A Assassina e o Alquimista

28 Um dia na Cidade do Rei


Notas iniciais
Olá! Na nossa atualização de terça! Infelizmente, a partir de agora, as atualizações passarão a ser, no máximo, uma vez por semana. Inclusive, a próxima atualização será no dia 23/09, NA PRÓXIMA SEXTA (não nessa sexta) porque eu vou precisar de mais tempo para organizar minhas coisas. Em compensação, o capítulo de hoje está um pouquinho grande. Vejam só, amanhã é meu aniversário e o que eu ganho de presente? Uma prova de Engenharia de Software na quinta e alguns artigos - em inglês - para ler e fazer resenha. Maravilha, não? Parabéns para mim.

— Tem certeza que é aqui? – Alphonse perguntou em dúvida, olhando tudo ao redor.

Alphonse nunca havia estado em um lugar tão estranho como aquele. Nem mesmo quando viajou na companhia de Jelso e Zampano, ele não se lembrava de ter visto um ambiente como aquele em Xing, muito menos na Cidade do Rei. O prédio que ele acabara de entrar ficava em uma famigerada rua na periferia mais distante da capital. O lugar parecia uma grande casa de espetáculos com uma decoração extravagante, possuindo uma ampla pista de dança no meio do salão, onde dançarinas com vestidos quase transparentes rodopiavam entre os homens, e várias mesas se amontoavam ao redor. Alphonse havia ido ali por recomendação de Havoc que o arrastara para a rua com a alegação de que o rapaz precisava conhecer os lugares e aprender algumas coisas extremamente úteis para um homem como cuspir a uma distância de três metros ou tocar flauta com o nariz.

— Claro que sim – Havoc ia à frente do pequeno grupo formado por ele, Alphonse, Breda e Fuery. Dessa vez, excepcionalmente, os três militares usavam roupas civis – Esse lugar é ótimo para conseguirmos informações do sumiço de Kalin. Você acha que ele e seus cúmplices ficariam frequentando a praça pública ou o centro da cidade? É claro que não! Aprenda uma coisa, garoto, você precisa saber onde procurar informação.

— Não estão olhando muito bem para nós – Alphonse comentou.

E, realmente, muitos homens olhavam meio torto para eles. Fuery e Breda nem tanto, mas Alphonse e Havoc tinham a palavra “estrangeiro” estampada em suas testas. E, pior, dava para ver que eles eram amestrinos. Basicamente, todos os outros povos tinham a ideia de que todos os amestrinos eram louros, altos, de olhos claros, megalomaníacos e cujo passatempo favorito era invadir os países vizinhos.

— Não se preocupe, Alphonse – Breda deu um tapinha nas costas do rapaz – Tudo que temos que fazer é nos misturar. Vamos ficar ali na mesa de jogo.

— Jogos de azar? – Alphonse virou-se para Havoc – Você não disse que aqui era um lugar em que as pessoas vêm para dançar?

— Isso também – Havoc apontou para a pista de dança – Não está vendo as pessoas dançando?

— Eu acho que a Winry gosta de dançar – Alphonse disse, pensativo – Eu acho que vou falar com o Ed para trazê-la aqui.

Breda começou a tossir e Fuery deu um sorriso amarelo.

— Não acho que é uma boa ideia – Fuery advertiu.

— Por quê? – Alphonse olhou para ele, curioso.

— Aqui não entra mulheres – Havoc explicou, vagamente.

— Como não entra mulheres? – Alphonse apontou para as dançarinas – E elas lá?

— Elas, bom... – Havoc coçou o queixo – Elas... trabalham aqui.

— Mas isso não faz sentido – Alphonse continuou – Por que proibir a entrada de mulheres aqui?

— Ih, Alphonse! Quanta pergunta! – Havoc fez um gesto impaciente com as mãos – O dono do lugar que não quer. Se ele é o dono, entra quem ele quiser! Naquela peixaria ali da frente, por exemplo, é proibida a entrada de gatos e sogras. Na loja de flores do outro lado da rua é proibida a entrada de patos e drachmanianos. Na barbearia, em que o Fuery costuma cortar o cabelo, é proibida a entrada de cavalos e... e qualquer pessoa que não souber recitar um palíndromo. Na verdade, isso é uma prática bastante comum. Quando eu cuidava da mercearia da minha família, nunca entrou nem urso e nem bêbado por lá.

