A Batalha da Colina de Sangue
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Bom, boa leitura!
Os seis centauros caminhavam na escuridão, apenas a Lua a guiá-los em seu objetivo e clarear seu caminho. Vestidos de armaduras, eles silenciosamente seguiam na direção das três cabanas feitas de pele armadas embaixo de uma enorme árvore, cujas flores de cor amarela caíam e coloriam tudo o que estivesse ao seu alcance. A líder da missão ia à frente, uma espada em cada mão e os lábios pálidos apertados de concentração. Não podia falhar. O destino de tudo o que conhecia estava em suas mãos.
O grupo chegou ao acampamento. As cinzas de uma fogueira denunciavam que os ocupantes das cabanas já deviam estar dormindo há muito, então os centauros começaram a por seu plano em prática. Dividiram-se em duplas e cada um rumou para uma cabana, tendo em mente o objetivo de reaver seu diamante tomado pelas fadas. A jovem centauro que era a líder, de nome Kisri e cujos cabelos negros pareciam ter sido beijados pela Lua por causa das manchas brancas que o marcavam, permaneceu vigiando na entrada da habitação da extrema direita enquanto a centauro de cabelos cacheados e mente brilhante adentrava a cabana. Na cabana do meio, quem ficava de guarda era o centauro de ombros largos e sorriso animado e, na da extrema esquerda, a centauro mais velha e alerta daquele grupo. Kisri guardou uma de suas espadas, que tinham sido presente de um de seus pais quando completara vinte e um ciclos. Ouviu o leve assobio que sua dupla emitiu para avisar-lhe que todos os três Filhos de Eloa estavam dormindo naquela cabana e que estava começando a procurar o diamante que poderia lhes destruir. Fez um sinal de ‘tudo certo’ para o homem centauro, que lhe acenou de volta. Ele também tinha ouvido o assobio de sua respectiva dupla, a centauro de olhos verdes e maneiras doces que o tinha conquistado desde a primeira conversa dos dois. Ambos olharam então para a sentinela da última cabana, que olhava intrigada para o interior dela. Aquilo deixou Kisri preocupada.
Ergueu os ombros para a centauro, abrindo a mão que não segurava a espada e franzindo a testa como quem pergunta “o que aconteceu?” enquanto sentia seu coração descompassar levemente. A mais velha fez um sinal para que a líder esperasse e pôs a cabeça para dentro da cabana, certamente tentando ver o que estava errado. Ao mesmo tempo, o sentinela da cabana do meio cedeu espaço para sua dupla sair dela carregando com dificuldade um enorme diamante vermelho em seus braços, um sorriso no rosto.
— Encontrei! — sussurrou vitoriosa Maire, enquanto Ensio gentilmente tirava o diamante de suas mãos e colocava na bolsa que ela carregava em seu dorso castanho. Kisri fez um sinal de positivo e assobiou baixinho para dentro da cabana, chamando sua dupla de volta. Ilta logo saiu, sorrindo para a centauro que encontrara a pedra preciosa antes de notar o olhar de preocupação da líder.
— O que foi? — sussurrou, ao que Kisri apenas apontou para a última cabana. A centauro mais velha, Päive, discutia em voz baixa com sua dupla. A viu revirar os olhos e abrir espaço para um rapaz centauro de desgrenhados cabelos loiros sair da cabana mordendo o lábio inferior com nervosismo. Ele galopou a curta distância até as duas e se dirigiu à líder:
— Há apenas duas fadas dormindo naquela cabana.
— Estariam os guardas de Hillevi errados sobre o número de Filhos de Eloa? — perguntou Kisri a Maire, que se aproximara junto com Ensio e Päive. A centauro negou com a cabeça e abriu a boca para falar, mas uma voz masculina com cadenciado sotaque respondeu na Língua de Todos os Povos:
— Não, não estavam.
Os centauros viraram-se, cada qual sacando suas armas, para dar de cara com um esguio rapaz de cabelos negros que tinha chamas alaranjadas saindo da palma de sua mão direita. Elas iluminavam o rosto dele, que continha uma expressão severa, e as listras de tigre estampadas em sua pele o denunciavam como um Filho de Eloa. E o do tipo mais perigoso: os jiit, homens e mulheres que viviam isolados nos Campos de Soláris e adquiriam características animais.
— Vocês vieram atrás do diamante. — ele afirmou, avaliando cada oponente com seu agudo olhar cor de âmbar. — Conhecem os termos do Tratado. Por que vieram?
— Se falássemos, você não iria acreditar. — Kisri replicou, também usando a Língua de Todos os Povos. — Deixe-nos ir embora sem alarmar seus companheiros e serás recompensado.
— E deixá-los levar o diamante, que com certeza já encontraram? Só por cima do meu cadáver. — o Filho de Eloa replicou, antes de respirar fundo e gritar algo na língua harmoniosa das fadas. Os centauros moveram-se como um só para entrar na formação de batalha, formando um círculo com suas ancas e, desse modo, protegendo a todos. Ouviu-se movimento nas cabanas e, em meros segundos, oito fadas em vestes de dormir encaravam o grupo de centauros; uns traziam chamas nas mãos, outros produziam orbes de poder que emanavam um estranho brilho purpúreo e outros ainda detinham faíscas amarelas que poderiam ser confundidas com raios solares. Seus olhares, embora de cores diferentes, tinham um mesmo sentimento: fúria e traição.
Kisri ouviu uma sequência de estalos de cascos. Era Maire, usando a linguagem de batalha de seu povo para indagar sobre o que eles fariam a seguir. A mente da líder pensava acelerada sobre que fazer naquela situação, seus olhos castanhos esquadrinhando a escuridão para encontrar um modo de sair dali sem precisar lutar. Não encontrou.
***
Cinco dias antes
Cascos pisoteavam a grama recém-cortada, em uma corrida desenfreada colina abaixo. As risadas ecoavam, uma masculina e uma feminina, chegando até a praia de areia branca onde acabaria a competição. Com alguns metros de atraso, corria também outra voz feminina em um murmúrio raivoso.
— Eu honestamente não sei por que ainda ando atrás desses dois idiotas. — ela dizia consigo mesma, irritada — Eles são bem grandinhos, não deveriam precisar de alguém responsável...
— Ganhei, Py! De novo! — gritou a outra voz feminina, levantando os cascos dianteiros em comemoração. Sua dona, a jovem centauro de cabelos negros beijados pela Lua, ria do irmão derrotado. — Qual sua desculpa dessa vez? — indagou-lhe, sarcástica.
— Muito bem, muito bem. Você é rápida, Kisri. Grande coisa. — foi a centauro que chegou atrasada quem comentou, revirando os olhos — Agora vamos voltar. Temos que acabar de preparar sua festa.
O único ser do sexo masculino presente replicou, pisoteando o chão com suas patas dianteiras em sinal de frustração:
— Pare de ser chata, Lumi. Temos muito tempo antes do sol se por e a festa começar.
