A Auditoria do Infinito
1 Capitulo 1
O rugido dos motores rasgava o véu da noite, como uma sinfonia ancestral de ferro e maquinário que brotava do nada para se perder no infinito. Era um som primitivo e aterrador, capaz de fazer o chão tremer, as pequenas pedrinhas saltarem em fuga, e as sombras dos trilhos — carcomidos pelo tempo e dispostos com solene obediência há séculos — repetir, em um chiado melancólico, os segredos de um passado inexorável. Em um desses momentos, o ferro, resignado à sua própria finitude, parecia exalar um contentamento triste, como se tivesse, enfim, cumprido sua missão no mundo, abraçando abertamente o inevitável.
Dentro do vagão, contudo, o universo assumia outra face. Immanuel, com seu semblante marcado pelo cansaço, encontrava-se num limiar entre o sono e a vigília. Seu corpo, embalado pelo ritmo oscilante do trem, recostava-se suavemente contra a janela embaçada, enquanto os óculos, vagando pelo batente, refletiam a tênue luz que escapava das cortinas desbotadas — relíquias de tempos outrora mais luminosos. Vestido com um gorro cinza e um casaco escuro, ele não aparentava nada além de um rosto comum, perdido na multidão. Mas naquele instante, a angústia dos sonhos interrompidos e as escolhas que o atormentavam nas últimas duas noites pesavam em seu íntimo como um fardo invisível.
– Chacota barbada...
Enquanto o trem avançava por caminhos traçados há eras, Immanuel permitia que as lembranças se infiltrassem no ambiente melancólico do vagão. Em seu íntimo, o amargor de um café preto — aquele mesmo que, em sua juventude, seu pai venerava com rituais quase sagrados — se misturava ao aroma do queijo e ao fulgor inusitado de um cigarro de palha. Seu pai, homem de contrastes e gestos rústicos, extraia poesia da simplicidade; entre um gole de café encorpado e o fumo que amenizava sua rude existência, ele construiu uma vida erguida tijolo por tijolo, sonho por sonho, na varanda de uma casa que parecia guardar, em suas paredes, o próprio tempo. A casa era seu legado, sua obra-prima, um testamento de amor e suor.
O cigarro, dizia ele, era para tirar o gosto amargo do café.
A esposa, sua companheira de vida, era a força por trás de suas melhores decisões. Uma mulher forte, gentil, mas de pavio curto, facilmente irritada com tudo e todos. No entanto, após o nascimento dos filhos, ela se transformara. A vida, antes tão cheia de asperezas, ganhara um novo sentido. Apaixonara-se pela existência de uma maneira quase febril, como se cada dia fosse uma dádiva a ser celebrada. Mas a morte a levou cedo, oito anos atrás. Deixou um vazio que nunca foi preenchido, uma ausência que ecoava nas paredes da casa e no coração daqueles que ficaram.
Fechado em si mesmo, Immanuel fechou os olhos por um instante e foi transportado de volta àquela varanda: o pai, sereno, observando os filhos que corriam livres; os cachorros latindo em alvoroço; a mãe, viva e intensa, como se cada dia fosse uma dádiva singular. Tais cenas, agora tão distantes quanto fotografias desbotadas, se misturavam à implacável brutalidade do presente — onde o trem, impassível, seguia seu curso inexorável.
— Chacota barbada...
A frase escapou-lhe dos lábios como um suspiro involuntário, um comentário solto ao vento, ao balanço do trem, ao rugido dos motores que pareciam rir de sua desventura. Era uma expressão que seu pai costumava usar, sempre que algo parecia absurdo, ridículo, ou simplesmente além da compreensão. "Chacota barbada" — uma daquelas frases que não se explicam, mas que carregam em si todo o peso de uma ironia fina, quase cruel.
Ele não sabia ao certo por que a pronunciara naquele momento. Talvez fosse o cansaço, as noites sem dormir, os cenários que se repetiam em sua mente como um filme em loop. Ou talvez fosse simplesmente a vida, essa grande chacota barbada, que insiste em nos pregar peças quando menos esperamos.
O trem balançava, os trilhos rangiam, e ele se via mergulhado em um mar de lembranças. O pai, com seu cigarro de palha e seu pedaço de queijo, sempre pronto a comentar sobre as absurdidades do mundo. A mãe, forte e gentil, mas de pavio curto, que ria e brigava com a mesma intensidade. A casa, a varanda, os cachorros, os filhos correndo — tudo parecia tão distante, tão irremediavelmente perdido no tempo.
