A Ascensão dos Renegados
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Futilidade. Para onde olhava, Ella via apenas futilidade. As paredes espelhadas, pilastras de mármore, móveis da mais requintada madeira e decorações em ouro puro apenas reforçavam o que importava na Academia dos Perfeitos: a imagem, o exterior.
Ella mal ousava olhar para os lados e ver sua nova aparência refletida nos espelhos. Baixou os olhos para o chão e curvou os ombros, em um ato de rebeldia ao contrariar a filosofia do queixo erguido e postura altiva. Percebendo isso, o monitor que a conduzia até o salão onde os iniciandos ficavam intensificou o aperto em seu antebraço.
– Postura. Endireite a coluna e levante o rosto. Sua expressão deve desprezar até a mobília.
– Não é difícil desprezar essa mobília. — disse Ella, tão baixo quanto era possível. Chegaram a uma enorme porta de correr branca.
– É aqui?
– Não. Aqui é o estágio final. Vivaldi e Denerya, seus Embelezadores, vão te arrumar. Pode entrar.
– Tá. Obrigada. Puxou a porta para o lado e, ao entrar no cômodo branco, cheio de araras com roupas, provadores e produtos de maquiagem e beleza, foi recebida por um homem um tanto afeminado, com o cabelo metade castanho e metade loiro.
– Olá! Você deve ser a Ella. Denerya está escolhendo as roupas para você. Eu vou te maquiar e arrumar esse seu lindo cabelinho.
– Seu nome é Vivaldi? — perguntou Ella, curiosa.
– É sim, amorzinho.
– Sabia que existiu um músico com esse mesmo nome? Há muito, muito tempo, quero dizer.
– Acho que sim. Você gosta do passado?
Ella assentiu, enquanto posicionava a cabeça em uma espécie de bacia com torneiras para lavar o cabelo. Vivaldi ligou duas delas: de uma saiu uma água de coloração azul e com perfume de lavanda e de outra, um creme rosa. Depois de um tempo, os novos fios loiros de Ella estavam devidamente lavados e secos.
– Você prefere seu cabelo solto ou preso?
– Mais curto.
O Embelezador exibiu uma expressão horrorizada.
– Não! Nunca mais diga isso! Não é compatível, vê? — e estendeu um espelho para a garota poder ver seu reflexo. — Seus traços faciais não permitem um comprimento nem um centímetro menor do que esse. A linha do nariz, sobrancelhas, ficaria tudo um horror!
– Tudo bem, desculpe.
– Acho melhor esperar Denerya com suas roupas e depois acertar o melhor penteado. Assim que ele terminou a frase, uma mulher morena, com os cabelos pretos presos em um coque frouxo, apareceu. Nas mãos, ela segurava peças de roupa e uma caixa, provavelmente contendo um par de sapatos.
– Nada temam! Cheguei. Aqui, Ella, prove essas roupas e veja se servem.
Ella levou as roupas até o provador mais próximo e vestiu. Tratavam-se de um short curto e uma blusa larga e cavada, cuja manga esquerda caía pelo ombro, com estampa de flores, que chegava mais ou menos no meio do tronco.
– E então, serviu? — perguntou Denerya, entusiasmada.
– Sim, mas...
– O que houve? A estampa é ruim? Temos outros modelos e...
– Tem um modelo menos vulgar?
– Ah, você é conservadora. — a Embelezadora parecia desanimada. — Eu posso procurar outro look, mas antes vem aqui por favor, para eu poder ver como ficou.
Ella foi, constrangida devido à roupa. Os olhos de Denerya brilharam de admiração.
– Você ficou linda! Por favor, prove os sapatos! — e tirou da caixa um par de scarpins pretos com salto fino de 15 centímetros. Ella obedeceu e levantou, tentando se equilibrar. Até conseguiu, mas depois do primeiro passo, caiu no chão.
– Nunca andei de saltos antes. Não tem nada mais baixo?
– Você não gostou de nada que eu separei?
– Ficaria bom em outra pessoa, tenho certeza. Olha, a blusa é bonita, mas será que não dá para eu usar com outra por baixo? E com um short mais comprido? E com sapatilhas em vez de saltos?
– Você não entende. O look é imutável. Eu criei esse conjunto para você, não posso ajeitar aqui e ali, você vai ficar remendada. Vou criar outro em 15 minutos.
No tempo certo ela voltou, e entregou as roupas à Ella, que retornou ao provador. Dessa vez, o conjunto era um vestido xadrez amarelo com um casaco preto curto. Satisfeita, Ella saiu do provador para colocar os sapatos. Eram estilo boneca, de cor bege, e tinham um salto de cortiça baixo, fácil de se andar.
– Melhorou? — perguntou Denerya.
– Muito. Obrigada.
– SANTO CAVIAR! — gritou Vivaldi. — Tive uma epifania. Ella, senta nessa cadeira a-go-ra! Vou fazer a maquiagem perfeita.
Em 20 minutos, depois de muitos "sorria", "infle a bochecha", "feche os olhos" e "pare de tremer a pálpebra pelo amor de Deus" proferidos pelo Embelezador, o rosto de Ella estava maquiado de tal forma que parecia natural.
Depois Vivaldi ligou um aparelho para fazer cachos, jogou os cabelos de Ella para a direita de modo a caírem pelo ombro, mantendo-os lá usando fixador e cacheou as pontas.
– Perfeito, perfeito... Denerya, flor, os acessórios dela. — a Embelezadora retirou-se e voltou com uma caixa. Abriu-a e tirou de lá uma tiara vermelho-escura, decorada com um laço, um par de brincos em formato de rosas vermelhas e um colar de pérolas. Ella colocou todos, ficando devidamente pronta.
