A Assistente da Princesa
10 Capítulo 10
Notas iniciais
6 dias para a chegada de Katerina.
Eu precisava dar parabéns ao chefe desse palácio. As opções de pratos do refeitório estavam simplesmente incríveis: filé de carne assada com molho de cogumelos, salmão grelhado com limão e ervas, purê de batatas aveludado e uma seleção de sobremesas que pareciam ter saído de um sonho. Eu não fazia ideia de como manter minha dieta por aqui, mas eu precisava experimentar pelo menos um pouco de cada coisa.
Estava tão concentrada colocando mais molho no meu prato que nem percebi Merida se aproximando até sentir uma cotovelada em minhas costelas.
— Ai! O que foi?
— Olhe! Não é o seu guarda mascarado? — ela exclamou, enquanto apontava para alguém a alguns metros de mim.
O príncipe estava ali?
Me virei tão rápido que quase derrubei o prato. Ali, perto da entrada, estava um homem vestindo o uniforme azul e branco, mas agora uma balaclava cobria quase todo o rosto, deixando apenas os olhos à mostra. Olhos castanhos, não azuis.
Aquele não era o príncipe. E ele não estava sozinho.
Mais dois guardas idênticos e mascarados se aproximaram dele, cochichando algo.
— Talvez seja. — menti, mantendo o tom casual. Merida nunca soube quem ele realmente era. — Mas há mais deles. Você disse que guardas não usavam máscaras,
— E não usavam. — ela respondeu, franzindo o cenho. — Novo acessório?
Balancei a cabeça, tão perdida quanto.
Ainda intrigadas, seguimos para uma das mesas longas do refeitório, onde Cris já estava acomodado. Sua balaclava estava descansando ao lado do prato, revelando seu rosto despreocupado enquanto ele mastigava algo que parecia um pedaço generoso de carne assada.
— Vocês parecem ter saído de algum filme de espionagem. — Merida comentou, colocando uma bandeja sobre a mesa e sentando-se na frente dele. — Algum motivo especial para o novo acessório?
Cris olhou para ela, evidentemente surpreso com a interação repentina. Desde que conversamos mais cedo, e eu contei a ela que Cris namora, Merida parecia mais tranquila em ter que interagir com ele, agora que sabe que será apenas um amigo.
Ele engoliu o que mastigava, antes de responder com um meio sorriso.
— Treinamento do príncipe. Ele quer uniformizar a força pessoal para as próximas semanas.
Eu me sentei ao lado de Mérida, observando os guardas do outro lado do refeitório, que agora mostravam os rostos e conversavam em voz baixa, parecendo alheios ao ambiente. Deve ter sido por isso que Gadreel foi chamado há alguns minutos e teve que sair depressa, sem dizer o motivo.
— Ou o príncipe pode gostar de máscaras. — comentei, Cris deu um leve sorriso enquanto Merida levantou a sobrancelha. — Pode ser alguma moda masculina ostelense.
— Moda masculina? — Gary interrompeu, colocando sua bandeja com força na mesa, ao lado de Cris. — Isso é coisa da Phoebe?
Gary começou a devorar o que parecia ser uma pilha especial de comida, enquanto Luca, o guarda mais jovem, sentou-se ao lado dele em silêncio, me oferecendo um sorriso tímido.
— As máscaras. — respondi, apontando o acessório para eles. — Vocês não tem?
Gary puxou sua balaclava do cinto, exibindo-a rapidamente antes de jogá-la de volta.
— Eu ainda não. — Luca disse, envergonhado.
— Luca está em fase de treinamento. — Cris explicou. — Por enquanto ele é somente um guarda do palácio. Precisa de pelo menos seis meses para ser da guarda do príncipe.
— Tudo isso? — perguntei, impressionada.
Em Geróvia, os guardas pessoais não precisavam de um treinamento tão diferenciado. Mas Geróvia e Osteland eram muito diferentes; não era à toa que Osteland era a maior potência militar.
— Precisa de muito treino para saber como lidar com algumas situações. — Gary respondeu. — Especialmente agora, com as tensões crescendo, o príncipe precisa de muita proteção.
O comentário de Gary imediatamente chamou minha atenção. Tensão? Mas as notícias não mostravam nada, apenas fofocas e questões triviais. E eu sabia disso, pois lia todas as notícias diárias.
Cris tossiu, lançando um olhar significativo para Gary, como se o lembrasse de medir as palavras. Merida, no entanto, parecia fascinada.
— Falando em tensões. — ela começou, quase sussurrando. — Vocês ouviram sobre o mercado de Bossón?
Gary franziu o cenho, mas foi Cris quem respondeu com um tom controlado:
— O mercado de Bósson não é um lugar confiável para informações. Boatos correm mais rápido que a verdade.