Alphonse lançou um olhar meio desconfiado para Havoc.

— Vocês estão debochando da minha cara, não é? – Alphonse perguntou, com uma sobrancelha arqueada.

— É claro que não – Havoc se defendeu.

— Então, por que o tenente Breda está rindo?

Breda estava quase fraturando duas costelas com o esforço de abafar o riso. Seu rosto estava totalmente vermelho e ele não conseguia nem falar. Fuery assoviava e olhava para os lados, tentando disfarçar que não estava ouvindo a conversa.

— Ele não está rindo – Havoc deu um tapa particularmente forte nas costas do amigo e Breda piorou com o acesso de tosse – Ele está feliz por estarmos todos aqui. Agora, ao invés de você ficar fazendo tanta pergunta sem sentido – ele puxou um punhado de moedas de dentro do bolso e despejou-as na mão de Alphonse – vai ali no bar e traz algo para a gente beber.

Alphonse aceitou a sugestão de Havoc a contragosto e foi sozinho até o balcão do bar. Depois pensou que essa seria uma boa oportunidade para sondar a área. Olhou ao redor e ficou observando qualquer tipo suspeito. Percebeu que havia um grupo meio duvidoso, cochichando em um canto e lançando olhares intimidadores para o grupo de estrangeiros. Parecia estarem conspirando algo.

— Vai querer beber o quê, garoto? – o garçom perguntou, despertando Alphonse.

— Hum – Alphonse se balançou no lugar, um pouco incomodado – vocês têm leite?

— Claro que não – o garçom riu pelo nariz e indicou o armário de bebidas atrás dele – só pode escolher as que estão no mostruário.

— Meu irmão iria gostar de ouvir isso – Alphonse passou os olhos pelas várias garrafas enfileiradas – Não sei bem o que escolher...

— Quer uma sugestão? – havia um homem sentado na frente do garçom e ele se inclinou na direção de Alphonse.

Na mesa dos jogos de azar, Havoc empilhou um bocado de fichas coloridas sobre a mesa enquanto observava o juiz da mesa embaralhar as cartas.

— Havoc – Breda conseguiu voltar a falar – você não presta.

Breda não sentou para jogar. Estava mais interessado em beber um pouco e olhar o movimento. Com um cigarro pendurado na boca, Havoc queria mais era beber, jogar e fumar. Não necessariamente nessa ordem. Enquanto isso, Fuery tentava, sem sucesso, chamar a atenção de uma das belas moças que dançavam insinuantes para os visitantes. Ele se interessou por uma das jovens dançarinas, mas ela não lhe deu importância porque estava muito mais interessada em olhar para Alphonse, que havia acabado de chegar à mesa, segurando quatro tigelas cheias de um líquido fumegante e equilibradas em cima de uma bandeja.

— Você demorou – Breda pegou a bandeja da mão de Alphonse e a ajeitou sobre a mesa – Senta aí – e apontou para a bebida – Isso tem álcool?

— Levando em conta que um dos caras no balcão do bar – Alphonse se acomodou ao lado deles – estava discutindo com um arranjo de flores, eu acho que tem, sim.

— Tudo bem – Havoc pegou sua bebida e se inclinou para cochichar no ouvido de Alphonse – eu posso te ensinar a roubar no blackjack.

— Não. Obrigado – Alphonse entortou a boca e cochichou também – Sabem, vi um grupo meio suspeito quando estava no bar.

— É mesmo? – Havoc perguntou, sem nenhum real interesse. Ele estava mais concentrado em pegar as cartas que começaram a ser distribuídas.

— São aqueles ali – Alphonse indicou, com a cabeça, o bando reunido em um canto – Parecem estar tramando alguma coisa. Certamente, eles devem saber alguma coisa sobre os rebeldes ou os que estavam tentando aplicar um golpe no governo.

— Que é isso, Alphonse? – Havoc respondeu, sem tirar os olhos das cartas – Não se deixe ser enganado pelas aparências.

