Notas iniciais
Como prometido: estou tentando aproveitar o recesso para atualizar com mais frequêcia e revisar alguns erros de escrita na história

4 dias para a chegada de Katerina.

Eu não sei o motivo do conselho de Osteland decidir se reunir antes do amanhecer, mas era isso que me fazia estar ajeitando o cabelo em tranças para esconder por baixo da balaclava. Não que o sol aparecesse muito por aqui, de qualquer jeito.

Não precisei de muito tempo para decidir que iria a essa reunião, eu soube assim que Nikolaus saiu pela minha porta ontem. E talvez ele também soubesse, já que logo após isso Cris apareceu trazendo o uniforme completo, agora com uma bota do tamanho certo, e dizendo que viria me buscar às cinco horas, ou seja, em apenas alguns minutos.

Ainda não sabia o que faria, qual a minha decisão e o que eu poderia fazer. Mas eu sabia que Kate precisava de tudo que eu pudesse descobrir. Era meu trabalho e eu devia isso a ela.

Assim que terminei de ajustar a máscara, a batida na porta anunciou que Cris havia chegado. Respirei fundo, tentando apagar qualquer hesitação da minha expressão antes de abrir a porta.

Ele estava ali, com o uniforme impecável e um sorriso amigável.

— Pronta para invadir o reino dos mortos? — ele disse, entregando-me um par de luvas que combinava com o resto do traje.

— Pronta para ouvir e aprender. — retruquei, fechando a porta atrás de mim.

Descemos juntos pelo corredor quase deserto, as luzes amarelas lançando sombras longas e criando um ar de tensão que parecia refletido o que eu sentia.

Cris manteve um ritmo tranquilo, mas sua postura estava mais rígida do que o normal.

— Alguma dica antes de eu entrar nisso? — questionei, mantendo a voz baixa.

— Sim. Fique calada e observe. — ele respondeu, sem olhar para mim. — Você vai perceber mais do que espera.

Ele me guiou para dentro da sala de reunião, um cômodo quase escondido na sala oposta do salão de jantar. O lugar era impecável, os telões exibiam o mapa detalhado de Osteland, suas fronteiras delineadas com precisão. Cris indicou que eu deveria parar à esquerda do príncipe, quase em suas costas, imitando a postura rígida dos outros guardas mascarados que já estavam posicionados.

Minha visão periférica captou o olhar de Nikolaus. Não havia como ele não ter me reconhecido, mesmo com a máscara cobrindo meu rosto, eu destoava completamente dos outros sentinelas. Por um segundo, achei que um sorriso quase imperceptível surgira em seus lábios antes de ele voltar sua atenção à sala.

Estava tudo bem até um dos conselheiros, um homem magro e de cabelos grisalhos, se levantar. Ele pediu licença para falar e, com um tom de falsa deferência, lançou a pergunta que me fez engolir em seco.

— Alteza, com o devido respeito, não seria mais prudente que víssemos os rostos de sua guarda? Assim, saberíamos exatamente quem está ouvindo.

Minhas mãos, cobertas pelas luvas do uniforme, suaram. A ideia de remover a máscara era um bilhete direto para o desastre. Mas Nikolaus respondeu antes que eu pudesse me perder nos piores cenários possíveis.

— As máscaras são uma ordem minha. — A voz dele estava calma, mas havia um peso nela que parecia encher cada canto da sala. — Apenas eu preciso saber quem são os membros da minha guarda. E eu os conheço. Cada um deles, lorde Hargrove.

Os olhos de Nikolaus brilhavam com algo perigoso quando ele se inclinou ligeiramente para frente, seu tom mais afiado.

— Ou acredita que está mais qualificado para julgá-los do que eu?

O silêncio que se seguiu era mortal. Vi o lorde engolir em seco, sua expressão hesitante enquanto balbuciava:

— Claro que não, alteza. Minhas desculpas.

O som de botas ecoando no corredor foi o que salvou o pobre lorde do olhar letal do príncipe. Em instantes o rei entrou, acompanhado por mais guardas. Ele caminhou até a ponta da mesa, assumindo sua posição com autoridade natural. A cadeira à sua direita era ocupada por Nikolaus, enquanto a da esquerda, que pertencia à rainha, estava vazia.

