A Bailarina

4 As provações do Lorde Sesshoumaru (Parte 2)


Notas iniciais
Oiiii pessoal! Obrigada mesmo pelo carinho de vocês nos capítulos anteriores. Tenho um amor muito especial por esta fanfic e agradeço de coração por vocês terem acompanhado até então. Boa leitura!

Derrotado.
O grande e respeitável Sesshoumaru Taisho, um mestre no mundo dos negócios. Reconhecido como um gênio prodígio desde tenra idade. No entanto, vejam só, lá estava ele entregue à própria sorte. Jogado no chão da sala como um cão abandonado pelo dono, rezando para que a terra se abrisse e os emissários do inferno arrastassem com suas correntes até o mundo inferior. Talvez se pegasse uma das velhas espadas que herdara do pai e batesse com bastante força no chão conseguira essa proeza. Ou pelo menos conseguiria colocar um pouco de ordem naquela bagunça.
Com um suspiro cansado, ele deu um longo na sua xícara de café extraforte, enquanto apoiava ligeiramente as costas na parede. É claro que o parágrafo acima era uma metáfora, uma explicação floreada com muita licença poética por parte de quem lhe escreve.
Pois Sesshoumaru, nunca e em hipótese alguma estaria deitado no chão. Não só porque sua postura altiva jamais permitiria, como também porque não havia um mísero centímetro no chão que já não estivesse tomado pelo caos em forma de objetos aleatórios. Nem dava para adivinhar olhando que embaixo daquele mar de sujeira havia um belíssimo piso de porcelanato marfim. O que acontecera para deixar nosso bravo herói encurralado em um dos cantos da sala de jantar?
Para isso seria preciso voltar para o começo daquele fatídico dia.
Era domingo, em torno das cinco e cinquenta e sete da manhã. Sesshoumaru dormia o sono dos justos em sua confortável cama king size, coberto com finos lençóis de algodão egípcio. No dia anterior teve o que poderia ser um maravilhoso encontro com sua professorinha favorita quando foram interrompidos por uma das poucas mazelas do capitalismo: a necessidade de partir quando o trabalho chama.
Rin passara o dia na escola de Ballet e mal tivera tempo de ligar para o empresário. Soube que por causa da apresentação das crianças se aproximava, todas as professoras ficaram para acertar os últimos detalhes de decoração, roteiro e figurino. A conversa era entrecortada. A ligação durante apenas alguns minutos até que a enrolada professora fosse chamada por alguma aluna ou colega de trabalho, tornando a ligar meia hora depois onde seria interrompida novamente, neste ciclo até o fim do dia.
Parece que ela seria a “coordenadora” daquele ano: responsável geral do projeto. Sesshoumaru percebeu que sorria ao falar no telefone. Não entendia de modo prático como alguém colocava alguém tão distraída como líder. Mas ao ouvir o jeito carinhoso com que falava sobre do avanço de alguma aluna ou da alegria ao perceber que os tecidos tinham chegado a tempo, mudara de ideia.
Rin era uma professora nata. Amava cada uma das crianças que ensinava assim como amava tudo que envolvia o balé. Em vez de ficar entediado com os assuntos que nada tinha a ver com sua formação ou profissão, Sesshoumaru se via opinando sobre suas questões. Ouvir a voz da garota por si só já era agradável, no entanto eles dividiam uma coisa em comum: eram passionais sobre seu trabalho. Uma característica que poucas pessoas tinham e que Sesshoumaru admirava.
Combinaram de se encontrar no dia seguinte. Assistiriam uma peça de teatro famosa que Rin ver e depois jantariam no restaurante japonês favorito do empresário. Combinando os dois programas faria com que eles passem toda a tarde; e boa parte da noite; juntos. Poucos minutos depois que desligou o telefone pela última vez, a reserva do restaurante estava feita e os ingressos de “A Fantástica História do Período Feudal de Inuyasha” estavam em mãos.
Não conseguia entender como uma história com o nome do seu desprezível meio-irmão poderia ser tão “fantástica”. E longa. Quase quatro horas no total, se contasse os minutos de intervalo entre atos. Porém mais tempo no teatro significava mais tempo ao lado da professorinha e disso Sesshoumaru não poderia se queixar.