Mas Breda também olhava atentamente para os suspeitos por cima do seu copo de bebida. Realmente, aqueles homens agiam de uma forma meio estranha e olhavam para os forasteiros com uma expressão ameaçadora enquanto cochichavam muito entre si. Um deles chamou um dos seguranças do lugar e segredou algo em seu ouvido.

Não tinha como Breda e Alphonse saberem, mas um daqueles homens era Jin Li, principal braço-direito de Kalin, e os outros dois na sua companhia eram Yuan Fei e Guo Han, dois agitadores políticos que possuíam uma grande popularidade entre os opositores do governo. Eles estavam reunidos com mais três amigos de Yuan e bebiam para espantar as suspeitas.

— Meu senhor agradece suas informações valiosas – Jin suspendeu seu copo.

— Ora, somos apenas servos do legítimo rei de Xing – Guo alisou a grossa barba – E espero que o futuro rei lembre-se de nós.

— Vocês serão generosamente recompensados – Jin teve sua atenção atraída para uma mesa em específico – Quem são aqueles?

— Parecem amestrinos – Yuan comentou e cutucou o braço de um dos colegas ao lado – Descubra quem são esses e o que eles querem aqui.

O amigo de Yuan chamou um dos seguranças e pediu para que ele vigiasse os estrangeiros. Discretamente, o segurança deslizou até onde as dançarinas estavam e puxou uma das moças pelo braço.

— O que faz aí parada, Kumiko? – ele falou, rispidamente – Pensa que o patrão não vê que você fica enrolando?

— Já vou servir a bebida dos fregueses – ela respondeu quase pedindo desculpas e indicou uma mesa mais ao fundo.

— Ainda não – o segurança falou – Quero que você vá até aqueles estrangeiros e descubra quem eles são e o que fazem aqui.

Kumiko ficou muito feliz com a missão porque, desde que viu Alphonse, simpatizou imediatamente com o rapaz e queria apenas uma desculpa para chegar mais perto. Ela aproximou-se dos forasteiros, bamboleando entre as mesas e exibindo seu melhor sorriso.

— O senhor deseja uma companhia? – perguntou com uma voz doce.

Alphonse só percebeu que a moça estava ao seu lado depois de ter ouvido essa frase. Estava concentrado demais em olhar os movimentos dos suspeitos que continuavam a conspirar.

— Ah – ele gaguejou – ah, não. Eu estou bem...

Kumiko não esperou a resposta de Alphonse e puxou uma cadeira para sentar ao lado dele.

— Reparei que vocês não são daqui – Kumiko projetou o corpo para frente e segurou um braço de Alphonse – Qual o seu nome?

Aphonse hesitou um pouco porque não sabia se era seguro falar seu nome verdadeiro. Se bem que não havia a menor chance de eles se passarem por nativos locais.

— Meu nome é Kain Fuery – Fuery se esticou todo, tentando desesperadamente se meter no meio da conversa – E esse é meu amigo – disse, batendo no ombro de Alphonse – Alphonse Elric. Estamos só de passagem.

— Alphonse Elric – Kumiko parecia estar saboreando cada letra do nome dele – Eu não conheço você de algum lugar?

— Não. Não – Fuery respondeu, com um sorriso amarelo, antes de Alphonse – Somos apenas comerciantes que viajam pelo deserto.

— E que tipo de coisas vocês comercializam? – Kumiko chegou mais perto de Alphonse e ajeitou o colarinho da camisa do jovem alquimista.

— Várias coisas – Fuery estava quase caindo da cadeira – Ontem mesmo, fizemos um grande negócio de peles de animais e...

— Olha só. Meu copo está vazio – Alphonse levantou-se de repente para fugir daquela situação. Na verdade, ele havia discretamente despejado a bebida debaixo da mesa enquanto Kumiko e Fuery estavam quase caindo por cima dele – Vou buscar mais.

— Eu pego mais para você – Kumiko se ofereceu.

— Não precisa – Alphonse nem terminou direito a frase porque a moça tomou o copo de sua mão e saiu antes que ele tivesse uma reação.