Merida ignorou o comentário, inclinando-se para frente.
— Dizem que houve algum tipo de protesto contra a aliança com a Geróvia. Quebraram algumas coisas.
Um desconforto tomou conta da mesa. Cris manteve a compostura, mas era evidente que o assunto o incomodava. Eu, por outro lado, senti o sangue gelar.
— Protesto? — questionei, tentando não demonstrar meu choque.
— Provocações. — Cris cortou antes que Merida pudesse responder. — Não passam disso. Essas bobagens nem chegam ao público em geral.
– Claro. — murmurei, embora soubesse que a resposta dele não era suficiente para acabar com minha inquietação.
Gary, talvez para aliviar a tensão, soltou uma risada curta.
— Não tem muito o que esses protestos possam fazer, certo? Quer dizer, quase ninguém leva isso a sério.
— Não é tão simples. — Cris rebateu, pousando o garfo com cuidado. — Boatos podem inflamar as pessoas erradas.
— Como assim? — Merida disse, curiosa.
Antes que Cris pudesse responder, um outro guarda, que não reconheci de imediato, se aproximou e murmurou algo no ouvido de Cris. Ele concordou, levantando-se imediatamente.
— Preciso cuidar disso. — ele anunciou, ajustando a balaclava de volta ao rosto. Antes de sair, lançou um olhar significativo para mim. — Senhorita Petrova, o príncipe pediu que estivesse pronta em quatro horas. Discrição seria recomendada.
Meu coração disparou com a menção dele.
— Claro.
Assim que Cris saiu, Merida me olhou, intrigada.
— Por que ele falou isso como se fosse um segredo?
Dei de ombros, fingindo desinteresse.
— Talvez ele só goste de criar mistério.
Mas, internamente, eu já estava formulando perguntas e tentando esconder a ansiedade que agora me fazia querer botar para fora todo meu almoço.
"Discrição seria recomendada", ele disse. Meu estômago revirou, e pela primeira vez desde que me sentei naquela mesa, me arrependi de ter pegado mais um pedaço de bolo. Por que ele sempre conseguia me deixar nesse estado de alerta constante? Era como se cada encontro fosse uma peça em um jogo que eu nem sabia estar jogando.
Quatro horas depois, eu estava no meu quarto olhando pela janela, com uma Merida muito desconfiada observando cada movimento meu. Ela não havia engolido todas as desculpas que dei sobre a reunião secreta com o príncipe.
O toque de uma música — “7 Rings” — explodiu no celular dela, cortando o silêncio. Ela atendeu rapidamente, com os olhos levemente arregalados.
— Sim? Claro. Claro. Mas e a convidada? Sim. Sim, entendido. — ela murmurava no smartphone, parecendo cada vez mais nervosa.
Finalmente, desligou o aparelho e me olhou assustada
— Era a Ágatha. — ela informou, quase sem fôlego. Ágatha, a chefe das governantas do palácio e, pelo que parece até agora, a única pessoa capaz de assustar Merida de verdade. — Ela quer que eu vá imediatamente até a sala dela.
— Boa sorte. — murmurei, mas Merida já estava apressada, pegando seu casaco antes de sair do quarto.
A porta mal havia se fechado por completo quando, quase no mesmo instante, outra batida soou. Dessa vez, mais firme e urgente.
Atendi tentando controlar o nervosismo, e me parei com Gadreel, que fez uma reverência curta antes de falar.
— Senhorita Petrova, o príncipe me enviou para buscá-la. Por favor, me acompanhe.
Engoli em seco, concordando e segui sem dizer uma palavra.
Os corredores do palácio estavam estranhamente silenciosos à essa hora. Apenas o som ritmado dos nossos passos ecoava pelas paredes azuladas do palácio. Gadreel guiou-me por um caminho que não conhecia, atravessando áreas que pareciam mais funcionais do que decorativas, até chegarmos aos fundos do palácio.
Era uma garagem enorme, iluminada por luzes brancas fluorescentes que lançavam um brilho frio sobre os veículos estacionados. SUVs pretas e veículos militares foram organizados em fileiras impecáveis. Próximo a uma SUV mais afastada, um pequeno grupo de guardas estava reunido.
Entre eles, mesmo a alguns metros de distância, eu conseguia distinguir ele perfeitamente. Mesmo todo coberto, ele era inconfundível para mim. Aquele par de olhos azuis, tão familiar quanto desconcertante, parecia estar sempre um passo à frente dos meus pensamentos.
Nikolaus usava um uniforme idêntico ao dos seus guardas pessoais, e agora com todos usando a mesma balaclava, ele passaria despercebido a não ser que alguém o reconhecesse tão bem. Como eu.
