Acordei atrasada já que tinha quebrado meu despertador no dia anterior, não falei para Juliette se não ela compraria um novo e não queria nada que viesse dela. Vesti-me rapidamente e desci as escadas correndo, provavelmente conseguiria pegar o primeiro período se não tomasse café da manhã. Juliette estava roncando no sofá enquanto eu abria a porta com a mochila em um dos ombros.

A alguns metros já estava Luc correndo, também tinha se atrasado. Tentei correr e alcançá-lo, assim se perdesse aula pelo menos teria companhia. Quando cheguei próximo dele, toquei seu ombro e ele pulou de surpresa.

– Annie, caramba! Que susto! – Luc colocava a mão no coração tentando fazer a respiração ficar normal e continuou andando enquanto se acalmava. – Você não faz nenhum barulho enquanto corre.

– Sabia que eu nunca tinha percebido isso?

– Você tem o dom do silêncio, senhora pés de nuvem. Pelo jeito não comprou um despertador novo, não é?

– Exato, e o garoto que nunca se atrasa na vida hoje chegará atrasado, posso perguntar o por que?

– Digamos que, eu acidentalmente – Ele fazia aspas com as mãos enquanto falava acidentalmente – Atirei ele pela janela.

Lembrei que na noite anterior tinha ouvido uns barulhos estranhos da casa de Luc e algo caindo no jardim e atingindo um gato. Espero que ele não tenha matado um gato com um despertador.

– Ele ficou louco de novo? – Fiquei rindo. Várias vezes o despertador dele começava a tocar do nada e acordava até o vizinho de madrugada.

– Ficou, e agora não ficará mais. Sabia que você não iria comprar um novo, ou pedir para Juliette. Por que não pegou o dela? – Luc nunca chamava Juliette de minha mãe desde que meu pai tinha sumido. – Até quando você não vai falar com ela?

– Até achar meu pai. – Suspirei. Apesar de quase três anos terem se passado sem ele, sabia que não estava morto, sentia que apenas estava em algum lugar bem longe. – Não a considero minha mãe, não temos nada em comum, ela nunca me ajudou como mãe. Parece que sempre que ela me vê, me olha como se estivesse uma estranha na sua frente, e eu vejo a mesma coisa.

– Bem, acho que você pelo menos deveria se tornar amiga dela, sei lá. Fazer coisas que mulheres fazem tipo, comer chocolate enquanto chora vendo um filme romântico, ou fazer compras o dia inteiro, parece algo legal. Acho que deveria fazer isso com você. — Imagino eu com o Luc fazendo compras, seria totalmente uma bagunça como "Sorvete!!" "Videogames!!" "Temos que ir ao cinema!!"

– Acho que você está louco, mas vou até pensar no assunto. Vamos, temos que correr, pelo menos chegamos no segundo período.

Finalmente a aula acabou, depois de longos períodos entediantes. Quando saí estava sentindo algo que não tinha sentido havia muito tempo.

– Hey Annie, sabe eu queria te contar uma coisa... você está bem? Tá parecendo mais branca que uma folha de papel.

– Luc ... eu não consigo ... caminhar – Minhas pernas pareciam gelatina e a dor aumentava cada vez mais parecendo que minha cabeça estava em uma noz.

Luc me pegou no colo e saiu correndo para o que eu achava que fosse a casa dele, já que no meio do caminho que não conseguia mais distinguir nada e tudo estava embaçado.

A última vez que isso tinha acontecido, fora a quatro anos quando estava no parquinho com meu pai. Parecia que nada do meu corpo respondia aos meus comandos e sentia algo arder e ferver na minha nuca. Meu pai tentava dizer acima dos zumbidos dos meus ouvidos.

– Isso é o que eu e você sentimos quando alguém que faz parte da nossa família ou que amamos está sofrendo ou morrendo. Com o tempo você vai aprender a controlar isso.

E tinha aprendido que para eu aprender a controlar, mais pessoas teriam que morrer. Preferia nunca aprender então.

Mas lá estava, a dor e agonia que à tanto tempo não sentia e nem queria mais sentir, assim tudo ficou escuro.



Acordei olhando para o teto branco cheio de fotografias, algumas minhas, outras minhas com Luc, e percebi que estava no quarto dele. Achava que acordaria no meu quarto ao menos, já que era na casa ao lado mas, me sentia mais confortável ali do que com Juliette me cuidando, e ele sabia disso.



Estava adormecido na cadeira giratória ao lado da cama com a cabeça pendendo para a esquerda, dormindo calmamente segurando a minha mão. Ali eu me sentia segura como quando estava com meu pai. Me sentia feliz, aconchegante, coisas que não tinha havia anos.