As cadeiras dos conselheiros formavam um arco ao redor da mesa, cada um deles segurando tablets que piscavam com informações. Observei tudo com atenção, minhas mãos cruzadas atrás das costas, tentando absorver cada detalhe sem deixar transparecer o nervosismo.

A reunião estava apenas começando, mas o peso da tensão já era quase tangível no ar. Cada conselheiro ajustou sua postura, como se isso pudesse mascarar as tensões evidentes. Eu fiz o possível para manter a compostura, minha posição não era diferente da dos outros guardas mascarados, mas a proximidade com o príncipe me fazia sentir como se estivesse em evidência.

Nikolaus manteve o olhar fixo à frente, as mãos relaxadas sobre a mesa, mas seus dedos tamborilavam levemente contra a madeira. Ele não disse nada enquanto o chanceler iniciava a reunião, destacando a iminente chegada de Katerina.

— A presença da princesa, mesmo sem o anúncio oficial do casamento, será praticamente uma confirmação. — o homem começou. — Precisamos de estratégias para conter as pessoas até o casamento acontecer.

— E quando será isso? — uma mulher ruiva de expressão grave interrompeu. — Geróvia já deu algum parecer sobre quando será oficializado esse laço?

— Esperávamos que um romance entre eles pudesse ser noticiado com tranquilidade no decorrer de um ano. — uma outra moça jovem respondeu.

Eu a reconhecia de outras conferências internacionais, era da assessoria de imprensa junto com Carter ao seu lado, que eu também reconhecia. O nome dela era Mikkel, eu acho.

— Talvez se as pessoas pensassem que ambos se apaixonaram, aceitariam com mais facilidade. — Mikkel continuou. Um murmúrio de escárnio passou pela mesa. A garota somente ignorou, continuando: — Mas dada as circunstâncias, prevemos um limite de talvez dois ou três meses para isso.

Parece que fui a única a perceber que os dedos do príncipe pararam de bater na mesa e sua postura congelou de repente. Sua voz, ainda sólida, quando perguntou:

— Dois ou três meses para anunciarmos o noivado?

— Para concretizar a união, alteza. — ela respondeu, com uma leve reverência de cabeça. — Esperamos que no final desse período, vocês já estejam casados.

Um leve choque passou pelo meu corpo, um choque que espelhava o do próprio príncipe. A máscara era uma benção, pois agora eles não poderiam ver minha expressão. Mas infelizmente, ela não era a prova de sons, o que permitiu que meu engasgo fosse audível.

Nikolaus tossiu, disfarçando, como se ele mesmo tivesse produzido o barulho. Mas por alguns segundos eu achei que o rei olhou em minha direção, com a testa franzida, antes de voltar sua atenção para os conselheiros.

O príncipe não respondeu imediatamente. Ele mantinha sua postura rígida, o olhar fixo em um ponto qualquer na mesa. Mas eu pude sentir a tensão irradiando dele. Foi um dos conselheiros mais velhos, um homem com cabelo grisalho e óculos retangulares, que cortou o silêncio.

— Precisamos construir uma narrativa sólida antes que a chegada da princesa alimente os boatos de maneira descontrolada. — disse ele. — Talvez uma série de eventos públicos. Algo que conecte a imagem da princesa com o povo de Osteland.

Outros membros da mesa murmuraram em concordância, e uma mulher de cabelos pretos presos em um coque sugeriu:

— Um evento beneficente seria uma escolha segura. Mostraria que ela já está contribuindo para o bem-estar do nosso povo.

— Isso só funcionará se os dois aparecerem juntos. — o lorde Hargrove interveio novamente, o tom carregado de cautela. — Precisamos de provas visíveis de que eles são compatíveis.

Engoli em seco, sabendo que isso colocava ainda mais pressão sobre Nikolaus e Kate. Ele permaneceu imóvel, como se estivesse deliberando. O príncipe inclinou-se progressivamente para frente, seus dedos entrelaçados sobre a mesa, e disse:

— Precisamos de mais do que eventos públicos. Precisamos de uma estratégia que lide com a resistência diretamente. Isso inclui rebeldes e aristocratas descontentes.

