Notas iniciais
Que ordem é essa que fez Gabriel abandonar a sua casca humana e ir para o céu? Caliel consegue encontrar o esconderijo de Gunter e seus amigos?

A ordem

Gabriel, chamado ao céu com urgência, livrou-se de sua casca humana. Durante séculos o avatar de bom velhinho, foi muito útil, livrando-o de algumas confusões terrenas.

No céu estavam os arcanjos, Miguel e Rafael, o esperando para se apresentarem ao Divino, senhor supremo de todas as coisas. Com sua armadura dourada com detalhes prateados no peito, Gabriel chegou imponente, viril com suas enormes asas branca afiada como espadas celestes. Miguel olhou o irmão de cima a baixo, e o saudou:

― Bem-vindo irmão, nem de longe parece o velho indefeso da Terra!

― Recebi o chamado de nosso pai, sabes o que está acontecendo?

― Não, ainda não sei.

― E você, Rafael?

― Estamos iguais a você, Gabriel.

As portas do santuário se abriram deixando uma luz intensa ofuscar os seus olhos. Aos poucos as visões dos arcanjos se acostumavam com o ambiente.

Passando pela cortina de fogo flamejante, Gabriel diante do trono avistou o livro que pensara ter sentido a energia com os jovens em Stoe. O livro repousava em cima de um pedestal de ouro.

O Criador saiu de trás do trono, antes que falasse os arcanjos ajoelharam-se como obediência, Ele pediu que seus guerreiros levantassem. Indo direto ao assunto disse:

― Vocês sabem que o anjo Samyaza desobedeceu às minhas ordens, levando mais de duzentos anjos a cometer pecados contra os homens. Ele e seus comandados desceram à Terra e tomaram as filhas dos homens como esposas.

― Sim, mestre, nós sabemos, a Terra está tomada pelo sangue derramado dos homens.

― Rafael, você está incumbido de capturar Azazel. Irá lançá-lo na escuridão, com pés e mãos amarradas, ele ficara lá até o dia do julgamento.

― Gabriel, você irá colocar as sementes do pecado uma contra a outra, fazendo que eles se destruam em uma terrível batalha. Os gigantes nefilins não poderão permanecer na face da Terra.

― Miguel, irá procurar o anjo Samyaza e todos que estão mancomunados com ele. Anunciará os crimes que cometeram contra a humanidade. Eles serão presos e acorrentados no submundo até mesmo depois do julgamento final.

― Se não obtivermos êxito, destruirei a Terra sob as águas do dilúvio, tirando-lhe todas as injustiças, opressões e impurezas cometidas.

― Vocês têm algo a me dizer? – Questionou o poderoso.

― Não, não temos.

― Escutem, será mais uma grande batalha, tenham cuidado.

Com suas missões definidas os três arcanjos saíram do santuário.

Havia uma legião de anjos a postos esperando as ordens dos três arcanjos. O Criador designou quinhentos anjos para cada um.

Mas os três desceram à Terra para sondar o inimigo. Miguel disse aos seus irmãos que sabia onde estavam os gigantes nefilins e o anjo Azazel. Ele havia colocado cem anjos em volta do Vale dos Amaldiçoados para vigiar os passos dos inimigos.

Rafael perguntou aos irmãos:

― Será que ele irá destruir as criaturas que tanto ama?

― Ele aparenta estar arrependido dessa criação – disse Miguel.

― E você, Gabriel, o que achas? – perguntou Rafael, impressionado com as palavras de seu pai.

― Pelo tempo que passei entre eles percebi que aquelas criaturas necessitam de algo para seguir. Eles não conhecem a verdade ainda, não sabem o caminho da luz. Creio que o nosso pai irá fazer o que disse, mas salvará boas sementes para recomeçar.

― Por que defendes essas criaturas, Gabriel?

― Interrompeu Miguel.

― Não as defendo. Como são inferiores a nós e o nosso pai as ama, eu cumprirei as suas ordens as protegendo.

