A Arte Da Vingança
2 A conversa no quarto de hospital
Um mês se passara desde o acidente com Raquel e Daniel. Diego queria ter acabado com a vida de seu irmão ali, naquele hospital. Mas ao verem o estado de Diego, os médicos chamaram os guardas para tirá-lo do quarto.
Daniel estava em coma e Diego não podia sequer chegar perto do hospital. Estava segurando ao máximo o seu ódio para quando seu irmão acordasse. Todos os dias, todas as noites, toda hora, a cada minuto e segundo pensava no dia em que seu irmão acordasse.
Então em um dia, depois de dois meses, seu irmão acorda. Os guardas ainda não deixavam Diego chegar perto do hospital, mas a pedido de Daniel, que queria ver o irmão, pois não sabia do ódio que este guardava dele, os guardas liberaram Diego.
Ao entrar no quarto e ver seu irmão ainda naquela maca o coração de Diego se encheu de compaixão pelo seu irmão. Mas só por alguns segundos. Assim como um filme, a cena de Raquel sendo enterrada lhe veio na mente, e seu coração voltou a se encher de ódio.
– Diego, como é bom te ver. Onde está Raquel? Pedi para que a chamassem, pois queria ver seu lindo rosto – disse Daniel ainda fraco por ter passado dois meses em coma.
– Então ele ainda não sabe de nada, é claro, os médicos não iriam contar a ele. Afinal, a saúde dele está fraca. Mas eu não me importo com isso, a culpa é dele. Ele matou Raquel – Pensou Diego.
Diego se sentou e ficou calado durante 10min, felizmente estava conseguindo conter-se. Ainda não era a hora de vingar Raquel. Quando chegasse ele faria isso com um sorriso no rosto. Daniel começou a estranhar aquele silêncio e se desesperou.
– ONDE ESTÁ RAQUEL? TRAGA-A AQUI DIEGO, EU QUERO VÊ-LA – gritou Daniel.
– Gritar não vai trazê-la de volta seu imbecil. Não está lembrado? – Disse Diego com uma expressão séria, um olhar frio sem emoção alguma, como se ali já não houvesse nada além de odio
Diego notou que Daniel estava começando a entender que Raquel tinha morrido. Bingo! Conseguira o que queria, seu irmão iria sofrer como ele sofrera. Diego se levantou e foi até a janela. O céu estava escuro e chuvoso como na noite em que Raquel morrera.
– Do que você está falando, Diego? O que aconteceu com Raquel?
– Eu me lembro como se fosse ontem, Daniel. – disse Diego ainda olhando o céu – Eu lhe avisei que era perigoso, que você não devia sair numa noite chuvosa. Você não tinha carteira. Mas como sempre, você não me ouviu. Um acidente a matou, Daniel. Não. Não foi o acidente. Foi você! Se tivesse me escutado, Raquel ainda estaria viva. Você matou Raquel!
Diego olhou para seu irmão e sua expressão ficou sombria. Daniel começou a chorar e soluçar. O ódio de Diego aumentou, como que o idiota de seu irmão podia chorar sendo que fora ele que matara Raquel? Então ele perdeu totalmente sua consciência e foi para cima de seu irmão colocando suas mãos em volta do pescoço de Daniel enforcando-o.
– Di...Diego... o que.. está fa... fazendo? – disse Daniel sem conseguir respirar.
– Seu desgraçado, você sempre teve a Raquel. Sempre teve o amor dela. E o que você fez? Você a matou! Você matou a única mulher que eu amei em toda minha vida.
Diego começou a chorar e soltou seu irmão. Não entendia o porquê de Raquel preferir Daniel a ele. Era o mais velho, o mais ajuizado dos dois, trabalhava, com 19 anos conseguira tirar sua carteira de motorista e agora com 23 estava para se formar em medicina.
Em comparação a ele o que era Daniel? Um moleque irresponsável, que nem sequer tinha começado a faculdade e nem sequer sabia o que queria prestar nela. Então porque Raquel o escolheu? E então se lembrou do que Raquel uma vez lhe disse três anos atrás:
–Raquel, porque gosta tanto de Daniel? O que você viu nele? – perguntou Diego enquanto ia com Raquel numa lanchonete que ela adorava.
– Pergunta difícil esta, Diego. Humm... Bom, pra começar ele é carinhoso, muito gentil também, mas o que mais me atrai nele é aquele jeito divertido dele. Mesmo que eu esteja triste ele sempre consegue me fazer sorrir.
Era isso que Diego não tinha. Ele era sério e frio enquanto Daniel era brincalhão e divertido. Por isso não conseguira o coração de Raquel. Mas esse jeito de seu irmão custara à vida de sua amada.
Mas como que ele poderia matar o amor de Raquel? Isso seria um desrespeito para com a lembrança dela. Não teria escolha. Não poderia matar Daniel. Não agora.
– Amou em toda sua vida? Do que você está falando? Diego... Você amava Raquel? – Diego então abanou sua cabeça afirmando e Daniel se espantou – Porque você nunca me disse isso?
– Pra que? Ia adiantar alguma coisa? Não, não ia. O amor de Raquel ainda seria você.
Sua sede pelo sangue de Daniel era grande, se ficasse ali por mais tempo ia cometer uma loucura. Tinha que ir embora daquele hospital, sumir até que sua sede de vingança se esfriasse.
Começou a se mover em direção à porta. Mas Daniel o interrompeu:
– Você me odeia?
– Sim, Daniel, minha vontade era matar você. Mas em respeito a minha amada Raquel, não farei nada com você agora. Mas da próxima vez que nos encontrarmos, farei questão de ser a última pessoa que você verá.
– Aonde você vai?
– Para um lugar bem longe de você!
– Mas e sua faculdade? Você não acabou ainda, você sempre sonhou em ser medico. Vai abandonar esse sonho assim por nada?
A cada palavra que Daniel pronunciava o ódio aumentava ainda mais. Mas ele conseguiu se controlar. Sem responder a pergunta, Diego foi embora deixando seu irmão naquele hospital. Ao chegar do lado de fora olhou para o céu nublado e chuvoso, e então ele começou a chorar, aquelas gotas de chuva caindo em seu rosto escondia suas lágrimas.
– Do que irá adiantar eu terminar a faculdade de medicina? Eu só fiz por causa de Raquel. – Pensou Diego
Sete anos antes:
– O que você quer ser quando crescer, Diego? – Perguntou Raquel olhando para Diego e sorrindo.
– Não sei. Meus pais querem que eu faça medicina, pois é algo que da muito dinheiro.
– E você quer ser medico?
– Não muito, não gosto muito de ver sangue. Acho nojento.
– Mas é um trabalho nobre. Você poderia salvar várias vidas. Vamos, pense! Imagine que minha vida corresse risco.
– Nem fale isso, Raquel.
– É só um exemplo. Imagine que minha vida estivesse em risco. Você poderia me salvar. Seja um médico e salve vidas, Diego.
Raquel sorriu e Diego retribuiu o sorriso.
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