O silêncio que se seguiu foi denso, até que um dos conselheiros mais jovens, um homem loiro de rosto magro, perguntou com hesitação:

— Vossa Alteza, e se Geróvia voltar a nos trair?

Aquela frase foi como uma pedra atirada no meio de um lago calmo. O rei, que estava calado até então, moveu-se progressivamente em sua cadeira, mas Nikolaus respondeu antes que ele pudesse falar.

— Essa possibilidade não está em discussão. — ele disse, sua voz cortante. — Geróvia é nossa aliada. Qualquer outra suposição é uma distração desnecessária.

— Mas e quanto a dama da princesa? — o mesmo conselheiro insistiu. — O que garante que ela não esteja aqui para coletar informações?

Senti meu coração disparar. A máscara era uma proteção, mas não contra o peso daqueles olhares, mesmo que indiretamente. Nikolaus virou o rosto para o conselheiro, seus olhos brilhando com uma intensidade que fez a sala inteira ficar em silêncio.

— A confiabilidade do assistente de minha futura noiva não está em debate. — ele disse, a firmeza em sua voz cortando qualquer possibilidade de protesto. — Eu cuidarei disso pessoalmente.

O conselheiro pareceu vacilar, e o rei, com um movimento sutil, recostou-se novamente em sua cadeira. Não havia dúvidas de que o monarca estava permitindo o filho tomar o controle. E ele parecia um pai orgulhoso com o resultado.

Por fim, o rei falou, sua voz ecoando pela sala:

— A última revolta? Quero relatórios.

Cris deu um passo à frente, mediante o sinal de Nikolaus, e começou a detalhar as ações recentes, os manifestantes capturados e a tentativa de rastrear os panfletos.

Enquanto ouvia, minha mente voltou-se para o que o príncipe compartilhou comigo sobre a suspeita de um nobre estar envolvido. Isso aparentemente não constava nos relatórios. Por que eles estavam omitindo isso agora?

Quando Cris terminou, o rei voltou-se para o filho:

— E sobre os panfletos? Você já tem informações sobre como estão sendo produzidas?

Nikolaus respondeu com calma, sem hesitação:

— Estamos investigando fábricas clandestinas, mas ainda não temos confirmações concretas.

Me peguei observando a reação de cada um dos membros naquela sala em busca de alguém que se mostrasse aliviado demais pela falta de informações. E, no mesmo segundo, eu soube que Nikolaus fazia o mesmo.

Era por isso que a desconfiança não havia sido compartilhada nos relatórios. Ele achava que o traidor estava aqui.

O rei acenou levemente com a cabeça antes de apoiar as mãos firmemente na mesa e inclinar-se para frente, os olhos examinando cada conselheiro como se tentasse extrair alguma verdade oculta.

— Este reino não pode se dar ao luxo de incertezas prolongadas. — ele disse, sua voz grave reverberando. — O caos que vimos em Sonegeade não pode se repetir.

Um conselheiro com um bigode fino e bem aparado levantou a mão, pedindo licença para falar.

— Majestade, talvez seja prudente intensificarmos a presença militar em áreas de maior instabilidade. Se os rebeldes perceberem que não toleramos esse tipo de comportamento, eles pensarão duas vezes antes de agir.

Nikolaus desviou o olhar para o homem, seus lábios curvando-se levemente em um sorriso que não alcançou os olhos.

— A força bruta nunca resolve insatisfações legítimas, lorde Vidrik. — ele disse, com um tom quase gentil, mas a frieza reverberando as palavras. — Se atacarmos sem medir as consequências, daremos a eles exatamente o que querem: um motivo para se unirem contra nós.

Os murmúrios recomeçaram, mas desta vez mais baixos, como se o peso das palavras do príncipe houvesse silenciado os argumentos mais fracos. Eu não poderia deixar de admirar sua habilidade em comandar a sala, mesmo diante de opiniões conflitantes.

O rei ergueu a mão, um gesto que imediatamente cessou a conversa.

— Basta. — ele disse. — Já discutimos o suficiente por hoje. Nikolaus, mantenha-me informado sobre qualquer progresso com os panfletos e a investigação.

O príncipe assentiu, sem desviar os olhos do pai.