— E então, Kumiko? – o mesmo segurança surgiu atrás da garota quando ela terminou de encher o copo e a segurou pelo braço – Descobriu quem eles são?

— São só comerciantes – ela tentou se desvencilhar das mãos fortes do segurança.

— Nomes, Kumiko – ele insistiu – Descobriu os nomes de algum deles?

— Um deles se chama Alphonse Elric – Kumiko torceu o rosto em uma careta de dor.

— Elric? – o segurança enrugou a testa. Aquele nome era familiar.

— E então? – o amigo de Yuan chegou perto dos dois. Kumiko aproveitou a oportunidade para se livrar das mãos do segurança e voltou quase correndo para o salão – Descobriu alguma coisa?

— Kumiko disse que um dos forasteiros se chama Alphonse Elric – o segurança respondeu.

— Elric? – o homem repetiu – O Alquimista de Aço não se chama alguma-coisa-Elric?

Quando ele voltou para a mesa, cochichou no ouvido de Yuan que o Alquimista de Aço estava entre os estrangeiros.

— Acabo de saber que o Alquimista de Aço veio até aqui para nos espionar – Yuan comentou com Jin.

— Droga – Guo praguejou – Como ele soube dos nossos planos? – e olhou para a mesa onde Havoc gesticulava alegremente após ter ganhado mais uma partida – Qual daqueles é o Alquimista de Aço?

— Com certeza, é o mais novo – Jin respondeu.

— Aquele fedelho? – Guo falou com desprezo – Vai ser fácil capturá-lo.

— Não se enganem – Jin completou – Eu soube que esse fedelho foi aceito como o mais jovem Alquimista Federal de Amestris. Não deve ser subestimado.

— Darei um jeito nisso – Yuan acenou para um dos seguranças.

Cinco homens altos e mal-encarados saíram de pontos estratégicos do salão e marcharam em conjunto até pararem ao lado da mesa onde estavam os quatro amestrinos.

— Com licença, senhores – o homem que ia à frente do grupo começou – Mas deverão se retirar.

— Como é? – Havoc ainda estava rindo de sua recente vitória e não entendeu a frase a princípio.

— Precisam se retirar – o segurança repetiu – Não são bem-vindos aqui.

Alphonse e Breda se levantaram quase ao mesmo tempo e encararam os seguranças. Havoc demorou um pouco para entender, mas se levantou também. Fuery continuava a olhar a cena, sentado e com os olhos arregalados. Kumiko, que estava pendurada em um braço de Alphonse antes dele se levantar, também olhava para os seguranças, horrorizada.

— E posso saber qual o motivo? – Breda perguntou em tom de desafio.

— Pessoas como vocês não são bem-vindas aqui – o segurança respondeu, secamente.

— E se a gente não quiser sair? – Alphonse provocou.

O homem nem respondeu. Girou o corpo em um movimento brusco contra Alphonse. Se Alphonse não tivesse sido rápido e se abaixado, teria recebido um soco bem no meio do rosto. Quem terminou sendo atingido foi Fuery, que havia acabado de se levantar e, com o golpe, caiu sentado de novo na cadeira.

Assim que se abaixou, Alphonse desferiu um soco contra seu agressor e afiadas estacas brotaram do chão, acompanhando seu movimento. O homem foi atingido duramente pelas estacas, saiu voando e aterrissou do outro lado do balcão do bar, derrubando e quebrando uma grande quantidade de garrafas.

— Ele é um alquimista de Amestris – alguém gritou no meio da confusão que se formava – Ele é um dos que querem nos explorar usando a Alquimia!

— Ele é o Alquimista de Aço – outro gritou – Ele vai nos matar!

— Não. Eu não vou... – Alphonse começou a se explicar, mas parou de falar quando precisou se desviar de outro ataque.

Ele, Breda e Havoc precisaram se desviar de socos e pontapés e uma briga começou. As moças gritavam e corriam para os lados enquanto muitos dos clientes do lugar buscavam refúgio debaixo das mesas.

— Ei! Você! – no meio da confusão da briga, Alphonse apontou para Jin do outro lado do salão – Por que você me chamou de Alquimista de Aço? EI!! NÃO FOGE, NÃO!!