A escuridão deu lugar ao amanhecer de luz amena sobre as faces dos amantes. Caliel e Gunter acordaram pedindo a Deus que nunca apagasse de suas lembranças aqueles momentos juntos. Eles ouviram as vozes dos guardas que subiam as escadas da torre, avisando ao sineiro que havia um pequeno problema quando acionavam lá de baixo a corda para tocar o sino. Ali não havia muitas opções para os dois se esconderem, poderiam subir ou descer escalando as paredes. Na torre os sineiros deixavam em cima de uma pequena mesa corda e algumas ferramentas para a manutenção do sino. Caliel pegou a corda de cima da mesa, pediu para Gunter amarrar em um pilar de madeira. Os guardas, ao ver a corda esticada, apoiada no batente, inclinaram-se tentando ver quem poderiam ser os desordeiros que subiram na torre. Os dois desceram até o primeiro vão de acesso, das escadas de cima para baixo. Os guardas, percebendo que os intrusos ainda estavam na torre, desceram as escadas rapidamente, mas os jovens correram em direção ao centro do vale.

Caliel perguntou a Gunter onde ele e os outros estavam escondidos. O jovem pensou por alguns instantes e se aproximou

olhando nos olhos da elfa. Ele a abraçou e deu-lhe um beijo. Quando a soltou disse:

― Não posso trair os meus amigos, mesmo confiando em você.

A elfa ficou triste, mas entendeu a lealdade que existia entre os amigos. Caliel e Gunter se despediram sem combinar novos encontros, para evitar confrontos entre elfos e humanos.

A elfa, incomodada por não saber onde Gunter e os outros estavam escondidos, resolveu segui-lo. Gunter olhou para trás várias vezes, sentindo que alguém o seguia.

As pessoas logo cedo tumultuavam as ruelas, no dia em que se preparavam para retomar as festa no vale. Caliel se escondia entre uma pessoa e outra, as barracas e carroças não impediam os olhos élficos de encontrar o jovem guerreiro.

Gunter deu muitas voltas antes de chegar ao velho casebre, mas não foi o suficiente para despistar Caliel.

Na velha casa Ramifel e os outros descansavam no feno que pegaram de um celeiro próximo. Gunter entrou na ponta dos pés, pensando que evitaria acordá-los. Os jovens, com olhos entreabertos, observavam o caminhar do amigo. Ele atravessou a sala e se sentou ao lado de uma velha lareira. Como se estivesse em transe voltou à noite anterior, onde poderia sentir o toque de Caliel em seu corpo. Snow chamou o amigo por várias vezes sem ter resposta.

Ramifel, ouvindo Snow chamando Gunter, levantou para ver o que estava acontecendo. Ao passar pela velha janela de brechas largas, escorada por madeiras, viu alguém atrás das árvores. Ele voltou para ter certeza da visão, os arbustos se mexeram como se alguém saísse às pressas.

Caliel, temendo que o jovem Gunter descobrisse que o seguiu, saiu de trás das árvores tropeçando em um galho que atravessava o seu caminho.

― Levantem! Levantem, alguém estava nos espionando! – alarmou Ramifel, correndo para apanhar sua espada.

Gunter despertou de seus profundos pensamentos tão rápido quanto as flechas disparadas de seu arco. Enquanto os outros apanhavam suas espadas Ramifel vigiava da janela um possível ataque. Gunter, Snow, Téo e Miolnir saíram pelo fundo do casebre, dividindo-se em duplas. Gunter, acompanhado por Téo, seguiu para a direita, Snow e Miolnir partiram para a esquerda. Após cercar a casa, tendo certeza de que não havia ninguém os espionando, assoviaram avisando os outros que estava tudo limpo. De volta a velha casa os jovens riam de Ramifel, que afirmava ter visto alguém vigiando a casa de atrás das árvores. A brincadeira durou até o estômago de Axel reclamar de fome. Os jovens, concordando com o estômago do amigo, deixaram as espadas novamente escondidas no casebre e saíram à procura de algum lugar nas festivas ruelas de Aurok para tomar café.