Toda a dor havia passado e me sentia renovada, apesar de saber que em algum lugar alguém que era provavelmente da minha família já teria morrido.

Quando ia me levantar para poder ir para casa e não abusar da generosidade da senhora Goldship, Luc acorda de súbito e assim fez a cadeira escorregar e caiu no chão me puxando junto e fazendo eu cair em cima dele.

– Annie, que susto! Você me fez cair e ... – Ele ficou corado, na verdade corado seria pouco, ele ficou mais vermelho que um pimentão, já que nossos rostos estavam a centímetros de distância.

– Lucas, que barulho foi esse? O que está acontecendo? Anne está bem? – A senhora Goldship, mãe de Luc que sempre disse para a chamar de senhora pois assim ela se sentia mais importante, abriu a porta no mesmo instante e olhou para nós que ficamos paralisados. – Olha, acho que ela está bem até demais pelo jeito mas, já seria um bom momento de sair de cima do meu filho.

– Mãe, não é isso que você está pensando ... — Ele começou a corar.

– Lucas, eu sei que vocês dois tem uma quedinha um pelo outro, apesar de na verdade você ter uma queda do tamanho de um cânion por ela ... – Agora era a minha vez de virar um pimentão.

– MÃE! – Se o Luc conseguisse ficar mais vermelho ainda acho que seria impossível.

– Tá bem, vou ficar quieta, agora vocês podem se levantar do chão, ok? Estarei esperando lá embaixo com o almoço pronto, e é melhor que não demorem, entendido?

– Sim, senhora Goldship – Falei enquanto eu me levantava desajeitada e envergonhada de cima do Luc.

Depois que ela fechou a porta, ele se apoiou nos cotovelos e olhava para os pés com tentando esconder a cara. – Desculpa pela minha mãe... ela sempre fala coisas assim...

– Quer dizer que sempre que você salva uma amiga sua desmaiada, você a trás para casa e cuida dela, sua mãe fala que você tem uma queda por ela? – Perguntei levantando uma sobrancelha e cruzando os braços.

– Não foi isso que eu quis dizer, Annie. – Ele disse se levantando e bagunçando o cabelo – Você é única garota que já entrou na minha casa e a única que entrará, já que eu também não tenho nenhuma outra melhor amiga também. Agora vamos antes que minha mãe comece a pensar besteira.

– Acho que ela já está pensando, meu caro. – Ficamos rindo enquanto descíamos as escadas e encontrei um banquete na mesa.

– Vocês tem que se nutrir direitinho, está bem? – Senhora Goldship começou a falar como se tivéssemos cinco anos e nos forçou a comer por um batalhão inteiro.

– Estou sentindo um pressentimento, Luc. – Não sei se era por me sentir que nem um elefante ou sobre algo mais.

– Como assim? – Ele me perguntou com a boca cheia de macarrão.

– Alguma coisa na minha casa, alguma coisa do meu pai, eu não sei. — E

– Acho melhor irmos lá – Luc começou a falar já se levantando da mesa. – Mãe, se nos dá licença, temos algo muito importante para fazer.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Luc já começou a me arrastar em direção para a minha casa.


– Seus pressentimentos sempre nos disseram algo, Annie, dessa vez deve ser algo sério ou perigoso pelo que aconteceu ontem – Eu e Luc começamos a procurar pelo meu quarto, caso houvesse alguma pista.


– Eu também acho isso, e não parece algo muito bom.


– Por acaso você tem algo muito antigo que precise de uma chave velha? – Ele falou com a cabeça dentro de uma gaveta.

– Não, por que?

– Porque eu achei uma chave – Ele tirou de dentro da gaveta uma chave grande que parecia muito antiga com alguns desenhos inscritos nela. – Você guardou isso aqui por que?

– Eu nunca vi isso antes na minha vida – Olhei espantada para a chave, parecia que estava esquecendo de alguma coisa.

– O seu pai abria algo com alguma chave? Lembra de alguma coisa?

– Só sei de um lugar que meu pai guardava como mais sagrado que a própria vida dele. O Sótão.

Subimos correndo as escadas até darmos contra a grande e pesada porta de carvalho, a única parte da casa que parecia não ser mexida por anos. Ninguém tinha ousado chegar ali, nem eu e nem Juliette, já que era um lugar sagrado para o meu pai. Ele sempre dizia: “Annie, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Os maiores segredos são sempre os mais fáceis de serem encontrados, querida, é só procurar bem.” Ela tinha pensado nisso, tinha que haver algo ali em cima, pois meu pai nunca teria colocado sua preciosa chave dentro da minha gaveta de meias. Havia algo errado, muito errado.

A chave encaixou perfeitamente e nós entramos pela primeira vez no santuário secreto do meu pai.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.