De súbito, o murmúrio do vagão foi interrompido por uma voz quase sussurrada, que ecoou entre os compartimentos:
– Depois de anos, tudo continua igual – disse alguém, tombando para o lado, acordando, subitamente, aquele que dormia tão dolorosamente.
Immanuel despertou com um estremecimento.
— O quê? — arriscou, com a voz ainda embargada pelo sono e pela lembrança
— Tudo igual. Igual a alguma coisa que não muda, que não se transforma com o passar dos anos — replicou o desconhecido, enquanto seus olhos fitavam a escuridão lá fora, onde o trem se perdia no negrume da noite.
Immanuel pensou por um momento. Sua vida tinha sido tudo, menos previsível. Altos e baixos, reviravoltas, choques. Seus pensamentos, entrelaçados com a poeira do passado e a inquietude do presente, flutuavam como folhas à deriva. Mas agora, sentado naquele trem, sentia uma estranha calma, como se tudo o que tinha vivido o tivesse preparado para aquele exato momento.
— Talvez a vida seja como este trem — começou ele, escolhendo as palavras com cuidado. — O caminho já está traçado, mas dentro dele há milhões de paradas imprevistas. Como um buffet, mas sem a parte boa.
O estranho sorriu, ou talvez tenha apenas feito uma expressão vaga que poderia ser confundida com um sorriso, e disse:
— Poético. Mas talvez a verdade esteja escondida nas entrelinhas do destino. Talvez, quem sabe, o trem esteja mais interessado no destino do que nos passageiros.
Eles ficaram em silêncio por um tempo. Não porque estivessem fazendo uma pausa profunda para reflexão ou porque as palavras haviam se esgotado – porque isso seria um pouco otimista e humano demais. Não, na verdade, era apenas o silêncio da inevitabilidade. O trem continuava seu curso, indiferente às tentativas patéticas dos passageiros de conferir algum significado àquilo, como se as rodas de ferro e o ritmo monótono do motor estivessem convencidos de que a crise existencial de Immanuel não passava de um episódio passageiro, como a última edição do jornal ou uma piada ruim. E, talvez, de algum jeito, o trem estivesse certo. O problema de um trem, como qualquer trem, é que ele tem um destino fixo e um cronograma implacável, que pouco se importa com os sonhos ou as incertezas de quem viaja nele.
Immanuel, então, observava a paisagem pela janela, que se movia como se estivesse tentando fugir dele. Se as árvores, campos e prédios pudessem se perguntar o que estavam fazendo ali, provavelmente se perguntariam mais do que ele. Sentia-se à deriva, sem saber se estava navegando num oceano de tempo ou se, de fato, era o tempo quem o estava navegando. As duas opções eram igualmente insatisfatórias, e ele sabia que o trem não ia parar para resolver essa pequena discrepância.
Ao seu lado, o estranho suspirou profundamente – uma daquelas respirações dramáticas que ecoam no vazio, como se ele tivesse descoberto a resposta para todas as perguntas do universo e, por algum motivo, achasse que isso fosse interessante para os outros. Sem mais nem menos, retirou um pequeno livro de couro escuro de seu casaco e o estendeu a Immanuel, que, por algum motivo inexplicável, aceitou. Isso, claro, apenas para manter as coisas interessantes.
— Pegue — disse o estranho com a seriedade de quem acabou de descobrir a solução para a fome no mundo, e ainda assim estava entediado com isso.
Immanuel hesitou. O livro parecia mais uma pedra filosoficamente intrigante, mas ele não sabia como jogá-la de volta.
— O que é isso? — perguntou, já sabendo que a resposta não seria nada útil, mas esperando que, ao menos, fosse uma boa história.
— Um diário — respondeu o estranho, como se isso resolvesse tudo. Ele poderia ter dito "um pedaço de pão", "uma nota fiscal" ou "uma planta carnívora", mas escolheu "um diário", como se isso realmente fosse acrescentar algo ao cenário. — Assine a folha do verso quando tiver um tempinho.
Immanuel, curioso de maneira indecente, pegou o livro. As bordas das páginas estavam amareladas, provavelmente por algum tipo de oxidação existencial que vem de muitos anos sendo ignorado. Ele abriu a primeira página e leu, já se preparando para ser desiludido de uma forma bem elegante.
25 de fevereiro de 1911.
Os trilhos se estendem diante de mim como uma promessa, uma sentença ou um enigma...
Immanuel suspirou internamente. Claro, "enigma". O que mais? O próprio conceito de trilhos já era uma metáfora travestida de realidade. Era como se o viajante de 1911 tivesse se dedicado a observar o mundo de uma forma profundamente dramática, usando metáforas como uma criança que encontra um pedaço de pau e decide que, em vez de brincar com ele, vai fazer uma alegoria existencial sobre o mundo. Ele continuou lendo, sem realmente esperar por mais do que palavras soltas, que se pareciam com filosofias de segunda mão, mas que, no fundo, ainda carregavam o peso de algo que parecia profundamente entediante.