— Por que vocês sempre deixam tudo para o último momento? — Lumi perguntou, imitando o gesto de irritação do irmão mais novo. — Por que não podem ser um pouquinho mais responsáveis? Todo ciclo é a mesma história de apostar mil corridas e deixar tudo... O que está fazendo, Kisri?! — interrompeu sua reclamação para gritar, já que sua irmã disparara para longe, a areia fofa dificultando um pouco seus movimentos.
Kisri tinha ouvido um som conhecido, então correu até alguns arbustos e abaixou-se para observar o pequeno boneco de barro preso em alguns galhos. Ele emitia o agudo e familiar grito de que possuía um recado enquanto tentava se soltar, contorcendo-se. Ela o pegou, livrando-o do que o restringia, e ergueu-se ao mesmo tempo em que seus irmãos acabaram de alcançar-lhe. Pyry, o irmão do meio, perguntou ao boneco em tom formal:
— Que mensagem nossa mãe tem para nós, rik?
— “Meus caros, hoje me foi dada uma notícia preocupante. Preciso que todos os centauros com mais de vinte e um ciclos completados compareçam à Praça Central o mais rapidamente possível para maiores detalhes.” — o ser de barro recitou em uma voz feminina cansada, que os três centauros sabiam pertencer à líder da cidade de Noora, Lady Leena, e convenientemente mãe deles.
— Bom, devíamos ir. Parece sério. — Kisri comentou, atirando o pequeno rik no chão e quebrando-o com uma pisada.
— E desde quando você é escolhida para missões? — perguntou-lhe Lumi, erguendo uma fina sobrancelha. Seus cabelos muito claros estavam soltos como os da irmã, a brisa marítima os despenteando.
— Desde hoje. Hoje eu completo vinte e um ciclos, possuo tanto direito de participar quanto vocês. — ela replicou, cruzando os braços e batendo com o casco dianteiro esquerdo no chão.
— Mas Kisri, nenhum centauro é escolhido para as missões logo que completa vinte e um. Passa-se, geralmente, uma ou duas primaveras...
— Não interessa, Lumi. Vamos logo. — interrompeu Pyry, esticando as patas dianteiras antes de sair em disparada para subir a mesma colina de onde veio, dirigindo-se à cidade. Kisri sorriu, correndo atrás do irmão, e a mais velha suspirou irritada antes de segui-los.
Os três voltaram a subir a colina e seguiram para a cidade, galopando por entre pomares e plantações das fazendas que ficavam nos arredores. Outros centauros juntaram-se a eles em sua corrida, sem dúvida também tendo recebido o recado por meio dos bonecos de barro que Lady Leena confeccionava e encantava para levar mensagens e/ou tomar conta dos mais novos. Eles não tinham vida própria, então, quando perdiam a utilidade, eram facilmente esmagados.
Foi com a respiração entrecortada pelo esforço da corrida que eles chegaram à Praça Central, onde pelo menos metade dos centauros que viviam na cidade de Noora já conversava em um tom baixo carregado de apreensão e curiosidade. A líder daquele lugar já se encontrava em seu habitual lugar de destaque, um tipo de palco circular coberto por uma estrutura abobada e com um grande espelho móvel posicionado atrás dela, parecendo profundamente imersa em seus pensamentos. Seus dois companheiros trotavam por entre os grupos de centauros, rapidamente calculando quantos faltavam. Os três se aproximaram quem estava mais perto, um centauro de torso nu e cabelos negros de nome Arvo.
— O que está acontecendo, pai? — Lumi indagou, recebendo um olhar sério do mais velho.
— Sua mãe não nos deu permissão de divulgar antes que ela o fizesse, Lumi. O que posso dizer é que esta não é uma das missões às quais estamos acostumados. — ele olhou na direção da companheira e bateu o casco dianteiro esquerdo no chão, inquieto — O rosto dela está mais sombrio a cada momento. Temo termos que adiar sua festa, Kisri. Sinto muito.
— Tudo bem, pai. — ela respondeu, dando de ombros — Mas não serei eu quem vai dar essa notícia a Sini. Ela estava muito animada.
— Pode deixar que eu lidarei com a fúria de sua irmãzinha. — ele disse com um pequeno sorriso, antes de dar a conversa por encerrada e voltar a sua tarefa de contar centauros.
Os três irmãos permaneceram em um silêncio tenso, cada qual com seus pensamentos, enquanto a Praça Central continuava a lotar-se de centauros prontos a defender sua cidade e sua causa. Sempre tinha sido assim entre eles. As missões valem ouro; a reputação e a honra, mais que diamantes.
Talvez seres que vivessem fora da cidade de Noora temessem que não houvesse espaço suficiente na praça circular para todos os centauros, pelo menos cinco mil, mas ela tinha sido projetada justamente para comportar esse número de criaturas. Uma pista de corrida circundava o lugar, enquanto um lago marcava o centro juntamente com o coreto onde Lady Leena sempre se posicionava. Árvores espaçadas e de copas grandes protegiam os centauros do sol do início da tarde, dividindo-os em grupos para abrigar-se. Era desse jeito que Arvo e Vieno, o outro companheiro da líder da cidade, faziam, mentalmente separando os grupos que se abrigavam antes de contá-los.
Algum tempo depois, os dois voltaram-se para o lugar onde sua companheira estava. Assentiram para ela, sinalizando que todos estavam ali, e a líder deu um passo à frente. Ergueu uma mão e subitamente todas as conversas cessaram para que ela pudesse falar.
— Meus caros, eu os reuni aqui hoje para anunciar a missão que, de um jeito ou de outro, mudará completamente o rumo de nossas vidas. Esta não é uma simples aventura, é muito maior que isso. — hesitou, nervosamente passando a mão pelos cabelos negros como a noite antes de tirá-los de cima de seu torço nu — Três dias atrás, um grupo composto por nove fadas chegou a nossos irmãos em Hillevi. Vocês bem sabem de nosso acordo com os Filhos de Eloa: eles podem escavar nossas minas, enquanto nós podemos derrubar as árvores de sua floresta. Ambos prestamos contas da matéria que pegamos em terras alheias, e tem sido desse jeito desde os nossos ancestrais. Chamamos este acordo de Tratado de Extração Mútua. Mas isso está prestes a mudar.
Sussurros temerosos irromperam. Kisri bateu com os cascos dianteiros no solo, inquieta. Aquilo parecia muito sério.
— O grupo de Filhos de Eloa escavou um graúdo diamante vermelho das minas de Hillevi. Ele é maior que a cabeça de um de nossos potros, como diamantes têm sido em nossas terras. Vermelho é uma das cores mais raras de se encontrar e por isso o valor daquele diamante é inestimável, mas a líder daquela cidade decidiu deixar as fadas o levassem. E, com isso, cometeu um grande erro. — os flancos de sua parte cavalo tremeram levemente, ao que Arvo colocou uma das mãos sobre, tentando passar confiança para a companheira. — O fragmento do Espelho do Infinito que está em seu poder, dado pela Lua e pelo Sol como um presente para o nosso povo, alertou-os da destruição que aquele diamante está prestes a causar assim que o grupo deixou a cidade. Imagens de morte, sangue e extermínio se refletiram no Espelho, juntamente com o aniquilamento de todas as Cinco Raças. Caso aquele diamante seja lapidado, toda esta destruição cairá sobre nós. E não sobrará ninguém.
