Charlie

Mais um dia acordando com pesadelo. Suando frio e com o coração acelerado. Pensei que isso ia acabar e que tudo ia voltar ao normal. Ironia da minha parte... Nunca fui normal.

Há muitos anos eu não sei o que é ter um momento de tranquilidade na minha vida, desde aquele dia... Um dia que desencadeou vários eventos de tristeza. E tudo foi por culpa de meu pai.

Foram a exatos 16 anos que ele nos abandonou. Minha irmã, Sophie, acabará de completar três meses, e eu tinha pouco mais de um ano, quando ele simplesmente desapareceu e não deu uma única explicação. Minha mãe o esperou por meses. Depois disso ela nos abandonou também. Casou com um cara qualquer e foi morar em outro país. E Sophie, ficou com nossos avós. Optei por sair de lá. Ficar com eles só aumentava meu ódio.

A propósito, meu nome é Charlie Collins. Tenho 17 anos. Não tenho um lugar fixo, porque viajo muito. Agora estou no Brooklyn. É meu segundo ano no ensino médio. Mas não sei se vou conseguir terminá-lo. Sempre sou expulso antes de o ano letivo acabar.

Olhei para o relógio. 3hrs da manhã.

Fui ao banheiro e olhei no espelho. Meu cabelo estava desalinhado como sempre, meus olhos pretos meio caídos, mas sem sono. Olhei para meu colar. Um presente da minha mãe após a sua partida. O pingente do colar tinha a forma de uma lápide retangular com uma cor preta, intensa, uma escuridão como a de um poço sem fundo. Era uma cor magnífica. Mas parecia não ter importância.

–O que fazer agora? –sussurrei.

Liguei a televisão e fui assistir a alguns episódios de Naruto. Eram episódios repetidos, mas assisti mesmo assim.

Depois de algumas horas, já faltava pouco pra me arrumar e ir ao colégio. Tomei um banho rápido e botei a blusa da escola, uma calça jeans, meu tênis e arrumei meu cabelo.

Eu tinha que cortar este cabelo.– pensei

Quando estava pronto conferi o apartamento uma última vez. TV desligada, cama “arrumada”. É estava tudo certo. Algo me fez ficar fitando aquele lugar por mais alguns segundos. Um calafrio me percorreu. Sacudi a cabeça e sai do apartamento.

Cheguei à sala de aula, buscando sempre o meu cantinho predileto. Bem longe de todos, onde eu possa ficar na minha e ao menos “tentar” prestar atenção na aula que é uma coisa bastante rara, já que tenho TDDAH.

Enquanto o professor dava a sua aula, passavam-se centenas de coisas em minha mente. O que eu não daria pra estar fora deste lugar, comendo um hambúrguer e uma Coca-Cola. O professor me encarava pra ver se eu realmente estava prestando atenção. Parecia que eu era o único. Todos na sala conversavam. Eu era o único quieto. Tentei me concentrar em trigonometria. Minutos depois o sinal tocou. Eu tinha 20 minutos de intervalo até a próxima aula.

Assim que levantei, Doug Walker veio em minha direção.

Tive que concentrar toda a minha força de vontade para não socar a cara dele. Fingi que nem o notei e continuei guardando meu material em silêncio.

Doug é um filhinho de papai que só porque é capitão do time de futebol, acha que é o rei do pedaço. Vive esnobando as pessoas e acha que pode fazer o que bem entende. Eu como era o mais novo da turma, parecia que ele tinha o prazer em me irritar e insultar a cada oportunidade. Além de tirar sarro de mim, jogar meus livros no chão, me humilhar na frente de todos os alunos... Ele ainda tinha a audácia de falar à coisa que mais me incomodava. Meu pai.

–E ae Charlie? Como é que está o papai? Ah, não espera. Você não tem pai, não é mesmo? Coitadinho. –ele riu acompanhado por Arthur e Rudy, seus capangas.

Apesar de ter uma parte de mim falando pra eu não revidar e completar o ano letivo, uma parte dizia mais alto: “Revide! Não deixe ele te humilhar!”.

–Que tal você parar de falar do meu pai? –eu disse com a voz calma.

–O que foi? Você fala agora? Pensei que você era mudo. –ele disse.

–Pois é. É por que a sua mãe pediu pra eu não falar com você. Seria meio constrangedor para o filhinho valentão saber que ela anda saindo por aí de madrugada com caras como eu. –eu falei colocando calmamente a mochila no ombro esquerdo e encarando-o.

