A Base
1 Prólogo
Notas iniciais
Era Dezembro, um calor irritante. O cabelo comprido de Alicia grudava em suas têmporas e pescoço, mesmo com o ventilador. Era preto, no momento brilhante por conta do suor. Contrastava com os olhos azuis claros, e ao mesmo tempo combinava com a pele morena, escurecida pelo sol do verão, normal para qualquer criança de 8 anos que ficava se divertindo na piscina com os amigos desde a manhã até o final da tarde.
Tinha amigos, tinha amor, tinha infância. Lembranças felizes de uma vida há muito esquecida, abandonadas como memórias queridas no fundo da mente. Mantidas e guardadas a 7 chaves. Memórias que continham seu irmão sua cunhada.
– Alie? – Diego e Luana colocaram a cabeça para dentro do quarto, espiando o local – Já empacotou suas coisas, querida?
Alie olhou para a bagunça do quarto, para os dois parados na porta, e para o quarto novamente. Uma ou duas coisas estavam dentro das caixas, já o resto, estava jogado pelos cantos. Sentiu as bochechas esquentarem e formulou um pequeno sorriso ao irmão. O mesmo bufou e soltou uma risada.
– Tudo bem. Depois terminamos isso. Vamos jantar, por enquanto. – Lançou um olhar rápido para o quarto e se retirou. Luana, no entanto, adentrou no quarto e sentou na cama.
– Não tem coragem de encaixotar tudo? – Perguntou, com um olhar carinhoso. Alie assentiu. – Não tem problema, se quiser podemos te ajudar.
Alie olhou para a mulher, que a encarava com ternura. Era pequena, com um aspecto frágil. Tinha um cabelo loiro, curto, e olhos amendoados, lembrando a ela uma boneca, com feições delicadas e delineadas. Luana e Diego estavam juntos há 5 anos, e morava junto de Alie e do irmão desde que os dois noivaram, há alguns meses.
Diego e Alie tinham uma grande diferença de idade. Quando ela nasceu, o irmão tinha 16 anos. Agora já tinha 24 anos, e Luana 23. A garota cresceu rodeada e criada pelo irmão, e quando Luana chegou, tudo ficou mais fácil, com uma presença feminina. Não foi difícil para os três se acostumarem com a presença um do outro.
Ouviram a voz de Diego ao longe para avisar da janta pronta. Se levantaram para ir em direção a cozinha, e antes de chegarem a porta, Luana passou o braço pelos ombros da menina e a abraçou. Alie olhou para cima e encontrou os olhos brilhantes da outra. Um olhar seguro, que dizia as palavras “vai ficar tudo bem” silenciosamente.
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Na mesa, a especiaria de Diego era servida: ovos fritos e arroz. Enquanto comiam, Alie encarava o retrato posto na parede atrás da mesa. Um homem, de aparência jovem, cabelos pretos, olhos azuis. Seu rosto tinha feições um tanto rígidas, mesmo sorrindo. Segurava a cintura de uma mulher muito bonita, com cabelos castanhos e olhos verdes, levemente salpicados de dourado. A mulher segurava m bebê no colo, e ao seu lado, um adolescente olhava com carinho para o bebê, que erguia os gorduchos bracinhos para a mãe. Olhou do irmão para o garoto no retrato e teve que reconhecer: ele mudara muito pouco.
Uma dor apertou seu peito. Sabia muito bem que aqueles eram seus pais. Se não se enganava, na foto deveriam ter cerca de 35 ou 36 anos, e fora alguns meses depois de nascer. 4 anos depois, eles partiram para uma viagem e desapareceram. Diego sempre contou para a irmã a verdade, não se dera o trabalho de poupar ela de saber que o avião caiu em meio ao mar, e depois de muitas buscas, apenas alguns destroços foram encontrados. Não chorava por eles, nunca chorara. Era pequena demais para se lembrar da presença dos pais, e Diego fazia muito bem o papel de responsável. Ele sim era a figura paterna que ele reconhecia. Ela não se importava com isso, não precisava. Era feliz desse modo.
– Tudo bem, garota? – Diego tirou Alie dos devaneios inesperadamente, fazendo-a derrubar o garfo. – Eu sei que você está meio abalada com essa mudança, mas espero que entenda, é necessário. Vai ser melhor para todos nós.