— Inclusive os dragões? — Pyry sussurrou mais para si que para qualquer outro, chocado demais. Parecia que nada poderia matar aqueles seres enormes que viviam em uma civilização remota no Arquipélago de Toldot, há muitas milhas de distância de onde moravam os centauros.
— Desse modo, é nossa responsabilidade recuperar o diamante, antes que os Filhos de Eloa o alterem. Mesmo que isso signifique o fim de nossos laços comerciais e, consequentemente, a guerra. — Lady Leena fez mais uma pausa, em que os sussurros agitados da multidão aumentaram para brados encorajados de batalha ou gritos assustados. Ela deixou os centauros se manifestarem por alguns instantes antes de erguer novamente a mão, fazendo todos se calarem pelo respeito que tinham pela líder. — O fragmento do Espelho do Infinito de Hillevi nos mostrou o desejo da Lua e do Sol. A missão para recuperar o diamante deverá conter seis membros, um de cada cidade, que se dirigirão para Hillevi, por ser a cidade da saída das montanhas, para reunir-se. Mas a liderança desta missão deverá vir daqui, de Noora.
Mais brados irromperam da multidão, aos quais Pyry e Kisri se juntaram. Lumi apenas encarou a mãe com um sorriso motivado. Por mais preocupantes que fossem as circunstâncias, missões sempre seriam motivo de honra para os centauros.
Lady Leena novamente acalmou seu povo com um gesto, para então tirar de seu pescoço um cordão onde um pingente de formato estranho sacudia-se. O fragmento do Espelho do Infinito que estava em seu poder emitia um brilho opaco e suas bordas irregulares tinham sido emolduradas em ouro. Ela cuidadosamente pôs o fragmento em sua palma e sussurrou algumas palavras em voz baixa. Então olhou para o espelho maior atrás de si, que começara a emitir um brilho prateado, saindo da frente dele para que o resto da população pudesse ver.
— É a primeira vez que vejo o fragmento do Espelho do Infinito transmitindo algo. — Kisri comentou em voz baixa, animada. Pyry riu antes de socar de leve um dos flancos da irmã, desbotado de branco como seu cabelo. Ela revidou o cumprimento empurrando-o com o quadril, rindo ao vê-lo desequilibrar-se. Um olhar gélido de Lumi fez os dois irmãos pararem com as brincadeiras, mas não tirou os sorrisos animados de seus rostos.
O brilho prateado do espelho aumentou, até que uma cena se formou nele. Cascos pisoteavam uma grama coberta de branco, seu (ou sua) dono correndo desesperadamente por ela. A cena foi ampliada para mostrar os flancos do centauro, em tom cinzento com uma mistura incrível de manchas brancas e negras. Atrás de si árvores, flores, as gramíneas que formavam pastagens, tudo pintado de branco.
— Geada. — Lumi murmurou, olhando para a irmã mais nova, que estava demasiadamente admirada com tais imagens para raciocinar. Seu olhar passou pelos flancos da irmã, as manchas brancas e negras exatamente iguais aos da imagem transmitida no espelho interligado ao Espelho do Infinito.
Pyry voltou-se para a irmã mais velha, compreendendo o olhar que ela dava a Kisri.
— O nome dela significa ‘geada’. — comentou em voz baixa, ao que a outra assentiu. Ela apertou os lábios, preocupada, enquanto ele abria um sorriso. Ambos olharam em volta, percebendo o resto da cidade começando a entender o que as imagens que o espelho mostrava e encarando a irmã mais nova dos dois. Kisri, a doce e implacável Kisri, seria a líder da missão que poderia destruir ou salvar o mundo inteiro.
***
Aquelas armaduras eram à prova de magia de elementos e as espadas eram encantadas, notou o rapaz enquanto lançava uma esfera de luz na direção da centauro com cabelos manchados de branco e ela prontamente a desviava com uma de suas lâminas. Aqueles seres formavam um círculo impenetrável, tornando basicamente impossível para seu grupo abatê-los e pegar o diamante de volta. Ora, ele era das fadas por direito! O Tratado era bem claro quanto àquele tipo de atitude: podia ser punida com a morte ou o gatilho para uma guerra entre as duas Raças.
Seus instintos de batalha, aguçados pelo tempo que passou sozinho na sua floresta, estavam anuviados pela quantidade de hidromel que tinha consumido na hora anterior. Seus movimentos eram mais lentos, e só com a ajuda de suas asas translúcidas era que conseguia desviar-se dos golpes certeiros daqueles centauros. Atitude arriscada, pois já tinha notado os arcos atravessados nos troncos de dois de seus inimigos e sabia que eles não estavam ali para brincadeira ou para assustar. Eram tão mortais quanto veneno.
Aparou um golpe de um dos únicos homens naquele grupo com ambas as mãos, untadas com uma de suas criações alquímicas, e por pouco não partiu a lâmina do centauro. Este grunhiu com ódio, mas permaneceu na formação. Os seis moviam-se como um só, girando em sentido horário e revezando-se para lutar com seus companheiros. Aparentemente, poderiam ficar naquele ritmo a noite inteira. Ou até a líder deles formar outra estratégia, o que também era bastante possível.
Rearden Fearghal respirou fundo e usou suas asas para erguer-se no ar, apagando as chamas que tinha criado e diminuindo de tamanho. Poderia infiltrar-se na formação dos centauros e evitar as flechas deles se tivesse o tamanho de um dedo médio humano, mas não conseguiria tirar o diamante vermelho que causara tanta discórdia da bolsa em que seus inimigos tinham guardado. Céus, ele nem sabia qual delas era!
Um dos centauros atirou uma flecha nele, que desviou com facilidade. Droga, ele não podia morrer ali. Não quando estava tão perto de convencer sua garota a ir embora com ele. Ainda tinha seu perfume gravado na memória, seus olhos azuis indagadores, a risada melodiosa... Muito bem, ele precisava focar. Pensar em algo para virar aquele jogo, e depressa. Arrepiou-se só de pensar na visão que tivera ao tocar naquela pedra. Não, aquilo não poderia acontecer.
Uma ideia atingiu-o de supetão, seguida de outra das flechas dos centauros. Essa passou de raspão, rasgando-lhe uma parte do braço esquerdo. Rearden rosnou, tapando o sangue que escorria com uma mão enquanto tateava o bolso da calça à procura do que queria. Encontrou o apito e soprou-o o mais alto que pôde; notou seus companheiros de missão hesitando em sua batalha, sabendo que tinham ouvido. Os centauros também pararam, intrigados com o que eles provavelmente identificaram como um zumbido muito alto.
O Filho de Eloa sorriu ao ouvir os rugidos. A batalha de verdade estava prestes a começar.
***
Quatro dias antes
A noite já havia dado lugar à manhã quando a centauro chegou à cidade acompanhada de um de seus pais. Passou-se um dia sem que Eija, a líder da cidade de Hillevi, tivesse notícias dos outros escolhidos para a missão. As outras cidades eram mais distantes de Hillevi que Noora, então Kisri não pôde fazer muita coisa além de conhecer um pouco do lugar e conversar com Maire, a escolhida daquela cidade para participar da missão.