Com a reunião encerrada, os conselheiros começaram a se levantar, guardando seus tablets e murmurando entre si. Observei enquanto Nikolaus permanecia imóvel, seus olhos fixos no mapa nos telões. Ele parecia alheio ao movimento ao seu redor, mas eu sabia que não havia nada que escapasse à sua atenção.

Cris tocou meu ombro levemente, sinalizando que era hora de nos retirarmos. Enquanto seguíamos os outros guardas para fora da sala, não pude evitar olhar para trás. Ele ainda estava lá, seu semblante impenetrável enquanto o rei trocava algumas palavras com ele. Eu sabia que uma conversa entre nós dois não demoraria a acontecer. E, de alguma forma, parecia mais intimidante do que qualquer coisa que eu tivesse presenciado na reunião.

Esperei nos afastarmos o suficiente dos outros membros e guardas.

— Preciso falar com o príncipe. — sussurrei para Cris. Ele me olhou de canto de olho.

— Ouviu o que precisava da corte?

— Deles, não. Mas do príncipe, sim. — falei, com mais certeza do que nunca. Cris franziu as sobrancelhas. — Tomei minha decisão.

Esperei no mesmo cômodo aconchegante onde nos encontramos na outra noite. A lareira queimava em um ritmo tranquilo, seu calor preenchendo o ambiente. Sentei-me em uma almofada no chão, mesmo que o sofá e a poltrona estivessem atrás de mim, mas optei pelo conforto da simplicidade. Talvez fosse mais simbólico do que eu queria admitir.

O som da porta se abrindo interrompeu meus pensamentos. Olhei para trás e vi Nikolaus entrar, sua presença tão sólida e autoritária como sempre. Ele fechou a porta sem pressa e caminhou até mim em silêncio.

Quando seus olhos encontraram os meus, houve um instante de entendimento, uma troca que dispensava palavras. O olhar dele caiu sobre uma pequena mesinha ao meu lado, onde estava um prato com um único cookie de chocolate. Ele ergueu uma sobrancelha, o tom de humor leve em sua voz cortando a tensão do momento.

— Temo que nossa conversa será longa se trouxe um lanche para comermos, mas você subestima minha fome se pediu apenas um.

Sorri, um pouco nervosa.

— Em Geróvia, é tradição que acordos sejam selados com o compartilhamento de uma comida. — expliquei. — Algo simbólico.

Ele inclinou a cabeça levemente, um brilho de reconhecimento surgindo em seus olhos.

— Antigo ritual escandinavo. — murmurou. — Chamávamos de freden morsmål . Paramos de praticar há gerações.

— Em Geróvia, é algo sagrado. — repliquei, pegando o prato e estendendo-o para ele.

Ele hesitou por um momento antes de aceitar, removendo o paletó e jogando-o sobre o tapete para se sentar. Enquanto se ajeitava, eu pensava em todos os motivos que me fizeram tomar essa decisão.

Nikolaus confiou em mim de formas que poucos fariam. Ele não revelou suas suspeitas ao rei, mas fez isso a mim. Me levou para uma cena secreta que jamais poderia vazar. Colocou-me em uma sala que mostrava pontos estratégicos de Osteland, algo que olhos gerovianos nunca poderiam ver. E algo me dizia que até mesmo sua verdadeira face ele me permitiu ter um vislumbre. Cada ato foi uma aposta.

Estávamos frente a frente, com apenas uma pequena mesa nos separando.

Engoli em seco e, com um fôlego curto, finalmente disse:

— Minha lealdade estará com você tanto quanto estará com a princesa.

Ele me olhou fixamente, como se quisesse medir o peso das minhas palavras. Então, com calma, partiu o cookie ao meio.

— E você tem a minha. — ele estendeu uma das metades para mim. — Aliados, Evie. De igual para igual.

Peguei a metade que ele me ofereceu, surpresa com o gesto, e, sem hesitar, comemos juntos. O calor da lareira parecia mais intenso agora, mas talvez fosse a gravidade do momento que aquecia o ambiente. Olhei para ele, sentindo que algo havia mudado entre nós.

Não havia mais volta. E no fundo do meu coração, sabia que estava fazendo a escolha certa.

Notas finais
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