Notas iniciais
Informações nas notas finais. Boa leitura.

Estávamos andando a um dia inteiro, sem dormir ou comer, a água do cantil havia acabado também, desde que o véu caiu e a ilusão que me prendia na jaula se desfez, o tempo que mira tinha para parar o Armagedon havia começado a correr, tínhamos agora seis dias para parar tudo isso. O Armagedon era muito mais complexo do que eu havia imaginado e nenhuma das histórias que ouvi antes estavam totalmente corretas.

Nos primeiros dias – que já havia se passado – o Armagedon seria marcado pela destruição dos deuses, causando então a ruína do mundo. Não era apenas a cidade fantasma que eu estava, todo o mundo estava em pedaços, o solo já não era mais fértil diminuindo bastante a produção de alimento, a água também estava quase toda poluída e os humanos se juntaram em grupos para sobreviver, dividindo miseravelmente a água e a comida, construíram muralhas de pedra e moravam debaixo de casas improvisadas ou resto dos escombros que haviam sobrado. Muitos seres sobrenaturais se juntaram aos humanos para sobreviver, os que não conseguiam ficar sem matar humanos ficaram do lado de fora da muralha. A desconfiança, o medo e a vontade de sobreviver era vívida ali, todos estavam aterrorizados.

A segunda parte do Armadegon era a libertação de todas as Bestas do Apocalipse, depois os quatro selos seriam quebrados libertando os quatro Cavaleiros Caídos. Primeiro a Peste; Guerra; Fome e Morte. Espalhando o caos entre todos os seres vivos. Depois disso Deus, O Criador, e Lúcifer, O Destruidor, guerreariam numa batalha onde nenhum humano ou criatura sobreviveria, mas não terminaria por ai. Os dois são os seres mais poderosos do mundo, nenhum pode destruir o outro, pois seus poderes são equivalentes. A história mais segura que eu ouvi contar foi que, assim que o primeiro anjo, Lúcifer, caiu, os dois entraram em um consenso para por um fim no Armagedon que já havia sido previsto.

Criaram uma única criatura que pudesse matá-los, a quarta Moira, ninguém sabe onde ela foi escondida, na mesma história diziam que Deus e Lúcifer apagaram da memória onde haviam escondido-a esqueceram para que nenhum dos dois trapaceasse.

Quando todo o mundo estivesse destruído a quarta Moira sacrificaria a própria vida para matá-los. Ouvi muitas lendas com o tempo, cada uma mais diferente da outra, não podia se confiar completamente em nenhuma delas, mas essa foi a mais sóbria e viável.

Mira, para parar com o Armagedon, deveria tocar a sete e última trombeta do céu. A sétima trombeta, diferente do que acreditavam, não tinha o poder para o arrebatamento de Deus como muitas histórias cristãs contavam. A sétima trombeta era um artefato indestrutível, tinha sido feita somente para o Armagedon. Era o “botão de desligar”, pararia com a guerra e com o tempo tudo voltaria ao normal, os humanos inventariam uma desculpa para o ocorrido botando a culpa no desconhecido e inventando nomes de eventos inexistentes, os leigos iriam acreditar e, quem sabe, tudo não seja escrito em um livro nas escolas com um grande texto de baboseiras científicas.

Durante nossa viagem Mira não tocou em nenhum assunto que eu pudesse querer desviar, nem do passado e muito menos do recente beijo, na verdade eu não tinha quase nenhum dialogo e a maior parte do tempo passava discutindo com Irina.

Estávamos no que já foi um tipo de deserto, havia areia para todos os cantos mas o clima estava frio, com a morte dos deuses o clima e outras coisa que eles eram responsáveis ficaram bagunçadas.

Estava começando a anoitecer, os raios de sol dobravam-se na imensidão de areia dando lugar as estrelas que já enfeitavam o céu, decidimos parar ali para dormir, montamos uma barraca e uma fogueira e estávamos sentados do lado de fora.