Teria provavelmente uma boa noite de sono, nem um pouco ansioso para o dia seguinte. Afinal, estamos falando de Sesshoumaru, um perfeito espécime de homem adulto e não um adolescente qualquer e inseguro. O fato de ter demorado um pouco mais para pegar no sono era uma curiosa coincidência.
Estava dormindo quando o telefone tocou. Como tinha sono leve, conseguiu atender no primeiro toque, e, o que ouviu mudaria completamente os planos do dia que começava.
Chegou no hospital exatos onze minutos depois, os trajes de dormir mal escondidos em baixo de um longo sobretudo que colocara enquanto voava pelas escadas até a garagem. Sua expressão estava calma e contida quando chegou na recepção do centro médico.
Não demorou muito para que seus olhos encontrassem os do meio-irmão que tivera uma ideia parecida: jogou um longo moletom vermelho velho e encardido sobre o corpo para disfarçar o que seria uma reveladora roupa de ginastica. Abraçadas a ele, estavam duas garotinhas assustadas.
Aiko e Akemi estavam tão quietinhas que eram quase irreconhecíveis. Não tiveram reação alguma enquanto Sesshoumaru disse que as levaria até sua casa e tão pouco falavam durante o trajeto de volta. Por conta da presença das meninas não pode questionar nada a Inuyasha que ficara no hospital para dar apoio ao Miroku.
Tudo que sabia foi passado rapidamente pela ligação que recebera no começo daquela manhã: Sango acordado muito cedo para cuidar dos preparativos do aniversário das gêmeas quando sofreu um acidente. Não se sabe se caiu da escada ou bateu na pia. De um jeito ou de outro ela teve um sangramento terrível e teve que ser levada as presas para o hospital. Só podia imaginar o que estava passando na cabeça das meninas ao serem colocadas de qualquer jeito no carro da mãe acidentada enquanto o padrinho e o pai dirigiam loucamente.
Sesshoumaru deu um suspiro cansado. O certo seria que elas ficassem em casa com um dos dois. Mas Miroku não podia dirigir graças a um problema grave de “espasmos involuntários” que tinha em uma das mãos e Inuyasha tinha uma péssima memória, não sabendo absolutamente nenhum dado importante sobre a Sango e sua saúde.
Havia acabado de abrir a porta da sala quando recebeu uma mensagem de texto do meio-irmão:
“Sango está consciente, mas teria que ficar internada no hospital. Ela e o bebe ainda correm risco de vida. Volto para casa assim que der. Como estão as meninas?’
Com o canto de olho Sesshoumaru olho para as meninas deitadas no sofá. Os presentes de aniversário que dera assim que entrara em casa jaziam ainda embrulhados em cima da mesa de centro.
“Tristes, é óbvio”
Digitou rapidamente, mas não enviou.
Seus olhos passavam da tela do celular para as crianças desalentadas. Por um instante aquela cena lhe lembrava de si mesmo muitos anos antes quando o pai faleceu. Inuyasha devia ter a idade das meninas. O mesmo olhar perdido e assustado eram como uma lembrança duplicada do passado. Na época ele mesmo estava sofrendo e com raiva demais para consolar o meio-irmão. Culpava, ainda que inconscientemente, o menino pela morte do pai dele. Em sua mente limitada infantil achava que se o pai não tivesse se casado de novo não teria morrido naquele acidente na casa da nova família.
Por alguma razão, talvez um remorso por algumas atitudes que deixara de tomar no passado, ou pela uma inexplicável falta de oxigênio em seu cérebro que dificultaram suas sinapses normais, Sesshoumaru se viu discando vários números diferentes.
Em pouco tempo e muitas cifras a menos em seu cartão de débito a sua casa estava lotada de coisas. Entregadores deixavam brinquedos e toda sorte de comidas e bebidas infantis.
Até mesmo um bolo de unicórnio cor de rosa de 3 andares ocupava a mesa da sala.
Mas as meninas nem mesmo se levantaram do sofá para olhar.
