A Assassina e o Alquimista
17 Mate a autoridade
Notas iniciais
Ainda era madrugada quando dois carros do exército saíram de Briggs em direção à Cidade Central. Miles não poderia abandonar seu posto no forte e escolheu dois motoristas e mais outros quatro soldados para acompanhar May, Lan Fan e os irmãos Elric. Aliás, Edward e Alphonse viajavam em carros separados e, estranhamente, não falaram quase nada a viagem toda. May tentou distrair Alphonse, mostrando a paisagem ao longo do caminho, mas o rapaz só respondia com monossílabos. Lan Fan, que estava no mesmo carro de Edward, não teve essa preocupação e o passeio deles foi ainda mais silencioso.
Os primeiros raios de sol despontavam no horizonte quando eles chegaram às imediações da Cidade do Norte. Depois de uma momentânea parada, eles seguiram rapidamente para seu destino final. Mais ou menos às três da tarde, os primeiros prédios da Cidade Central surgiram ao longe. Pela primeira vez desde Briggs, os carros precisaram diminuir a velocidade porque uma grande multidão tomava as ruas da Cidade Central.
— O que está acontecendo? – Edward debruçou-se no painel, enfim mostrando interesse em algo além de seus próprios pensamentos.
— Parece que hoje é o dia da votação – o motorista comentou, casualmente.
Nesses quase dois meses em Briggs, Edward e Miles recebiam atualizações de Falman sobre a Cidade Central por telefone. Sabiam das crescentes manifestações contra o governo do Führer e da votação na Casa dos Civis sobre o afastamento deste do cargo de Chefe de Governo.
O motorista precisou parar alguns quarteirões antes de chegar ao prédio da Central de Comando. A quantidade de pessoas no meio da rua tornava impossível o trânsito normal de veículos. Edward desceu do carro e resolveu perguntar para um dos soldados que tentavam bloquear a passagem de mais pessoas para o centro da cidade.
— Sou Edward Elric, ex-alquimista federal – se identificou – Preciso chegar urgentemente na Central de Comando. Tenho um assunto para tratar com o general Roy Mustang.
— Não vai ser possível no momento – o soldado respondeu enquanto gesticulava desesperadamente para a massa de gente ao redor manter distância.
— É um assunto de interesse do exército – Edward insistiu.
— Não posso liberar a passagem agora – e apontou para o caminho oculto pela multidão – A menos que o senhor saiba voar, eu aconselho a esperar a população dispersar. Mas, isso pode levar horas.
— Vamos tentar por um outro caminho – Alphonse se aproximou dos dois, acompanhado por May e dois dos soldados de Briggs.
— Cabo Dewey, na escuta? – uma voz saiu do rádio preso na cintura do soldado da Cidade Central – Solicitando reforços com urgência no Quartel-General Central, câmbio.
— Entendido – o soldado aproximou o rádio da boca – Mas não vai ser possível, câmbio.
— Estamos sendo atacados – a voz do outro lado parecia bastante assustada – Atacados por dois monstros! Um deles está usando algum tipo de armadura e o outro parece mais com uma garota de olhos vermelhos!
— Como é?! – Alphonse já estava quase saindo com os outros, mas deu meia-volta quando ouviu as palavras do soldado.
*************************
Wave olhava todos aqueles corpos espalhados, meio assustado. Não que ele já não tivesse visto corpos mutilados jogados no chão. Porém, ele estava espantado com a extrema facilidade e frieza com que Akame matou todos aqueles homens. Agora, ela estava analisando a Murasame com profundo interesse como se nada tivesse acontecido.
— Ei, Akame – ele chamou com um pouco de receio – Vendo você matar todos esses caras, cheguei a pensar... você deixou eles te trazerem para cá, não foi?
— Precisava pensar um pouco – Akame falou, vagamente. Wave não sabia dizer o porquê dela olhar com tanta atenção para a lâmina da Murasame. Uma das propriedades da Espada Demoníaca era jamais perder o corte.
— Aquilo que você falou – ele continuou, cautelosamente – sobre a vida não ter significado e tudo mais... você... você não está arrependida de ter sobrevivido, não é?
Akame continuou olhando para a espada, sem responder.
— Kurome não iria gostar de ouvir você dizer uma coisa dessas... – Wave se arrependeu de suas palavras porque se assustou com o barulho exagerado que Akame fez ao guardar a espada na capa protetora – Quer dizer, eu nem sei se ela iria gostar ou não. Na verdade, eu não acho nada. Desculpe, eu não quis ofender...
