A Batida do Coração 3: O Acorde final

31 A Cláusula de Alforria e o Perfume do Passado



​A tarde de segunda-feira na diretoria executiva da Som Livre, no Rio de Janeiro, não contava com o glamour dos holofotes. Atrás da imensa mesa de vidro fumê, Ricardo Vance — o empresário que assumira o controle da carreira internacional de Kayla Drake após a turnê americana — mantinha uma postura predatória, batendo com a ponta de uma caneta de ouro sobre o tampo.

​Do outro lado, Kayla Drake mantinha a coluna perfeitamente ereta. A calça de couro e as botas escuras davam a ela a moldura de sempre, mas seus impressionantes olhos azuis carregavam uma frieza inabalável. Ela deslizou um documento de página única sobre a mesa.

​— O que é isso, Kayla? — Ricardo desdenhou, sem pegar o papel. — O cronograma para os festivais de inverno na Europa já está fechado.

​— É a minha notificação de encerramento, Ricardo — Kayla respondeu, a voz saindo mansa, pausada e absurdamente firme. — Meu contrato de exclusividade de dez anos com a Som Livre vence hoje, precisamente às dezoito horas. E eu não vou renovar. Estou me desligando da gravadora.

​Ricardo Vance soltou uma risada rústica, os olhos faiscando de puro ódio possessivo corporativo. Ele levantou-se, inclinando o corpo sobre a mesa, tentando usar da mesma intimidação que funcionara no Japão.

​— Você ficou louca, garota?! — ele gritou, a voz subindo de tom. — Você não pode simplesmente virar as costas para a máquina que te criou! Você pertence a nós! A Som Livre gastou milhões para reconstruir o seu corpo em Tóquio, nós compramos os sensores de titânio do seu quadril, nós blindamos a sua imagem! Você é propriedade desta marca, Drake! Sem nós, você é só uma guitarrista com metade do corpo feito de metal!

​Kayla não piscou. Ela levantou-se lentamente, sustentando o olhar do empresário com uma soberba inabalável. O dinheiro acumulado em uma década de turnês mundiais lotadas, royalties internacionais e direitos autorais a haviam transformado em uma mulher bilionária. Ela não precisava mais de adiantamentos, de prazos ou de chantagens. Ela era dona de si.

​— Você está enganado, Ricardo — Kayla sibilou, o queixo erguido, cada palavra saindo como um acorde cortante. — A Som Livre comprou o meu tempo, mas o meu talento e o metal que me sustenta foram pagos com o meu sangue e com o meu ventre. Eu sou bilionária agora. Eu posso comprar este prédio se eu quiser, mas vocês não têm dinheiro suficiente para comprar mais um minuto da minha música. O contrato acabou. Passar bem.

​Ela deu as costas, o som de suas botas batendo de forma exata e firme no piso de granito, deixando o executivo possessor sozinho com o papel da rescisão. Kayla Drake estava, finalmente, livre de suas amarras.

​O Encontro no Shopping da Barra

​Uma hora depois, tentando digerir a adrenalina da demissão, Kayla caminhava pelos corredores elegantes do Vogue Square, um shopping de luxo na Barra da Tijuca. Ela queria celebrar a sua nova liberdade comprando presentes especiais para Jace e Rebekah, uma forma de preencher o vazio dos anos de ausência.

​Seus olhos azuis escaneavam as vitrines até que, ao se aproximar da praça de alimentação, um som familiar travou a sua estrutura de titânio por completo.

​— Logan, pelo amor de Deus, é só um sanduíche! Escolhe logo! — a voz ruidosa e impaciente de Candy Lâfrer ecoou perto do balcão do McDonald's.

​— Candy, eu saí de uma cirurgia de reconstrução de artéria que durou cinco horas, a minha mente está exausta — a voz de Logan Lâfrer respondeu. Era aquela nota mansa, rústica e absurdamente grave que Kayla não escutava de perto há uma década.

​Logan vestia uma calça jeans escura e uma camisa polo azul-marinho que marcava seus ombros largos. Ele massageava as têmporas, discutindo de forma leve com a irmã sobre o combo que iriam pedir. O tempo o havia transformado em um homem maduro, imponente, o Médico-Chefe que ditava as regras do hospital, mas ali, com a irmã, ele era apenas o Logan de sempre.