Quando o céu escureceu novamente, Lady Eija e Kisri decidiram esperar o resto do grupo no Campo Principal da cidade. Diferente de Noora, o lugar onde faziam as reuniões em Hillevi não era uma praça, mas um campo aberto. Todas as estradas da cidade convergiam para aquele campo, então era mais lógico que as duas esperassem ali. Coberto de grama e sem árvore alguma, era praticamente uma clareira entre as muitas casas ao redor. Um pequeno palco circular se encontrava no meio do descampado, e era onde as duas centauros se encostavam naquele momento. Lampiões a gás iluminavam levemente a noite; um perto das duas e os outros no começo do campo, no lugar onde ruas de terra acabavam para dar lugar à grama. A sombra de pequenas flores podia ser vista ao redor do campo; talvez um canteiro propositalmente plantado ali. Aquele devia ser um lugar bonito pela manhã.
O resto dos membros da missão chegou. Lady Eija os deixou e então Maire mostrou o caminho para fora daquele emaranhado de ruas. O silêncio reinava, já que nenhum daqueles centauros tinha o que falar para amenizar o peso da missão sobre os ombros de todos. Kisri sentiu os olhares recaírem sobre ela, que galopava logo atrás de Maire, e planejou dizer algo quando parassem para acampar.
— Vamos parar no momento em que avistarmos o final da cordilheira, sim? — disse a Maire, que assentiu, e então se dedicou a observar o grupo que deveria liderar. Kisri apertou os lábios, tocando o punho de uma das duas espadas embainhadas em seu cinto. Presente de aniversário de Vieno, um de seus pais. Lembrou-se das palavras dele ao dá-la o conjunto de lâminas, antes de ela deixar sua cidade natal na noite anterior:
“Não tente agir como se já soubesse de tudo, porque todos sabem que você é jovem. Não se deixe enganar. Estas lâminas foram feitas especialmente para você, assim como a Lua e o Sol escolheram seus companheiros a dedo. Os companheiros são a extensão de suas espadas. Use-os em batalha e chame-os pelo nome. Confie em suas espadas e em seus instintos, minha filha.”
Analisou todos os cinco membros daquela equipe, um a um. Maire era uma centauro de cabelos lisos e belos olhos verdes, uma mochila atravessada em seus flancos castanhos e duas espadas embainhadas em sua cintura. Mais uma espadachim. Ela parecia bondosa e calma, o que poderia ser útil ao encarar situações de perigo ou de apaziguamento de discussões. Principalmente vindos de Päive e Ilta, as duas centauros mais velhas no grupo.
A primeira tinha os cabelos muito loiros presos em uma trança bem feita e os flancos alvos robustos e largos. Parecia ter completado quase o mesmo número de ciclos que Lady Eija, as linhas de expressão ao redor de seus olhos azuis denunciando-a. Um par de espadas e uma fileira de adagas feitas com dente de dragão consistiam em suas armas, além do olhar desaprovador que dera a Kisri quando esta se apresentara como líder da missão. A segunda pareceria tranquila e maternal com o corpo branco com manchas pretas, cabelos cacheados e castanhos e os redondos olhos azuis, não fosse o arco atravessado por seu tronco, a aljava de mortíferas flechas pendurada em seu cinto e a expressão arguta de seu olhar. Ambas pareciam boas estrategistas, mas as alfinetadas que trocaram ao se encontrar denunciavam um problema. E então restavam os rapazes.
Eles não poderiam ser mais opostos. Não havia definição melhor para o escolhido de Balentin, Ensio, que grande. Ombros largos, tronco bem desenvolvido e o corpo de um garanhão negro para combinar com os cabelos e olhos da mesma cor. Tinha tudo para parecer amedrontador, exceto o largo sorriso e a queda que levou ao tropeçar em uma pedra logo que a luz iluminou-o. Em oposição ao corpulento e desastrado homem, o escolhido de Tees poderia passar por um potro, dada sua baixa estatura e estrutura muscular fraca. Os cabelos loiros desgrenhados davam a impressão de que ele havia acabado de acordar, os olhos castanhos percorriam nervosamente o ambiente e os flancos na cor da areia carregavam uma simples mochila. O que o descaracterizava completamente eram o arco e as flechas, juntamente com a precisão e a segurança de cada movimento seu. Kisri se esforçou para lembrar-se do nome dele: Vaitto. Imaginou que o deixaria a cargo de organizar aqueles que usavam arcos.
— Quanto tempo falta? — perguntou Ensio a Maire, logo atrás da líder. Ele tinha feito uma rápida amizade com a escolhida de Hillevi, que Kisri pôde observar bem de perto.
— Não muito. Quando virarmos aquela curva, poderemos ver o começo do Deserto Taka. Kisri disse que é ali que acamparemos. — ela respondeu, dando de ombros e erguendo a lamparina portátil que levava em uma tentativa de iluminar mais o caminho. O centauro ao seu lado simplesmente tomou a luz das mãos dela e a ergueu com uma mão enorme, utilizando-se de seu tamanho para ajudar a moça. Ela sorriu, agradecendo, e o silêncio voltou a reinar no grupo.
A líder resolveu observar a paisagem montanhosa por onde seguia, a trilha que seguia as laterais da montanha parecendo mais estreita a cada passo. A lamparina que Ensio segurava ajudava a ver pelo caminho, juntamente com a que Ilta levava no final do grupo, mas o abismo do vale à sua direita era uma incógnita. Floresta impenetrável era o máximo que ela podia discernir, a luz da Lua minguante pouco contribuindo para sua visão. Escutava os gemidos, bramidos e cantos dos animais selvagens e sentia o sabor do vento despenteando seus cabelos longos, mas as estrelas eram suas únicas guias para estimar os horários. Tivera aulas de astronomia com Arvo, um de seus pais, desde muito jovem e por isso olhar para o céu lhe era mais natural que respirar. Mas isso acontecia com todos os centauros, é claro.
Seu coração doeu ao pensar nos pais. Arvo e Vieno eram companheiros de sua mãe desde que ela podia se lembrar, provavelmente era realmente filha de um deles. Mas isso não vinha ao caso; com seu povo, nunca veio. Pais, um ou dois, eram quem criava o potro. A mulher centauro tinha todo o direito de ter dois companheiros, já que era dela que dependia a vida. E ter dois representava força, o que era essencial na líder de uma cidade. Céus, como Kisri já sentia saudades deles.
— Chegamos. — Maire anunciou, parando de galopar assim que os seis viraram a curva que ela apontara. A lua subitamente saiu detrás de uma nuvem, iluminando o descampado deserto que se abria à frente do grupo. A estrada se abria para um dos muitos lugares em que famílias de centauros costumavam acampar, com um bom lugar para se fazer uma fogueira e armar tendas. Os seis trataram de ocupar-se em montar o acampamento, cada um tendo trazido sua própria tenda. Kisri foi quem fez a fogueira, enquanto Vaitto procurava se livrar da folhas que o vento tinha trazido durante o tempo em que o lugar ficou desabitado e os outros montavam suas tendas.
