A Aurora de Castelobruxo - A Harry Potter Story
21 Últimos Testes
O tempo passava a medida que a escola se alterava em sua decoração, e enquanto Aurora praticava o feitiço. As trilhas foram povoadas de bandeirolas, que sem sustentação, podiam estender-se ao redor de tudo, aliadas de tochas comemorativas que fumegavam as cores das três casas. Aurora, por outro lado, praticava o movimento embaixo de sua carteira, sussurrando "Estupefaça" para que ninguém a escutasse. Inara mostrara o movimento e dissera o quê evocar ao dispará-lo.
— Serve para incapacitar, então sua intenção precisa ser clara — dissera.
Durante aquelas semanas, onde totens eram pintados como caveiras coloridas, pipas eram sustentadas, barracas eram levantadas, caldeirões posicionados; tentou manter isso em mente.
As turmas começavam a aderir suas vestimentas, trajando-se de corpo inteiro da cor de suas casas. Anhangá era recheada de inúmeras variações de vermelho em muitas peças; vestidos curtos e longos, xales, capas, sobretudos, jaquetas, casacos. Ruína era responsável por inspecionar cada visual, e com um aceno de cajado, alterá-los para um tom adequado para as corças. Isso refletia-se nas outras casas; Jaci era um mar de elegância azul enquanto Guaraci, uma imensidão de calor dourado.
Com outras coisas em mente, Aurora continuava vestindo verde, de cajado sempre na mão, preocupada em aprender o que precisava. Nino, por outro lado, já aderira a próxima tendência: os cabelos escovavam-se para trás, lambidos, com a exceção de uma mecha pingando na testa, encaracolada; tudo isso munido de um blazer com corte de fraque, cuja bainha carregava tons escurecidos do vermelho de Anhangá. Quando alcançou o salão vestindo-se desse jeito, Matheus engasgou com uma coxa de frango, e mesmo Inara ficou boquiaberta.
— Encantado, professora Ruína — anunciou, quando a moça passou elogiando o porte. O menino sentou-se a mesa, preocupado em não se sujar.
— O que é tudo isso, Nino? — perguntou Matheus.
Há poucos dias, o garoto ajustara a moda ao seu jeito. Vestia uma bomber azul surrada por cima da camisa branca de Castelobruxo, que disse ter encontrado perdida na bolsa. Minutos antes do banquete começar, Dourado inspecionou a vestimenta de todos de Jaci, e igualou as cores. Então, ao menos agora, Matheus não parecia ter saído de um brechó detonado.
— Pompa — afirmou Nino, ajeitando a roupa.
Aurora olhou-o com um sorriso.
— Tá bonito — cumprimentou ela.
— Oh, obrigado Aurora — nunca vira o rosto iluminar-se tanto. Depois, pareceu lembrar algo. — E não pense que não tenho algo para você também.
A bruxa quase tropeçou na mastigação do espaguete.
— O quê? — questionou.
— Você vai ver.
Ela estranhou. Sabia que os uniformes de Duelos eram disponibilizados pela instrutora da casa, e não se lembrava de que precisava de roupa para a festa em si. Contudo, se Nino dizia que "iria ver", lhe restava esperar.
As tardes da última semana de Outubro foram povoadas de treino. Depois do almoço, as duas eram recolhidas direto para as masmorras. Evitavam sempre um quarteto de Anhangá que tentava pregar peças em quem passava, com o rosto pintado de caveiras mexicanas, porém, depois de um alerta brusco de Ruína, pararam de fazer as brincadeiras (ou ao menos, mudaram de lugar).
Cada estratégia era repassada para que se fixasse. O "disparo triplo" que Inara usava com frequência, onde as faíscas se dividiam para dificultar a defesa; o "tiro rasteiro" que deveria atingir o solo para que a rebarba da explosão alcançasse o adversário; o "estouro rasante", disparado geralmente para mover posição na batalha e desviar a atenção do oponente; até o arriscado "sopro vermelho", um jato contínuo para ocupar a vista do oponente, contudo com a grande possibilidade de um estouro resvalar ou as próprias faíscas destruírem a visão do disparante. Além do mais, existia a possibilidade de um desarme imediato, já que sem ser visto, o oponente teria uma brecha.