Ao virar a página, o vento lá fora fez um som que Immanuel juraria ter sido um suspiro zombador. Fechou o diário.Talvez o vento soubesse mais do que ele. Ou talvez fosse apenas uma daquelas coisas que parecem fazer sentido no contexto de um trem em movimento – uma melodia dissonante que não se encaixa em nenhuma partitura, mas que ainda assim faz todo o sentido em um universo em que os trilhos nunca param de ranger. Immanuel abriu o diário novamente. Nas margens, rabiscos de carvão mostravam uma casa com janelas tortas. Sua casa. A mesma que ele vendera após a morte da mãe, oito anos atrás.
Immanuel levantou os olhos do diário para encontrar o estranho já longe, em algum outro ponto do vagão, provavelmente filosofando sobre o que mais ele poderia ter dito. Immanuel suspirou. Olhou novamente, o estranho havia sumido. Não, ele não sabia o que estava acontecendo. Por que a casa de seus pais estava naquele diário? Por que ele precisava encontrá-lo agora? Quem era aquele desconhecido?
E o trem continuou, indiferente, como sempre. Afinal, nada disso importava.
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Não demoraria muito para que o trem chegasse à sua estação final, uma estação de destino que ele mal compreendia, mas que, como todos os destinos, parecia um pouco exagerada. Immanuel, com a serenidade de um viajante que não tem a menor ideia de onde está, se encontrava imerso em uma sensação desconcertante – e ao mesmo tempo reconfortante – de que o fim estava à vista.
Ele olhou pela janela do trem, onde os trilhos se estendiam em uma linha torta e metafórica, como se o universo tivesse feito de tudo para que não fosse simples demais. O som do trem era quase meditativo, se você ignorasse o fato de que ele estava indo para algum lugar e não sabia exatamente onde. A viagem já o havia afastado do que ele considerava uma vida comum, e agora ele se via completamente perdido na geometria não euclidiana das suas próprias reflexões. A mais recente era sobre a natureza do fim. Por que ele insistia em procurar um começo, quando o fim parecia ser a única coisa realmente certa sobre sua existência?
Com um suspiro que poderia ser confundido com um grito de desespero cósmico, Immanuel percebeu, para sua indignação, que não se lembrava de como havia parado ali. Em um nível fundamental, ele sabia que isso deveria ser um problema. Não sabia como, mas sabia que era o tipo de coisa que deveria ser questionada, como um erro de cálculo na matemática universal.
Porém, como sempre acontece em situações dessas, Immanuel não fez nada a respeito. Ao invés disso, sentou-se em seu assento e contemplou o vazio com a resignação de alguém que se pergunta, pela centésima vez, onde deixou a chave de casa, só para dar-se conta de que talvez nunca tenha tido uma casa para começar.
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O trem freou de maneira tão abrupta e inusitada que Immanuel quase se viu projetado para fora do assento, como um ser humano com um destino confuso tentando escapar de um futuro indesejado. Havia algo inefavelmente anti-climático nesse desacelerar, como se o trem estivesse decidindo, de repente, que já não valia a pena continuar o esforço, como um comediante que, no auge da piada, decide abandonar o palco e ir para casa.
O trem sacudiu, e uma passageira idosa caiu sobre seu ombro.
— Desculpe, jovem. Este lugar... parece mais vazio do que deveria.
Ela apontou para o corredor, onde assentos vazios se multiplicavam em fileiras infinitas. Immanuel engoliu seco. "Chacota barbada", murmurou, repetindo o mantra paterno.
A mulher sorriu, revelando dentes ausentes.
— Seu pai dizia isso quando a fábrica fechou, lembra? Chorou de rir, como se o mundo fosse uma piada pronta.
Immanuel congelou. Como ela sabia? Antes que perguntasse, o teto começou a pingar. Gotas de café preto, quentes e amargas, queimando sua nuca.
E então, com o tipo de falta de cerimônia que só um trem poderia proporcionar, tudo se apagou. Não um apagão dramático, mas mais como o apagamento de uma lâmpada que você sabe que ainda está ligada, mas não consegue entender como a luz se esvaiu tão suavemente. De repente, ele se viu em sua casa. Não estava mais no trem, não estava mais indo para lugar algum. Ele estava, de fato, de volta àquele lugar, o lugar que ele não soubera se queria, mas que, aparentemente, já estava na hora de reencontrar. Não houve o som típico de uma porta se fechando, nem o rolar de uma roda de trem. Nada disso. Foi apenas uma troca de cenário, como se ele estivesse em uma peça de teatro barata, onde as cortinas se abrem sem avisar, e o palco é trocado com a rapidez de um truque de mágica amador.