Jin e Yuan correram para as escadas e Alphonse pulou em cima de uma mesa para poder alcançá-los, derrubando ainda mais garrafas e copos cheios de bebida.

— Atrás daqueles dois – Breda gritou, puxando um desnorteado Fuery que tentava ajeitar os óculos tortos.

— Mas eu estava ganhando – Havoc estendeu as mãos para a mesa com suas cartas.

— Não dá tempo – Breda o puxou pela gola da camisa – Vamos logo!

— Se alguém olhar as minhas cartas, vai ter – ameaçou os seus colegas de carteado que o olhavam, bastante assustados.

Alphonse já estava no andar superior e se desviava rapidamente de algumas moças que gritavam no corredor, após saírem de seus quartos para ver o motivo de tanto barulho. Ele não tirava os olhos dos dois fugitivos e viu quando os dois invadiram um quarto. Alphonse arrombou a porta aos pontapés, ao mesmo tempo em que Jin e Yuan pulavam uma janela. Os dois se balançaram nas cordas de um varal de roupas e usaram o impulso para pousar no telhado de um prédio próximo. Alphonse não pensou duas vezes e pulou atrás deles.

— Mas que merda – Breda praguejou no parapeito da janela e correu de volta para a escada. Não iria se arriscar a pular como Alphonse. Sabia de suas limitações – Pelo outro lado! Eles passaram para o outro prédio – puxou Havoc e Fuery depois de tê-los encontrado ainda subindo as escadas.

Do lado de fora, Alphonse pulava de telhado em telhado atrás de Jin e Yuan. A forma ágil como os três se deslocavam era surpreendente e eles pareciam acrobatas de algum circo em um número extremamente difícil e mortal.

Alphonse tocou a parede e um bloco de pedra atingiu Yuan em pleno ar e ele rodopiou e caiu, quicando, no meio de um beco estreito. Jin conseguiu se desviar, pulando por cima das transmutações de Alphonse, e se balançou em um varal como se ele fosse um cipó. Alphonse correu para o beco e procurou por Yuan, mas não encontrou nada. Em uma reação involuntária, Alphonse virou-se e desviou de um golpe repentino de Yuan que tentou atacá-lo por trás. Os dois trocaram alguns socos, porém foram interrompidos com a chegada de Havoc e Fuery.

— Ei! Pare aí – Havoc corria de uma forma meio desajeitada, sentindo os efeitos de uma câimbra.

Ao invés de obedecer, Yuan saiu correndo e os três voltaram a persegui-lo. No entanto, um carro apareceu cantando os pneus e a porta da frente abriu, revelando Jin ao volante. Yuan pulou para dentro dele e Alphonse viu claramente toda a ação. Mesmo assim, o alquimista não se intimidou e correu com mais vontade. Alphonse usou a Alquimia para se impulsionar para frente e conseguir alcançar o carro.

— Eu não aguento mais – Havoc choramingou e olhou para Fuery correndo na sua frente – Pare de ficar se exibindo.

— Não estou... – Fuery parou de falar de súbito e pulou para o lado porque quase era atingido por um carro que surgiu do nada.

— Entrem logo – Breda gritou ao volante – Alphonse! – ele berrou, sem nem mesmo parar para Havoc e Fuery subirem a bordo – Sobe aí!

Alphonse levou as palavras de Breda ao pé da letra e se pendurou na lateral do carro, ao contrário de entrar no automóvel, exatamente como fizeram Havoc e Fuery.

Os dois carros correram desgovernados, derrubando barracas de feira e atropelando caixotes no meio da rua enquanto os pedestres buscavam se proteger, gritando e correndo para qualquer lado. Quando Breda conseguiu encostar no carro da frente, Alphonse teve uma ideia maluca. Com ambos os carros em movimento, ele equilibrou-se no capô do carro onde estavam e pulou para a parte traseira do carro da frente. Aproveitando que a capota do carro dos fugitivos estava abaixada, ele impulsionou o corpo e caiu sentado no banco traseiro.

— Esse moleque endoidou?! – Havoc não estava acreditando no que Alphonse tinha feito.