Caliel, a caminho da estalagem, foi surpreendida pelos elfos que a procuravam exaustivamente. Bellon a segurou pelo braço com tanta força que seus dedos deixaram marcas roxas na linda pele aveludada da elfa. Sem dizer sequer uma palavra ele a olhou nos olhos. Rauthar tentou interferir, mas foi impedido pelo olhar furioso do elfo. Caliel o enfrentou retribuindo o olhar, de que pareciam sair faíscas. Bellon puxou o corpo da elfa contra o seu, ficaram com as testas coladas por alguns instantes, parecia que ele a beijaria. Caliel tentava empurrá-lo, mas a força do elfo era movida por um sentimento reprimido prestes a explodir como um vulcão em erupção. Bellon só ouvia a voz longínqua de Rauthar pedindo que a soltasse. Rauthar tinha percebido que Caliel estava puxando suavemente a adaga. Bellon demorou, mas ouviu o elfo, ele a empurrou com força fazendo recuar quatro passos. Livre das garras de Bellon, Caliel seguiu para a estalagem, onde o estalajadeiro e seu pequeno filho terminavam de colocar porta nova em seu aposento.

Sorridente, apesar das dores no braço, Caliel afagou o garotinho que não parava de olhar para o seu lindo rosto.

― Desculpe-me, senhorita, estar dentro do seu aposento sem sua permissão, mas precisava colocar uma nova porta – sem graça o estalajadeiro não economizava pedidos de desculpas para a elfa.

― Não se preocupe, senhor, e obrigada pela nova porta – disse a bela acariciando os cabelos do garotinho.

― Vamos, filho, deixe-a descansar. Parece ferida, senhorita.

― Foi só um arranhão, obrigada novamente.

― Vamos, filho, vamos – com uma das mãos nas costas do garoto o estalajadeiro o conduzia pelo corredor.

Caliel, deitada em sua cama, vagou em seus pensamentos mais profundos, a exemplo de Gunter. Ela podia sentir o toque e o cheiro da pele de seu amado.

Bellon e Rauthar enviaram mensagens à cidade sagrada dos elfos relatando a emboscada que sofreram do espectro e seus comandados, levando dois dos seus à morte e sobre os ataques do demônio Súcubus e os mistérios que rondam Aurok, que fazem os anciões se trancarem em reuniões secretas. De todos os acontecimentos o rei Turon exigiu ser informado sem omissão de detalhes.

Com os pensamentos fervilhando e o sangue élfico aponto de saltar-lhe das veias, eles retomaram a procura de pistas que explicassem os acontecimentos misteriosos em Aurok.

Os produtores estavam contentes pela venda de toda a colheita aos mercadores. O penúltimo dia festivo estava mais animado que o primeiro, desde cedo se ouvia música, o povo dançava ao lado dos feixes de madeiras para montar a grande fogueira. Os jovens entraram na taberna, comeram e beberam tranquilamente, parecia que os guardas estavam aproveitando a festa e não estavam tão preocupados em capturá-los.

Askell e Baug passaram apressados perto da taberna. Gunter notou que os servos que os seguiam carregavam um baú médio de cor vermelha. Curioso em saber para onde os quatros homens iriam, resolveu segui-los. Téo e Snow acompanharam Gunter na perseguição. Os outros jovens preferiram ficar nas ruelas festivas cortejando as donzelas de Aurok.

Os anciões estavam assustados, sempre atentos, olhando ao redor. Baug gesticulou para os servos andarem mais rápido. Obedientes eles tomaram a frente dos anciões segurando o pesado baú vermelho de alças douradas. Magros, com aparência debilitada, os servos forçados a andarem cada vez mais rápido tropeçaram nas próprias pernas. Os tropeços os levaram a apoiarem o misterioso baú com força ao chão. Não podendo castigá-los ou fazer movimentos espalhafatosos para não chamarem as atenções dos moradores, os anciões beliscavam-lhes o couro de suas costelas como castigo. Os jovens indignados e cada vez mais curiosos com as atitudes dos anciões planejaram ir até o fim para saber o que estava dentro do baú. Os quatro homens entraram em uma ruela sem saída atrás da sala do conselho. Eles caminharam até o fim, parando em frente a uma casa feita de vários troncos de pinheiro, onde uma chaminé soltava fumaça branca ao vento. O cheiro de flores silvestres exalava doces lembranças para os jovens de suas casas em Artics. A porta de madeira espessa abriu até o canto, favorecendo os servos que passaram lado a lado. Os anciões olharam novamente ao redor

confirmando que a chegada a casa foi cumprida com segurança. Baug respirou profundamente aliviado fechando a porta.