Doug olhava pra mim espantado. Era a primeira vez que eu rebatia a uma de duas provocações. Até Rudy e Arthur estavam impressionados, tanto que pequenos sorrisos se formaram quando mencionei a mãe de Doug.

–O que você disse? –perguntou Doug cerrando os punhos.

–Além de ser filho de uma vaca, é surdo? –perguntei.

Dessa vez Rudy deixou escapar uma risada. Doug lhe deu um soco no ombro e ele imediatamente parou. Não entendo porque esses babacas seguem o Doug como cachorrinhos. Doug me avaliou e parecia que ele partiria pra cima de mim a qualquer segundo. Minha raiva aumentava. O pingente de meu colar grudava em minha pele, um filete de suor escorreu. Eu ia matar aquele desgraçado.

Então o diretor, Sr. Harris, apareceu.

–Collins e Walker. Algum problema? –ele perguntou.

–Temos algum problema, Doug? –perguntei.

–Não é nada Sr. Harris. –disse Doug.

–Então saiam da sala. A próxima aula de vocês é no 2º andar. –disse o Sr. Harris.

Obedientemente saímos da sala. Tem muitas pessoas no corredor. Então Doug chega perto de mim e sussurra alto o bastante para só eu ouvir.

–Isso ainda não acabou Collins. Dá próxima vez você não poderá se esconder atrás do diretor, sua bichinha.

Ignoro esse comentário e saio do corredor. Ainda tenho 15 minutos. Como de costume, vou direto para o ginásio onde fica a quadra de basquete.

Meu sangue ainda estava fervendo, mas não sabia exatamente o porquê estava com tanto ódio. Eu corri em direção à cesta. Quando passei da marcação do tiro livre eu saltei botando todo meu ódio no meu braço enterrando. Então quando eu caio, vejo o aro em minhas mãos.

Isso é impossível. Essa tabela de basquete é profissional, um adolescente como eu não deveria ter tanta força assim. –pensei assustado.

Olhei tudo em volta. Não havia ninguém, então escondi o aro quebrado e fui jogar na outra parte da quadra como se nada tivesse acontecido.

Estava concentrado nos meus arremessos. Apenas ouvia-se o quicar da bola no ginásio.

–Você é bom mesmo. –disse uma voz feminina bastante familiar.

–Obrigado. –seguro a bola de basquete em minhas mãos e olho por toda a quadra procurando a dona da voz.

Então ela dá um passo à frente e consigo vê-la. É Taylor. Ela está com o uniforme das líderes de torcida. Tem a pele clara e longos cabelos castanhos. Ela sempre fala comigo. Bom, mas não na escola. Ela é uma das populares, não deveria falar com um excluído como eu.

Jogo mais uma vez a bola e erro, porque agora sei que ela está me observando.

–Ei Taylor!

Doug atravessa a quadra em direção a ela, e coloca um dos braços em torno do seu ombro. Ela se afasta.

–Para Doug!

–O que foi minha gatinha?

–Eu não sou sua gatinha. Me esquece.

–Deixa a garota em paz. –falei.

–Não se mete nisso bichinha. –Doug falou. Ele tentou mais uma vez se aproximar de Taylor. Ela se afastou alguns passos.

–Eu disse pra deixá-la em paz. –falei num tom mais insistente.

Doug olhou pra mim com uma expressão de puro ódio.

Estava vendo que aquilo estava ficando sério. Eu não queria brigar. Eu não tinha medo de Doug. Mas eu não gostava de me envolver em confusões. Gostava de ser invisível. Sem complicações, sem problemas. Ficar sem fazer nada, dormir até tarde. Essas coisas me agradavam.

Ele se aproximava. Taylor cobria a boca com uma das mãos, percebendo que aquilo não terminaria nada bem. Eu estava no limite. Por algum motivo, tudo começou a tremer. O chão começou a rachar-se. O céu pareceu escurecer. Tudo perdeu o brilho, e as trevas tomaram conta do lugar. Eu não sabia o que estava acontecendo. Então o diretor apareceu, Sr. Harris. O chão parou de rachar.

–Collins! Walker! Srta. Miller! O que diabos está acontecendo aqui?

De repente, assim como minha raiva passa, as coisas voltam ao normal. As nuvens negras se dissiparam.

–Foi ele diretor. Collins fez tudo isso! –disse Doug amedrontado.

Sr. Harris olha pra mim. Eu faço a coisa mais óbvia. Pego a minha mochila e saio correndo do ginásio.