A Assistente da Princesa
12 Capítulo 12
Notas iniciais
5 dias para a chegada de Katerina.
O frio cortante de Osteland era implacável. Do lado de fora do palácio, uma movimentação frenética tomava conta da entrada principal. Funcionários e guardas trabalhavam incansavelmente, removendo as camadas espessas de neve acumuladas durante a noite. Eu observava tudo da varanda, envolta no meu casaco pesado. Não podia deixar de pensar que era como se o próprio inverno tentasse avisar que algo estava errado.
Era impossível ignorar o peso no ar. As máquinas limpavam a neve com eficiência, mas o gelo que parecia se instalar dentro de mim era outra história.
Os boatos sobre o casamento ainda eram apenas isso: boatos. A imprensa não tinha confirmação oficial, e o público estava dividido entre curiosidade e desconfiança. No entanto, eu sabia que, para alguns, a ideia de unir Geróvia e Osteland era mais do que uma ofensa. Era uma ameaça. E eu me perguntava o que fariam quando, em poucas semanas, esses boatos se confirmarem reais se, apenas com a possibilidade, o caos já estava se formando.
Meu olhar voltou-se para um grupo de guardas que carregavam caixas para dentro do palácio. Suas expressões eram neutras, mas os olhos atentos traíam uma tensão que só aumentava. Até mesmo o som abafado das botas pisando na neve parecia carregar um tom mais pesado.
"Por quanto tempo mais?" pensei, apertando meus braços contra o corpo. Por quanto tempo mais poderiam manter esse verniz de tranquilidade enquanto o ódio lá fora fervia?
Engoli em seco, minha mente vagando para os eventos em Sonegeade. As palavras nos panfletos e cartazes ecoavam em minha memória. Por mais que tentassem encobrir, a realidade estava ali, crescendo como uma tempestade prestes a desabar.
Antes que pudesse me perder ainda mais nesses pensamentos, o som de passos na varanda me despertou. Virei-me para encontrar Cris, como sempre, parecendo estranhamente à vontade no meio de tanto caos. Ele usava seu uniforme comum de chefe da guarda, o que me dizia que seu posto era alto demais para ir limpar a neve lá fora.
— Aproveitando a vista, Evelina? — ele perguntou, com aquele tom descontraído que já se tornara familiar.
— Se é que posso chamar isso de aproveitar. — retruquei, gesticulando na direção da movimentação.
Ele seguiu meu olhar, inclinando a cabeça levemente.
— A neve sempre torna as coisas mais complicadas, mas, pelo menos, é previsível.
— Diferente das pessoas. — completei, mais para mim mesma do que para ele.
Cris riu, mas não comentou. Em vez disso, encostou-se no parapeito ao meu lado, os olhos acompanhando a cena abaixo.
— Você está diferente hoje. — ele comentou depois de um momento. — Algo que eu deva saber?
Hesitei, ponderando até onde deveria ir com essa conversa. Gadreel estava parado a alguns metros de nós, fingindo não prestar atenção no que falávamos.
— Eu só... — comecei, diminuindo minha voz, escolhendo as palavras com cuidado. — Estive pensando em como ninguém aqui dentro parece realmente saber o que está acontecendo lá fora.
Ele me lançou um olhar, mas não disse nada.
— É como se estivéssemos todos em um casulo, protegidos de uma tempestade que está ganhando força. — continuei, a voz mais baixa. — Mas até quando isso vai durar?
Cris se afastou do parapeito, cruzando os braços.
— Até sanarmos todos os rebeldes.
Seu tom grave não combinava com a expressão tranquila no rosto, e me lembrei que ele deveria já estar acostumado a parecer neutro diante de um conflito.
— Faremos todo o possível para que isso não passe de um mero incômodo. — continuou. — Todo o restante do povo não precisa saber o que acontece.
— Por que eles levantariam as bandeiras e cartazes juntos, certo? — falei. Cris me olhou de canto de olho, sem responder. — Eu vejo como a maioria me olha, Cris. Eles veem uma inimiga aqui, mesmo que façam reverência. Talvez até me odeiem mais por terem que fazer.