Todas essas eram só o começo, pois na categoria de desarme, havia muito mais a se pensar. Sendo um feitiço menos versátil, praticavam apenas variação de intensidade, junto com lances com o corpo para evitar ser pego. Sem esquecer, é claro, da defesa de faíscas, que era crucial para que tudo funcionasse. Aurora era sempre corrigida porque seus movimentos de defesa eram curtos demais, e uma faísca defletida para perto de si, poderia explodi-la a qualquer momento. Um erro que encerraria a partida.
As marteladas de Ruína seguiam até quase o fim da tarde, sempre faltando vinte minutos para o pôr do sol. E era nesse curto espaço, que praticavam o Feitiço Estuporante. Configuravam o eixo do bruxo de testes para que girasse, e assim a magia deveria interromper o movimento. Nas primeiras vezes, Aurora havia reduzido a velocidade de giro, entretanto, até então, nunca fora o bastante.
— Você tá perto – cochichou Inara, quando o bruxo quase travou por inteiro.
Eu sei, Aurora pensou, disparando uma segunda vez quando o objeto voltou a girar.
O cajado cuspiu um feixe prateado, acertou a estrutura de madeira, desestabilizou o movimento; quase como se tivesse diminuído sua velocidade naquele período. Agora, vinha a parte definitiva. Contudo, quando baixou a arma, o bruxo falso prosseguiu ali, declarando que finalmente conseguira executar o feitiço com perfeição.
— Eu... consegui! – Aurora exclamou, entre um ofego.
— Conseguiu – concordou Inara.
As duas deixaram a sala logo em seguida, naquele dia. Uma saltitando tagarela, e a outra num vazio distante. Este segundo sentimento durou um bocado na menina, e como Aurora aprendera que não a entendia mesmo que tentasse entender, deixou-a ir, embora ficasse preocupada quando ela não compareceu ao jantar daquela noite.
— Deve ser coisa dela, sabe, o mesmo de sempre – justificou Matheus, admirando uma pilha de anéis de cebola.
— Não sei não, ela tá esquisita há um tempinho – lembrou Aurora.
— Desde que a conhecemos – reafirmou Nino, mudando de assunto quando o som de bater de asas invadiu o refeitório. – Chegou! Finalmente!
As araras do colégio, mais robustas que as outras, pousaram sobre algumas mesas depois de um breve passeio rente ao teto. Alguns estudantes haviam encomendado roupas, acessórios e alguns utensílios. Sem contar que, vez ou outra, caixas grandes eram carregadas por um quarteto das aves, já que a carga era pesada demais. Parecia ser coisa de Castelobruxo.
Uma delas lançou uma caixa às mãos de Nino, e ele agradeceu atirando-lhe um grão de seu prato. O bicho recolheu-o no ar, esquivou dos archotes e atravessou o portal principal em direção a Casa de Aves.
— Aqui, Aurora, pra você – anunciou, empurrando os castiçais, taças e pratos para que a caixa se comportasse ali.
— Abre! – pediu Matheus, empolgado.
Aurora sabia que não era justo aceitar algo assim, mesmo sem abrir. Engatilhou o discurso, porém viu suas mãos agirem primeiro, abrindo a caixa. O papelão pardo foi rasgado, uma caixa marrom lustrosa surgiu, semelhante a um baú. A fechadura se destrancou, e o baú abriu para seu conteúdo: um elegante quimono vermelho salpicado de ranhuras douradas. Semelhante ao que usava no dia a dia, porém com camadas extras de delicadeza, com traços encantados nos ornamentos.
— Nino, isso é coisa d... – começou, mas foi interrompida pelo garoto.