– Como ele é? – Mira perguntou, falando pela primeira vez naquela noite. Não entendi o que ela quis dizer, ela pareceu perceber isso e continuou – O rio Estige, como é o poderoso rio que ninguém pôde encontrar... Imagino que seja maravilhoso. – Ela pareceu mergulhar em sua imaginação enquanto fitava as estrelas. Sorri torto com a memória, a quase dois mil anos ele havia me salvado e ao mesmo tempo me amaldiçoado.

– Não existe forma, quando o encontrei era ela, uma bela mulher vestida em um longo vestido branco – Pausei lembrando-me da terna face que encontrei naquele dia, continuei – Um animal, um objeto, árvore ou rio...Ele pode encontrar você, mas ninguém pode encontrá-lo. – Respondi.

Muitas criaturas estavam atrás do Estige, afinal, um rio que pode lhe tornar imortal a qualquer doença ou envelhecimento é tentadora. Muitos também o procuravam para converter sua essência em magia, o Estige era um dos seres mais poderosos que já foram criados mas não podia ferir ninguém, se uma pessoa forte o suficiente o encontrasse podia converter sua existência em puro poder e tomá-lo para si.

– E por que ela apareceu pra você? – Olhei para Mira que continuava a admirar a imensidão das estrelas em plena luz do dia que pareciam estar alheias a tudo que acontecia na terra, conosco.

– Eu não sei. – Disse me deitando e fazendo meus braços como travesseiro – Eu não queria morrer e ela simplesmente apareceu, o que teria a perder? – Perguntei. Olhava o céu procurando no meio dele as memórias daquele dia.

– Não ficou preocupado com a maldição? Em não poder amar? – Eu podia estar olhando para o céu, mas sentia os olhos de Mira penetrarem meus ossos e partindo-me como uma afiada faca.

– Eu não preciso desse tipo de coisa. – Respondi em um tom baixo, mas alto o suficiente para que ela escutasse. Virei-me de bruços ao lado contrario que ela estava como um sinal mudo de que a conversa acabaria por ali.

O sol já havia se posto e em pouco tempo estávamos cobertos por um céu estrelado sem lua, Irina que havia saído sabe-se lá para onde voltou deitando e se aconchegando perto da fogueira. Eu não precisava me preocupar com o frio pois como era uma raposa do elemento fogo isso não era problema, pouco tempo depois de tortuosos minutos em silencio Mira foi deitar-se dentro da cabana que havia sido montada.

Depois de horas acordado finalmente consegui cair no sono.

Estava de volta aquele lugar, um bonito bosque com diversos tipos de flores a beira do lago – É um sonho – Pensei.

Estava sentado a beira do lago que parecia estar imóvel, olhei de um lado para o outro, estava de noite e aquele lindo lugar estava deserto, nem mesmo podia enxergar algum animal ali. Ouvi um barulho de algo se mexendo na água e tive a sensação de ver algo mergulhar lá dentro, mas o lago ainda estava parado como se estivesse sido congelado no tempo. Ouvi novamente o barulho de algo batendo na água e olhei para de onde o barulho vinha, era uma sereia.

Diferente do que muitas pessoas pensam sereias não são boas, são criaturas com uma aparência atraente, tinham um rabo de peixe como nas histórias, sempre na cor esverdeada e o tronco humano que era coberto por um tipo de escama úmida que podia mudar de coloração, quando estavam na cor de pele humana mal se podia dizer que aquilo era escamas ao invés de uma pele comum, podiam ficar totalmente invisíveis dentro da água e essa era uma das vantagens que as fizeram sobreviver até hoje. Seus olhos eram totalmente negros e puxados como de asiáticos, todas tinham longos cabelos negros e em suas bocas dentes extremamente afiados. Não eram criaturas bondosas como contado em algumas histórias, eram criaturas malévolas e de coração frio, elas tentam convencer você que eram boas, te iludem com histórias e promessas, conseguem ver o mais profundo desejo do seu coração e usam isso contra você e se você apenas pensar em aceitar a proposta delas, em um rápido movimento elas lhe arrastam para o fundo do oceano e lhe sugam a vitalidade até te transformarem em bolhas, é assim que elas conseguem a juventude, se uma sereia não consegue enganar e matar ninguém ela envelhece rapidamente e se desintegra como bolhas de sabão.