— Eles não a odeiam.
— Odeiam sim. E tudo bem. — acrescentei, quando ele ia protestar. — Eu já esperava não ser tão bem recebida, já esperava ser vista como intrusa, inimiga, alvo. Eu me preparei para o pior antes de pisar aqui. Mas eu nunca imaginei o quanto essa raiva se estenderia a Kate. — fiz uma pausa, sem saber o que poderia falar. Meu tom diminuiu para quase um sussurro antes de continuar. — Eu preparei belos vestidos, belas etiquetas, ideias de jantares, presentes, modo de se comportar para que ela agradasse os nobres e conseguisse aliados. Eu não achei que Kate também precisaria se preparar para enfrentar tanto ódio, não apenas pelas palavras, mas pelo que elas podem provocar.
Cris permaneceu em silêncio por um instante, seu olhar voltado para os funcionários lá embaixo, antes de finalmente falar, o tom mais grave do que eu esperava.
— Você subestima sua princesa? Acha que ela não dará conta?
Balancei a cabeça, segurando o corrimão da varanda com mais força.
— Eu não a subestimo. Sei do que ela é capaz. Mas isso... — fiz um gesto vago em direção ao movimento no pátio. — Isso é maior do que etiquetas ou jantares. É maior até do que ela.
Cris virou-se para mim, sua expressão finalmente deixando transparecer a preocupação que ele escondia tão bem.
— Ninguém espera que ela faça isso sozinha, Evelina. Mas a questão é: você acha que está ajudando da maneira certa?
A pergunta dele pairou no ar, pesada e carregada de implicações. Senti meu estômago revirar.
— Eu estou tentando. — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Ele assentiu lentamente, o olhar voltando para os trabalhadores.
— Só tenha certeza de que, quando ela precisar de você, você estará pronta. Porque esse jogo que estamos jogando... — ele fez uma pausa, antes de me encarar novamente. — Não perdoa erros.
As palavras dele foram um golpe certeiro, e eu não tinha resposta. O som das pás removendo neve parecia ecoar em minha mente, abafando qualquer tentativa de organizar meus pensamentos.
Antes que eu pudesse responder, Gadreel se aproximou, erguendo a mão para um cumprimento formal.
— Senhorita Petrova, há uma mensagem para você. — ele anunciou, entregando-me um envelope pequeno e selado.
Minha mão hesitou antes de pegá-lo, o peso do papel parecendo muito maior do que deveria ser. Olhei para Cris, que apenas deu de ombros, como se dissesse que o próximo movimento era meu.
Sem mais palavras, me afastei da varanda, com Gadreel me seguindo mantendo uma distância respeitosa. Subi a grande escadaria lentamente, pensando nas palavras de Cris. Ele havia me dito para estar pronta, mas como se faz isso quando o que está por vir parece tão errado?
A cada passo que eu dava, mais o peso da responsabilidade parecia se abater sobre meus ombros. Não era só Kate que estava no jogo aqui. Era muito mais do que isso. Eu sabia disso.
O quarto estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes das velas. Eu me deixei cair na cadeira próxima à janela, observando a neve cair lentamente do lado de fora. A paisagem era bela de uma maneira cruel, um reflexo da dureza de tudo que estava acontecendo.
Finalmente, abri o envelope.
"Encontre-me na biblioteca em meia hora. Há algo que precisa ser discutido."
A mensagem era breve, escrita em uma caligrafia firme e sem nenhuma assinatura para identificar, mas eu reconheceria o tom autoritário em qualquer lugar. Eu não sabia se estava pronta para encontrar o príncipe novamente.
“Não temos outra escolha”. O peso das palavras dele ainda pairavam sobre mim, como uma pedra a mais na montanha que eu carregava no ombro desde os quinze anos, quando me tornei a dama de companhia da princesa. Ou assistente, como acham mais aceitável chamar em público.
Eu não estava pronta para ouvir mais sobre as implicações políticas, os planos ou a lógica implacável que ele parecia entender tão bem. Minha cabeça já estava cheia.