— Não, calma, olha aqui – girou um relevo de madeira no baú, e a plataforma onde o quimono estava subiu, revelando um fundo falso com mais uma vestimenta. – Tem mais.
Aurora pescou dentro para ver uma outra veste. Assemelhavam-se a trajes de bruxo, com chapéu delgado e pontudo, porém, com um toque a mais, lembrando a vestimenta de um lutador de boxe. Arrancou-o de lá, estendeu na frente dos amigos. As mangas eram longas, e o restante do robe não estendia-se até o chão, parando na altura da cintura. Nas bordas, linhas de ouro marcavam costura, e no meio, havia um bordado da corça estilo maia.
— Vira – pediu Nino, com as bochechas enormes devido ao sorriso.
A menina obedeceu, para ver algo que a deixou ainda mais boquiaberta. Algumas ranhuras semelhantes à de Orabutã marcavam o tecido circundando um escrito e um número estampado no centro. Lembrava uma camiseta de futebol, contudo, em vez de seu nome e sobrenome, a parte de um apelido: Caçadora, acima de um grande número um.
— Eu... – ergueu os olhos marejados.
À sua frente, Kevin e Maria estavam de pé em seus lugares, acompanhados de uma dezena de membros de Anhangá, incluindo os duelistas dos outros anos. Antonino levantou-se atrás dela, puxando uma salva de palmas, e Matheus destacou-se ao bater mais alto que o restante, mesmo sem ser da casa. Depois, assovios começaram a estourar entre o pessoal, juntos de uma bateção que estremeceu toda a prataria em cima da mesa. Ruína pediu silêncio e aos poucos, a comemoração terminou, com muitos cumprimentos da parte dos companheiros de casa e muitos agradecimentos da parte de Aurora. Por último, virou-se para Nino, enxugando uma gota que caíra rente a sua bochecha.
— Você que planejou isso?
— Ah – corou um pouco, depois apontou para Maria. – Ela deu a ideia de colocar o nome, eu só pensei no quim...
A menina saltou nele, abraçando-o o mais forte que podia. Nino parecia nunca ter abraçado alguém antes, sem saber onde colocar as mãos, distante de apertá-la como ela fazia. Matheus, por sua vez, querendo se misturar ao agradecimento, uniu-se a eles, envolvendo os dois em seus braços.
Aurora largou, viu o amigo que parecia uma pimenta dedo-de-moça e o outro, serelepe como se saído de um desenho animado. O jantar abrigou mais risos, mais gritaria, mais confraternização; não só na mesa vermelha, como nas outras. A bruxa, distraída com tudo, só lembrou de guardar o uniforme quando o sinal tocou.
O trio se transformou numa dupla quando Matheus despediu-se direto das escadas para sua torre e o restante seguiu para Anhangá. Aurora deu um adeus curto para Nino, subiu as escadas da sua ala, para encontrar a Sala Comunal vazia. Pela primeira vez, decidiu parar um instante, respirar e pensar. O peito estava tão erguido quanto seu olhar, que fitava os quadros com uma vontade que nunca sentira. Algo ruminava dentro de si, prestes a acendê-la, e ela esperava a primeira faísca para deixar queimar.
Apertou o baú debaixo do braço, encarou as figuras de Anhangá e suas diversas representações. Foi como se fizesse uma reverência, pronta para curvar-se a ele como ele se curvara a ela.
Até que, atrás de si, pés acertaram a escada gelada.
Estavam descalços. Inara, de braços cruzados, encarava a amiga com um afinco estranho. Aurora sentiu-se como um alvo de uma lança. Devia ser só impressão. Então, alegre com a presença da amiga que não vira o uniforme, anunciou:
— Olha isso – abaixou, colocando o baú no chão, alcançando a área falsa e mostrando a parte traseira da veste. – Não é demais?
O silêncio, marcado pelos suspiros empolgados de Aurora, foi sufocante. Distante do ofego admirável de quando corria livre. Aquele era opressivo.