— Quem você subornou para estar aqui, líder? — indagou Päive assim que os seis sentaram-se para comer. Kisri sabia que seria atacada desse modo a qualquer momento, só surpreendeu-se de ter sido tão rápido.
— Ninguém. Fui escolhida, como todos aqui. — replicou, dando de ombros antes de desembrulhar um sanduíche.
— Você é muito jovem. Não pode ser a líder desta missão.
— Mas eu sou. — a mais jovem ali replicou, erguendo uma sobrancelha. Päive apenas riu.
— Isto é uma brincadeira, certo?
— Não há ninguém brincando. — Kisri deu de ombros, tentando imitar a expressão neutra que sua mãe mantinha quando lidava com um impasse entre seu povo. — A Lua e o Sol me escolheram para ser a líder desta missão, do mesmo modo que a escolheram para fazer parte dela. Se tens algum questionamento sobre os poderes ou a onisciência deles, faça suas reclamações para os mesmos. — finalizou com um olhar calmo e gélido para a centauro mais velha, que bufou. Viu os outros sorrirem — Bom, boa noite. Creio que todos sabem por que estamos aqui: recuperar aquele diamante antes que seja tarde demais. Eu vou ser a líder desta missão, como Lady Eija apresentou antes de deixarmos Hillevi. Antes que perguntem — lançou um curto olhar acusador para Päive, que se mexeu desconfortável — eu completei vinte e um ciclos no dia de ontem. — deu de ombros.
— Qual é o plano então, líder? — perguntou Ensio. Kisri alcançou sua bolsa e apanhou um pedaço dobrado de pergaminho, que abriu para revelar um mapa da ilha de Sísia, onde eles viviam. Usou as chamas da fogueira e uma das lamparinas para tornar o mesmo visível para todos, que se aglomeraram mais perto dela para ver.
— Esta é a cidade humana de Kalaha. — apontou para um ponto no mapa — É a única cidade localizada no caminho mais curto entre Hillevi e os Campos de Soláris, a divisa do Reino de Eloa. Suas caravanas costumam parar nessa cidade para conseguir suprimentos e outras especiarias, já que o Deserto Taka é impiedoso. Precisamos chegar lá antes que eles saiam, roubar o diamante de volta e retornar antes que eles consigam se dar conta do que aconteceu. Uma batalha no deserto poderia ser destrutiva para nós.
***
— Droga! — xingou Kisri, matando mais um dos leões de olhos amarelos que invadiram o acampamento dos Filhos de Eloa. Pelo menos vinte daqueles animais cercaram seu grupo de centauros, separando-os e, assim, desfazendo sua formação de batalha. As fadas continuaram usando sua magia para atacar, os leões conseguindo dar o pânico de que elas precisavam. A líder da missão dos centauros estava novamente cercada por dois deles, uma fada de olhos e asas azuis comandando o ataque a ela. Não conseguia ver o que acontecia fora de sua luta, se seus companheiros estavam resistindo.
Desviou de uma esfera de fogo que a Filha de Eloa jogou sobre si, usando um de seus cascos para acertar o rosto de um dos leões e passando a espada pela garganta do outro. Obteve assim um rápido relance da batalha ao seu redor: seus companheiros em situação parecida com a dela, exceto Vaitto: este tinha sete leões e nenhuma fada em seu encalço. Lutava como podia, mas um de seus braços já tinha sido quase que inutilizado. O coração de Kisri apertou e ela tentou correr até o rapaz, mas a Filha de Eloa a impediu:
— Vocês vão pagar por isso! — vociferou a mulher, lançando-lhe mais chamas. A centauro rosnou, usando suas lâminas para desviar o fogo para o leão restante. Mas qual não foi a sua surpresa ao ver que, no lugar do felino, uma águia de olhos amarelos voou sobre a esfera de fogo e a atacou pelos flancos.
— Iliri! — gritou Kisri, percebendo então o que aqueles olhos significavam. Os animais terríveis que trocavam de forma estavam aliados aos Filhos de Eloa!
— Surpresa? — a fada desdenhou com um sorrisinho cruel, seguindo a águia céu acima antes de ambas começarem a descer bruscamente, num ataque vertical. Kisri viu a abertura que queria para correr até o centauro que avistara, a águia e a Filha de Eloa em seu encalço. Já não sabia mais se o sangue que manchava sua armadura e o pelo de seus flancos era seu ou dos iliri, mas aquilo não vinha ao caso.
— Precisa de ajuda? — perguntou, enfiando sua espada diretamente no pulmão de um dos iliri em forma de leão que atacavam Vaitto. Este riu, replicando:
— Sempre é bem vinda.
Ela sorriu, ao que ele a puxou para baixo antes de atirar a flecha que já tinha preparada na águia que acabara de tentar arrancar a cabeça da líder.
— Tente não manter a guarda baixa só porque estou aqui. — comentou, piscando um olho para ela. Kisri revirou os olhos e matou mais um dos leões-iliri. — Você acha que sairemos daqui vivos? — perguntou, finalmente conseguindo acertar uma de suas flechas envenenadas na Filha de Eloa que perseguia Kisri.
— Sinceramente? — ela disse, encarando-o seriamente. Ele assentiu, usando uma das flechas como faca para matar outro leão — Não.
***
Três dias antes
Rearden caminhava pelas movimentadas ruas de pedra de Kalaha, suas asas ocultas com um feitiço e um sorriso estampado. Sabia que ainda seria reconhecido como um Filho de Eloa por causa de sua pele listrada e caninos pontiagudos, mas os estúpidos humanos tendiam a prestar mais atenção em suas asas do que nesses detalhes. Asas o destacavam da multidão, o resto só o fazia passar por um tipo estranho. A cidade ficava no meio do caminho entre as montanhas dos centauros e os Campos de Soláris, território das fadas, em uma faixa de deserto em que era necessário se abastecer enormemente para poder prosseguir. Sua mente divagava sobre a preocupante visão que tivera quando tocara naquele maldito diamante. Somente a asa danificada da líder daquela missão, juntamente com um pedaço de seu coração que tinha ficado naquele lugar muito tempo atrás, o impedia de voltar correndo para as imediações do Reino e examinar aquela pedra. Descobriria se o que vira era verdadeiro a qualquer preço.
Morte, destruição... A floresta queimada... O corpo frio de uma criança ensanguentada...
Rearden afastou aqueles pensamentos da mente com uma sacudida de cabeça, procurando a casa geminada que queria. Passara tanto tempo longe daquela vez que se perdeu algumas vezes pelo mercado de Kalaha antes de avistar as janelas tomadas por plantas, já suas antigas conhecidas. Abriu a porta de madeira escura sem bater, para deparar-se com a visão que preenchia seus pensamentos e sonhos: uma moça de cabelos escuros presos em uma trança sentada sobre o balcão da loja, lendo.
O Filho de Eloa sorriu ante a concentração dela, aproximando-se sem fazer barulho. Somente quando tirou-lhe a trança de cima dos ombros foi que ela o notou, abrindo um sorriso com as marroquinas que ele adorava e abraçando-o:
— Meu poeta! — Rearden a ergueu do balcão, girando-a durante o abraço.