— Ele pensa que ainda é uma armadura e, por isso, não vai se machucar – Breda abanou a cabeça – Só pode...

Quando Yuan percebeu o passageiro intruso era tarde e Alphonse havia acertado um soco nele. Mesmo ao volante, Jin tentou acertar Alphonse, mas o alquimista pegou-o pela gola da camisa e os dois ficaram se debatendo em uma luta confusa, até a porta do carro se abrir e os ambos caírem para fora. Alphonse protegeu a cabeça com os braços e rolou pelo chão. Quando enfim parou de rolar, viu o carro que levava Jin e Yuan invadir a vidraça de uma loja. Ignorando umas escoriações em seus braços, Alphonse tentou levantar para impedir a fuga de Yuan que saiu cambaleando do carro, porém foi derrubado com um murro por Jin. Caído no chão, Alphonse suspendeu um braço e uma coluna de terra ergueu-se do chão, jogando Jin para o alto. Jin voou alguns metros do chão e caiu dentro de um latão de lixo, depois de bater em uma placa e no toldo de uma quitanda durante a queda.

— Está tudo bem, Alphonse? – Breda freou o carro perto deles e saiu correndo para ajudar o alquimista. Havoc e Fuery também saíram do carro e correram até onde Alphonse estava.

— Parados – mais carros chegaram ao local e os cercaram – É a polícia!

— Nós pegamos esses suspeitos – Havoc indicou Jin dentro do lixo enquanto Breda e Fuery imobilizavam Yuan.

— Prendam eles – o chefe de polícia apontou para Jin e Yuan e, depois, virou-se para Havoc – Vocês também estão presos.

— Como assim presos?! – Havoc se alarmou – Nós pegamos esses dois que tentaram nos matar e estavam destruindo a cidade.

— Eu estou vendo é que vocês todos estavam destruindo a cidade – o chefe de polícia retrucou – Vai explicar sua história lá na delegacia.

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Edward preferiu falar com uma pessoa que certamente o ajudaria a resolver o grande problema a atormentá-lo. Dirigiu-se aos aposentos dos hóspedes no palácio real e encontrou o doutor Marcoh lendo, sentado na cama de seu quarto, com uma tala imobilizando o braço direito.

— Olá, Edward. Como vai? – o doutor o cumprimentou, gentilmente.

— Estou bem, doutor Marcoh – suspirou – Como está o braço?

— Está bem – ele guardou o livro na escrivaninha – Resolvi imobilizar para evitar esforços desnecessários – e observou o rapaz mais atentamente – Você não parece muito bem.

— Estou com uma dúvida terrível – Edward coçou a nuca, suspirando – E acho que só o senhor pode me ajudar.

— Conte-me, por favor – o doutor indicou uma cadeira em frente à cama.

— É sobre aquela garota, a Akame – Edward largou-se na cadeira, suspirando – Seja sincero, doutor. Há uma possibilidade, ainda que remota, de Akame ser um homúnculo?

O doutor Marcoh deu um longo suspiro e abanou a cabeça.

— Edward, somos cientistas – ele começou de um jeito paternal – Nós pesquisamos detalhadamente antes de formular qualquer teoria. Não podemos deixar nossos rancores pessoais interferirem no nosso julgamento.

— Mas, eu estou falando sério – Edward insistiu – Não tem nada a ver com ciúmes. Não acha estranha todas as coisas que ela faz?

— A única coisa que podemos afirmar é que a espada dela é peculiar – Marcoh prosseguiu – E poderia explicar algumas das coisas estranhas que você diz.

— Estou falando de coisas não necessariamente relacionadas à espada – Edward insistiu – E parece que só eu percebo isso.

— Você não acha que isso é apenas porque você se sentiu ameaçado em perder a companhia de seu irmão porque ele se aproximou mais de outra pessoa? – Marcoh explicou, calmamente – Não se preocupe, Edward. Alphonse nunca deixará de ser seu irmão.

— Eu tenho evidências – Edward continuou, mostrando os primeiros sinais de irritação – Ela tem superforça, super-rapidez, tem um apetite igual ao do Gula, faz sempre as coisas mais improváveis e ninguém desconfia, vive desafiando as leis da Física, não esboça sentimentos e, recentemente, descobri que ela pode se regenerar. Me diga, quem mais nós sabemos que tem características parecidas com as dela?