O jovem Gunter correu pulando o pequeno cercado da frente da casa. Caminhando como um felino aproximou-se da porta, encostando o ombro forçando-a devagar. A porta resistente não cedeu um milímetro. Ele tentou ver pelas frestas da janela do outro lado, se havia algum movimento. Distraído com os olhos colados na janela ele não percebeu que a porta se abria. Téo e Snow, apavorados com a situação, acenavam do outro lado, enquanto a abertura na porta aumentava. Gunter, ainda aperfeiçoando, os seus poderes, não imaginava que na escuridão da casa ele também estava sendo observado, até que outros olhos encontraram os seus frente a frente na fresta da janela. O susto o fez cair nos arbusto perto do cercado. Os servos que saíam na porta correram até o local do barulho, mas o jovem ágil se escondeu. Téo e Snow mordiam as mãos tentando segurar os risos que teimavam em escapar. Mal podiam se olhar que as bochechas levantavam, as lágrimas brotavam nos cantos dos olhos, enquanto os lábios comprimiam-se desesperadamente evitando que os dentes se mostrassem acompanhados de gargalhadas.

Os servos foram embora sem encontrar o motivo do barulho. Gunter, cheio de folhas e dores pelo, corpo saiu de trás da pilha de lenha encostada no tronco da árvore.

Ele caminhava olhando fixo para a janela, imaginando de quem seriam aqueles olhos que lhe causaram medo. Do outro lado os

dois riam que dava gosto do pobre coitado tirando folha dos cabelos. Deixando o plano de ir atrás do baú até o fim, eles voltaram para taberna à procura dos outros. Por todo o caminho Gunter era a piada, ele ria com os amigos, mas o seu pensamento pedia que voltasse na casa. Disse aos amigos que iria voltar para o esconderijo devido às dores que sentia no braço. Téo ofereceu companhia, Gunter agradecido recusou.

― Téo, fique aqui com os outros, divirta-se, é o penúltimo dia de festa. Concordando com o amigo, Téo viu-o sumir na multidão.

Na estalagem Caliel pensava em todos os perigos que passara desde que saiu da cidade sagrada dos Elfos. De repente, a elfa saltou da cama ao se lembrar de que precisava encontrar Gunter para perguntar-lhe sobre as bolsas de couro que ele e os outros jovens carregavam. Ela desceu as escadas correndo, quase derrubando as canecas com vinho das mãos do estalajadeiro, que as equilibrava levando para os mercadores. As ruelas estavam tão cheias que a elfa não conseguia andar sem esbarrar em alguém. Vendo as habilidades dos lançadores de facas que apresentavam um de seus números no meio da praça estavam os oito jovens ao lado de três donzelas moradoras de Aurok. Caliel imaginou que fossem Gunter e seus amigos. Ela se aproximou do grupo, que contava os seus feitos tentando impressionar as jovens. Não demorou muito para a elfa perceber que o jovem de seu interesse não estava ali. Caminhando

rápido, às vezes correndo, ela estava agora a duzentos metros da velha casa. Caliel sabia que Gunter ficaria bravo por ela tê-lo seguido até o esconderijo. Em seus pensamentos ela criou mil desculpas para convencê-lo.

O local não parecia o mesmo que ela vira de longe noutro dia, perto da casa era bem pior. As madeiras do assoalho, castigadas pelo tempo, rangiam ao pisar. Gunter, empunhando a espada forjada pelo anjo, imaginava que fossem os guardas que o seguiram. Escolhendo lugar para pisar no frágil assoalho a elfa tentaria surpreendê-lo. Gunter a viu atravessar a sala, não acreditando olhou por duas vezes. A surpresa foi como jogá-lo dentro de um rio de águas congelantes, não por vê-la, mas sim por estar esperando um inimigo. A sua adrenalina estava tão alta que o sangue fervilhava nas grossas veias de seu punho.

Gunter apareceu em sua frente sorrindo.

― O que está fazendo aqui? Os outros não vão gostar nem um pouco de te ver.

A esperta elfa o calou com um beijo e assim que os lábios se afastaram ele perguntou novamente.

― O que está fazendo aqui?

― Eu precisava refrescar a minha cabeça, então resolvi andar por estes lados. Não esperava te encontrar, mas, já que o encontrei, preciso fazer uma pergunta.

― Fique à vontade, se eu souber a resposta...

― As bolsas de couro que carregam, você sabe o que está dentro delas?