Só restava uma pessoa em que ele poderia recorrer. Uma pessoa que conhecia bem as gêmeas e que faria de tudo para ajudar. Uma pessoa que provavelmente já estava se arrumando para o tão esperado encontro dos dois e quem ele ainda não tivera disposição para cancelar.
Resignado Sesshoumaru ligou para Rin 32 minutos antes do horário que tinha combinado de ir buscá-la.
A conversa foi estranha, notícias trocadas aos sussurros para não assombrar ainda mais as crianças. Então um desafio inusitado surgiu:
—Confia em mim?
Três palavras. Depois de uma ligação tensa de quase 17 minutos, Sesshoumaru podia jurar que via Rin sorrir do outro lado do telefone. E de alguma forma esse pensamento lhe vez surgir um discreto sorriso em seus lábios
—É uma ideia maluca...-Ela completou.- Mas acho que vai dar certo!
Sesshoumaru olhou mais uma vez para as crianças apáticas no sofá. Aceitaria mesmo que lhe oferecessem para trazer todo o hospício para cá, mas se dignou a dizer apenas sim.
E foi assim que o inferno começou. Vinte e seis muntos depois 18 crianças de muitas idades surgiram em uma manada pela porta de Sesshoumaru. Os responsáveis da ninha selvagem apenas sorriram e disseram que voltariam em breve.
Só que esse breve levou 2 horas e intermináveis 39 minutos e 51 segundos. Enquanto as feras pulavam de um lado pro outro brincando com os presentes novos que ele comprar para as gêmeas, as meninas pouco interagiram. Respondendo um ou outro coleguinha com respostas monossilábicas e sem energia. Não se mexeram nem quando a campainha tocou novamente. Desviando de perigosas pecinhas de lego e chicletes mascados como num campo minando conseguiu alcançar a maçaneta depois de 42 segundos. Ou seriam 24?
Pois ao abrir a porta todo o tempo, números e espaço não tinham mais importância.
Rin estava ofegante, seus cabelos grudavam no rosto e suas bochechas estavam coradas pelo esforço. Ao invés de usar um vestido de grife, saltos ou mesmo uma maquiagem elaborada, Rin usava uma jardineira jeans curta na altura dos joelhos. A camisa de mangas curtas era lilás e tinha uma porção de borboletas brancas e roxas estampadas.
—Ainda confia em mim?- Rin cruzou os braços nas costas e sorriu de um jeito travesso de quem planeja aprontar alguma pegadinha.
O olhar de Sesshoumaru passou pela professorinha mais uma vez. Mesmo com os braços cruzados na frente do corpo foi difícil reprimir o sorriso quando reparou em seus pés . Ela calçava um par de tênis all-star colorido azul-tiffany e amarelo-canário. Um de cada cor.
O que fazia Sesshoumaru se perguntar se era um proposital ou ela só se esquecera de conferir na pressa de sair de casa. De um jeito ou de outro era tão adorável, que Sesshoumaru não conseguira pensar em combinação mais perfeita e diametralmente oposta ao seu próprio vestuário. Calça de corte reto e sapatos pretos acompanhados de uma blusa de manga comprida e gola alta branco-gelo.
—Confio.
Então ela deu um passo para lado, revelando o que escondia nas costas: Um megafone.
Sesshoumaru piscou algumas vezes enquanto ela testava e ligava o aparelho duas vezes maior que sua cabeça.
—Por aqui pessoal! — a garota projetou sua voz na maquina acenando para um grupo que vinha ao longe.
Grupo não, Sesshoumaru se corrigiu.
Exército.