Essa sereia tinha alguns aspectos diferentes que eu nunca vi em nenhuma outra. Ela tinha cabelos ruivos e seus olhos eram verdes e redondos, sua calda era na cor de um dourado reluzente que chegava a machucar os olhos se olhasse por muito tempo. Ela se aproximou e eu me afastei um pouco da água para que ela não tivesse tempo de tentar me enganar, ela se debruçou sobre a margem do rio, seus longos cabelos ruivos – que chegavam a ser maior que ela – tampava seu busto nu. Ela sorriu, seus dentes eram afiados como as das outras. Aproximei-me um pouco, ainda estava longe para que ela tentasse alguma coisa, mas perto o suficiente para ouvi-la.

– Não se preocupe, não vou lhe machucar, não sou como minhas irmãs – Ela disse sorrindo.

– Acha que vai conseguir me enganar? – Também sorri, mas debochadamente. Ela pareceu ofender-se porque fez um tipo de careta ameaçadora mostrando-me os dentes como alguns animais fazem.

Ela emergiu na água e voltou, segundos depois, ainda mais molhada do que antes.

– Meu nome é Ariel, — disse em um tom amigável – não se preocupe, eu não estou viva e não posso lhe machucar. – Dizia enquanto batia levemente sua calda contra a água, o estranho é que não importa o quanto ela se mexesse a água continuava parada, como se nada a tivesse encostando.

– Morta? E eu fiquei louco? Talvez tenha morrido e não me avisaram, é a única explicação de estar conversando com alguém morto. – Disse zombando dela, morta? Era a melhor desculpa que conseguira inventar? Ela não fez nenhuma expressão de raiva, continuou inexpressiva e depois deu um leve sorriso.

– Eu me apaixonei uma vez por um humano, — ela começou a contar um tipo de história e com um esforço com as mãos sentou-se na beira do lago, de costas para mim, com uma parte da calda ainda dentro do rio – ele era uma presa, mas não consegui matá-lo... – Ela olhava para o céu que estava completamente escuro, sem nenhuma estrela ou lua, isso me fez perceber que eu não fazia a menor idéia de onde vinha a luz daquele lugar. – Acabei me apaixonando por ele e usei um feitiço negro que me permitia ficar um mês como humana, mas teria que fazer com que o homem que eu amava também me amasse ou eu morreria. – Ela riu, parecia estar revivendo tudo o que contava em sua mente – Bom, nem sempre temos tudo que queremos, antes de morrer eu ainda tive uma escolha, minhas irmãs trocaram seus lindos cabelos por uma adaga que, se enfiada no coração dele, me salvaria e eu voltaria a ser uma sereia. Voltar a ser uma sereia? Matar pessoas em troca de eterna juventude? Mesmo ele tendo amado outra pessoa... Eu não pude matá-lo. – Ela respirou, puxando o máximo de ar nos pulmões e soltando um suspiro triste – Então como o feitiço disse, eu morri, desaparecendo no mar como finas e cristalinas bolhas. E aqui estou eu, me tornei uma guardiã do mar! Ganhei uma calda dourada e um cabelo vermelho e puft, viva e sozinha novamente. – Ela sorriu e disse a ultima frase animadamente, mas se você pudesse prestar atenção podia ver uma pontada de amargura, solidão e tristeza em cada palavra que ela dizia.

Aproximei-me sentando do seu lado e colocando meus pés dentro da água, mesmo que ela estivesse mentindo eu estava em um sonho, o que poderia me acontecer em um sonho?

– Você foi uma idiota. – Respondi inexpressivo, me sentia de certa forma responsável pela dor que ela parecia sentir no fundo do coração, talvez por ela me lembrar...