— Já pegou sua Teigu? – Akame o interrompeu, friamente – Então, vamos embora daqui.
Wave ainda estava pensando qual assunto pessoal era esse que Akame precisava resolver. Ele ajeitou uma espada curta e preta na cintura e seguiu Akame pelos corredores da prisão. Não demoraram muito para encontrar com mais seis guardas. Wave nem teve tempo de sacar sua Teigu porque Akame, sem diminuir a velocidade, fez um rastro de sangue com a Murasame, sem dar chance dos guardas se defenderem ou gritarem por ajuda.
— Você matou todos?! – Wave arregalou os olhos, espantado.
Havia uma pequena correção. Akame não matou todos. Os dois últimos da fila tiveram apenas suas armas inutilizadas com um corte transversal da Murasame, que dividiu os rifles em dois cada um. Os soldados olharam, abobados, por alguns segundos para os restos de suas armas, antes de voltar os olhos para Akame.
— Digam uma coisa – Akame falou, com a voz fria – Onde o coronel Bashir Panzer está agora?
— Vai para o inferno, seu monstro! – o mais exaltado respondeu imediatamente.
— Resposta errada – Akame disse sem alterar a voz e, no minuto seguinte, um jato de sangue espirrou do pescoço do guarda.
— Ele está no Quartel-General Central! – o outro soldado respondeu quase instantaneamente enquanto assistia a tudo, assustado – Por favor, não me machuque! – e se encolheu no chão, tremendo e cobrindo a cabeça com as mãos.
— Ele está no lugar certo – Akame falou consigo mesma – Obrigada – respondeu, calmamente, enquanto embainhava a Murasame e passava pelo guarda encolhido no canto.
Wave precisou se beliscar para acordar de sua estupefação e apressou os passos para poder acompanhar Akame. Além do mais, era impressão sua ou as estranhas e repentinas tatuagens de Akame estavam mais brilhantes?
Apesar de ter vindo poucas vezes para aquele lugar, há quase dois meses, Akame lembrava perfeitamente onde ficava o imponente prédio do Quartel-General Central.
— Tenho um assunto a resolver lá dentro – Akame explicou quando ela e Wave chegaram próximos ao quarteirão – Mas acho que não vão permitir minha entrada...
— Pode deixar, Akame – Wave precisava praticamente correr para acompanhar os passos rápidos de Akame – Eu te dou cobertura. Não vou deixar ninguém te atrapalhar no que você precisa fazer. Seja lá o que for.
Akame sorriu brevemente para ele e Wave suspirou, aliviado. Ele não sabia exatamente o que ela faria, mas tinha um palpite certeiro do que poderia ser.
O prédio do Quartel-General Central destacava-se não só por sua grandiosidade, mas também por causa das várias bandeiras verdes hasteadas orgulhosamente na fachada e nas laterais. O edifício era sempre muito bem guardado porém, por causa de toda a agitação provocada pela votação defronte à Central de Comando, o número de vigias no quartel-general foi reduzido ao mínimo. O sentinela da entrada principal estava tão distraído com uma revista qualquer que apenas percebeu a aproximação dos dois estranhos quando eles já estavam quase ultrapassando os limites até o Pátio Principal.
— Ei, vocês!! – o guarda gritou para os dois há poucos metros de distância do grande portão – Identifiquem-se!!
Os dois forasteiros continuaram andando calmamente, sem responder.
— Parem, se não terei de atirar!! – o guarda avisou. Outros três soldados posicionados nas torres laterais também começaram a observar os dois, atentamente.
Wave achou que era o melhor momento para liberar sua Teigu. Fazendo um grande movimento teatral, ele cravou a espada negra no chão.
— GRAND CHARIOT!!! – ele berrou enquanto era envolvido por uma luz brilhante.
Péssima ideia. Os soldados assistiram, atônitos, a transformação e, quando Wave emergiu triunfantemente em uma reluzente armadura negra, eles tiveram a certeza de que os dois estranhos eram inimigos. Sem nem avisar, os quatro soldados atiraram, mas Wave foi mais rápido e se posicionou na frente de Akame para impedir que ela fosse atingida. Apesar dela não ter demonstrado nenhum sinal de preocupação.
Os soldados perceberam que tiros comuns de pistolas nem mesmo arranhavam a pintura da Grand Chariot e um dos soldados resolveu apelar para um lança-foguetes. Usando apenas as mãos, Wave desviou a trajetória do projétil e ele foi explodir justamente no portão de entrada.