— Caçadora — respondeu a menina. – A Caçadora de Anhangá – completou, numa repetição incômoda.
— É – Aurora ainda media terreno. – É um apelido idiota que rec...
— Que você adora – contribuiu Inara. Se não estivesse tão dura, podia parecer uma gentileza. – Adora mesmo que não o mereça.
— Eu não... – a menina não soube o que dizer. – Do que você tá falando?
— Você sabe o que é – grunhiu ela. – Tem que ser muito burra pra não saber.
A área que estava medindo encurtou. Não havia o que duvidar. Era um campo minado, e estava prestes a explodir. Aurora sentiu como se tivesse descido de paraquedas, surpresa com tantas bombas logo abaixo de seus pés. Por outro lado, Inara parecia tê-las plantado. Esperando o momento certo para ativá-las de uma vez, sem se importar se estava no meio do fogo cruzado.
— Não – disse, colocando o baú num assento próximo, fechando-o com a roupa lá. – Não sei não.
— Você é mesmo a caçadora, Aurora? – perguntou, retórica. O nome na boca da amiga pareceu fumegar. – Se eu me lembro bem, você não fez nada além de ver seu amigo ser bombardeado.
— Eu desci lá, assim como você – rebateu Aurora. – Tava todo mundo lá pra ajudar.
— E todos são os caçadores? – Inara quis saber. – Ou só você, a especial?
Aurora apertou os olhos, as sobrancelhas caíram sobre eles.
— Ah, então é sobre isso?
— É sobre tudo – respondeu a menina.
— Tudo o quê? – defletiu Aurora. – Do que você tá falando?
Inara curvou a postura, todos os membros ficaram mais rígidos.
— Você tomou o crédito pela Caça às Bruxas. Uma coisa que você não fez, e que mal sabia como fazer! – revelou.
— O que eu podia fazer!? – perguntou a menina, abrindo os braços.
— Podia ter contado a história de verdade, o que realmente aconteceu – rebateu.
Aurora não negou, não sabia responder porque não fizera. Contudo, ao refazer o caminho em seus pensamentos, entendeu uma parte que perdera por um bom tempo.
— Então é isso, né? – a garota tentou concluir. – É inveja?
Aquilo foi como se tivesse lançado uma porção de álcool numa pequena chama.
— Inveja? De quê? Você não fez nada, só tomou conta de um monte de coisa que não era sua! – a voz saiu como um rosnado, e a menina deu um passo à frente. – Um monte de coisa que eu fiz, eu!
Toda a frase sustentou o que estava pensando.
— Mudou a história a seu prazer – continuou ela –, só porque podia ganhar um pouco de atenção por isso – a conclusão foi como um acidente repentino nos olhos de Inara. – Eu não devia tá surpresa, é isso que vocês fazem.
— Vocês? – a menina perguntou, tentando igualar as ideias.
— É, vocês! – a fala veio acompanhada de saliva. — Vocês sempre vem, pegam o que querem, exploram o quanto podem, e vão embora. E ainda são chamados de salvadores, no final.
— Então, era o que você queria? – devolveu, dessa vez avançando na discussão. – Queria ser chamada de Caçadora? Queria ser a salvadora?
Inara vacilou, e Aurora encontrou uma brecha.
— Não – respondeu, oscilando. – Tô dizendo que era o certo a se fazer.
— Certo pra que você tivesse a fama? – Aurora gania agora, no mesmo tom que a menina há segundos atrás. – Esse é o problema, de verdade, não é? Não ser você. Era isso que você queria, afinal? Ser famosa?
— O quê... – a voz se perdeu.
— É, porque é só isso que parece te incomodar – sugeriu, erguendo os ombros.
— Isso não é verdade – defletiu ela. – É só que as coisas têm que ser contadas direito.
— Tem certeza? Por que não é o que parece não – disse, mexendo a cabeça de um lado para o outro, acumulando a raiva. – Desde sempre isso te incomodou sobre mim. As coisas que eu tenho que acha que deveriam ir pra você.