— É bom te ver novamente, Kelly. — a largou, sorrindo. — Senti sua falta.
— Bom, a culpa é sua. Você é que vai embora sempre. — ela cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha.
— Tecnicamente a culpa é de minha rainha, que insiste em me mandar em missões mesmo sabendo onde meu coração descansa. — ele replicou, roubando-lhe um beijo curto que a fez rir.
— E você continua voltando para ela.
— Você poderia ir comigo uma vez, não poderia? — ele sugeriu, acariciando a face alva da moça. — Conhecer os Campos de Soláris, a minha casa, a floresta. A natureza lá é estonteantemente bela.
— Meu poeta, você sabe que é complicado. Meu pai doente e tudo... — o sorriso da herbolária de Kalaha esmoreceu, dando lugar a uma expressão de desculpas. — Você vai passar seus dias aqui comigo, somente voltando ao seu acampamento para dormir, como sempre?
— Poderíamos levá-lo a um dos médico-feiticeiros do Reino. Tenho certeza de que podem curá-lo. — Rearden sugeriu, esperançoso. — E sim, é claro. — Kelly sorriu mais uma vez, prometendo antes de beijá-lo:
— Ótimo. Juro que vou pensar sobre.
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Naquela manhã, Kisri viu o Sol nascer vermelho. As lâminas de suas espadas já estavam manchadas com o sangue rubro, suas pernas estavam exaustas de tanto lutar. Mas ela precisava criar uma abertura para Maire sair em segurança, e foi isso que vociferou para Vaitto quando os dois se viram momentaneamente livres de iliri e de Filhos de Eloa. A centauro que carregava o diamante lutava corajosamente com suas lâminas duplas, Ensio ao seu lado protegendo a mochila preciosa e a vida da colega. Ilta e Päive não estavam mais à vista, mas a líder da missão não podia se preocupar com isso naquele momento.
Os dois correram até a dupla que lutava, cercados por iliri e quatro dos Filhos de Eloa restantes, inclusive o jiit com listras de tigre. A flecha envenenada que Vaitto usara deu conta de matar a fada que perseguia Kisri e quatro outras tinham perseguido as centauros que estavam desaparecidas. Precisavam lidar com aquele grupo de iliri e com os Filhos de Eloa de algum modo: matá-los ou distraí-los para que Maire, a mais rápida do grupo, pudesse galopar para longe dali com o diamante. A questão era: como fazer isso acontecer?
— Matar todos ele é mais prático. — comentou Ensio na língua de batalha dos centauros, com um sorriso sombrio ao usar suas adagas para arrancar a cabeça de um tigre-ilir.
— Vai ser prejudicial para nós. — discordou Vaitto, desviando o fogo que um dos Filhos de Eloa lançara na direção de Maire.
— É matar ou morrer! — gritou o outro, conseguindo atingir a asa de uma águia-ilir que tentava arrancar seus olhos.
Rearden rosnou de raiva ao ver mais um de seus ataques desviados por aquelas malditas armas encantadas. Já tinha entendido que o objeto que queria estava na mochila da centauro de corpo castanho. Precisava recuperar o diamante a qualquer custo. Sua floresta dependia disso.
Olhou para seus colegas e amigos que restavam, tentando não pensar no corpo de Nainsí Orlagh retorcendo-se com o veneno daquele centauro arqueiro. Tinha feito diversas missões com ela e comprimiu a tristeza, mas uma pequena parte de si agradeceu aos céus pela flecha que tinha atingido seu próprio braço não ter sido uma das venenosas. Ainda queria ver os olhos azuis de sua Kelly mais vezes, não estava preparado para morrer.
Sentiu a agulhada de uma flecha em sua mão, a dor inundando seu ser e fazendo-o cair de onde estava voando. Distraíra-se demais. Ao atingir o chão, suavemente graças a um feitiço de um de seus companheiros, uma lembrança recente com Nainsí inundou seus pensamentos:
“O rapaz tentou tirar um pouco do suor do rosto com uma mão imersa em fuligem negra, o que só o fez ficar com aspecto mais sujo do que já estava. Revirou os olhos, voltando a trabalhar e cantarolando uma velha balada que sua mãe fizera para ele, suas asas translúcidas balançando ao ritmo da música:
— Pequeno rei poeta, jogue tua coroa aos ventos e veja-a despedaçar... Pequeno rei poeta, jogue tuas rimas aos ventos e veja-as se encaixar... Pequeno rei poeta, jogue-se aos ventos e tente se encontrar...
Ele tinha usado um antigo feitiço para transformar boa parte das rochas daquela mina recém-aberta em cascalho e naquele momento, com uma pá e suas mãos nuas, procurava as pedras preciosas que sua rainha ansiosamente esperava que levasse. Estivera ansioso para finalmente deixar os Campos de Soláris, onde vivia isolado com sua raposa e seus experimentos de alquimia, mas já estava tão cansado que a imagem de sua cama e um tranquilo banho de rio o fazia sonhar acordado.
— Alguma coisa aí, Fearghal? — gritou uma das fadas que vieram junto com ele, alguns metros acima na mina. O rapaz estava prestes a responder negativamente quando sua pá bateu em algo duro. Ele ajoelhou-se e usou as mãos, a pele listrada como pelo de tigre misturando-se ao cascalho e à poeira, para encontrar um pedaço de rocha que não fora alterada por seu feitiço. Diferente das outras, aquela era de um tom vermelho opaco.
— Acho que sim! — gritou de volta, pondo uma palma sobre a pedra e sentindo a magia milenar armazenada ali. Poderia não saber exatamente que tipo era aquele, mas tinha conhecimento o suficiente para diferenciar um simples pedaço de rocha de uma gema preciosa.
Rearden tentou tirar a mão da pedra, mas não conseguiu. Parecia que ela o segurava. Puxou mais forte e a última coisa que ouviu antes de perder a consciência foi a voz da fada de cabelos loiros que era a especialista em pedras daquele grupo:
— O que você encontrou?”
Um rugido muito alto foi ouvido, parecendo vir de algumas milhas ao longe estar se aproximando. Não pertencia a nenhum ilir, nem a nenhum dos animais selvagens que habitavam o deserto. Aquele som fez todos, inclusive os iliri, pararem de luta por alguns momentos. Maire tinha esbarrado numa árvore, ficando encurralada. Coberta de sangue de ilir, arregalou os olhos ao reconhecer o rugido que ouviu logo após o primeiro:
— É um dragão, e está muito perto!
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Dois dias antes
Os seis centauros levantaram acampamento no final da tarde do outro dia. Se andariam pelo deserto, deveriam chegar até Kalaha antes do amanhecer. O calor se tornaria insuportável e eles morreriam com uma insolação caso viajassem durante o dia. O Deserto Taka não perdoava ninguém.
— Bom, acho que devemos seguir o rio. — recomendou Ilta, prendendo os cabelos cacheados com um pedaço de tecido que encontrou em sua mochila antes de começar a descer a montanha, com Kisri e Vaitto logo atrás. Päive mantinha os olhos azuis ocupados com a mudança de paisagem, enquanto Ensio acompanhava Maire com um sorriso bobo. Os dois se distanciaram um pouco do grupo quando o centauro ouviu um barulho vindo da floresta na outra margem do riacho que corria montanha abaixo, indo investigar.
