.
O Silêncio da Guitarrista
Logo após a chegada, um farto lanche da tarde foi servido na imensa mesa da varanda gourmet, com vista panorâmica para as ondas que morriam mansas na areia. Havia tortas salgadas feitas por Lisa, pães artesanais, queijos da região e sucos naturais. A conversa corria solta, barulhenta e bem-humorada, liderada pelas piadas de estrada de Guga e pelas alfinetadas divertidas entre Jace e Lucas, que passara mais cedo para dar um abraço nos amigos.
No entanto, um detalhe destoava do arranjo habitual: Kayla Drake estava em completo e absoluto silêncio.
Sentada na ponta do banco de madeira, ela usava um short jeans e um biquíni preto por baixo de uma saída de praia de crochê branca. Seus impressionantes olhos azuis estavam fixos no copo de suco, e ela apenas maneava a cabeça ou sorria de canto quando alguém lhe dirigia a palavra. Para uma menina que costumava comandar o barulho da casa com tiradas ácidas, aquela mudez era quase um alarme.
Rebekah, sentada a poucas cadeiras de distância, franziu a testa, trocando um olhar preocupado com Letícia.
— Tudo bem, minha linda? — Rebekah perguntou alto o suficiente para a filha ouvir, tocando de leve no braço dela. — Você mal tocou na torta da Lisa. Está sentindo alguma coisa? Uma dor de cabeça?
O comentário fez a mesa reduzir o tom por um segundo. Kayla deu um leve sobressalto, forçando um sorriso que não atingiu seus olhos.
— Não é nada, mãe. Só estou... pensando em um arranjo novo para a música do bar — mentiu, a voz saindo um tom mais baixo que o normal. — A melodia travou na minha cabeça.
Jace Drake semicerrou os olhos escuros, observando o compasso desordenado da filha. Ele notou, com sua percepção de baterista, que Kayla evitava olhar para o lado esquerdo da mesa, exatamente onde Logan Lâfrer estava sentado. Logan, por sua vez, mantinha a sua clássica postura impecável de terno de linho claro, mas suas olheiras pareciam mais suaves e seus olhos escuros acompanhavam cada respiração da jovem Drake com uma atenção cirúrgica.
— Músicos e suas cabeças nas nuvens — Garret brincou, quebrando o gelo e fazendo a conversa voltar ao fluxo normal.
O Impasse das Uvas na Cozinha
Sentindo-se sufocada pela atenção silenciosa de Logan e pelas perguntas da mãe, Kayla se levantou da mesa de forma sutil.
— Vou pegar mais um pouco de fruta na cozinha e já volto — avisou, afastando-se da varanda e entrando pelas grandes portas de correr que davam acesso à área interna do casarão.
A cozinha da casa de praia era ampla, com bancadas de granito escuro e uma imensa geladeira de inox. O ambiente estava fresco e silencioso, um contraste perfeito com o barulho da varanda. Kayla caminhou até a fruteira de cerâmica sobre o balcão central, onde um grande cacho de uvas escuras e geladas repousava. Ela puxou uma uva, levando-a aos lábios, tentando acalmar os batimentos cardíacos que insistiam em bater na frequência errada desde que entrara no carro para a viagem.
Passos firmes e pausados na entrada da cozinha.
Kayla estancou. Ela não precisou se virar para saber quem era. O perfume de sândalo misturado à maresia entrou no ambiente antes dele.
Logan Lâfrer entrou na cozinha com as mãos nos bolsos da calça de linho, parando a dois passos de distância do balcão onde ela estava. Seus olhos escuros fixaram-se nela, despido de qualquer formalidade médica. Era o mesmo homem que havia parado o elevador quarenta e oito horas atrás.
— Fugindo da melodia, Drake? — Logan perguntou, a voz grave e rouca ecoando mansa pelo espaço. — Ou fugindo do diagnóstico que eu te dei no Rio?
Kayla girou o corpo lentamente, apoiando as costas contra a borda do granito. Ela segurava o cacho de uvas na mão direita e ergueu o queixo, tentando recuperar aquela audácia cortante que sempre usava como escudo.
— Eu não fujo de nada, Doutor Lâfrer — ela rebateu, os olhos azuis faiscando de irritação e algo mais forte que ela não sabia nomear. — Eu só queria um pouco de silêncio. Um silêncio que você parece fazer questão de estragar toda vez que entra no mesmo cômodo que eu.
Logan deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles para menos de um palmo. A presença dele parecia roubar todo o espaço da cozinha. Ele tirou as mãos dos bolsos e apoiou as duas palmas no granito, uma de cada lado do corpo de Kayla, encurralando-a exatamente como fizera no metal do elevador.