Talvez fosse. Diego havia recebido uma proposta de transferência de trabalho para os Estados Unidos da América, na Califórnia. Ela seria colocada em um internato, onde aprenderia o inglês e se adaptaria ao novo lugar. Diego e Luana se casariam, o irmão teria um ótimo trabalho e seriam uma família feliz, morando em uma boa casa, depois que ela voltasse do internato. Não, Alie não estava abalada. A ideia a deixava ansiosa.
– Eu sei. Está tudo bem. Estava pensando em como vai ser lá, depois que eu sair do internato. Vamos viver como uma família, digamos assim, estável, não é? Não quero dizer que já não somos, claro que não. Mas vai ser, bom, oficial.
O casal se olhou, e em seguida, baixaram os olhos para o prato, e ao levantarem o rosto, responderam com um sorriso fraco.
– É claro, minha querida. – Luana então reforçou seu sorriso, e completou – Vai tudo ocorrer bem, você vai ver. Mas, por enquanto, vamos apenas comer, sem desperdiçar essa refeição esplêndida feita com taanto carinho pelo Sr. Diego, não é?
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As coisas aos poucos tomavam seu lugar nos cômodos da casa. Era bonita, e não tão grande. Amarela de um tom mais claro, dois andares, jardim e fundos. Lembrava a Alie aquelas casas de filmes americanos renomados que contam histórias de famílias problemáticas, que terminam com um final feliz. Ora, quem sabe?
Em alguns dias iria para o internato, e aprenderia a viver no novo país, faria amigos e tudo ficaria bem. Diego iria ganhar muito dinheiro com seu cargo na empresa de marketing e Luana trabalharia no jornal local. Se tudo desse certo, até as buscas pelos pais retomariam.
Saiu do quarto e pediu a Luana se poderia ir ao pequeno parque no final da quadra, e a cunhada concordou, desde que voltasse logo.
O lugar era bonito, muito bonito. Havia um lago, alguns bancos e pássaros cantando ao redor. Era um local reconfortante, e fez a promessa de voltar sempre que possível, visto que se sentia bem passando o tempo ali. Sentou-se perto da margem do lado, fechou os olhos e ouviu os pássaros, o farfalhar das folhas secas caindo, algum animal esmagando-as. O vento soprava e ela deixava que os pensamentos a levassem para longe, junto com ele. Pensamentos esses, que envolviam o futuro. Imaginou como seria o internato, que tipo de pessoas encontraria lá. Sua mente desenhava um lugar amigável, com professores pacientes e alunos de diferentes locais do mundo. Vendo desse jeito, não poderia ser tão ruim.
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– Bom, aqui estamos. – Diego segurava as costas de Alie e a guiava para perto do lugar. Era uma construção enorme fora da cidade, e pelas grades que cercavam o prédio, impossíveis de ver onde acabavam, a garota podia ver que era bem maior do que apenas aparentava. – Aqui é onde você vai ficar por um tempo.
– Sim... Mas e agora? – Alie olhou para os adultos.
– Já resolvemos todos os contratos, suas malas já chegaram um pouco antes que nós, pelo que me foi informado. Agora... É só você entrar. Não podemos entrar junto, é apenas você.
Alicia sentiu sua visão começar a embaçar. Baixou a cabeça e segurou os soluços por uns minutos, até Luana a segurar pelos ombros, envolvendo-a num abraço esmagador. Sussurrou “adeus” e “amo você” em seu ouvido e em seguida se afastou.
Diego levantou a irmãzinha e gritou:
– Ei! Sem choro! Quero ficar orgulhoso de você quando voltar, certo? – E soltou a garota, fazendo cócegas em sua barriga. Alie limpou as lágrimas e jogou os braços ao redor do pescoço do irmão, e devolveu o grito.
– Pode deixar, eu serei a melhor! Por vocês! – Se soltou e correu em direção a porta, parando antes de entrar para dar uma última olhada e Diego e Luana.
A mulher estava com o rosto abaixado, enxugando as lágrimas. Um estrondo indicava que as portas de ferro estavam sendo abertas por dentro, e enquanto entrava, Alie percebeu o olhar do irmão em si. Era algo diferente de antes. Algo entre medo e pena. Mas antes que pudesse decifrar, as portas se fechavam e ela se virava para encarar um imenso espaço branco.
Em todos os momentos da sua curta vida, nunca se sentira tão sozinha.
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