Me levantei, cruzando o quarto em direção à mesa onde meu celular estava. Após um momento de hesitação, disquei o número de casa.
— Evelina? — a voz calorosa de minha mãe atendeu, e imediatamente senti um aperto no peito. Faziam oito dias desde a nossa última conversa, oito dias desde que cheguei aqui.
— Oi, mãe. — falei, minha voz mais baixa do que pretendia.
— Está tudo bem? Você nunca liga assim sem motivo. — a preocupação dela era palpável, como sempre. — Estou tendo que saber notícias suas através da Irina. — e logo a bronca, como sempre também.
Eu hesitei. Como dizer a ela que as coisas estavam longe de estarem bem sem causar preocupação?
— Só queria ouvir sua voz. — respondi finalmente. — Como estão as coisas por aí?
Ela começou a falar sobre as novidades da casa, do mercado local, dos vizinhos. Pequenos detalhes do cotidiano que, por um momento, me transportaram para longe das paredes gélidas de Osteland.
— Seu tio George está tão feliz. — ela comentou, fazendo um sorriso genuíno aparecer no meu rosto. — Naim tem os traços dele, igualzinho você quando nasceu. Layla está frustrada, ela achava que viria como ela, mas eu avisei que tínhamos sangue forte. Não é atoa que você é minha cara e não a do seu pai.
Como eu queria estar lá vivendo esses momentos com eles e não aqui. Minha mãe continuou falando sobre o cotidiano, mas então, algo em sua voz mudou.
— Evelina, tem algo que você quer me dizer? — perguntou, em tom cauteloso, notando minha quietude.
Engoli em seco, ponderando. Eu queria dizer tudo, desabafar sobre o peso que carregava, as preocupações com Kate, os olhares de julgamento, o ódio nas ruas. Mas não podia.
E talvez minha mãe fosse a última pessoa que entenderia minha frustração, ela nunca entendeu o quanto eu não queria esse posto.
— Não, mãe. — menti. — Só estou com saudades.
Ela suspirou, mas não pressionou mais. Terminamos a conversa com as promessas habituais de nos falarmos novamente em breve, mas quando desliguei, o quarto parecia ainda mais silencioso do que antes.
Os ponteiros do relógio passavam devagar, cada minuto soando como um lembrete de que o encontro com Nikolaus estava se aproximando. Eu me peguei encarando o envelope na mesa, como se ele fosse explodir a qualquer momento.
"Eu não vou." A decisão me atingiu de repente, firme e inabalável. Talvez fosse melhor manter certa distância, evitar que eu afundasse ainda mais nesse emaranhado de alianças e traições.
Com esse pensamento, me deixei cair na cama, abraçando o travesseiro e fechando os olhos, determinada a ignorar o tempo passar. Mas, assim que o meu tempo acabou e mais minutos se passaram, o som de batidas na porta tomou conta do quarto. Suspirei, me levantando.
— Entre, Merida. — falei, já antecipando que ela viera com algum lembrete de tarefas.
As batidas continuaram, firmes e ritmadas. Franzi o cenho e levantei para ir até a porta, abrindo-a apenas para encontrar Nikolaus parado ali, a expressão séria. Ele não parecia nem um pouco satisfeito.
Arregalei meus olhos, petrificada. O príncipe percorreu os olhos sobre mim, antes de inclinar levemente a cabeça como se olhasse o quarto por dentro.
— Sabe, se você continuar na frente da porta, eu não vou conseguir entrar. — ele falou, o tom deliberadamente casual.
Aquele comentário foi suficiente para me tirar do meu estado de choque. Dei um passo para o lado, permitindo que ele entrasse, embora minha mente estivesse um turbilhão.
— Achei mesmo que você tivesse decidido ignorar meu bilhete. — Nikolaus continuou, enquanto se movia pelo quarto, observando cada detalhe.
Fechei a porta com mais força do que pretendia, tentando disfarçar a mistura de nervosismo e frustração que me dominava.
— Eu não sabia que sua mensagem era uma ordem. — respondi, cruzando os braços enquanto o encarava.
Nikolaus se virou para mim, um sorriso breve e sem humor brincando em seus lábios.
