A Assassina e o Alquimista
4 Assassina de um corte
Notas iniciais
— Segundo tenente Kain Fuery se apresentando, senhor! – Fuery bateu continência. Ele havia sido chamado para a sala do coronel Bashir Panzer, recém-chegado do Quartel-General do Oeste e velho amigo do Führer Grumman.
— Descansar, tenente – um homem alto de grandes bigodes louros e olhar duro sentou-se em sua mesa – Pode sentar – não parecia ser um pedido, e sim, uma ordem.
— Em que posso ser útil, senhor? – Fuery senta-se, meio assustado.
— Ouvi uma história interessante, tenente Fuery. E acho que você pode esclarecê-la melhor – Panzer debruça-se sobre a mesa com os braços cruzados – Está rodando um comentário nos corredores do quartel de que os irmãos Elric estariam abrigando uma moça que, como se não bastasse ser uma imigrante ilegal, anda armada com uma espada e, inclusive, atacou um oficial do exército, é verdade?
Passaram-se dois dias desde o jantar de noivado. Fuery ficara impressionado com a história contada por Breda e o doutor Marcoh no carro quando voltavam do jantar e comentou sobre isso com Havoc, que chegou atrasado no dia seguinte com uma cara de quem havia dormido dentro de uma gaveta. Havoc falou com Rebecca Catalina, que comentou com Maria Ross, que informou Denny Brosh, que fofocou com Vato Falman... Na hora do almoço do segundo dia, a notícia já havia chegado ao gabinete do Führer com algumas adições extras à história. Um cabo do Quartel-General do Oeste disse que o major iria precisar ficar três dias na enfermaria depois de encontrar com a tal garota dos olhos vermelhos enquanto um soldado da Cidade Central jurava em nome da própria mãe ter visto o major em uma luta corporal até a morte com a jovem.
— O major Armstrong já não esclareceu o ocorrido? – perguntou Fuery.
— Ele disse não se lembrar de muitas coisas – Panzer junta as pontas dos dedos – Apenas disse se lembrar bem da espada. Uma espada um pouco... peculiar.
— Quer dizer, a Espada Demoníaca? – Fuery diz, simplesmente.
— Você viu a espada? – Panzer arregala os olhos.
— Não – Fuery encolhe os ombros – Mas Edward Elric acredita que é a Murasame, a espada que mata com um corte.
— Fala da Murasame – Panzer parecia bastante espantado – uma das Armas Imperiais?
— Isso mesmo – Fuery responde, inocentemente – A amiga de Alphonse Elric que veio do Oriente trouxe a espada com ela.
— Entendo – Panzer começa a anotar algo em um grosso bloco – Sabe dizer o nome da amiga do senhor Elric?
— Ouvi claramente quando Alphonse Elric a chamou – Fuery balança afirmativamente a cabeça – Akame. E o tenente Breda disse que é Akame da Espada Demoníaca.
Os olhos de Panzer se estreitaram e ele encarou o jovem segundo tenente como se quisesse ler a sua alma. Aquele nome não lhe era estranho...
— Obrigado por suas informações, segundo tenente – Panzer levantou da cadeira para apertar formalmente a mão de Fuery – Pode voltar para o seu posto.
— Com licença, senhor – Fuery faz uma pequena reverência antes de sair.
Panzer caminha tranquilamente até uma imensa janela de vidro e fica observando o pátio logo abaixo através dela.
— Akame da Espada Demoníaca... – pensa alto com as mãos para trás – Seria muita coincidência.
— Confirme os boatos – é ouvida outra voz naquela sala, vinda detrás de uma cortina – Acredito que a Murasame seria uma excelente aquisição para o exército... – e o Führer Grumman sorri enquanto olha os pássaros cantando além da janela.
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Alphonse e Akame passeavam pelas ruas da cidade. Alphonse queria que Akame experimentasse ser como uma pessoa com uma vida comum e, depois de andarem pelas paisagens verdes de Resembool, ele resolveu levá-la para conhecer o centro. Alphonse visitara várias cidades amestrinas, de Baschool até Dublith passando por Rush Valley, Liore e o forte de Briggs ao norte, e pensava em levá-la para conhecer os principais pontos turísticos de cada uma das cidades do país.