Immanuel piscou, observando as paredes familiares da sala. Havia o cheiro do café que ele não conseguia lembrar de ter feito, e a luz do sol entrava pelas janelas de maneira quase irritante, como se o universo estivesse tentando ser otimista com ele sem sequer pedir permissão. Tudo estava ali, exatamente como ele deixara, ou pelo menos como ele se lembrava de ter deixado. O sofá estava na mesma posição desconfortável, a mesa de centro parecia levemente mais torta, e a mesma pilha de papéis em desordem tomava seu lugar habitual — como se ela estivesse sempre ali, esperando por sua atenção, e ele, como sempre, ignorando sua existência.
— Perfeito — murmurou Immanuel, mais para si mesmo do que para qualquer coisa ou pessoa em particular. O tom, claro, era de pura ironia. Se a vida fosse um filme, ele teria acabado de ser arremessado de volta à cena inicial, como se o roteiro tivesse perdido o rumo e decidido retornar ao ponto de partida.
Ele deu alguns passos pela sala, sem grande convicção, como quem tenta se convencer de que tudo aquilo é real. Então, com um pequeno gesto de resignação, aproximou-se da janela, onde, para sua surpresa, o trem ainda estava lá. Claro, o trem estava lá — como se tivesse decidido esperar, como um amigo inconveniente que simplesmente não quer sair. Mas não era mais um trem, e nem mesmo algo com uma lógica reconhecível. Era, na verdade, apenas um contorno borrado e surreal da sua existência. Immanuel balançou a cabeça, tentando entender se ele tinha realmente se levantado da viagem ou se, talvez, nunca tivesse saído de casa.
Ele se virou abruptamente, sentindo uma pontada de frustração. Se tivesse que viver mais um dia em que as coisas não faziam sentido, ele provavelmente explodiria de tédio. E então, de novo, a estranha sensação de déjà vu. Não a clássica experiência filosófica, onde tudo parece conhecido, mas aquele tipo de déjà vu quase administrativo, onde você sabe que já experimentou uma situação, mas não se lembra dos detalhes exatos. Como se o próprio conceito de repetição estivesse jogando com sua mente, como uma criança com um brinquedo novo, e ele fosse apenas uma peça desse jogo sem graça.
Antes que pudesse tomar qualquer decisão prática sobre o que fazer com sua vida — ou, mais precisamente, com sua casa, que agora parecia muito mais um cenário de sitcom do que qualquer lugar familiar —, percebeu que algo, em algum lugar, tinha decidido que ele deveria passar por uma crise existencial antes mesmo do café. Uma pista foi o teto, que se recusava a manter uma forma estática, ondulando como uma televisão mal sintonizada. A outra foi a leve inconsciência momentânea ao se sentar, e ao tentar se levantar e perceber que a gravidade estava em greve.
— Fantástico — murmurou. — Ou estou morto, ou meu conceito de realidade precisa urgentemente de uma atualização.
Seu quarto parecia o resultado de uma discussão filosófica entre um arquiteto cubista e um escritor de ficção científica entediado. As paredes curvavam-se em ângulos impossíveis, sombras sem fontes de luz deslizavam pelo chão e, de alguma forma, a cortina estava rindo dele. O que era irritante, porque ele não se lembrava de ter comprado uma cortina.
Sentado no que talvez fosse um banco, ou uma entidade metafísica disfarçada de móvel, estava o velho e surrado diário. As páginas se mexiam levemente, como se cochichassem segredos entre si. No centro, em letras pequeninas mas completamente inegáveis, lia-se:
A culpa é inevitável. A existência é um erro de digitação.
— Bom, isso é encorajador — suspirou.
Ocorreu-lhe, como geralmente ocorre a qualquer um que percebe que está em um pesadelo metafísico, que talvez fugir fosse uma boa ideia. Infelizmente, a porta havia sumido. Ou talvez nunca tivesse existido. Ou, pior, talvez estivesse ali, mas se recusasse a ser percebida por mera maldade.
O diário retumbou, e um pequeno holograma se materializou.
"Parabéns! Você foi selecionado para um Reajuste Existencial Especial! O universo agradece sua paciência. Por favor, aguarde enquanto seu status ontológico é recalibrado."
Immanuel piscou. Depois piscou de novo. As palavras já haviam desaparecido, substituído por uma mensagem que dizia "Erro 404: Realidade não encontrada".