— Não foi. Mas era algo que eu esperava que você levasse a sério. — ele disse, sua expressão suavizando ligeiramente. — Estamos lidando com situações que não podem ser adiadas.
— E você acha que não sei? — falei, enquanto me sentava na cama, sem encará-lo. — Eu só precisava de um tempo para pensar.
Ele não respondeu, seu silêncio me obrigando a levantar o rosto para ele. O cabelo dele parecia levemente mais bagunçado, o paletó agora jogado em cima do meu sofá, deixando a mostra apenas o colete aberto por cima de uma camisa branca amassada.
Se eu estava ansiosa com tudo isso, o quanto o príncipe estava sobrecarregado?
Eu me sentia terrivelmente tola. O príncipe havia vindo até mim, confiado uma informação estritamente secreta e eu, ao invés de me mostrar uma aliada — como Cris disse que ele precisava —, estava em prantos, pensando em como me afetava.
Nikolaus permaneceu em silêncio, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Ele puxou uma das cadeiras do quarto e sentou-se de frente para mim, com as mãos descansando sobre os joelhos.
— Eu não vim para pressioná-la, Evelina. — ele começou, o tom da voz mais baixo. — Você não precisa decidir nada agora. Se quiser, pode continuar na missão original, apenas como dama da companhia de Katerina.
Soltei um suspiro que não percebi estar segurando. Mas antes que eu pudesse falar, ele continuou.
— Mas acredito que você está subestimando sua importância aqui. — seus olhos azuis, sempre tão intensos, me examinaram com cautela. — Talvez você deva dar mais crédito a si mesma.
Senti um nó se formar na garganta. Antes que eu pudesse pensar melhor, as palavras escaparam sem controle de mim.
— Eu sou só a dama de companhia da princesa, uma assistente. Eu lido com as frustrações dela, os caprichos, a carga emocional e fútil. — minha voz vacilou no final, mas ele não interrompeu. — Eu não tenho poder para mudar nada.
Nikolaus inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Todos têm poder, Evie. Às vezes, só damos importâncias demais a coisas secundárias para ver isso. — ele fez uma pausa, como se quisesse garantir que eu estava ouvindo. — Eu preciso de aliados. Em Geróvia, especialmente. Alguém em quem eu possa confiar para agir comigo, que possa ver além da superfície.
O peso das palavras dele parecia ainda mais intenso no silêncio que abalou. Então ele acrescentou, com um tom quase persuasivo:
— Se você tiver dúvidas sobre isso, está convidada para a próxima reunião com os membros da corte. Pode ir disfarçada, ouvir o que tem sido dito. Depois, você decide por si mesma onde quer estar. — Nikolaus levantou-se, endireitando o casaco e olhando para mim, continuou. — A escolha é sua, Evelina. Sempre foi.
Ele caminhou até a porta, pronto para tocar a maçaneta e ir embora.
— Espere.
Minha voz o parou no meio do movimento, mas ele continuou virado para a porta, sem olhar para mim. Eu não sabia o que queria, mas sabia que precisava saber algo.
— Por que eu? — a pergunta saiu de mim sem pudor. — Geróvia tem uma corte de membros, pessoas que lidam com crises, chefes de seguranças, até assistentes com patentes mais alta que a minha. Eu não tenho metade do poder de decisão que você precisaria que eu tivesse. Então, por que?
Nikolaus permaneceu de costas por um momento, como se estivesse decidindo se deveria responder. Quando finalmente falou, sua voz estava baixa, mas firme.
— Porque você, mais do que ninguém, talvez entenda o que é abrir mão de algo para cumprir o dever.
Eu pisquei, confusa. As palavras dele pairaram no ar, mas antes que pudesse pedir uma explicação, Nikolaus girou a maçaneta.
— A reunião é amanhã. Caso decida ir, Cris pode ajudá-la a se preparar. — ele disse, ainda sem olhar para trás, e acrescentou, hesitante: — Espero que você esteja lá.
E com isso, ele saiu, deixando-me sozinha com minhas dúvidas e o som abafado de passos seus ecoando pelo corredor.
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