– Sim, eu fui uma idiota, – Ela disse sorrindo e me olhando de lado. – mas você também, não pense que eu não sei... Você se sacrificou por ela, não é?

Arrependi-me quase que instantaneamente quando ouvi aquilo, se ela não respirasse debaixo d’agua provavelmente a afogaria ali mesmo.

– Não, são situações completamente diferentes. – Respondi seco desviando o olhar para o escuro e estranho céu que parecia cobrir aquele lugar como uma lona. Estranhos e ao mesmo tempo aconchegantes minutos de silencio se instalaram entre nós, apenas admirando um estupor céu negro e vazio. – Por que eu estou sonhando com você? Eu raramente sonho e esse não parece ser um sonho normal. – Perguntei.

– Não, não é um sonho normal. Eu decidi lhe ajudar – Me ajudar? – As ondas me contaram que as ninfas estavam cochichando, existe alguma coisa mais nessa guerra, Churi, e está atrás de vocês. Fiquem atentos, muitas coisas vão tentar impedir vocês. – Ouvia aquelas palavras sem saber como ela conseguiu descobrir aquilo, mas de alguma forma, sabia que era verdade.

– Obrigado. – Respondi. Ela pareceu sorrir e em um pulo voltou á água, mergulhando totalmente e voltando apenas a cabeça para fora.

– Vou avisar se ouvir alguma coisa, agora volte a dormi, Churi. – O breu do céu pareceu engolir aquele lugar, minha visão foi ficando cada vez mais escura até eu não conseguir mais enxergar. Acima de mim um céu estrelado e nenhuma lua, acordei suando frio e ofegante, coloquei a mão no peito como que em uma tentativa de acalmar minha respiração e fiquei assim ate que ela se normalizasse.

– O que aconteceu? Raposa tola – Irina pareceu observar meu desconforto. Já havia me acostumado com o seu jeito arrogante e agora nem me importava com os nomes que ela me chamava.

– Nada, volte a dormir. – Respondi virando-me de costas para ela. Ouvi-a resmungar alguma coisa qualquer e novamente o silencio se fez presente.

Não sei por quanto tempo fiquei acordado, mas demorei a conseguir pegar no sono, quando dormi não voltei a sonhar com nada anormal, apenas o mesmo breu de sempre.

Não devia ser nem mesmo cinco horas da manhã quando levantamos, ainda estava escuro e mal se podia enxergar a cor da areia. Irina foi a primeira a acordar e eu, mesmo que ainda dormindo, fui acordado pelos insistentes – e irritantes – barulhos e ronronares que ela fazia. Acordamos Mira e voltamos a caminhar pelo imenso deserto gelado que não parecia ter fim.

Estávamos indo em direção ao que deram o nome de Cidade Escarlate, era a primeira parada que iríamos fazer para comer e, talvez, tomar um banho.

Irina parecia preocupada com o tempo, já havia se passado um dia e ainda não estávamos nem no inicio do caminho.

– Se continuarmos a andar rápido chegaremos à Cidade Escarlate antes do por do sol. — Mira disse apontando para frente como se indicasse o caminho que iríamos.

Voltamos a andar por aquele mar de areia que não parecia ter fim. Estava cansado, entediado e estava começando a ficar irritado com o clima frio.

– Como foi morrer? – Perguntei para Mira, tentando dissipar um pouco aquele momento tedioso de silêncio.

– Eu não morri. – Ela respondeu pausando e voltou a falar, explicando-se – Pelo menos não totalmente. Eu estive no Olimpo todo esse tempo, tive que executar provas lá em cima para poder voltar, assim como terei que realizar esta. O mundo acabando ou não, se eu não conseguir parar o Armagedon, eu volto a morrer, mas desta vez é para sempre – Ela disse. Surpreendi-me, parece que ela havia se esquecido de me contar esse detalhe. Uma pontada de preocupação alfinetou meu coração, e foi então que me ocorreu, eu estava tratando aquilo tudo como uma viagem qualquer, uma aventura, mas era muito mais do que isso para algumas pessoas, era muito mais do que isso para Mira.