Kisri pediu que o resto do grupo parasse, ao que Päive revirou os olhos disfarçadamente, enquanto os dois estavam dentro da mata ciliar. Eles voltaram com Maire rindo enquanto Ensio conversava animadamente com uma fêmea de cervo e sua cria, que tinham parado para beber água. A líder da missão riu junto, puxando seu cantil para reabastecer sua água.
— Nós nunca vamos chegar lá se continuarmos fazendo pausas. — comentou Päive, mais para si mesma. A sobrancelha erguida de Ilta denunciou que a centauro mais velha tinha falado alto demais.
— Nós chegaremos lá em pedaços e ranzinzas como certas pessoas se não as fizermos. — replicou a de cabelos cacheados, virando seus flancos malhados para a outra em um claro sinal de desprezo.
— Você-
— Vamos parar por aí, sim? — interferiu Vaitto, seu olhar castanho sério. Päive voltou a revirar os olhos, dessa vez explicitamente, antes deles voltarem a caminhar. — Eles parecem perdidos em seu próprio mundo cor de rosa, não é? — riu ele, observando Ensio e Maire conversando animadamente.
— Do mesmo jeito que você queria estar com a líder, não é? — insinuou Päive, usando um tom muito diferente do respeitoso ao utilizar a palavra ‘líder’. O centauro de cabelos loiros ergueu as sobrancelhas.
— Devo eu deixar que qualquer um fale absurdos da líder da missão da qual faço parte? Se é a isso que você se refere, saiba que eu não fui criado em um celeiro para desrespeitar uma autoridade desse jeito.
— Você chama aquele potro de autoridade? — ela indagou, sarcástica.
— Ela tem tanto direito de estar aqui quanto você, Päive! Pare de achar que é melhor só porque tem mais ciclos completados! — Maire gritou mais à frente, dando a entender que tinha ouvido toda a discussão. Kisri sorriu, sem interferir. Já tinha usado seus argumentos na noite anterior; agora cabia à lealdade de seus colegas para defender sua honra, do mesmo jeito que espadas são usadas para defender a honra de um guerreiro. Concluiu, enquanto observava Päive e Ilta discutindo mais uma vez e tentava ouvir o que Ensio e Maire conversavam, que a missão seria um sucesso por causa deles. Escolhidos a dedo pela Lua e pelo Sol, é claro.
***
Todos esqueceram-se uns dos outros para olhar para o céu da manhã, procurando o dragão que rugira. O Arquipélago de Toldot ficava a quase um mar inteiro de distância; por que um deles estaria em Sísia?
Uma sombra enorme apareceu no horizonte, sobrevoando o Deserto Taka. Ele se aproximava em alta velocidade, a incidência dos raios solares refletindo em suas escamas cinza-azuladas. Rugiu mais uma vez e, finalmente, aterrissou na colina em que instalava a batalha. A árvore que cobria o acampamento dos Filhos de Eloa era do tamanho de dez homens, mas aquele dragão poderia usar a planta como palito para limpar os dentes, tamanha sua imensidão. A couraça de escamas brilhava com o Sol da manhã, as asas recolhidas e as garras que saíam de sua pata com membranas entre os dedos pouca coisa menor que a árvore. Analisou atentamente cada ser presente naquele espaço, rugindo de leve para espantar os iliri que restavam e seu olhar cinzento penetrando em cada espaço que poderia esconder o que ele queria.
Rearden adiantou-se, erguendo a cabeça e tentando se lembrar das aulas sobre a língua dos dragões que tivera. Então voltou a ter consciência da dor que consumia seu corpo, percebendo que a flecha que o atingira era envenenada e ele iria morrer da maneira mais lenta e dolorosa possível. O máximo que pôde enxergar do Filho de Eloa que avançou para tentar salvá-lo foram os cabelos e barba grisalhos: a pequena parte de si que ainda lutava para não se entregar ao atraente sono da morte imaginou que fosse Naois Lalage, o desarmador de feitiços do grupo.
Quanto mais velho era um dragão, maior ele era. Aquele dragão poderia ter centenas de anos, notou Kisri. Seu treinamento não tinha envolvido esse tipo de interação. Mas parecia que o dos Filhos de Eloa envolvia, porque a única mulher naquele grupo adiantou-se para gritar uma série de rosnados incompreensíveis. O ser grunhiu uma resposta que pareceu afirmativa e então virou-se para o grupo de centauros. Kisri sabia que os instintos de todos, assim como os seus, gritavam para que eles saíssem dali. Mas manter-se firme ao encarar os olhos enormes, fazendo seus liderados seguirem o exemplo. O dragão então abriu a boca minimamente, o suficiente para um sopro quente explodir sobre o grupo. O cheiro de peixe podre, enxofre e algo impossível de identificar irrompeu nos narizes de todos, fazendo-os tossir.
— Não tapem os narizes! — gritou Vaitto, tossindo e aspirando mais um bocado do hálito. Kisri, Maire e Ensio o olharam sem entender, ao que ele explicou — Dragões que viveram mais de duas centenas de anos possuem uma propriedade mágica em seus hálitos: quem os aspira consegue entender a linguagem nobre dos dragões por algum tempo. Ele quer conversar. Então — fez uma pausa para tossir novamente — absorvam o quanto puderem.
Os três assentiram, tentando controlar a tosse.
— Me compreendem agora, centaurus? — o dragão fez, sua voz rouca trazendo a sensação de um tecido se rasgando para os centauros. Kisri estranhou ser tratada pelo nome de sua espécie na Língua Morta, mas não demonstrou. Apenas assentiu, ao que ele continuou — Muito bem. Agora tratemos do motivo que me trouxe aqui. Vocês possuem algo que pertence ao meu povo: um ovo, esquecido nas montanhas que vocês tomaram como suas há muito tempo. Devolvam-me.
Os quatro entreolharam-se, sem entender.
— O diamante. — disse a fada que tinha falado com o dragão anteriormente, em um tom perigosamente calmo — Ele quer o diamante.
— Mas não é... — Ensio começou, confuso, mas um rugido do dragão calou-o.
— Estão surdos?! Devolvam-me neste instante, se não quiserem seu mundinho destruído!
E então Kisri entendeu. Fez que sim com a cabeça para Maire, que tinha os olhos arregalados com a compreensão da visão. Esta abriu a mochila em seus flancos, para tirar de lá o diamante vermelho que não era um diamante. Notou a rachadura nele, mas mesmo assim aproximou-se do dragão e depositou o ovo sobre um pequeno pedaço de relva. Ela não conseguia tirar seus olhos verdes das escamas de cor exuberante do dragão, um macho, enquanto este delicadamente segurava o ovo entre duas garras enormes e grunhia satisfeito. Alçou voo e, como que para avisar as duas outras raças ali presentes de seu poder, cuspiu fogo na única árvore presente na colina em que toda aquela batalha tinha ocorrido. Desapareceu no céu em alguns instantes, deixando Filhos de Eloa e centauros abismados.