― Como sabe das bolsas?

― Por favor, preciso que me responda, Gunter, é importante.

― Vou perguntar só mais uma vez, como sabe das bolsas, Caliel?

― Todos sabem que saíram de Artics carregando dez bolsas de couro. Alguns dizem que estão levando o Livro Sagrado dentro de uma delas para o Vale dos Magos. O espectro, junto com os demônios, está à procura de vocês. Eles estão lá fora ao redor de Aurok, não sei o que os impede de entrar. Você precisa me ouvir, Gunter.

― Calma, Caliel! Nós não sabemos o que tem dentro das bolsas. E quanto aos demônios, eles já nos atacaram quando estávamos próximo de Aurok.

A elfa contou sobre a emboscada que sofreu do espectro no comando dos demônios. Gunter sentou no monte de feno, encostando-se à parede. Aconchegando Caliel, deitou a cabeça nas pernas do jovem, deixando os longos cabelos prateados arrastar no assoalho. Gunter, acariciando a pele macia de Caliel, sentiu vontade de contar o ocorrido pela manhã. Com os olhos vidrados no rosto de Gunter e os ouvidos atentos, ela não perdia

sequer uma palavra ou uma expressão do jovem. Depois de muitas histórias os dois adormeceram na cama de feno improvisada no chão.

O arcanjo Rafael seguiu para Arkar, o reino dos homens, na companhia de Miguel. Preocupado com a segurança de Rafael, Miguel lhe ensinou como fazer para a energia celeste se tornar imperceptível até mesmo para os arcanjos. Enquanto isso, Gabriel partiu para o Vale dos Amaldiçoados juntando-se aos cem anjos que vigiavam a fortaleza protegida pelos gigantes nefilins.

No reino dos homens a energia impura de azazel emanava do castelo do rei Urok. O jovem rei era um sádico que adorava sacrificar ladrões, mendigos e animais. Com a chegada de azazel o castelo transformou-se em um antro de perversidade. A iniquidade de ambos e de seus cúmplices, fez de Arkar um reino indesejado, até os súditos fieis ao velho rei morto começaram a fugir, abandonando os seus lares.

Do alto Miguel e Rafael analisavam o castelo, gravando em suas mentes as possíveis rotas de fuga.

― Rafael, você quer minha ajuda? – perguntou Miguel, temendo o pior.

― Não será necessário, além do mais tens que encontrar Samyaza.

― Posso encontrá-lo depois. Há tempos não sinto a energia dele.

― Vá, Miguel, não se preocupe.

― Lembre-se, Azazel nunca está sozinho

― Miguel o alertou mais uma vez.

Miguel deixou Rafael em uma rua escura, lugar apreciado pelos mendigos. Fora dali o dia estava claro. Os camponeses com suas carroças seguiam em fila na estreita estrada em direção ao castelo.

Rafael em sua armadura celeste atraiu os olhares curiosos e amedrontados dos camponeses. Desde que chegara a Arkar o arcanjo era seguido de perto por cinco anjos caídos que protegiam Azazel. Ele andava como se não estivesse vendo os transgressores. Os ensinamentos dos segredos dos céus por meio de Azazel interferiram na ordem natural do desenvolvimento dos humanos. Em Arkar o povo estava mais evoluído que em outros lugares, mas muitos fugiam da tirania de seu rei.

Rafael, na tentativa de despistar seus seguidores, entrou em um casebre de pouca luz. Dentro da casa parecia que houvera uma luta brutal, todos os móveis estavam quebrados, manchas de sangue por todos os cantos. Durante o trajeto Rafael praticava o segredo que Miguel lhe revelara para evitar que outros celestes sentissem sua energia. Um dos caídos entrou no casebre para procurá-lo. Com sua energia celeste camuflada, Rafael esperava o traidor. O caído nem imaginava que iria enfrentar um poderoso arcanjo. Ele caminhava suavemente na expectativa de surpreender o celeste. Rafael estava do alto como uma águia vendo todos os movimentos do anjo. O arcanjo com suas afiadas asas lançou um golpe sobre o infeliz, que conseguiu se esquivar. No chão o anjo viu a luz natural se esvair, as asas abertas

do arcanjo não deixava que a luz entrasse. O caído abriu as suas asas, partindo para o ataque. Ele sabia que iria encontrar a sua ascendência pelas mãos de Rafael. O caído se assustava ao ver Rafael na velocidade da luz defendendo os seus ataques. Com o anjo dominado, o arcanjo atravessou-lhe o peito com sua espada. Quando a arrancou do peito do caído uma luz celeste brilhou intensamente. No peito da legião angelical está concentrada toda a sua essência, a poderosa aura e a energia sagrada. O anjo se debatia de dor ao chão e Rafael ajoelhou-se diante do moribundo e disse:

― Está arrependido de suas transgressões?

