A Arte da Conquista
1 Capítulo 1
Notas iniciais
As escolas nunca são como esperamos. Os colegas de classe muito menos. Os imaginamos de um jeito e quando vemos são completamente diferentes. Um dia antes já ficamos em dúvida de que roupa usar para causar uma boa impressão, mas para elas, desta vez não seria preciso.
O uniforme tinha seu certo charme. A saia e a gravata vermelha caíam bem com a blusca branca de botões. O grande dilema agora erao que fazer ao chegar. Fazer amigos ou se manter num canto até que alguém chegasse em você? Ir direto procurar a sala ou dar uma volta na escola? Pedir ajuda a um veterano ou se aliar a um novato?
Uma coisa é certa: não adianta planejar. Não dá certo. É tudo tão diferente e novo que apenas no exato momento do agora ou nunca que você é capaz de decidir. E muitas das vezes não fazemos a escolha certa.
Cheeky
– Sala A... Sala A... Onde é que você se meteu, hein? — resmunguei baixinho olhando mais uma vez para o mapa desorganizado que a diretora me dera alguns minutos atrás.
A escola era grande e eu parecia ser incapaz de encontrar a sala. Era tudo tão... Bagunçado. O que chegava a ser divertido, ver as pessoas perdidas procurando pela sala G quando após a F o que encontrávamos era a sala C.
O corredor era grande e havia armários por todo o lado. Talvez fosse mais prático se eu simplesmente procurasse pelo meu e depois voltasse a procurar a sala. Foi o que decidi fazer, não parecia de qualquer forma mais difícil.
– Muito bem, 204, 204, onde foi que você se meteu...?
Olhei ao redor. Pelo menos os números estavam em organizados e em ordem crescente; não seria complicado encontrar o certo.
Respirei fundo ao parar diante do 204. Eu não tinha muito o que pôr ali, mas havia trago algumas coisas na bolsa. Bolsa, não mochila. Eu gostava de diferenciar. Apesar de usar as duas era uma mania não querer que misturassem os nomes, como se fossem a mesma coisa. Se algo tem um nome então o chame por ele, não compare. Não sei, simplesmente não gosto disso. Principalmente que comparem amimcom algo ou alguém.
A combinação era simples. O armário tinha duas partes e não era tão grande. Empilhei os livros literários que eu andava lendo atualmente. Não vivia pregada neles, mas curtia lê-los de vez em quando. Fantasia medieval e drama médico ou policial com um pouco de comédia eram meus favoritos. Os fones de ouvido foram para o canto do armário junto com o MP3. Sem pôsters e adesivos por enquanto, eu os traria depois.
Suspirei.
Sala A. Aí vou eu.
Ayunno
Ai Deus. Eu estava corada. Eu podia apostar que estava corada. Mas não estava. O espelho do banheiro refletiu uma garota de olhos verdes e cabelos brancos que usava os óculos da sua avó. Não, não eram da minha avó, mas muitas vezes eu pensava que sim.
– Vai dar tudo certo. — murmurei — Você nem precisa fazer amigos, apenas manter o foco. Você tem um propósito lembra?Garota responsável, garota responsável...
– Está tudo bem?
Levei a mão direita ao coração enquanto minha respiração voltava ao normal.
– Desculpa, não te vi. Pensei que estivesse sozinha. — respondi voltando a me encarar no espelho.
Era hora de ir.
– Ah, claro. Precisa de ajuda? Sou Akemi.
– Olá Akemi. Na verdade não, eu já estava indo para sala.
Ela assentiu. Aproveitei a deixa para sair do banheiro. Não havia motivos para estar nervosa. Era o primeiro dia, não havia muita coisa para dar errado. As pessoas até agora pareciam legais e acolhedoras e isso era bom. Definitivamente melhor do que a escola antiga.
– Ai. — alguém reclamou.
– Droga. — resmunguei.
Não era minha culpa se ele estava atrás da porta do banheiro feminino quando eu saí. Foi uma triste coincidência que resultou em nós dois ali, caídos no chão.