Kisri olhou em volta, para a colina manchada de sangue, e sentiu um ferimento arder em seu lombo. Tropeçou ao andar até o grupo de fadas que se aglomerava em torno de um de seus feridos, sendo apoiada por Vaitto para aproximar-se. Um dos Filhos de Eloa se ergueu, lançando um olhar ferino para a dupla:
— Não se aproximem. — avisou, acendendo as chamas em sua mão. Os dois pararam, e Kisri perguntou:
— Seu guerreiro vai ficar bem?
— Não. Morrerá, pelo veneno da flecha do seu. — ele replicou duramente, ao que Kisri assentiu. As palavras estavam na ponta de sua língua, mas não poderia fazer nada sem a expressa permissão das seis líderes das cidades de seu povo. Então ficou calada, ouvindo os últimos delírios de um homem condenado.
— Kel... Minha Kelly... Olhos azuis, marroquinas... Poderíamos... vida tão boa... Talvez.
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Um ciclo antes
Rearden estava imerso nos diferentes sons e cheiros da cidade de Kalaha, andando a esmo com seus pensamentos como companhia – não tão agradável quanto as moças da Princesa da Noite, uma das mais famosas tavernas do lugar. A asa danificada da líder daquela missão os deixaria parados naquela cidade por algum tempo e isso não era nem um pouco proveitoso para seus estudos. Mas, já que estava ali, ele queria se divertir um pouco antes de voltar à sua floresta e isolar-se do mundo novamente. Passara mais tempo que o apropriado em um dos bares famosos da cidade humana apreciando belas companhias e bebidas que anuviavam a mente para tentar esquecer as imagens que o assombravam, e não poderia negar que tudo tinha sido maravilhosamente divertido. Mas sua alma ansiava por ajudar a corroborar o enorme asco que os humanos de respeito sentiam por seu povo: queria fazer alguém se apaixonar por ele, para então abandoná-lo e partir seu frágil coração humano.
Seus melhores amigos tentaram convencê-lo a não fazer aquilo, mas Rearden já tinha ouvido histórias suficientes sobre esse tipo de prática para acreditar-se acima das preocupações de seus amigos. O que ele queria fazer era apenas iludir um humano e depois ir embora. Deixaria uma de suas criações alquímicas para observar o que aconteceria, de preferência um de seus espelhos refletores, e riria bastante do resultado de sua pequena travessura egoísta. Todos têm seu lado egocêntrico, não é mesmo?
O rapaz comprou uma maçã em um dos muitos vendedores ambulantes que se encontravam na rua, pensando se haveria um herbolário por perto. Precisava de algumas flores de fogo, tanto para expulsar cupins de sua casa (feita dentro de uma larga árvore) quanto como ingrediente para algumas poções. Mastigando um pedaço da fruta doce, procurava o lugar que queria com o olhar. O sumo do fruto escorreu para seus dedos, deixando-os pegajosos, mas Rearden apenas continuou comendo e andando. Se reparou nos olhares de medo e admiração que atraía, não demonstrou.
Jogando o talo da maçã fora, finalmente encontrou o que queria. Em meio aos vendedores de rua que se amontoavam com suas barracas, uma das muitas casas geminadas que se amontoavam juntas lhe chamou a atenção. As duas janelas continham plantas trepadeiras subindo pelas paredes, junto com algumas flores de aparência estranha no peitoril. Ele abriu a porta que ficava entre as duas com a mão limpa, adentrando a loja enquanto tentava limpar o sumo de maçã que grudara em seus dedos com o tecido da calça e admirou o lugar. As paredes eram cobertas por estantes, da mesma madeira que a porta, que guarneciam infinitos frascos e potes transparentes. Plantas cresciam nos cantos das paredes, algumas se mexendo ou tossindo e espirrando. A luz etérea daquele ambiente fez o rapaz piscar muitas vezes para fazer seus olhos se acostumarem, mas nada o preparou para a próxima imagem que viu. Sentada sobre o balcão, uma moça de cabelos escuros presos em uma trança lia um livro, distraída. Rearden surpreendeu-se; esperava uma senhora idosa e excêntrica para ser a herbolária de Kalaha, não uma garota bonita.
Ele passou longos momentos admirando o olhar compenetrado da moça passear pelas palavras, seu corpo mais largo que os das garotas consideradas bonitas pelos ignorantes padrões de beleza humanos, as unhas curtas e decoradas por uma bainha preta de terra, as sobrancelhas grossas, os lábios bem desenhados lendo as palavras sem emitir som. Rearden absorveu cada detalhe daquela visão antes de decidir: era ela.
— Com licença! — chamou-a, armando um de seus melhores sorrisos. A moça sobressaltou-se, fechando o livro com um baque surdo e descendo do balcão com um sorriso amarelo.
— Me desculpe! Costumo me desligar do mundo quando estou lendo. O senhor está aí há muito tempo? — disse, sem se abalar com a estranheza do rapaz à sua frente. Já vira tipos muito mais esquisitos que um Filho de Eloa com listras.
— Estou aqui há tempo suficiente. E meu nome é Rearden, não ‘senhor’. — piscou para ela, que reprimiu um revirar de olhos com um riso forçado.
— O que desejas, Rearden?
— Bom, eu desejo muitas coisas. — olhou-a de cima abaixo, sorrindo divertido quando a viu corar — Mas por enquanto, quero duas.
— O que quer? — ela indagou, cruzando os braços. Rearden diminuiu a distância entre os dois, aproximando-se até suas respirações se misturarem.
— Em primeiro lugar, o seu nome. — respondeu, sua voz quase um ronronar e seus olhos negros perscrutando os dela, de um intenso tom de azul. Ela era um pouco mais baixa, o que já o tinha feito abaixar a cabeça para seu olhar nivelar-se com o dela. Viu uma centelha de hesitação em seu olhar, mas tinha sido tão rápido que ele poderia ter imaginado.
— E qual a segunda coisa que você quer? — ela sorriu, quase que inocentemente ignorando a proximidade e o pedido de Rearden. Não se afastou como o rapaz pensava que ela faria, mas continuou encarando-o. Ele viu-se embasbacado ante a intensidade daquele olhar azul, fosse por algum tipo de magia que ela estivesse usando ou outra coisa, perdido nas belas íris daquela garota.
— Eer... E-eu... — precisou desviar o olhar para conseguir pensar direito, afastando-se um pouco. Viu o sorriso dela aumentar, como se ela soubesse a confusão em que o colocara. — Preciso de algumas flores de fogo.
— Sinto muito, mas elas só desabrocham em dois dias. — a moça deu de ombros.
— Então voltarei em dois dias. — ele replicou, conseguindo desanuviar a própria mente com algum esforço ao fazer uma pequena reverência — Talvez nesse dia eu consiga as duas coisas que quero. — deu-lhe um olhar sugestivo antes de virar-se para sair da loja. A última coisa que ouviu antes de fechar a porta foi uma melodiosa gargalhada e a palavra que fez seu coração bater mais rápido do que deveria:
— Talvez.
Notas finais
Beijos!
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