Inara ficou calada, os lábios se comprimiram.
— Quantas vezes me disse que o Orabutã não era pra ficar comigo? – começou, fazendo uma contagem na mão. – Quantas vezes afirmou que isso era um erro? Quant...
— Eu só tô cansada! – berrou, atrapalhando a fala. – Cansada de ver meu povo ter que ser apagado pelo seu. Cansada de ser substituída para colocar alguém como você no lugar. E mesmo assim...
— Admite que isso é sobre você, Inara – vociferou Aurora, por cima dela. – Para de se esconder atrás do seu povo e atrás dessa história toda!
Os dedos da menina se contorceram de uma vez só.
— Essa história toda é o que te mantém aqui. É por causa dessa história toda que existe essa diferença – gritou de volta. – E você continua aqui, desrespeitando tudo isso, passando por cima das mesmas pessoas que te fizeram estar onde você está!
Aurora sentiu que ia enlouquecer. Arrancou o cajado do esconderijo e pôs entre as duas. Os pulmões encheram de ar, como se nunca mais fossem absorvê-lo outra vez.
— Aqui, tá vendo!? – apontou a madeira, as ranhuras em brasa outra vez. – Essa é a prova de que você tá errada. Eu a desrespeitosa estou com isso na minha mão. Eu consegui. Eu o controlo – a voz estrondou na Sala Comunal. – Tenho o poder sobre ele, porque fui escolhida por ele. É disso que você tem inveja, Inara!
Inara deu mais passos pesados na direção da garota. Por um momento, pareceu que ia saltar para atracar-se nela, mas isso não aconteceu. Alguma coisa dentro de Aurora, entretanto, pedia por isso.
— Você está fazendo de novo, e nunca para – lançou, gesticulando com os dedos em riste. – Fala como se todo o motivo de você ter dominado ele não tivesse nada a ver com qualquer outra coisa além de você. Eu te ajudei a entender como usá-lo, e você nem sequer me agradeceu... – aquilo evocou uma mágoa, a voz perdeu força. – depois que eu tinha... contado a história da minha família pra você, algo que eu nunca fiz, e a primeira coisa que você fez foi mostrar — sentia nojo do que dizia.
Aurora recuou um pouco, e a voz saiu fraca o bastante para ser interrompida:
— Que diferença...
— Eu que te ensinei como estuporar! E é por causa de mim que você tem o controle que precisa pra continuar nos Duelos – lembrou, reunindo forças, afinal o timbre começava a ficar rouco. – E ainda acha mesmo, que depois de tudo, eu quero fama? Não é fama que eu quero, só quero ser reconhecida – concluiu, quase sufocada com seu próprio discurso.
O rosto de Aurora, além de vermelho, estava torto. Cada elemento se contorcia para ouvir aquilo. Não estava satisfeita com o que ouvia, e de certo, precisava responder.
— Que diferença faz se foi você que me ensinou? – perguntou, querendo discordar da relevância de Inara em qualquer coisa. – Eu teria aprendido com o tempo, podia demorar, mas ia acontecer uma hora ou outra. Orabutã me escolheu como portadora, é claro que eu conseguiria usá-lo – rebateu com força.
Inara sentiu o impacto. Os olhos lacrimejaram por trás da pintura vermelha. A cabeça negou, incrédula.
— Que diferença? – perguntou, a boca abrindo com dificuldade. – Você... – desistiu, cansada de bater boca àquele ponto. – Devia ter acreditado na minha avó. Não dá pra confiar em vocês – disse.
— E por que não acreditou? – Aurora foi incisiva, aproximando a cabeça como um bote de serpente. – Não é a voz dela, do seu povo que conta? O que te fez mudar de ideia?
Algo na forma com que Aurora citava a avó ou o povo estremecia Inara. A menina parecia uma bomba relógio a este ponto, qualquer movimento errado poderia explodi-la. Porém, a bruxa estava disposta a fazer todos.