— Eu vou atrasá-los aqui – ele gritou para Akame – Pode ir resolver seu problema.
Como resposta, Akame pulou sobre os destroços do portão e rapidamente alcançou o Pátio Principal do quartel. Porém, uma barricada formada por soldados armados com pistolas semiautomáticas e metralhadoras já esperava por ela.
— Garota – um dos entrincheirados gritou – O que faz aí? Saia da frente ou irá se machucar.
— Não quero matar ninguém além do necessário – Akame sacou a Murasame – Aconselho a saírem do meu caminho.
— Ela é um dos invasores – outro soldado berrou – Atirem!!
O primeiro soldado ainda hesitou um pouco mas, por causa da dúvida e do medo, e talvez por causa da aparência estranha das tatuagens vermelho-brilhantes da jovem, um dos soldados atirou e os outros o imitaram. Akame correu na direção deles e usou a Murasame para repelir todas as balas atiradas contra ela.
— Impossível – exclamou um dos defensores do quartel, antes de ter o peito atravessado pela Espada Demoníaca.
Os soldados estavam espantados. Só tinham visto uma única pessoa apresentar tamanha habilidade com uma espada. O antigo Führer, King Bradley. Será que aquela garota era sua filha perdida? Obviamente, os soldados não sabiam das origens de Bradley. Ou, então, eles saberiam que o antigo Führer jamais poderia ter filhos.
Akame matou todos os soldados que ousaram bloquear seu caminho. Se eles ficassem apenas no canto, ela não encostava neles. Ao perceberem isso, muitos deles se espremeram nas laterais e assistiram a garota passar arrancando cabeças e braços dos poucos que ainda insistiam em impedir sua passagem. Em determinado momento, Akame cortou o braço de um soldado que ensaiava atirar uma granada nela – mas ele não conseguiu remover o pino a tempo – e a granada saiu rodopiando no ar, indo acertar uma das janelas do prédio principal. Os estilhaços da janela voaram pelo chão e a granada bateu em um grande aquário embutido em uma estante, com livros grossos ao seu redor. Por causa da pancada, uma pequena rachadura trincou o vidro e a água começou a escorrer pelo chão.
— O que é isso? – Panzer ajoelhou-se no chão e analisou a rachadura no aquário.
Aquele aquário havia sido um presente do próprio Führer Grumman, que adorava olhar para os peixinhos nadando nele todas as vezes em que ia ao escritório do coronel. Era uma coleção de peixes raros em um recipiente de vidro polido com pedras coloridas no fundo. Um presente realmente bonito e muito caro.
— Os manifestantes desistiram de jogar ovos na Central de Comando e resolveram vir para cá? – Panzer abaixou-se para procurar o que atingira o aquário. Surpreendeu-se por não encontrar nenhuma pedra ou algo do tipo. Quem jogaria uma granada pela janela do Quartel-General Central? Com um pouco de cautela, aproximou-se da janela quebrada.
Ao chegar à janela, o susto quase fez o coronel cair para trás. Qual não foi sua surpresa em ver Akame massacrando os soldados da Cidade Central lá embaixo no Pátio Principal.
— Como ela...? – ele começou a gaguejar, porém uma ideia terrível passou pela sua mente e cortou seu primeiro pensamento – Espera um pouco aí. O que ela está fazendo aqui?
Não é possível. Ela não teria coragem de vir ao Quartel-General Central apenas para...
— Eu preciso sair daqui – Panzer precipitou-se na direção da porta.
Panzer era um Alquimista Federal. Ele poderia ficar e enfrentar a invasora, mas não estava muito certo disso. A verdade é que ele não lutava de verdade há muito tempo. Estava sedentário e acostumado a mandar outros soldados lutarem em seu lugar. Além disso, ele tinha experimentado recentemente o poder de Akame. E não foi uma experiência nada agradável. A garota era muito forte, muito rápida e tinha algo de sombrio no olhar. E também o coronel estava sem suas luvas de transmutação. Ele não podia fazer transmutações sem um círculo de transmutação. Ouvira dizer que Edward Elric era capaz de realizar a façanha de fazer transmutações sem círculos quando era um Alquimista Federal. Porém, isso era uma coisa que o coronel nunca aprendeu a fazer.
Ele correu meio atrapalhado pelo corredor e quase descia as escadas de saída, isto é, se não tivesse visto o topo da cabeça de Akame atravessando a porta de entrada no andar inferior. Ela já estava dentro do prédio? Panzer voltou pelo mesmo caminho e entrou na primeira porta que viu. Era um armário de vassouras e ele empurrou os materiais de limpeza para o lado, no entanto parou de se contorcer quando ouviu o som seco de passos lentos contra o piso de madeira do corredor.