― Sim, de todas as vezes que desobedeci ao Criador! – confessou o caído, escorrendo de sua boca um refluxo de sangue.

Rafael com um golpe de misericórdia arrancou-lhe o coração. A forte luz celestial subiu ao céu.

Os outros quatros caídos viram o clarão da luz celestial e imediatamente foram até o casebre, mas o arcanjo abandonou o lugar seguindo em direção à energia de Azazel.

Era questão de tempo até o empenhado arcanjo encontra Azazel, que viu a luz celeste ascender. Miguel, que estava em Arkar, também viu a ascendência, ele não iria embora abandonando Rafael no antro do traiçoeiro Azazel.

Rafael se aproximou do castelo e viu que lá havia mais sentinelas protegendo o seu alvo. Todas aquelas sentinelas seriam fáceis de destruir, mas Azazel fugiria enquanto o combate seria

travado. Rafael se escondeu entre os arbustos perto da ponte que dá acesso ao castelo. O dia se tornava noite e nada de as sentinelas saírem dos postos. Embaixo da ponte o arcanjo viu duas sentinelas entrarem por uma passagem que possivelmente o levaria até Azazel. Sob a ponte ele voou próximo do teto, evitando alarde. Rafael não sabia onde estava o mecanismo que acionava a abertura da passagem. Enquanto tateava a parede a passagem se abriu e da escuridão emergiu um ser com capuz preto, para sua sorte era um humano. Ele não poderia matá-lo, pois iria contra a lei do Criador. Rafael deu um golpe na cabeça do homem, deixando-o desacordado. A passagem o levou à gigantesca estrutura do castelo do rei Urok. Com o homem desacordado em seu ombro, era necessário encontrar um local seguro para deixá-lo. No sombrio e frio calabouço do castelo onde o arcanjo estava, ouviam-se murmúrios de dores dos prisioneiros. O cheiro da morte e a escuridão incomodavam o arcanjo. Mais adiante, passando um dos pilares do castelo, a escadaria iluminada por tochas levava até um dos grandes salões. Lá havia cinco passagens e no centro do salão uma grande mesa com vários assentos ao redor, nas paredes símbolos de defesa contra demônios.

Rafael entrou na passagem do seu lado direito, o corredor largo com o teto preto de fumaça liberada pelas tochas que o iluminavam. Ele continuou seguindo pelo corredor que parecia não ter fim. Duas portas surgiram, uma à direita e outra à esquerda. Cuidadosamente o arcanjo abriu a da direita, dentro havia espadas,

lanças, elmos e armaduras. Preocupado com a segurança do humano ele o deixou na sala. A outra à sua esquerda estava vazia.

Ao sair da sala o arcanjo olhou para trás e sentiu uma energia tomada pela escuridão, cheia de amargura, com desejo de vingança. As tochas que iluminavam os caminhos por onde passou estavam se apagando. Ele apressou os passos, as tochas se apagavam mais rapidamente, correr para encontrar a luz era a única solução. Uma pequena porta no fim do corredor deixava entrar o brilho da lua timidamente pelas brechas. A porta estava trancada, Rafael forçou, forçou... Arrombar a porta era o que lhe restava.

