A Batida do Coração 3: O Acorde final

8 A Areia Branca e a Linha de Saque



​O sol das quatro da tarde dourava a praia particular em Angra dos Reis. O mar, como um espelho esmeralda, quebrava com preguiça na areia branquinha. A rede de vôlei já estava estendida entre dois coqueiros altos, e o som das risadas e dos gritos animados preenchia o ar, chamando a atenção dos vizinhos da casa ao lado, que logo se juntaram ao grupo com suas cadeiras de praia e caixas térmicas. Era uma cena puramente familiar, daquelas que pareciam saídas de um comercial de final de ano, onde o passado e o presente se fundiam em perfeita harmonia.

​Na quadra improvisada de areia, os times haviam se dividido de um jeito explosivo. De um lado, a velha guarda da música e a nova força da medicina: Jace Drake, Lucas Silva, Pedro e, comandando a rede com sua altura imponente, Logan Lâfrer. Logan usava apenas uma bermuda d'água escura; o peito largo e os braços definidos pelos anos de natação e rotina pesada de hospital estavam expostos, brilhando levemente pelo suor e pelo protetor solar.

​Do outro lado, o poder feminino tentava ditar o ritmo. Kayla e Candy lideravam a energia na linha de frente, enquanto Rebekah Laurentis e Lisa Lâfrer davam o suporte na retaguarda, rindo alto e tentando, a todo custo, acompanhar o pique frenético das duas adolescentes de dezessete anos.

​O Primeiro Saque e a Primeira Alfinetada

​Kayla Drake estava em seu elemento. Com os cabelos negros enormes presos em um rabo de cavalo alto e os impressionantes olhos azuis semicerrados por causa da claridade, ela quicava a bola de vôlei contra a areia na linha de saque. O biquíni preto realçava sua pele dourada de sol. Ela ergueu o olhar e mirou diretamente no lado oposto da rede. Seus olhos cruzaram com os de Logan.

​O médico mantinha os braços semidobrados, a postura atenta de quem odiava perder, mesmo que fosse uma partida amistosa de domingo. Após o beijo avassalador e o quase flagrante na cozinha, a eletricidade entre os dois estava no limite.

​— Vai sacar na minha direção, Drake? — Logan provocou alto, a voz grave cruzando a rede, um sorriso arrogante de canto brincando em seus lábios. — Cuidado com o bloqueio. O diagnóstico para o seu time hoje vai ser derrota.

​— Menos teoria e mais prática, Doutor — Kayla rebateu na hora, a voz destilando aquela audácia clássica que fizera o sangue dos Telles famoso. — Vamos ver se as suas mãos são tão boas na quadra quanto são para segurar prontuários.

​Ploft!

​Kayla jogou a bola para o alto e deu um saque viagem forte, rente à rede. A bola caiu exatamente no vão entre Logan e Lucas. Lucas tentou mergulhar na areia, mas a bola bateu no seu braço e foi para fora.

​— Ponto nosso! — Candy gritou, correndo para dar um "high-five" em Kayla.

​Kayla deu um passo até a rede, apoiando a mão na corda superior, olhando de cima para Logan, que se abaixava para recuperar a bola.

​— Acho que o seu reflexo está um pouco lento por causa do plantão, Lâfrer — ela alfinetou, os olhos azuis faiscando de pura diversão vitoriosa. — Quer que eu chame uma ambulância ou você consegue levantar sozinho?

​Logan travou o maxilar, recolhendo a bola. Ele ergueu o corpo devagar, sustentando o olhar dela com uma intensidade escura que fez o estômago de Kayla dar uma reviravolta. — O jogo está apenas no primeiro set, Kayla. Não comemore antes do tempo.

​O Contra-Ataque do Doutor

​A partida seguiu acirrada. Jace Drake corria pela areia como se ainda tivesse vinte anos, levantando as bolas com precisão para Pedro e Lucas, enquanto Rebekah e Lisa faziam milagres no fundo da quadra, rendendo defesas bizarras que faziam os vizinhos na torcida explodirem em gargalhadas.