— Boa tarde – ele ouviu, inacreditavelmente, a voz da assassina – Estou indo para a sala do coronel Bashir Panzer.
— Nesse corredor, última porta à direita – mais extraordinariamente ainda, a voz da secretária do coronel respondeu.
— Eu sei – ele ouviu a voz de Akame se distanciando – Obrigada.
— Tem hora marcada?
— Não – Akame disse, tranquilamente – Mas ele marcou comigo.
O coronel escutou um agradecimento e um ruído de passos se afastando.
Akame andou tranquilamente até o final do corredor e girou a maçaneta da sala do coronel. Obviamente, o cômodo estava vazio e Akame interrompeu sua marcha ao ouvir o barulho de vidro triturado sob suas botas. Ela contornou os cacos da janela quebrada e parou em frente à gigantesca poça d’água no piso. A água do aquário continuava a escorrer pela rachadura cada vez maior e os peixes estavam agitados com a quantidade reduzida de água para poder respirar. Tinha tão pouca água que dava para pegar nas pedrinhas coloridas do fundo do aquário sem precisar nem mesmo molhar os cotovelos.
Desde a primeira vez que entrou naquela maldita sala, Akame reparava no olhar guloso de gato gordo do Führer Grumman para os peixinhos nadando sossegadamente no aquário. Akame não precisou nem de uma semana para somar dois com dois.
Dentro do armário de vassouras, Panzer nem pôde respirar aliviado por muito tempo porque as vozes voltaram cedo demais.
— Ele deve ter saído para o almoço – a secretária franziu o cenho ao ver Akame retornar, espalhando pegadas molhadas pelo corredor – Sabe onde é o refeitório dos oficiais?
— Sei, sim. Obrigada – Akame falou com a voz inalterada.
Panzer bufou, irritado. Sua nova secretária era a criatura mais avoada que ele conhecia. Na certa, nem percebeu que o Quartel-General estava sob ataque. Dessa vez, ele a demitiria com certeza. Não, faria pior. Se ele escapasse dessa, daria um jeito de despachá-la para Briggs.
***************************
Dois carros militares de Briggs abriam caminho entre as pessoas em alta velocidade. Eles não estavam mais se dirigindo para a Central de Comando, e sim, para o Quartel-General Central. Perto do seu destino, eles avistaram uma fumaça elevando-se acima do quartel. Cantando os pneus, eles pararam há poucos metros de distância da entrada principal do lugar.
— Mas que droga é essa? – Edward apontou para uma estranha figura que ainda brigava com alguns soldados.
— Só pode ser inimigo – Lan Fan observou a esquisita armadura negra desviar-se de maneira desengonçada dos ataques.
— Ele pode ter feito alguma coisa com Akame – Alphonse saltou agilmente do carro e correu inadvertidamente contra o invasor – Ei! Você aí! O da armadura!
Quando ouviu que o Quartel-General Central estava sendo atacado por uma garota e uma armadura esquisita, Alphonse entendeu erroneamente que, talvez, Akame estivesse lutando contra algum soldado com uma armadura experimental do Exército.
Wave olhou para trás, procurando quem havia o chamado, e acabou sendo acertado por uma gigantesca mão de concreto que se materializou do nada. Ele tinha visto um rapaz de cabelos louros bater palmas e tocar o chão com as mãos, antes daquele monumento irromper do chão e acertar-lhe um soco. Será que foi o rapaz louro quem fez isso? Se sim, como ele fez isso? E que magia estranha era essa? Wave nunca tinha visto nada parecido.
O marinheiro saiu voando com o impacto e destruiu metade da fachada de um dos prédios, levantando poeira e destroços pelo caminho.
— O orçamento do Quartel-General Central vai estourar esse mês – um dos soldados de Briggs comentou ao lado de Edward.
— Onde está Akame? – Alphonse gritou para Wave – O que fez com ela?
— Não vou deixar vocês pegarem a Akame – Wave usou a força extra, dada pela armadura, para afastar uma pesada viga de cima dele – Não importa o que aconteça. Eu nunca deixarei um companheiro para trás – e concentrou uma quantidade de energia na palma da mão.
Alphonse não se intimidou e transmutou vários tentáculos de concreto que voaram na direção de Wave. A Grand Chariot lhe dava uma agilidade incrível e ele desviou dos golpes de Alphonse com pouca dificuldade.