Ele apontava para os lugares e dizia alguma curiosidade ou falava de algum conhecido morador das proximidades, como um autêntico guia turístico. Akame ouvia tudo atentamente e, às vezes, concordava com a cabeça. Ela não precisava dizer estar gostando de passear pela cidade. De certa forma, Alphonse já sabia disso.
No meio da cidade, um pequeno parque erguia-se semelhante a uma “ilha” verde cercada por construções urbanas por todos os lados. Nos finais de semana, as famílias costumavam se reunir ali para realizar piqueniques e brincadeiras com as crianças ou levar seus animais de estimação para passear.
Alphonse levou Akame até o meio do parque e os dois sentaram em um banco de praça. Estava realmente um dia muito bonito e as árvores farfalhavam graciosamente ao sabor do vento.
— Eu gosto de vir aqui de vez em quando – Alphonse falou, olhando para o alto – Parece um pedaço de casa bem no meio da cidade.
Akame também olhou para cima e eles ficaram observando os pássaros cantando nos galhos das árvores. Tudo estava em paz até ouvirem um som de latidos. Um cachorro peludo surgiu entre os arbustos e correu para debaixo do banco, indo se alojar entre as pernas de Akame.
— Olha só – Alphonse se curvou e fez um cafuné nas orelhas do cachorro – Um novo amiguinho.
Akame inicialmente se assustou com a reação do cachorro mas, com o incentivo de Alphonse, ela resolve também fazer um carinho no bichinho e o cachorro lambe suas mãos em sinal de agradecimento.
— Ele gostou de você – Alphonse sorriu para ela – Você tem muito bom gosto, garoto esperto!
Alphonse reparou um sorriso discreto, quase inexistente, no rosto de Akame. Era tão raro vê-la sorrir que isso já era considerado um avanço.
— Fofo – uma menininha surgiu correndo e foi até o cachorro – Ah, Fofo. Onde você se meteu?
— É seu cachorro? – Alphonse perguntou.
— Sim – a garota sorriu – Mas podem brincar com ele, se quiser.
O cachorro deitou a cabeça no colo de Akame e ela continuou a fazer carinho nele.
— Você fez novos amigos, Fofo? – a garota sorriu novamente.
Os três começaram uma brincadeira de jogar um disco, uns para os outros, para ver se o Fofo conseguia tomar deles. Akame estava muito relutante em participar, mas Alphonse insistiu. O cachorro pulava feito um doido no meio deles, tentando abocanhar de qualquer jeito o brinquedo. Riram muito enquanto corriam e tentavam tirar o brinquedo da boca do cachorro. Em determinado momento, Alphonse parou um pouco para descansar e olhou em volta. Do outro lado da rua, ele viu uma barraca de doces e imaginou o quanto Akame ficaria ainda mais contente de ganhá-los. Sabia que Akame gostava de comer, em especial carne e doces.
— Eu vou ali rapidinho – ele disse para Akame que estava alguns metros ao seu lado e corria com a menina e o cachorro – Não saia daqui, está bem?
Alphonse atravessa a rua e remexe os bolsos, procurando por algum dinheiro.
— Boa tarde – ele fala com o vendedor – Quanto é um desses...?
Não terminou a frase porque ouviu um grito vindo de uma rua próxima. Em uma rua pouco movimentada, uma mulher era arrastada pelos cabelos por um homem que berrava imprecações contra ela. A mulher chorava e pedia por ajuda, tentando se desvencilhar, porém o homem era bem alto e parecia ser muito forte.
— Esses dois de novo – o vendedor comenta sozinho – Esse cara ainda vai matar essa mulher.
— Ninguém vai lhe ajudar, sua vagabunda – o homem cuspia as palavras.
—EI, VOCÊ!! – Alphonse andou até a esquina da rua – Deixe-a em paz.