Foi nesse exato momento que sua mão esquerda deixou de existir.
E depois voltou.
E então seu pé direito ficou translúcido, oscilando entre "sólido", "etéreo" e "biscoito de polvilho".
Foi quando uma voz entediada ecoou pelo ambiente:
— Senhor Immanuel, por favor, colabore.
— Colaborar com o quê? — perguntou, mantendo a esperança de que, se fosse educado o suficiente, as paredes poderiam parar de respirar.
— Com sua própria condenação, evidentemente. — A voz tinha a tonalidade burocrática de quem já repetiu aquele discurso incontáveis vezes e francamente torcia para que as pessoas assinassem logo os papéis.
A sensação de irrealidade intensificava-se. Talvez ainda estivesse sonhando, preso em algum labirinto criado por sua própria mente. Sem alternativa, voltou-se para a janela. Não havia para onde ir, mas o impulso de escapar era irresistível. Empurrou o vidro, que cedeu com facilidade surpreendente. Abaixo, a rua estendia-se como um abismo sem fim. As figuras lá embaixo ergueram seus rostos, e embora não pudessem enxergá-lo claramente, Immanuel sentiu o peso de seus olhares vazios.
De repente, o quarto ao seu redor começou a se desfazer, fragmentando-se em pedaços que flutuavam antes de desaparecer no éter. Ele flutuava agora em um vazio imenso, sem acima ou abaixo, sem qualquer ponto de referência.
O diário, a única constante, levitava à sua frente, aberto em uma nova página: A fuga é impossível. A busca por sentido é fútil.
— Não pode ser — sussurrou. — Deve haver uma saída.
Então, uma porta solitária materializou-se no vazio. Sem paredes que a sustentassem, sem caminho que levasse até ela. Apenas uma porta, simples e de madeira gasta. Immanuel estendeu a mão, e a distância entre ele e a porta diminuía sem que ele precisasse se mover.
Quando seus dedos tocaram a maçaneta fria, hesitou. Algo dentro de si advertia contra abrir aquela porta, mas a alternativa — o nada eterno — era insuportável. Girou a maçaneta e abriu. Sem entender, virou-se para sair, mas a porta havia desaparecido. O pânico instalou-se. Uma voz ecoou pelo ambiente, a mesma que o chamara anteriormente.
— Não posso ser condenado por algo que não fiz! — exclamou, indignado.
A voz suspirou, o que foi notável considerando que ela não parecia vir de um ser dotado de pulmões.
— Todos são culpados de algo. O ponto é: do que está disposto a se acusar?
Immanuel sentiu uma forte inclinação a sentar-se e reconsiderar todas as escolhas que o levaram até ali, mas como o chão podia ser uma ilustração conceitual de infinito e ele não queria correr riscos, optou por continuar de pé. Sobre a mesa, uma caneta materializou-se com uma elegância desconcertante, brilhando de um jeito que fazia parecer que assinar era uma ideia incrivelmente inteligente.
— Se eu assinar, isso tudo desaparece? — perguntou, desconfiado.
— Ah, com certeza — garantiu a voz. — De um jeito ou de outro.
No segundo em que tocou o papel do diário, as palavras tomaram vida própria. Eram confissões de crimes impossíveis, desejos que nunca teve e receitas de bolo que nunca havia escrito. Soltou a caneta como se queimasse.
— Isso é ridículo! — protestou.
— Ah, ridículo seria se você achasse que tem escolha — replicou a voz. — Mas faça como quiser. Pode ficar aqui. Para sempre. Entre culpa e negação.
Isso não parecia uma perspectiva particularmente animadora. Immanuel fechou os olhos, respirou fundo e decidiu, contra todas as probabilidades, que a realidade ainda estava do seu lado.
E então, tudo se dissolveu.
Quando abriu os olhos, estava em uma estação de trem. O frio era desagradável de um jeito perfeitamente mundano. A voz burocrática desaparecera, substituída pelo som acolhedor de um alto-falante anunciando chegadas e partidas.
Ao seu lado, uma mulher o observava com preocupação.
— Está tudo bem com você? — perguntou.
Immanuel piscou, surpreso.
— Eu... acho que sim.
Ela sorriu.
— Às vezes, tudo o que precisamos é de um momento de pausa.
Immanuel não tinha certeza do que isso significava, mas achou a ideia reconfortante. Um trem apitou ao longe, aproximando-se. Ele se levantou, ajeitou o casaco e pegou o diário. Por um instante, hesitou, mas depois o guardou no bolso.
— Acho que é hora de partir.
— Boa sorte — disse a mulher.
Ele retribuiu o sorriso.
— Obrigado.
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