​— Vai, Bekah! Salva essa bola! — Jace gritava, rindo enquanto a esposa se esticava toda para rebater de manchete um ataque do time adversário.

​— Eu estou de férias, Jace! Não me faz correr desse jeito! — Rebekah respondeu, ajeitando os óculos de sol enquanto passava a bola de volta para o outro lado de forma desajeitada.

​A bola subiu alta na quadra das meninas. Candy fez uma manchete perfeita, levantando a bola na medida para Kayla. Kayla dobrou os joelhos na areia, preparando-se para dar uma cortada violenta. Ela saltou, os cabelos negros voando, mas quando bateu na bola, a silhueta alta de Logan subiu na rede exatamente na sua frente.

​Com um bloqueio cirúrgico e implacável, os braços fortes de Logan interceptaram a bola no ar, mandando-a direto para o chão da quadra de Kayla, sem chance de defesa.

​— Ponto do hospital! — Lucas gritou do fundo, batendo palmas e jogando areia para o alto. — Boa, garoto! É assim que se faz!

​Logan aterrissou suavemente na areia, sacudindo os ombros. Ele caminhou até a rede, ficando a milímetros de Kayla. Ele se inclinou sutilmente para a frente, diminuindo a distância entre os dois, e falou em um tom baixo, que apenas ela pudesse ouvir por causa do barulho da torcida:

​— O seu ataque foi muito previsível, Drake. Falta estrutura no seu ritmo. Você tem muita atitude, mas o meu bloqueio é impenetrável. Vai precisar de mais do que uma guitarra vermelha para passar por mim.

​Kayla sentiu a respiração falhar por um segundo diante da proximidade do peito nu dele, que subia e descia pela atividade física. O cheiro de sândalo e suor era inebriante. Ela cruzou os braços sobre o biquíni, sustentando a provocação.

​— Foi sorte de principiante, Logan. Na próxima, eu quebro os seus dedos — ela respondeu com um sorriso ácido e magnético.

​O Olhar do Baterista e a Trégua na Areia

​A disputa continuou até o entardecer, com alfinetadas a cada ponto marcado. Quando o placar finalmente empatou em vinte a vinte, todos decidiram que era hora de parar antes que alguém realmente precisasse dos serviços médicos de Logan.

​O grupo começou a se dispersar em direção às cadeiras de praia para pegar bebidas geladas. Kayla caminhou até a mesa de plástico perto dos coqueiros, pegando uma garrafa de água mineral. Ela sentia o corpo quente do esforço e os pés cheios de areia.

​Logan aproximou-se logo em seguida, pegando uma lata de refrigerante. Ele parou ao lado dela, os olhos escuros fixos no horizonte onde o sol começava a tocar o mar. Sem que ninguém percebesse, ele estendeu a mão e tocou de leve, com o dorso dos dedos, o braço de Kayla, um toque sutil que fez a pele dela arrepiar instantaneamente.

​— Você jogou bem, garota durona — ele sussurrou, a voz perdendo a frieza cirúrgica, preenchida por aquela mesma densidade que antecedia os beijos deles.

​Kayla olhou de lado, bebendo um gole de água, o sorriso de canto voltando aos seus lábios. — Eu sei. Você também não foi tão mal para um engomado de hospital.

​A poucos metros dali, sentado em uma cadeira de vime com uma lata de cerveja na mão, Jace Drake observava a interação silenciosa dos dois. O baterista experiente viu o toque sutil de Logan, capturou o brilho nos olhos azuis da filha e a tensão latente que unia aqueles dois mundos tão diferentes. Jace deu um gole demorado em sua cerveja, balançando a cabeça com um sorriso sábio e complacente. Ele sabia que o conselho que dera a Logan no baile já havia sido ignorado; o compasso do coração do jovem médico e o da sua filha já estavam irremediavelmente interligados na mesma e perigosa melodia daquela praia.