– Está linda! — exultaram os Embelezadores, em uníssono.
– Agora é a hora em que eu dou adeus? — questionou a menina.
– Não, bobinha. Você vai embora sim, mas nós fomos escalados para seus Embelezadores. — disse Vivaldi.
– Vai nos ver todo dia, Ella. — reforçou Denerya. — Pode nos considerar seus amigos.
Com as despedidas feitas, Ella seguiu para o salão onde começaria a iniciação. Várias outras garotas lindas e bem vestidas estavam sentadas em cadeiras, prestando atenção em uma mulher que falava, praticamente desfilando no tablado.
– Cada iniciando recebe uma missão diferente. Vocês são separadas dos garotos nesse primeiro estágio, mas no próximo estarão todos juntos. Se não conseguirem completar a missão terão outra chance, desde que ao menos tentem completá-la. Agora, por favor, venham até essa urna para ganhar a missão.
Como robôs, as outras meninas foram ao serem chamadas, permitindo a Ella observar suas roupas. Muitas estavam vestidas de um modo normal, mas outras usavam shorts e saltos mais curtos e altos do que os que Ella provara. Uma dessas, ao passar por ela, lançou um olhar de puro desprezo, que foi respondido.
– Algum problema? — perguntou.
– Você parece um mendigo. — disse a outra garota, jogando os cabelos loiros para trás com um movimento de cabeça. — Nunca vai passar pela iniciação. Nunca vai ser como eu. — e saiu rebolando. Ella não aguentou e explodiu em uma gargalhada, atraindo olhares. Ela teria arrumado problemas se seu nome não fosse chamado logo, fazendo-a parar de rir.
Seguiu até o tablado e retirou um papel da urna. Voltou ao seu lugar e o desdobrou, lendo o que estava escrito: "Partir um coração." Um misto de indignação e raiva se formou em seu peito. Ela não esperou por nenhuma explicação por parte da instrutora; simplesmente levantou-se e disse em alto e bom tom:
– Não vou fazer isso. — e rasgou seu papel.
– Como assim? — perguntou a instrutora, fazendo-se de desentendida, mas reprimindo um risinho sádico, sabendo o que estava por vir.
– Isso é cruel. E baixo. E ridículo. Me recuso a fazer uma coisa dessas só para ser como vocês.
A instrutora balançou lentamente a cabeça e pegou Ella pelo braço, para levá-la até a Comandante. Ao passar pela fila de Embelezadores perto da porta, Ella perguntou:
– Posso falar um minutinho com meus Embelezadores? A sós?
– Sim, mas um minuto. Nada mais.
A garota dirigiu-se à Vivaldi e Denerya.
– Desculpem. Mas eu não podia aceitar algo daquele tipo. Era horrível demais.
– Sabe para onde você vai, não sabe? — disse Denerya, angustiada.
– Sei. E por isso gostaria de pedir um favor a vocês. E contou, rapidamente, o que pretendia. Relutantes, os dois aceitaram.
A instrutora voltou e logo estavam no escritório ricamente mobiliado da Comandante. A Comandante era uma mulher que exalava liderança. Tinha cabelos cor de chocolate e olhos verdes, e suas unhas estavam pintadas de vermelho. Ella pensou que talvez não tivesse precisado de cirurgias faciais. Ela já era linda.
– Sei o que aconteceu. Vi pelas câmeras. Ella, você tem duas opções nesse momento. Pode não retirar o que disse e ir para o Fim, ou pode retirar e nós esquecemos o que houve. Você volta para a iniciação e permanece viva.
Ella pensou em seus próprios princípios e deu-se conta de que eles eram mais inportantes do que o exílio ou a morte.
– Desculpe, mas não retiro nada. Aceito minhas condições como Renegada. Todos têm uma despedida antes de ir, não é?
– Sim. Gostaria de convidar alguém?
– Meus Embelezadores. Vivaldi e Denerya.
– Assim seja, então.
No dia seguinte, ela recebeu a mesma produção de quando era inicianda: roupas, cabelo e maquiagem. Seguiu para a cerimônia de despedida vestida como uma revolucionária, com calça preta, botas de couro, blusa velha e o cabelo solto apenas. A despedida aconteceu nos limites do Bloco, de onde seguia uma estradinha que levava diretamente ao Fim.
– A partir de agora, é uma Renegada. — proferiu a Comandante. — Disponha de quanto tempo precisar para se despedir dos seus acompanhantes. E tem o direito de levar um pertence, apenas um.
Ella abraçou Vivaldi e Denerya, com lágrimas nos olhos.
– A única coisa que eu vou sentir falta quando estiver definhando são vocês dois. "Levante essa cabeça!", não é? — baixou a voz. — Trouxeram, certo?
– Claro. — respondeu Vivaldi. — Vamos sentir muitas saudades. Se cuida. — e entregou um embrulho de veludo vermelho à Ella.
– Antes de ir, temos um presente. — Denerya entregou uma caixa de chocolates, que tinha junto uma carta: "NÃO SÃO DIET! Para você se esquecer dos Perfeitos, mas não se esquecer de nós.". Logo abaixo do textinho, havia uma foto dos dois acenando. — Guarde a caixa com carinho. — É óbvio que eu vou. Adeus. — e deu um último abraço apertado neles. — Comandante! Esse é o pertence que eu vou levar.
– E o embrulho?
– Não é nada. Dou para a senhora antes de ir.
– Vá para o carro então, e me dê o embrulho.
– Sim, sim. Mas antes... — Ella tirou o conteúdo do embrulho. Uma tesoura. E fez algo que constaria para sempre nos livros de história: da nuca para baixo, cortou todos os fios de cabelo.
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