– Bom, como não fui avisado desse detalhe antes, não me sentirei culpado se você não conseguir – Tentei dizer em um tom descontraído, mas temo que depois de tanto tempo minha habilidade em brincadeiras tenha enferrujado.

Olhei de relance e vi-a fazendo algum tipo de careta infantil, também brincando.

– É engraçado você dizer esse tipo de coisa, afinal... – Ela jogou essas palavras no ar. Realmente esperava que eu as entendesse ou apenas queria que eu perguntasse? As vezes ficava na dúvida.

– Afinal o que? – Perguntei realmente curioso. Se eu podia demonstrar qualquer tipo de sentimento, era melhor aproveitar antes que aquele anelzinho desse problema.

– Bom, eu não estive morta... – Ela dizia pausando, parecia querer criar algum suspense – e, às vezes, eu olhava em um lugar específico para terra... É engraçado ver a mesma pessoa que passou muito tempo visitando o lago onde eu morri uma vez dizer que não se importa se eu me fosse novamente. – Ela disse e eu pude sentir certo tipo de provocação na frase dela. Desviei o olhar como se aquilo não fosse comigo.

– Não se ache, aquele lugar é muito bonito de noite. – Rebati ainda sem olhar para ela.

– Não vejo o que existe de bonito em grama e água.

– Isso é porque você não tem nenhum senso de beleza. – Respondi dessa vez fitando-a com um olhar desafiador. Era confortante voltar a fazer esse tipo de coisa com ela, sempre fazíamos esse tipo de competição antes, era nostálgico.

– E o beijo? Quando vai repetir? – Ela disse. Não! Tocar em ferida aberta é golpe baixo! Fiquei desconfortável por um momento, mas não iria deixá-la vencer, se é o que ela estava pensando.

– Provavelmente nunca. Você precisa aprender a beijar primeiro, eu fiquei traumatizado. – Disse fingindo desdém.

– Entre as emoções que você não podia sentir, medo estava excluso? – Ela disse rindo e correndo para frente, terminando a conversa. Ela estava certa, eu vivi dois mil anos sentindo medo de sentir qualquer outro sentimento.

Mais um tempo caminhando e a paisagem começava a mudar. Uma fina camada branca de neve cobria a areia e mais alguns metros andando estávamos totalmente cobertos por neve. Não sei de onde veio todo aquele gelo, mas ao invés de areia estávamos agora cobertos por uma imensidão branca que igualmente ao deserto não parecia ter fim. Para a minha tristeza, o clima não trocou e ficou quente como no deserto, agora estava ainda mais frio e acho que devia ser humanamente impossível viver ali. Mira colocou um casaco que estava dentro de uma mochila q ela carregava nas costas, ele parecia ser revestido por alguma coisa felpuda e quente por dentro

– Chegamos a parte congelada do deserto, estamos na metade do caminho para Cidade Escarlate – Irina disse. Ela parecia ter uma habilidade incrível em passar despercebida quando quer, estávamos andando a horas desde que acordamos e só me lembrei da sua existência agora, quando ela resolveu falar.

– Como sabe que nos deixarão entrar? – Perguntei.

– Eu não sei. – Respondeu simples, caminhando. Ótimo! Estávamos caminhando em direção a um lugar que ninguém tinha certeza se iriam nos deixar entrar.

Acho que devia ser meio dia, ou algo parecido. O sol já estava no céu, mas com aquele clima não podia saber se meu senso com horário estava certo e pelo visto ninguém havia pensado em trazer um relógio.

Andamos por muito tempo em silêncio e diante do tédio eu passei diversas vezes sentindo saudade dos programas de velhinhos que passava na televisão quando eu estava na cidade projetada.