Os olhos dele me percorreram e ele murmurou algo para seus sentinelas, que se afastaram em direção aos carros. O som das portas de metal se fechando ecoou pela garagem.
Nikolaus, então, iniciou a caminhada em minha direção. Seus passos eram firmes, calculados, e, de alguma forma, ele parecia ainda mais imponente com o uniforme, como se o simples fato de estar encoberto aumentasse a intensidade de sua presença.
Ele parou à minha frente, os olhos varrendo-me de cima a baixo com uma avaliação silenciosa.
— Eu pensei que tinha mandado dizer para você ser discreta, Evie — disse ele, com uma voz grave que não escondia seu julgamento.
Cruzei os braços, tentando parecer indiferente.
— Eu estou discreta. — retruquei, com mais calma do que realmente sentia.
Eu estava usando uma legging preta forrada com camurça, uma camisa de mangas compridas brancas, escondida por um casaco grosso e verde de couro que ia até quase os joelhos, e botas marrons de neve. Nada muito chamativo. E, no topo, um simples gorro preto que deixa a mostra minha trança única. Eu realmente não sabia o que ele esperava.
Nikolaus revirou os olhos.
— Definitivamente, você não passa despercebida — ele disse, com um tom carregado de ironia.
Eu não sabia se aquilo era uma crítica ou algum tipo de reconhecimento, o tom de elogio disfarçado não passou despercebido por mim. A tensão no meu peito aumentou, e minha mente disparou em várias direções.
— Tudo bem — ele continuou, interrompendo meus pensamentos. — Vamos providenciar algo para você.
— Como assim? — questionei.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, deu um passo atrás, sua expressão mais séria, como se estivesse ponderando algo antes de falar.
— Se você realmente quer que essa aliança seja um sucesso, então precisa entender a profundidade de tudo.
Eu franzi o cenho, tentando processar as palavras dele. O que ele queria dizer com isso? Não era só uma questão de ajudar Katerina e garantir que tudo corresse bem? O que havia de tão profundo nisso?
Nikolaus iniciou a caminhada em direção ao SUV preto estacionado na frente de nós. Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse. Relutante, entrei e me acomodei no banco de couro frio. Observando-o fechar a porta e sentar ao meu lado, no banco do motorista.
— Você vai dirigir? — minha surpresa era clara.
Ele riu baixo, um som que se perdeu na quietude do ambiente.
— Há algo de errado nisso? Eu tenho carteira.
— Não, é que você deve ter motoristas.
Me senti um pouco tola em ter que verbalizar aquilo, mas era a verdade. Um nobre do nível dele raramente dirigia seus próprios carros. Quem teria esse trabalho quando alguém podia fazer por você? Eu nunca vi Kate dirigindo.
William, sim, ele adora carros esportivos, mas só para correr em apostas idiotas com amigos. Nunca em situações formais.
— Agora, sou um guarda, e os guardas normalmente não têm motoristas próprios quando saem em missão. — ele explicou, com uma leveza que quase parecia natural.
Fazia sentido. Ele, de alguma forma, pensou em cada detalhe. Quantas vezes ele fingiu esse papel?
O silêncio do SUV parecia mais denso. Ele ligou o motor, e o carro começou a se mover silenciosamente, cortando a noite.
— Procure na tela o número do Cris, ligue para ele. — Nikolaus disse de repente.
Olhei para ele rapidamente, mas ele estava focado na estrada. Com um suspiro, olhei para o painel e procurei o botão para a ligação. Assim que encontrei, toquei na tela, e logo a chamada foi conectada.
— Cris, você pode trazer um uniforme tamanho P? — Nikolaus falou de forma direta, sem rodeios.
Olhai para ele, surpresa. Ele me olhou por um momento, quase como se estivesse pesando algo antes de falar.
— Talvez PP seja melhor. — ele corrigiu.
Suspirei internamente, agora realmente estou me perguntando para onde estou indo. Não era um passeio turístico, com certeza.
— E isso seria para Evelina? — Cris perguntou, parecendo rir.
— Evidentemente, não fui avisada sobre o código de vestimenta e o que “discrição” significava. — respondi. Cris pareceu surpreso, talvez não esperasse o viva-voz, mas logo riu novamente.
— Claro, claro. Esqueci que você não estava acostumada com missões e seus disfarces. Vou levar o uniforme. Até breve.
Ele desligou sem esperar mais perguntas, e a linha ficou muda. Fiquei em silêncio por um momento, tentando entender o que realmente estava acontecendo.
— O que Cris quis dizer com isso? — questionei, ainda confusa.
Nikolaus manteve os olhos fixos na estrada, uma expressão impassível.
— Ele se refere ao fato de que você não está habituada com o tipo de missão em que estamos agora. — respondeu ele, com um tom neutro, mas que indicava que não estava tão à vontade com a conversa quanto tentava parecer.