​Kayla Drake estancou a poucos metros deles. Ao focar no rosto de Logan, na linha de seu maxilar rígido e na boca que um dia a beijara com tanta proteção, Kayla sentiu os olhos queimarem instantaneamente com as lágrimas que subiram de seu peito. Uma dor fantasma, mais forte do que qualquer lesão física, rasgou sua alma.

​“Se eu parar, vai ser um inferno. Vai ter briga, vai ter acusação de Candy, e eu não vou aguentar ver o gelo nos olhos do Logan”, Kayla pensou rápido, travando os dentes.

​Limpando uma lágrima solitária que escorreu antes de colocar os óculos escuros de grife, ela ergueu o queixo, ajustou a postura mecânica de seu quadril e decidiu passar direto. Ela caminhou firme, cortando o espaço exatamente no meio deles, a poucos centímetros do corpo de Logan, exalando o seu perfume marcante de sândalo. Ela não olhou para os lados; manteve os olhos fixos na linha do horizonte.

​O Retorno do Pânico

​No milésimo de segundo em que o rastro do perfume de sândalo cortou o ar e o som da bota de Kayla bateu contra o chão ao seu lado, o corpo de Logan Lâfrer reagiu antes de sua mente.

​O ar sumiu de seus pulmões de forma violenta. Seus olhos escuros dilataram e um suor frio brotou instantaneamente em sua testa. A crise de pânico — o monstro psicológico que ele achava ter domado após dez anos — voltou com a força de uma avalanche, desencadeada pela memória sensorial da mulher que ele mais amara e que mais o machucara na vida.

​— Argh... — Logan soltou um arquejo sôfrego, levando a mão ao peito largo, sentindo o coração disparar em uma taquicardia perigosa. Seus joelhos fraquejaram e ele precisou se escorar com força na pilastra de concreto da praça de alimentação para não cair.

​— Logan?! Meu Deus, Logan! — Candy largou a sacola no balcão e envolveu o corpo do irmão mais velho em um abraço apertado, sentindo-o tremer. — Calma, respira! Olha para mim, puxa o ar devagar! O que foi?!

​— É... é ela, Candy... — Logan sussurrou, a voz saindo falhada, rouca, o peito subindo e descendo em jatos curtos de ar enquanto ele tentava recuperar o controle biológico de seu próprio sistema. — O perfume... o compasso do passo... era a Kayla.

​Candy girou a cabeça rapidamente, os olhos castanhos faiscando de preocupação. Afastando-se sutilmente do abraço do irmão, ela olhou na direção do corredor de lojas.

​A poucos metros dali, visível através da vitrine de vidro transparente da Animale, Kayla Drake estava de pé. Ela conversava de forma mansa e despojada com uma vendedora, apontando para um lindo vestido de seda midi, a cor favorita de Rebekah. Kayla mantinha a postura impecável da guerreira de titânio, mas suas mãos, escondidas atrás do corpo, apertavam-se com força para conter a própria trepidação emocional.

​Logan conseguiu estabilizar a respiração, puxando o ar com força, a linha de sua autoridade médica voltando aos poucos ao seu semblante pálido. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão, os olhos escuros fixando-se na vitrine por um longo e gélido segundo. Ele viu a mulher bilionária e dona de si que ela se tornara; mas viu também o vazio da redoma de vidro que ela escolhera para viver.

​— Vamos embora daqui, Candy — Logan determinou, a voz descendo para aquela nota mansa, gélida e pausada que ele usara no almoço de família. Ele ajeitou a gola da camisa polo, recuperando a sua imponência de Médico-Chefe. — Perdemos o apetite. A escala do hospital me espera amanhã cedo.

​— Tem certeza, Log? Você está bem? — Candy perguntou, segurando o braço dele com firmeza protetora.

​— Eu estou ótimo, Candy. O meu passado não tem batimento cardíaco — ele sentenciou, com uma frieza cortante.

​Sem olhar para trás por uma segunda vez, Logan e Candy deram as costas à praça de alimentação e caminharam em direção à saída do shopping. Dentro da loja, Kayla Drake viu o reflexo deles se afastando pelo vidro da vitrine. Ela engoliu em seco, entregou o cartão de crédito bilionário para a vendedora e aceitou que, embora tivesse conquistado a sua alforria da Som Livre e a sua independência total, o preço de sua armadura de metal continuaria sendo o silêncio definitivo do único doutor que um dia soubera curar o seu ritmo mais real.