— Nada disso – Edward barrou Lan Fan e May com um braço quando elas fizeram menção de ir ajudar o amigo – Eles já vão se acalmar.
***************************
Panzer respirava forçadamente. Essa brincadeira de gato e rato com Akame estava acabando com ele. O coronel procurava por um refúgio, mas aparentemente nenhum lugar servia. Era só ele chegar a um esconderijo que lhe parecia ideal para ele ouvir nitidamente os passos tranquilos de Akame ao longe, seguido de um barulho muito semelhante ao da ponta de uma espada sendo arrastada no chão. Imediatamente, ele abandonava o esconderijo e corria desabalado para o lado oposto. Que dia para esquecer as luvas de transmutação em casa!
Ele entrou ofegante em uma sala vazia e dobrou o corpo para recuperar o ar. Respirou fundo para poder pensar direito em uma solução para aquela encrenca. Antes de poder pensar em algo, o telefone da sala tocou e Panzer pulou para trás, assustado.
Mas que bobagem! Ele precisava se recompor. Afinal, era um coronel do Exército Amestrino! Não ficaria abalado por qualquer coisa. Era só um telefone. Nada de pânico. Respirou fundo e o aparelho tocou de novo. Hesitou um pouco. Deveria atender? Se não atendesse, qualquer um chegaria a conclusão de que não havia ninguém nessa sala. Mas, e se o barulho acabasse justamente atraindo Akame para lá? Pensou um pouco e resolveu atender no quarto toque. Quem sabe conseguiria pedir ajuda para a pessoa do outro lado da linha.
— A... alô? – gaguejou, com receio.
— Estou indo para aí – a voz firme de Akame respondeu.
Com o susto, Panzer quase deixa o telefone cair de suas mãos. Ele ainda teve o cuidado de colocar o telefone no gancho antes de sair a toda da sala.
Ele correu até o final de um corredor e invadiu um banheiro masculino. Panzer entrou em um dos cubículos, subiu sobre a tampa do vaso sanitário e fechou a porta, tentando não fazer nenhum barulho. Se tivesse alguma coisa, qualquer coisa, para desenhar um círculo de transmutação, poderia ter uma chance. Olhou no chão em volta. Será que teria algo útil naquele lixo? Vasculhou atentamente o chão e encontrou um resto de lápis. Nunca pensou que o mau hábito de alguns recrutas em rabiscar palavrões e piadas sujas nas divisórias do banheiro poderia servir para alguma coisa um dia.
Panzer sentiu o sangue gelar quando escutou o rangido da porta abrindo lentamente. Ele sufocou um grito na garganta e rabiscou rapidamente na parede. Passos suaves ecoaram pelo banheiro. O círculo ainda não estava pronto. Os passos se aproximaram cada vez mais. Sua mão tremia muito e o círculo entortava cada vez mais. Só mais um pouco. Só mais um pouquinho...
— Mil desculpas, coronel – Panzer quase teve um enfarte quando a porta do cubículo foi escancarada repentinamente. Mas, felizmente, o rosto que surgiu não foi o de Akame. O cabo Kevin Jorgensen aparentava estar um pouco constrangido com a situação.
— Tudo bem, soldado – o coronel deixou escapar um longo suspiro de alívio. Ainda bem que estava em um banheiro. Mais um pouco e precisaria trocar as calças.
— Desculpe, eu estava almoçando – Jorgensen continuou com as mesuras – Precisei esperar meus colegas voltarem do almoço primeiro para eu poder sair também. Perdi alguma coisa?
— Não. Não se preocupe – Panzer ainda fazia força para respirar.
— Ah, tem uma garota aí fora procurando pelo senhor – Jorgensen comentou, casualmente.
Panzer sentiu um arrepio nada agradável subindo pela espinha.
— E é uma menina meio estranha – Jorgensen permaneceu tagarelando – Eu acho que já a vi por aqui. Mas ela tem um corpo cheio de tatuagens. Deve ser tatuagens ritualísticas de Ishval. Os ishvalianos são cheios de supertições. E ela tem uns olhos esquisitos também...
— Rápido, cabo – Panzer o interrompeu – Ajude-me a alcançar a portinhola.
Panzer apontava para um pequeno basculante posicionado no alto de uma das paredes do banheiro. A pequena abertura dava para um dos pátios do quartel.
— Mas, por que, senhor? – Jorgensen olhou, vacilante, para o coronel.