Parei quando senti uma presença estranha, de longe, muito longe, mas ainda estranha. Isso não pareceu passar despercebido por Mira e Irina também, Mira não era totalmente humana ainda, iria se tornar se ela parasse ao apocalipse. Sua forma humana é sustentada pelo poder da alma dela e nessa forma ela pode usar magia com esse mesmo poder.

Com algum esforço consegui, remotamente, descobrir algumas coisas sobre a estranha presença. Pelo cheiro pude ver que era um animal, não um animal normal e sim alguma criatura. E pelo estrondo que fazia quando suas patas, que corriam, tocavam o chão ele era enorme e muito pesado. Estava indo na mesma direção que nós, a Cidade Escarlate, mas por outro caminho. Pela distancia ele provavelmente chegaria lá um dia depois de nós, finalmente uma boa notícia! Poderíamos comer, tomar banho e comprar mantimentos e ir embora de noite, antes que ele chegasse a cidade.

Me senti sendo empurrado por algo para frente e pude ver mira correndo, fiquei sem entender mas também comecei a correr, alcançando-a.

– Por que estamos correndo? – Perguntei enquanto ainda corríamos.

– Os muros da cidade não vão aguentar uma criatura desse tamanho. – Ela disse nem se dando ao trabalho de me olhar, se olhasse certamente iria notar uma expressão desentendida, mas como não fez...

– E...? – Perguntei, desacelerando o passo, como uma deixa para ela explicar o que ela queria dizer.

– O que quer dizer com “e”? – Perguntou também parando e dessa vez me olhando – Se os muros não pararem a criatura a cidade vai ser destruída, Churi.

– Ela vai chegar depois que a gente. Não vejo o problema. – Na verdade eu sabia o que ela queria dizer com isso, embora estivesse relutante e me apegando na mínima possibilidade de ser outra coisa.

Ela me olhou quase que incrédula e... Aquele olhar. Merda! Eu conhecia aquele olhar. Era mais que perplexidade. Ela estava furiosa! Então eu soube, tinha certeza, que não importa o rumo que a conversa tomasse, iríamos fazer as coisas do jeito que ela queria.

– Você não vê o problema? – Ela perguntava para ela mesma, revoltada – Pessoas moram lá e se essa criatura chegar a cidade, essas pessoas irão morrer! Essa é a merda do problema! – Pronto, ela já havia começado a gritar. Eu não iria falar nada, mas as minhas palavras gritadas saíram mais rápidas do que eu podia conter.

– Nosso trabalho não é proteger uma cidade, tudo bem? Temos seis dias para terminar tudo isso e não estamos nem na metade do caminho, Mira! – Não cheguei a gritar, mas elevei a voz... Bastante, e também gesticulava enquanto falava, era uma mania.

Um misto de raiva e revolta continuou pregado no rosto de Mira.

– Eu não me importo com o que vai fazer, mas não vou deixar ninguém naquela cidade morrer! – Ela disse com um tom de voz visivelmente irritado enquanto apontava o dedo para mim.

Logo ela voltou a correr, me deixando para trás e Irina – que estava de platéia – foi com ela.

Passei a mão no meu rosto como se aquilo fosse levar a raiva que estava sentindo no momento. Eu era egoísta. Não me importava com ninguém alem de mim mesmo e colocava minha segurança acima de qualquer situação, eu havia aprendido a ser assim com o tempo e não sentia vergonha disso. As pessoas são o que são. Mas como eu já sabia, eu sabia desde o começo que aquilo iria acabar sendo feito do jeito que ela disse, e lá estava eu, correndo em direção a alguma criatura que nos atrasaria.