— Pensei que você era diferente – admitiu Inara, cabisbaixa, desativando a bomba.
Por um segundo, Aurora repensou se deveria continuar. Os nervos diziam que sim, mas aquele recuo dizia que não.
— Mas é igual — seguiu. – Tem tudo nas mãos e nem sabe agradecer por isso ter sido dado a você – Inara concluiu, mais calma do que em qualquer ponto na conversa.
— Se já sabia desde o início, o erro foi seu – Aurora cuspiu.
Inara apertou a boca.
— Foi sim. Errei ao pensar que podíamos ser amigas – confessou.
Aurora sentiu-se como um pedaço de grama devastado por um tornado. Todos os pelos arrepiaram, prontos para devolver uma centena de palavras de volta. Irritadiça, até sentiu o pé colidir contra o chão de pedra da Sala Comunal, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Inara deu as costas, pronta para fugir da conversa. Isso a irritou ainda mais, e então tudo que estava dentro, saiu de uma vez.
— Como eu ia ser sua amiga? Como qualquer pessoa pode querer ser sua amiga, Inara? – bufou, esperando que fizesse estrago. – De alguém que tem inveja de mim. Alguém que não para de me criticar, de dizer que eu não mereço as coisas que tenho, e que não sou feita pras coisas que tento... – esperou que a garganta fechasse, mas foi o peito que se comprimiu. – Agora eu sei que sou capaz de qualquer coisa, e não é graças ao que você diz. É o que eu vejo.
Inara parou de frente a escada. Algo no discurso a tocara.
— Não é – respondeu, a voz em tom baixo –, você não é.
Aurora ergueu o cajado que estava em mãos, manipulou-o de uma mão para a outra, exibindo.
— Passou o ano todo tentando me dizer isso, Inara, mas não deu certo. A prova tá aqui na minha mão – esticou na frente dos olhos da amiga, como se esfregasse no rosto dela.
Inara notou o desrespeito, cedeu a ele. A mão se ergueu para pegar o Orabutã da amiga, porém, Aurora agiu antes. Percebeu a aproximação, e num impulso, afastou o corpo, mirando a menina com o cajado.
— Estupefaça – gritou, num tom de insulto.
A magia estourou no peito da garota, empurrando-a para trás, fazendo-a acertar as costas na escada, paralisada. O som do baque seco da pele chocando na pedra fez-a se arrepender na hora, os olhos saltaram das órbitas. Guardou o objeto do bolso e se aproximou da menina. Deixava escorrer uma lágrima, gemendo uma dor baixinho.
— E-eu... me desc... foi sem quere... – estendeu a mão para tocá-la.
— Sai – urrou, mais alto do que qualquer outra vez. – Não encosta em mim!
Esperou ver raiva naqueles olhos escuros, mas foi recebida com medo. Um medo primordial, vindo de um lugar que Aurora não conhecia. Era como se tivesse sendo cultivado desde o nascimento, germinado num broto apavorado, estendido-se para singelas folhas de pavor e terminara num grande carvalho de pânico. Foi o que viu. Viu a plantação, crescida e mergulhada nas pupilas da garota.
Aurora se afastou, percebendo que a confusão adquirira espectadores. Não sabia há quanto tempo as meninas do dormitório estavam na curva da escada, porém, encaravam a cena assustadas. Entre elas, Maria saiu para apaziguar a situação. Auxiliou Inara com um feitiço rápido, ajudou a se levantar, acolhendo-a sobre o braço. Tentava conferir partes da história ao olhar para Aurora. Quando não conseguiu, levou-a devagar escada acima, dizendo às garotas que não havia mais nada para ser visto ali.
No silêncio da Sala Comunal, sozinha, Aurora conseguiu pensar. E nada do que veio em seguida era bom. Pra qualquer lado que fosse.