— Ora, porque... porque eu quero checar se não há nenhum risco de alguém invadir o quartel pela portinhola do banheiro.
— Mas, se alguém quisesse invadir o quartel – Jorgensen franziu as sobrancelhas – ele teria de passar primeiro pelo muro e pelos outros guardas.
— Não conteste minhas ordens, soldado – Panzer falou de forma arrogante – Vamos. Faça um apoio para mim.
Jorgensen juntou as mãos e Panzer apoiou um pé nelas. Com um pequeno impulso do cabo, o coronel conseguiu alcançar facilmente o basculante.
— Esse espaço é muito apertado – Panzer debatia-se para poder atravessar a passagem – Rápido, cabo! Empurre meus pés.
O jovem cabo empurrou como pôde os pés de seu superior, contudo ele precisou fazer um grande esforço para Panzer conseguir finalmente deslizar para o lado de fora do banheiro.
— O senhor tem razão, coronel – Jorgensen escalou uma pia e se pendurou para espiar através do basculante – Alguém pode mesmo entrar no quartel pela portinhola. Coronel? Ei, coronel? Aonde ele foi? – o cabo olhou inutilmente para os lados.
***************************
Wave e Alphonse embolaram pelo chão, trocando socos e pontapés. Uma pancada desferida por Alphonse, usando Alquimia, fez com que a armadura da Grand Chariot fosse desativada temporariamente. Alphonse nem deu tempo de Wave se recuperar e tentou imobilizá-lo com as próprias mãos. Apesar de Wave ser mais velho que Alphonse, o ex-marinheiro estava enfrentando dificuldades para derrotar seu adversário. O alquimista era bem forte e os dois rolaram pelo piso, cada um tentando estrangular o outro.
— MAS QUE MERDA...? – Wave largou imediatamente Alphonse e segurou o topo da cabeça, resmungando. Alguém havia lhe acertado uma paulada.
— Irmão – Alphonse também estava segurando a própria cabeça com uma careta de dor por causa da pancada repentina – Por que fez isso?
— Porque vocês são dois idiotas – Edward jogou um bastão de madeira para longe e gritou com os dois rapazes sentados no chão – Vocês estão escutando o que vocês mesmo falam?!
— Do que você está falando? – Wave aparentava estar um pouco tonto.
— Ao que parece, os dois imbecis estão aqui pelo mesmo motivo – Edward ralhou – Ambos estão tentando ajudar a assassina.
— Ele ajudando Akame?! – Alphonse apontou para Wave – Eu nunca vi esse cara mais gordo!!
— Eu que nunca vi você!! – Wave rebateu, irritado – Você conhece Akame de onde?!
— Eu quem pergunto – Alphonse se empertigou todo.
— Calados os dois – Edward falou, rispidamente – Quem faz as perguntas aqui sou eu.
Os soldados observavam tudo calados, meio escondidos em suas trincheiras improvisadas. Quem era o louco de se meter com aqueles três malucos?
— Você – Edward apontou para Wave – É amigo da assassina? Você também fazia parte da Night Raid?
— Não. Eu era dos Jaegers. O grupo rival da Night Raid – Wave deu tapinhas no próprio ouvido para desentupi-lo.
— Você era inimigo dela? – Edward perguntou, incrédulo – Então, por que está a ajudando?
— Eu lutei ao lado de Kurome – Wave disse, com pesar – A irmã caçula dela. Olha, eu jurei proteger Kurome, mas fracassei miseravelmente.
—E agora está tentando se redimir ajudando a irmã dela – Edward deduziu – Você sabia que foi a Akame quem matou a própria irmã?
— Eu sei – Wave deu um murro no chão – Eu tentei impedir essa loucura, mas falhei. Na hora, eu não conseguia entender o porquê. Mas, depois, eu compreendi o lado delas – ele suspirou pesadamente – Elas não tinham outra opção. Elas apenas tinham de fazer isso! Você sabe, todas aquelas baboseiras de dever e obrigação e blá, blá, blá que, no final, não servem para nada. Ou melhor, serve para que pessoas como nós se sacrifiquem por algo que nem sabemos o que é.
— Nunca vou entender as pessoas do seu país – Edward deu as costas para os dois.
— O que quer dizer com isso? – Wave gritou para ele.
— Nada de mais – Edward deu de ombros, sem parar de andar.
— Aonde vai, Ed? – Alphonse perguntou.
— Ligar para Winry, seu enxerido – ele continuou andando – Ainda não liguei para ela hoje.
Fale com o autor