A passagem o levou à torre de vigia. Um dos caídos que a protegia, ouvindo o barulho, desceu pelas escadas empunhando uma espada. Ele aproximou da porta caída ao chão olhando dentro do escuro corredor quando o arcanjo saiu debaixo da escada. O caído que estava no topo desceu com um voo rasante atacando o arcanjo, que num reflexo saltou rasgando as costas do caído com um golpe. A poderosa espada do celestial queimou-lhe as asas. O caído sentiu o sangue escorrer pelas suas costas, em agonia esperava o golpe fatal. Com a pouca luz o outro traidor não tinha percebido que iria enfrentar um arcanjo. Partiu com toda fúria para vingar o amigo, Rafael se esquivou de todos os golpes previsíveis aos olhos de um poderoso arcanjo. Perto o bastante para olhar nos olhos de seu oponente, o caído viu o brilho azulado, reconhecendo o arcanjo, mas era tarde demais para fugir. Rafael abriu suas asas brancas afiadas

em volta do caído e com a espada rasgou lhe o peito. Com o grave ferimento ardendo como brasa o anjo pediu clemência. Rafael, segurando-o pela couraça do peitoral da armadura, perguntou:

― Onde está Azazel?

Sufocando com o próprio sangue, o caído mexia os lábios lentamente:

― Ele está no salão real com Urok e o...!

― Quem está com eles, diga!

O infeliz se apagou de tanta dor. Rafael não poderia destruí-los arrancando-lhes os corações, a energia celeste ao ascender denunciaria sua presença. Ele amarrou os dois levando-os para cima da torre. Lá de cima Rafael observou que nas torres de flanqueio, nos portões, na torre de homenagens e nas muralhas haviam dois a três caídos protegendo o castelo.

Para entrar nas dependências do castelo, ele teria que atravessar o pátio sem que os anjos notassem ou voltar pelo corredor escuro e descobrir qual das quatro passagens que restavam levavam para dentro do castelo. Destemido e cauteloso o arcanjo preferiu voltar para evitar um confronto prematuro. Com uma tocha ele caminhava pelo corredor. Ventos ameaçavam apagar a tocha. O arcanjo não queria acender as que estavam presas à parede, mas o vento não lhe deixava outra escolha. Diante das passagens que restavam ele escolheu a terceira, partindo da que saiu. Ela estava com pegadas recentes nas duas direções. Nas paredes também havia

símbolos contra demônios. Rafael soltou a tocha na entrada, a passagem tinha uma sutil inclinação que levava até a porta de madeira espessa com outros símbolos de proteção. Ele passou os dedos sobre o contorno dos símbolos, chegando à conclusão de que houve o sacrifício de um celeste para usar o sangue nas figuras da porta e das paredes.

O arcanjo empurrou a porta, que abriu sem ao menos ranger as dobradiças. Um salão de piso brilhante, grandes janelas com cortinas penduradas do teto ao chão. Rafael foi até a janela para se localizar. Pelo que avistou do alto da torre, estava próximo da entrada principal do castelo, o salão real não poderia estar muito longe. Vozes e risos vinham da sala ao lado, a energia que sentira era dos anjos sentinelas.

Na torre os caídos feridos por Rafael foram encontrados, os traidores sabiam que estavam sob ataque de um arcanjo. Avisados e preparados para contra-atacar os caídos procuravam o arcanjo silenciosamente. Azazel, Urok e seu convidado estavam tranquilos no salão principal sem imaginar o que estava acontecendo no castelo.

Três caídos entraram pela passagem secreta embaixo da ponte, outros quatros desceram pela passagem da torre. Rafael sentiu as energias dos anjos ficando cada vez mais fortes.

Os sete anjos se encontraram no salão de seis passagens, a tocha que o arcanjo deixou na entrada indicou onde ele havia entrado. A passagem foi tomada pela correria dos anjos. Rafael

entrou na sala ao lado, os risos pararam no silêncio profundo antes do choque celestial. Cercado por dez caídos o arcanjo travou uma luta brutal por sua vida. A espada do arcanjo dilacerava os caídos um a um, usando o máximo de sua energia celestial. Era inevitável Azazel e os outros não sentirem tal poder.

O arcanjo arrancou-lhes os corações e os cadáveres se desintegraram liberando a energia celestial. Azazel e o misterioso convidado fugiram sem deixar pistas. Urok, aproveitando que o arcanjo não poderia lhe fazer mal, recusou-se a falar quem era o convidado. Rafael voltou à torre para arrancar os corações dos dois caídos que deixara ferido. Miguel assistiu de longe a seu irmão lutando bravamente.

Notas finais
Não fique com receio de expressar sua opinião, ela é muito importante para o meu aprendizado. Grato e espero que gostem. P.C.Ventura
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.