A Batalha Gélida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A Batalha Gélida:
Um Conto de “Frozen”
Capítulo 01
As mãos de Lilith eram como seda, macias e lisas, brancas e até mesmo fofas, sensíveis e que encantavam qualquer um – principalmente se esse “qualquer um” for um homem – ao simples toque.
A água do chuveiro quente como fogo escorrendo por seu corpo frio se tornava morna, a mistura das duas temperaturas era relaxante, mas, de fato, também era incomodante. E foi aí que, pela primeira vez em sua vida, Lilith Bronks mudou o chuveiro do modo “automático” para o modo “verão”.
Agora, a água cairia gelada sob seu corpo, de um modo que talvez a fizesse tremer. E foi o que ocorreu logo em seguida, as mãos trêmulas, as bochechas de rosadas passaram a atribuir uma cor vermelha, os lábios também tremendo.
Mas aquilo agora parecia estar incontrolável, não a água, e sim o modo exagerado como suas duas mãos tremiam. Lilith pensou em gritar por sua mãe, mas Helen estava longe demais para ouvi-la.
Os calafrios tomaram conta de seu corpo e então, subitamente e sem aviso prévio algum, seus braços se ergueram para frente como se alguém os estivesse dominando. Não parecia que o que o coração estava bombeando para o corpo era sangue, e sim algo muito mais consistente. O que aconteceu em seguida foi o sonho de muitas crianças, mas para Lilith, era apenas um pesadelo tornando-se real... Um pesadelo que acabara de começar.
Os olhos estavam fixos na imagem um tanto distorcida a sua frente. As órbitas verdes estavam fitando o gelo que havia “surgido do nada”. E então Lilith olhou para as mãos. Não, ela pensou, não pode ser. Mas era! Aquilo era real!
Alguém estava batendo na porta do banheiro.
- Lilith? – Ela ouviu a voz da mãe chamá-la. A voz doce e calma de Helen Bronks. – Lilith, querida, você está aí?
Não houve resposta, Lilith estava sem reação.
- Lilith? – O tom de voz da velha mulher agora se tornara preocupado. – Lilith, você está bem? – E, mais uma vez, Lilith não conseguiu responder.
O curto intervalo de tempo que Helen demorou em encontrar sua cópia da chave do banheiro foi o suficiente para que a voz de Lilith retornasse a ela.
Os olhos da mãe de Lilith agora estavam fitando-a e também fitando o cenário ao seu redor.
- Oh meu Deus... – Ela murmurou. – O gelo, não. – Sussurrou em um tom de amargura, e, em seguida, dirigiu-se a filha. – Mantenha-se calma.
- O que aconteceu? – Lilith perguntou, parecendo uma jovem normal de dezesseis anos assustada com um evento improvável, fora a parte do evento improvável, o restante era normal, ela só tinha dezesseis anos e realmente estava assustada. – Eu... Eu não sei... Eu estava tomando banho e de repente... Meu Deus. Mamãe, o que foi isso?
- Há algo sobre sua origem que você precisa saber, eu sempre tentei esconder isso de você, mas... Bem, vamos. Ande.
Pegando a toalha que fora a única coisa que não havia sido congelada por Lilith, a mãe da jovem a enrolou e levou-a para fora do banheiro, enquanto ela tremia de medo, o medo de si mesma que a estava atormentando agora. Não sabia ao certo explicar o que havia sido aquilo.
Sentada na beirada da cama enquanto observava a mãe procurar roupas para vesti-la e... Não, aquilo não estava acontecendo. Sua mãe estava arrumando suas malas!
- O que é isso? – Ela disse, alterando o tom da voz e levantando-se.
O canto dos olhos de Helen se espreitou para ver a filha erguendo o braço.
- Não! – Ela gritou, e se demorasse mais um segundo seria tarde demais.
Havia se protegido, ou ao menos pensara assim, com os braços, levantando-os e cobrindo o rosto.
- O que eu fiz? – Lilith estava recuando alguns passos para o fundo do quarto ao ver a pilha de gelo atrás da mãe, a pilha de gelo que ela mesma criara.
- Querida... – Helen sussurrou. – Há uma lenda, a lenda da Caverna do Ocidente de Gelo, você se lembra?
- Claro... Sim... Claro que me lembro. – Ela falou sentando-se na cama, bem distante da mãe. – Não... – Disse quando a mão de Helen aproximou-se para tocá-la. – Eu posso machucá-la.
- Só se quiser.
- Eu não quero... Mas... Olha o que eu fiz!
- Você só está assustada. Tudo começa por Elsa.
Elsa... Já ouvira aquele nome antes, só não se recordava aonde. Então se lembrou... Elsa! Sua prima!
- Minha prima? – Falou, erguendo as sobrancelhas.
- Sim, você consegue se lembrar dela?
- Um pouco. Bem pouco, para ser franca.
- Você e Elsa têm os mesmos... Poderes. Transformam tudo ao redor de vocês... Em gelo.
- Mas... Por quê? Porque eu? – O grito de Lilith chegou a assustar a mãe.
- Essas são perguntas às quais não me cabe responder, mas você precisa ir.
- Para onde? – Era impossível disfarçar seu tom assustado na voz.
- Para a Caverna do Ocidente de Gelo.
- Mas mãe! Há uma lenda sobre aquele lugar!
- Sim, há! A lenda de que o corpo congelado de sua prima ainda está lá, a espera de sua verdadeira salvadora. E essa salvadora, Lilith, é você.
- C-c-congelado? – Lilith gaguejou.
- Sim, congelado!
- Mãe...
- Você vai ficar bem, mas tem de partir o quanto antes... Ou caso o contrário...
A mãe de Lilith interrompeu-se.
- Caso contrário o quê?
- Caso contrário irá pôr a vida de todos em risco. Só Elsa pode ensiná-la a controlar seus poderes.
- Mas se a Elsa sabe controlar os próprios poderes, como ela... Congelou a si mesma?
- Talvez tenha se cansado de viver essa vida de... Prisão. Como uma anormal. – A palavra pareceu ferir o interior de Lilith, seria como uma facada se ela já houvesse levado uma. – Não que vocês sejam anormais, vocês duas só são... Diferentes. Eu creio que tenha realmente sido isso que ocorreu com sua prima, ainda mais depois...
- Depois? – Ela perguntou, quando a mãe interrompeu-se mais uma vez.
- Depois que a irmã, Anna, morreu.
- Oh...
Horas se passaram depois que a mãe saiu do quarto e deu privacidade à Lilith para que ela pensasse bem. Eram tantas coisas, tantas verdades de uma vez só que ela pensou que sua cabeça iria explodir a qualquer momento. E, enfim, chegou a uma decisão.
- Vou para a Caverna. – Sussurrou para si mesma e encostou a mão na mala, transformando-a em gelo.
* * *
Notas finais
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