Estava de tarde, provavelmente entre cinco horas da tarde, quando passamos pelo terceiro e último lugar que dava para a Cidade Escarlate. A cidade do deserto ficava na área mais fértil do que antes já foi um imenso deserto, o lugar havia se transformado em algum tipo de floresta que, na verdade, não era tão fértil assim, mas muito bom comparando aos outros lugares. Antes de chegar lá, as pessoas passam por outras três anomalias que aconteceram no deserto. O Deserto de Areia, a paisagem não mudou, mas o clima sim. O Deserto de Gelo, como o nome sugere, é gelado e coberto por neve, e por último, o Deserto de Esqueletos, os nomes são bem sugestivos então quanto a paisagem das cidades. Nesse último lugar era o mais perto da Cidade escarlate, cerca de duzentos metros, mas já podia ver a grande muralha de pedra que protegia a cidade. Era nele que aconteciam batalhas quando criaturas tentavam derrubar a muralha. Um amontoado de corpos e esqueletos de humanos e de outras criaturas, alguns ainda recentes e outros em decomposição.

Estávamos a em frente aos portões Cidade, o clima do lugar era temperado, nem quente nem frio, um bom clima. Poderíamos estar tomando um bom e confortante banho, mas Mira gostava de complicar as coisas. Então continuamos caminhando, a criatura estava vindo por trás da muralha, não estava tão longe, chegaria ali em cerca de cinco horas e daquela distancia eu podia ouvir o barulho de suas patas com o chão. Ela devia pesar uma tonelada e ter cerca de três metros.

Paramos ali, sem conversar, apenas esperando a maldita besta chegar logo porque Mira também não queria causar nada perigoso para os moradores da cidade e decidiu não avisá-lo.

– Você iria mesmo deixá-los morrer? – Ela quebrou o silencio, me fitando. Eu estava sentado e ela em pé. Seu rosto continuava com uma expressão inconformada, parece que ela não digerido bem aquela informação.

– Eu não sou tão nobre quanto você pensa – Respondi baixo, não estava querendo brigar. Na verdade não seria tão ruim, tornaria as coisas menos tediosas.

Ela riu, como se não pudesse acreditar no que eu estava dizendo, mas acho que ela não se lembrava de mim tão bem quanto pensava. Quando havíamos nos conhecido pela primeira vez eu ainda era assim e nunca fiz nenhum esforço para esconder.

– Você conseguiria continuar vivendo mesmo sabendo que deixou tanta gente morrer? – Ela perguntou, alterando a voz.

– Sim, conseguiria, porque eu não me importo. – Disse também alterando a voz, frisando o “eu não me importo”.

Ela teria respondido se não tivesse sido impedida por Irina e pelo balançar da terra.

– Parem, crianças, existem coisas mais importantes agora, se matem depois! – Irina disse com um tom de repreensão.

A terra tremia como se dez mil cavalos estivessem correndo para aquela direção. A lua já estava em um céu sem nenhuma estrela e devia ser onze horas ou mais, a cada minuto que se passava os tremores ficavam mais intensos e em menos de uma hora, a cerca de trinta metros de nós estava a criatura. Um lobo enorme que realmente tinha cerca de três metros. Ele era negro e estava cheio de cicatrizes pelo corpo e rosto, em cada uma de suas patas estavam algemas e um pedaço de correntes quebradas.

Aquele não era uma criatura qualquer, era uma criatura lendária e eu sabia muito bem quem era, assim como sabia que seria muito difícil vencê-la e que também sairíamos dali com muito machucados, não descartava a possibilidade de um de nós não sairmos com vida.

A besta fera uivou para a lua, como se estivesse avisando que iria atacar, não era uma criatura comum e que seria facilmente derrotada. O grande lobo, Fenrir.

Notas finais
hey guys, bom, primeiro quero me desculpar pela formatacao do capítulo anterior, fiquei com preguica de consertar.
Bom, quanto a esse capítulo, quero dizer que o título esse "I" era pra ser um 1 de primeira parte, porque o próximo capítulo vai ser 50% vai ser sobre ele (não sooobre ele, mas vai ter ele -q)
Bom, a Irina nem apareceu nesse capítulo y.y Mas vai compensar no próximo, vai acontecer umas coisas e ela vai aparecer o tempo todo no próximo ♥ (Sim, eu amo a Irina u.u)
Bom, espero que tenham gostado. Desculpem pela demora e até o próximo capítulo o/
b-bye dudes~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.