Faltando dois dias para o grande festival, tudo pareceu cinza. E as tentativas falhas de Matheus em tentar convencê-la de juntar-se à menina nas refeições piorava tudo. Nino, por sua vez, foi um pouco mais solícito, sentando-se com ela vez ou outra para que não ficasse sozinha.
Mesmo avisando o porquê estava fazendo isso, aquilo irritou Aurora por algum motivo, que por não saber dizer exatamente, evitou de comentá-lo com Nino. Apenas disse:
— Pode fazer o que quiser – comentou, na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. – Não vou te impedir de conversar com ninguém.
O garoto concordou com a cabeça, mas sua expressão dizia o contrário. Estava bem mais incomodado com aquilo tudo do que aparentava, e se fosse o caso, Aurora se perguntava porque ele não conseguia dizer isso a ela.
— Tá bom, mas, você não acha q... – começou o outro rapaz.
— Matheus, por favor! – repreendeu em baixo tom, já que Miranda mostrava os exemplos dos mais variados tipos de troll.
O menino obedeceu, também a contragosto. Havia um quê de diferente nele, como se alguma parte escondida gritasse que Aurora poderia estar bem mais errada do que imaginava que estava. Podia ser coisa da sua cabeça, afinal muitas outras possibilidades iam e viam, porém, não tinha tempo para decidir, com o festival tão perto.
Novembro começou, e o último treino foi feito separado. Assim que Ruína abriu a passagem para as masmorras e a garota não estava lá, perguntou:
— Pediu para ser transferida para outro horário – disse, sem dar a mínima. – Acredito que sabe algo sobre isso?
— Sei – respondeu, mantendo-se calada até o fim do combate.
Ruína foi com tudo para cima dela, e na maioria das vezes ficava difícil batalhar porque se enganava de parceira. Lutava como se ainda estivesse com a amiga em sua frente, cuspindo feitiços com parcimônia, evitando forçar além da conta. Contudo, assim que a mente chegava à esse lugar, fazia-a voltar pelo mesmo caminho que viera, com uma rebarba de raiva acompanhando o retorno. E ainda que lutasse rilhando os dentes, conseguia se manter estável, controlar seus feitiços, dispará-los quando e quanto devia. Estava boa demais para qualquer um dizer o contrário.
Com uma toalha sobre o lombo, escalou cada degrau com dificuldade, arrastando-se até alcançar o dormitório. Evitou seu beliche, indo direto para seu novo lugar no fundo, junto com a Francisca – uma primeiranista, que passou a primeira noite inteira quando se mudara dizendo o quanto era inspirada por Aurora. Lá, ventava mais graças a janela próxima, e o sol alcançava aquele beliche assim que nascia. Para sua companheira, não era problema algum, já que quando a bruxa começava a balbuciar a ideia de se levantar, a outra já havia feito suas chiquinhas no cabelo.
Deitou-se depois do banho, sem se enxugar completamente, querendo acordar no dia seguinte assim que os duelos começassem. Ainda bem que o cansaço a nocauteou assim que se cobriu, contudo, uma explosão, que pareceu acontecer segundos depois, a despertou.
Acordou o dormitório inteiro, e algumas das garotas puxaram os cajados, preparadas para o perigo. Aurora ergueu-se num salto, ajeitando o pijama para conferir do que se tratava. Sua companheira de beliche mal se moveu.
Maria desceu logo depois, de cabelos emaranhados e olhar sinistro, o que indicou a Aurora que era bem tarde. Talvez duas da madrugada. A monitora desceu primeiro, acompanhada do restante das garotas mais corajosas. Acendeu os archotes, os lampiões, xingando baixinho enquanto pisava firme.
— Maldição... – abriu a porta da Sala Comunal. – Fiquem aí vocês, vou ver o que é – disse, fechando a porta antes de descer as escadas.
As garotas cochicharam um pouco, tentando descobrir o que era, e do lado de fora, ouviram os berros da monitora, revoltada. A voz se aproximou outra vez, xingando um pouco mais, até que a porta abriu.