— Você passou dois dias sem pisar no meu andar, Kayla. Inventou desculpas para a minha irmã, sumiu dos ensaios... — Logan sussurrou, o maxilar travado, o rosto a centímetros do dela. — Isso para mim não é busca por silêncio. É medo. Você está com medo porque sabe que eu descobri o seu segredo. Sabe que eu fui o primeiro a quebrar esse seu compasso de garota durona.
— Você é um arrogante, Logan — Kayla respondeu em um fio de voz, o peito subindo e descendo com força contra o peito dele, o cheiro dele bagunçando todas as suas respostas prontas. — O que aconteceu no elevador foi um erro. Um erro clínico, se você quiser usar os seus termos técnicos. Sumir da sua frente foi a decisão mais inteligente que eu já tomei.
— Então me prova que foi um erro — ele desafiou, os olhos escuros descendo fixos para os lábios dela, que ainda guardavam o gosto doce da uva. — Me olha nos olhos e diz que não sentiu nada.
— Eu não senti... — ela começou, mas a mentira morreu em sua garganta.
Logan não esperou o final da frase. Ele aproximou o rosto e colou seus lábios nos dela em um movimento possessivo e urgente.
Ao contrário do elevador, onde o impacto fora de surpresa, aquele beijo na cozinha de Angra trazia o peso da tensão acumulada de dois dias de afastamento. Kayla soltou o cacho de uvas sobre o balcão e cedeu ao toque instantaneamente, prendendo os dedos nas lapelas da camisa de linho dele, puxando-o para mais perto. Os lábios de Logan eram quentes, ditando um ritmo avassalador que fazia as pernas de Kayla tremerem. Ele apertou a cintura dela com a mão direita, suspendendo-a sutilmente contra o granito, aprofundando o beijo em uma sintonia que não tinha nada de errada. Era puro magnetismo.
O Quase Flagrante da Cúmplice
Som de chinelos arrastando no corredor de madeira.
— Kayla? Você achou as uvas? Minha mãe pediu para ver se tinha... — a voz de Candy ecoou na entrada do corredor lateral, a poucos metros da porta da cozinha.
O som foi como um balde de água gelada no sistema circulatório dos dois.
Com um reflexo cirúrgico, Logan se afastou abruptamente de Kayla, girando o corpo e pegando um copo de vidro limpo que estava no escorredor ao lado da pia, abrindo a torneira no exato segundo em que Candy pisou na cozinha.
Kayla, com o coração parecendo que ia saltar pela boca e as bochechas completamente vermelhas, fingiu estar concentrada em organizar as uvas na fruteira de cerâmica, tentando controlar a respiração desordenada. Seus lábios estavam visivelmente mais vermelhos e brilhantes.
Candy parou na entrada, olhando de um para o outro com as sobrancelhas erguidas. Ela notou a atmosfera pesada e o silêncio estranho, mas seus olhos focaram primeiro no irmão.
— Logan? O que você está fazendo aqui dentro? Achei que estivesse conversando com o Tio Jace sobre os carros da importadora — Candy perguntou, desconfiada.
— Vim buscar um copo de água, Candy — Logan respondeu com uma frieza e um controle impressionantes, fechando a torneira e dando um gole calmo no vidro, sem que suas mãos tremessem um único milímetro. A postura profissional de médico parecia uma armadura perfeita. — O sol lá fora está forte.
Candy olhou para Kayla, que continuava de costas, fingindo lavar uma uva na outra cuba da pia. — E você, amiga? Tudo bem? Você está vermelha.
— Tudo ótimo, Candy! — Kayla respondeu rápido demais, a voz saindo um oitava acima do normal. Ela limpou as mãos na toalha de prato e virou-se, forçando a sua melhor atuação de escola. — A cozinha está um pouco quente por causa do motor da geladeira. Aqui estão as uvas. Vamos levar lá para fora?
— Vamos... — Candy respondeu lentamente, ainda medindo os dois com o olhar, sentindo que havia uma nota errada naquele arranjo, mas sem conseguir decifrar o prontuário. — Os meninos estão chamando a gente para descer até a areia depois do lanche.
— Perfeito. Eu vou trocar de roupa e encontro vocês lá — Logan interveio, colocando o copo na pia e caminhando em direção à saída oposta da cozinha, seus passos firmes ecoando pela casa. Antes de cruzar o portal, seus olhos escuros buscaram os azuis de Kayla por um milésimo de segundo, deixando uma promessa silenciosa no ar.
Kayla pegou a fruteira com as mãos ainda trêmulas, seguindo Candy de volta para a varanda. O fim de semana em Angra dos Reis estava apenas começando, mas a jovem musicista acabara de perceber que manter a distância daquele médico em uma casa de praia seria a missão mais impossível e perigosa de toda a sua vida. A batida do coração dela havia entrado em um caminho sem volta.
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