Nikolaus dirigiu por mais alguns minutos, eu me sentia estranhamente desconfortável. O silêncio parecia mais denso agora, e a sensação de que algo muito maior do que eu imaginava estava em jogo não saía da minha mente.
Foi então que ele cortou o silêncio, falando sem desviar os olhos da estrada.
— Você já esteve em Osteland antes?
Eu olhei para ele rapidamente, surpresa pela pergunta.
— Não, nunca. — minha resposta foi direta, mas o tom da minha voz revelou o quanto isso era verdade. — Jamais pensei em pisar aqui, muito menos ficar tanto tempo.
Ele riu brevemente, o som abafado pela máscara, mas não parecia surpreso, como se já esperasse essa resposta. Ele parecia medir cada gesto meu.
— Já estive em Geróvia, por dois dias. — comentou de maneira leve, como se lembrasse de uma memória distante. — E as pessoas com quem conversei agiam como se eu fosse tomar a terra de volta a qualquer momento.
Ele fez uma pausa, o silêncio do carro era interrompido apenas pelo som do motor. Eu o observei, tentando captar qualquer nuance em seu tom, mas ele parecia genuinamente confortável ao falar sobre o assunto.
— Eu me questionei se é assim que vocês, gerovianos, veem essa aliança agora. Como uma forma de Osteland tomar Geróvia novamente. — ele finalizou, com uma pergunta não dita.
Eu refleti por um momento, o peso da história e a rivalidade entre os dois reinos flutuando sobre nós. Eu sabia exatamente o que ele queria dizer. A traição de Geróvia no passado e a subsequente humilhação de Osteland ainda estavam frescas, embora sejam acontecimentos de anos atrás. Não seria difícil para ele pensar dessa forma, mas eu sabia que a realidade agora era muito diferente.
— Bem, voltar rastejando para o reino que um dia traiu... — comecei, tentando escolher as palavras com cuidado, mas minha mente não conseguia se livrar desse peso. — Não é exatamente a atitude mais orgulhosa. Mas Geróvia não tem poder suficiente para enfrentar sozinha o que está por vir. Não temos forças para resistir sem ajuda de Osteland.
Ele ficou em silêncio, enquanto eu o observava. Eu sabia que essa resposta não o surpreendia, mas não havia muito mais a acrescentar, sem ser a mais pura verdade.
— Eu prefiro acreditar que Katerina será uma boa soberana, e que ela conseguirá chegar a um acordo com William, que um dia será o rei de Geróvia. — disse, mais para mim do que para ele.
Nikolaus revirou os olhos, um gesto que deixou claro seu desgosto, como se o simples fato de ouvir aquilo tivesse causado alguma ocorrência que ele não soubesse expressar de outra forma.
Ele retirou a balaclava com um movimento rápido, revelando seu rosto e jogando a máscara no painel antes de me lançar um olhar que parecia carregar tanto desdém quanto frustração.
— Não pense que não passou pela cabeça dos ostelenses que um dia ficariam dois gerovianos no trono dos reinos. — disse ele, quase com um tom mordaz, mas com um toque de verdade que não pude ignorar.
Eu fiquei em silêncio, observando-o com atenção. O gesto dele de tirar a máscara foi como um sinal de que a conversa estava prestes a mudar. Ele estava ali, com os olhos fixos em mim, e por um instante, eu senti que não era apenas uma conversa política. Era mais pessoal.
— Então, é isso. — falei, tentando manter a calma. — Você acha que essa aliança é um mal necessário para ambos os reinos, mas é mais sobre a nossa sobrevivência do que uma simples união de paz, não é?
Ele não respondeu de imediato, e a distância entre nós parecia aumentar, não fisicamente, mas no espaço das palavras não ditas. Ele parecia refletir sobre algo, mas em vez de continuar, se concentrou na estrada à frente.
Eu respirei fundo, tentando organizar meus pensamentos. As palavras de Nikolaus, a revelação de seus interesses e, principalmente, sua visão de Osteland sobre Geróvia, fizeram tudo parecer muito mais complexo do que eu queria acreditar. Eu queria acreditar que havia algo mais entre os dois países, algo que poderia ser construído a partir dessa aliança, mas agora eu não tinha tanta certeza.
— Talvez você tenha razão. — eu disse por fim, quebrando o silêncio entre nós. — Mas, por enquanto, a sobrevivência vem em primeiro lugar.
Ele não respondeu imediatamente, mas me lançou um olhar, algo entre um reconhecimento e um aviso. O carro seguiu em frente, e o som do motor mais cortante agora. Eu sabia que nossa conversa estava apenas começando.
E, com isso, as coisas ficariam muito mais difíceis antes de melhorarem.
Fale com o autor