Balões e chapéus coloridos, sacolas pesadas recheadas de brinquedos, revistinhas e materiais de pinturas passavam quase escondendo os adultos que os carregavam. Os reforços de Rin consistiam de várias pessoas diferentes que Sesshoumaru mal teve tempo de decorar os nomes enquanto eles cruzavam apressados pela sua porta. Mães de algumas das crianças convidadas, professoras da escola de balé, quase todos os alunos da principal turma da Kagome (que curiosamente eram em sua maioria homens e barulhentos como uma matilha de lobos selvagens), as adolescentes do episódio do trem, o dono da quitanda da esquina da casa da Rin (que era tão, mais tão alto que teve que se abaixar para passar pelo batente da casa do Sesshoumaru) e sua tagarela mãe idosa, uma ex-namorada do próprio Sesshoumaru que "sem querer" quase deslocou o ombro dele ao passar pela porta carregando um ventilador gigante. A razão para trazer tal objeto lhe fugia a compreensão, assim como o fato de Kagura e Rin serem amigas. Jaken, seu assistente pessoal e Kaede que deveria estar no litoral a quilômetros de distância dali passaram pela porta fechando a curiosa procissão e trazendo respectivamente um lança- chamas e um conjunto de arco e fechas verdadeiro.
Respirou fundo incapaz de sequer imaginar que show de horrores todas aquelas pessoas tão diferentes fariam em sua querida residência. Tecidos e risadas enchiam o ambiente a passos largos, mas foram cinco dedos delicados que lhe trouxeram de volta a realidade.
Rin segurava sua mão com uma ousadia e confiança que lhe eram adoravelmente características. Então ela lhe sorriu e disse que estava tudo sobre controle.
E de fato estava. Mesmo que ele não conhecesse metade das pessoas que ali estava, e na outra parte não confiasse.
Mesmo que o inútil do Jaken que mau conseguia fazer um café sem se queimar estivesse portando um maçarico gigante, ou que Kaede no auge dos seus 80 anos cega de um olho e com catarata no outro estava ajeitando o fio de um arco legítimo.
Mesmo que sua ex estive ali só para cumprir sua promessa de derrubar parede por parede da sua casa e de dançar em cima dos escombros ainda sim estava tudo bem.
Pelo sorriso daquela professorinha Sesshoumaru enfrentaria todas as provações.
Em especial quando com suas ideias mais malucas, como trazer um circo para sua sala de jantar, era capaz de fazer com que certas duas menininhas voltassem a sorrir novamente.
Aproveitando-se de um pequeno instante de indulgência, Seshoumaru se abaixou e depositou um casto beijo em sua testa. Era bem longe do que ele desejava de verdade, mas a ocasião e local, parados no batente da porta da casa lotada, não lhe permitiria mais do que esse doce momento.
Apreciou com satisfação seus olhos se abrirem novamente e um biquinho de frustração se formar em seus lábios quando se afastou. E apesar do suspiro resignado, ela se virou e seguiu em frente, pronta para liderar de forma enérgica o caos que se formava.
Com inexplicável orgulho, Seshoumaru vira que Rin planejara cada detalhe daquele evento para que fosse inesquecível, mesmo que tivera pouquíssimas horas para recrutar e organizar o "Magnifico Circo de Aiko e Akemi".
Como uma cartola de um mágico experiente, Rin tirava das mangas algo sempre lhe surpreendia mais do que qualquer um fora capaz. Sua bondade e doçura não conheciam limites e desafiavam a lógica de alguém tão racional quanto Seshoumaru.
Era difícil acreditar mais alguém tão pequenino e frágil fora capaz de derrotar alguém como altivo Taicho Sesshoumaru.
E ele estava completamente derrotado e rendido. Não por um grupo de crianças rebeldes, e sim pela professorinha que naquele momento brincava com eles em meio a bolas e fitas de cetim.
Em uma daquelas piruetas ela deve ter levado o coração dele.
Mas Sesshoumaru não se importava.
Pois viver sem o próprio coração seria apenas mais uma provação que ele enfrentara nos últimos tempos.
Talvez a mais doce de todas.

"Sinto de repente
Uma sensação de orgulho
Se ao contrário de um mergulho
Pulo no ar num gran jeté..."

Notas finais
Não se preocupem, peguei carona no poço come-ossos e venho do futuro pra dizer que a Sango(e o bebê) estão super bem no universo desta fanfic! Estamos caminhando para o desfecho da história e nada mais adequado para concluir do que uma bela apresentação de final de ano... O que pode dar errado, não é? Beijos e Borboletas Azuis!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.