— Não se meta no que não é da sua conta – o homem sacode ainda mais forte os cabelos da mulher. Sua voz estava pastosa como se ele estivesse bêbado – O problema é entre mim e ela.
— Largue-a agora mesmo – Alphonse andava tranquilamente até os dois.
— Por quê? – ele encara Alphonse – O que você vai fazer?
Sem avisar, Alphonse deu uma cabeçada no queixo dele. O homem fica meio tonto e Alphonse aproveita isso para socá-lo. O homem cai para o lado em cima de umas caixas, fazendo um grande barulho e aparentemente desacordado.
— Você está bem? – Alphonse se aproxima da mulher para ajudá-la a se levantar.
— O-obrigada – ela soluça.
Contudo, antes mesmo de Alphonse responder, ele sentiu o ar faltar dos seus pulmões. O homem havia levantado e o atacara, prendendo seu pescoço em uma gravata. Alphonse se debateu e tentou acertar os olhos ou o nariz do homem, mas ele era muito mais alto e Alphonse resolveu mudar de estratégia. Ele realmente não queria usar alquimia contra aquele infeliz, no entanto não havia outro jeito. Alphonse juntou as mãos e depois tocou o rosto do homem com uma das mãos. Dando um berro agonizante de dor, o homem afrouxou o aperto no pescoço de Alphonse, deixando-o livre para se levantar.
Alphonse virou-se para encarar o homem meio cambaleante à sua frente. O homem só não desmaiou com a queimadura que Alphonse fez em seu rosto porque era realmente muito forte. Cego pela dor e pela raiva, ele avança para cima de Alphonse com os punhos erguidos. Alphonse aproveita o fato de ser mais baixo e o soca na boca do estômago. O homem se curva, em um grito de dor, e Alphonse acerta uma cotovelada em suas costas.
— Levante-se daí – ele dirige-se à mulher que parecia paralisada de medo – Vá buscar ajuda.
Por causa de sua distração, Alphonse acaba sendo acertado com um soco e cai diretamente no chão. A mulher grita e sai correndo pela rua. A pancada foi muito forte e deixou Alphonse atordoado. O homem nem espera Alphonse se recuperar e o prende novamente em uma gravata.
Alphonse debateu-se e lutou como pôde. Mas o cara era bem mais alto e forte e parecia estar com muita determinação em estrangulá-lo. Suas tentativas para se livrar daquele aperto foram diminuindo à medida que o ar faltava e, quando ele estava prestes a desmaiar, ele ouviu o barulho de uma lâmina rasgando o ar. Sangue espirra pelo chão, encharcando as roupas de Alphonse e do seu agressor.
Alphonse vira lentamente a cabeça para trás e observa o homem tombar para o lado, contorcendo-se de forma grotesca. Ainda escapava muito sangue do corte em suas costas, mas o homem não estava sofrendo os efeitos da hemorragia. Ele debatia-se assim por causa do veneno. Alphonse tinha certeza disso.
Ele inclinou-se sobre o corpo do homem e assistiu o brilho sumir dos seus olhos lentamente. Estava morto. Alphonse olhou para cima e viu Akame brandindo a espada para limpá-la do sangue fresco. Alphonse ajoelha-se sobre o sangue do homem e encara Akame sem conseguir dizer ou esboçar reação nenhuma.
— Parados – um policial chega com a arma em posição – O que está acontecendo aqui?
Agora, Alphonse pode perceber que estava chegando mais pessoas ao local. Vizinhos espiavam e cochichavam nas janelas. Transeuntes juntavam-se em pequenos grupos bastante curiosos. Mais policiais se juntaram ao primeiro e eles olharam de Akame a Alphonse, ajoelhado e completamente mudo, para o homem morto, passando os olhos por todo aquele sangue.
— Minha nossa... – um dos policiais deixa escapar, olhando ao redor.
— Vocês dois – o primeiro policial aponta para Akame e Alphonse, ainda ajoelhado ao lado do corpo – Nos acompanhem.
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