Me apoiei na parede para levantar. Ele estava ajeitando a gravata quando finalmente me olhou, e era lindo. Muito, muiro lindo. Foco Ayunno! Não esperava pelo sorriso dele, mas pelo menos isso o tornava alguém amigável.
– Tudo bem? — perguntei.
– Está. Foi um triste incidente com a porta, mas não é a primeira vez que acontece. — ele sorriu e eu o encarei — Te vejo por aí.
Foco Ayunno.Foco.E eu teria, assim que chegasse na sala de aula. Por incrível que pareça nada do que acontecera antes me incomodou, eu mal me lembrava de como era o garoto ou a garota do banheiro. E isso era bom. Eu precisava fazer um esforço se quisesse estar entre os melhores da turma. Uma recomendação ao sair desta escola decidiria de uma vez por todas qual seria o meu futuro.
Akemi
Ser uma novata não era nem de longe uma preocupação. Para ser sincera, nem sequer havia preocupações. Com essa idade eu tinha apenas três coisas na cabeça: música, amigos e andar por aí. Música era parte integral da minha vida, os amigos eu esperava fazer o mais rápido possível, e andar por aí é algo que já faço com frequência. Conheço praticamente todos os lugares da cidade, ficar em casa não é bem a minha praia.
Dei uma volta quase completa pela escola. O mais próximo que cheguei de fazer um amigo foi com a garota do banheiro, e mesmo assim não progredimos muito. Ela não me parecia do tipo sociável. Ou então o garoto, Take, que me levara atéo ginásio. Apesar disso ele estava atrasado, disse que iria encontrar uns amigos e foi embora logo. Quase não trocamos palavras.
Eram muitos, muitos CD's. O garoto empilhava vários deles em seu armário quando me aproximei. Na parte de dentro da porta estavam coladas cincoletrinhas coloridas que formavam Kenji. Devia ser o nome dele.
O garoto me encarou e depois abaixou os fones até que ficassem em seu pescoço.
– Eu conheço você? — ele me perguntou sorrindo.
– Não, mas vai conhecer. — devolvi meu melhor sorriso e lhe estendi a mão — Sou Akemi, muito prazer.
– Kenji. — ele segurou minha mão antes de voltar sua atenção ao armário — Gosta de música?
– Muito. — respondi ficando animada.
Ele me encarou excitado.
– Qual seu estilo musical?
– Sou eclética. Mas gosto muito de músicas instrumentais, não sei, adoro piano.
Ele sorriu ainda mais.
– Vocês vão se dar bem. — ele disse.
– Quem?
– Você e minha namorada Shiori.
Yue
Eu preferia ficar no pátio. Quando o sinal bateu, contrariada, peguei minha bolsa e fui procurar pela sala, tarefa nada fácil pelo que percebi logo de início.
– Hey! Garota!
Era o segundo corredor que eu percorria sem encontrar a sala certa. Analisei bem e tentei relembrar quais caminhos tinha pegado antes para não cometer o mesmo erro.
– Ei, você.
Senti uma mão me puxar e me virei para ver quem era. Um garoto me encarava com um de meus cadernos na mão.
– Você deixou cair. — ele extendeu.
– Obrigada.
Continuei o caminho até o fim do corredor. Depois de cinco minutos consegui encontrar a sala, agora cheia de alunos espalhados conversando. Alguns em cima das mesas, outros nas cadeiras e outros no chão. Encontrei um lugar vago na segunda fileira e me sentei ali mesmo. Era a terceira a mesa. De qualquer forma não faria muita diferença sentar ali ou lá atrás.
Mal notei quando o garoto que me entragara o caderno no corredor se sentou em uma mesa atrás de mim. Apenas quando a ponta de uma luva branca, tão branca quanto os cabelos dele, surgiu na minha frentedesta vez com um colar na mão. Eu deveria ter deixado cair.
Não o encarei e ele não disse nada. Agora com o colar em mãos observei calada todos se silenciarem quando ele entrou na sala.
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