— Aurora – chamou, fuzilando à procura. – É pra você.
A bruxa conteve um guincho de surpresa, avançando pela porta, atraída pela curiosidade. Desceu até a Primeira Sala, abriu a porta debaixo, para ver um garoto chamuscado, apalpando o braço enquanto rolava no chão à base do castelo.
— Matheus – não conseguia acreditar. – O que você tá fazendo aqui?
— Uma explosão? – reclamou mais uma dor. – O feitiço contra invasores de vocês é uma explosão?
Aurora notou que a faixa no seu braço estava intacta, porém, abaixo dela, boa parte estava escura. Matheus ergueu-se devagar, ajudado pela amiga, ainda tentando tirar fagulhas da roupa e a fuligem do rosto.
— O nosso é um de esquecimento e eu já acho demais... – disse, ajeitando a faixa de Jaci.
— O que você tá fazendo aqui!? – Aurora foi direto ao ponto. Os olhos ainda estavam remelentos.
— Eu precisava falar com você – adquiriu o tom de urgência. Depois, moveu a mão para o bolso e desembrulhou um papel. – Eu recebi isso aqui, e tinha que vir te avisar! Não dava pra esperar nem amanhecer – explicou.
Aurora percorreu os olhos. Era um bilhete. Contudo, antes que pudesse avaliar o conteúdo, saltou direto para o nome escrito logo abaixo. De quem era enviado. Levantou os olhos para o amigo, sentindo o estômago embrulhar. Balançou a cabeça em negativo, apertou a dentição e deixou escapar um suspiro.
— Você vem até aqui... duas da manhã – começou, e sentindo que ia gritar, segurou a voz. – Pra me entregar um recadinho que pegou da Letícia? Você me prometeu que não voltaria a falar com ela!
Matheus abriu a boca, preparado para aquela reação.
— Eu sei, eu sei, mas olha, é importante! – pegou-o de volta, leu-o em voz alta. – Aurora tem que ter cuidado com Guaraci, estão armando contra ela. Ela tá avisando...
— Você é burro ou o quê? – Aurora devolveu, impaciente.
Matheus estremeceu. As orelhas estavam prestes a cozer, de tão quentes.
— O-o... – gaguejou.
— Não é óbvio que ela tá tentando se desviar da ameaça que fez? – começou. – E como se isso fosse o pior... você quebrou a nossa promessa! — gritou, dessa vez, sem se preocupar em conter. – Você foi lá, de novo! Eu disse pra não ir, e você foi como se não fosse nada. E tá voltando a acreditar nela, de novo... você é burro ou o quê? – repetiu.
O menino não soube como reagir. Os olhos estavam grandes, a boca estava abrindo cada vez mais.
— Aurora, eu...
— Eu não quero saber! – retrucou, estendendo as duas mãos, para que fosse clara. – Você... eu confiei em você – embargou, agora sentindo-se cansada. Tudo se repetia. – Só te pedi uma coisa. Mas se é tão difícil, fica lá.
— Não é iss...
— Fica lá! – gritou outra vez. – Fica com ela!
— E...
— Anda logo — repetiu, e o menino tremeu.
A primeira coisa a cair foi a testa, o rosto veio em seguida, despencando por inteiro. Em seguida, sem dizer nada, largou o papel que trouxera, deu meia volta e caminhou de volta ao seu dormitório. Aurora esperou até que ele sumisse na escuridão da noite, recolheu o papel do chão, amassou-o, para dispará-lo longe. A calma não veio com essa expressão, então para contribuir, bateu a porta debaixo, e mesmo sabendo que ia ecoar, gritou o mais alto que pôde.
A garganta esticou até rasgar, a cólera deixando-a rouca. Agora, não queria apenas que o dia seguinte despontasse nos duelos. Pedia primeiro, para que as lágrimas não escapassem dos olhos. E mesmo sendo um pedido simples, não foi atendido.
Fale com o autor