— Você só se esqueceu de uma coisa – Marcoh falou, tranquilamente – Qual a principal diferença de um homúnculo para um humano?

— A tatuagem de Ouroboros? – Edward arriscou – Bom, Winry disse ter visto que ela tem umas tatuagens meio suspeitas...

— Homúnculos são corpos artificiais – Marcoh explicou – Tendo uma pedra filosofal como núcleo. Agora, qual você acha que foi a primeira coisa que o Exército verificou quando eles estavam com Akame? – e completou, antes de Edward responder – Não acharam traços da pedra filosofal nem nela e nem na espada.

— Então, voltei à estaca zero – Edward bufou, chateado.

— Agora, isso sobre Akame ter um poder de regeneração é novidade para mim – Marcoh enrugou a testa – Se bem que é curioso...

— É curioso o quê, doutor? – Edward perguntou, com interesse.

— Durante as pesquisas para entender a relação entre o portador e sua Teigu – Marcoh olhou para o teto – foram recolhidas amostras do sangue de Akame e os primeiros exames detectaram algumas anormalidades.

— Que tipo de anormalidades?

— Não sei. Nós tivemos que fugir daquela vez, lembra? Isso foi antes de saírem os resultados conclusivos – Marcoh coçou a nuca – Veja só que estranho. Os primeiros resultados disseram que o sangue de Akame não era humano e, pior, não pertencia a nenhuma espécie conhecida. Chamaram até dois velhos conhecidos meus para tentar explicar isso. O Wilhelm Johnson é um famoso biólogo e o Theodore Duver é um especialista em fisiologia humana...

— Mas foi isso que eu disse desde o começo – Edward o interrompeu – Ela não parece humana.

— Mas esses testes de sangue são suscetíveis a erros, Edward – Marcoh encolheu os ombros – O primeiro resultado não prova coisa alguma. Você sabe que a ciência sempre trabalha com resultados aproximados.

— Espere um pouco – Edward exclamou e assustou o doutor – Wave disse algo sobre a chefa dele, sei lá, ter falado que Akame não era mais humana. E isso aconteceu depois de Akame ter se cortado com a espada.

— Akame se cortou com a Murasame? – Marcoh suspendeu as sobrancelhas – É impossível que ela tenha continuado viva, Edward. Em contato como o sangue da vítima, o veneno da Murasame reage instantaneamente, deformando as células do sangue e impedindo que elas transportem oxigênio. As células deformadas se aglutinam, entupindo as artérias, e a pessoa morre porque seus órgãos entram em colapso por causa da falta de sangue e de oxigênio. Mas isso tudo acontece em questão de segundos! Mesmo se tivéssemos um antídoto, as chances de sobreviver a isso são quase nulas.

— Mas ela conseguiu sobreviver de alguma forma – Edward prosseguiu – Não acho que Wave esteja mentindo. É possível que o corpo dela tenha criado alguma resistência ao veneno e ele tenha se comportado de uma forma diferente em seu organismo?

— Não sei dizer. Não posso formular teorias sem os dados necessários – Marcoh coçou o queixo, pensativo – Precisaria, ao menos, dos resultados das pesquisas de Johnson e Duver e, mesmo assim, ainda teríamos de fazer vários experimentos e observações. Esse processo pode levar anos e nem temos certeza de que chegaremos a alguma conclusão.

— Mas precisamos ao menos tentar achar as respostas, doutor. Faço o que for preciso para proteger o Alphonse – Edward suspirou – Sempre foi assim e sempre será.

Notas finais
Eu só espero que, quando eu tiver mais tempo, eu gostaria de desenhar essa história (ou não. Vai depender da preguiça). Ah, esqueci de falar uma coisa. Quem assistiu AGK sabe que as pessoas que tem Teigus são chamados de "usuários de Teigus". Os personagens dessa história que vieram do Império também falam assim, mas os amestrinos chamam de "portadores de Teigu" porque eles acham a palavra usuário muito limitada. Frescura deles mesmo.