A Armada de Dumbledore
1 Capítulo 1 - Os Yaxley
Notas iniciais
Fic reelaborada.
Uma luz fraca se acendia ao fundo, por trás das árvores, que se enfileiravam à frente. No chão, se espalhavam milhares de folhas de diversas cores e tamanhos. À medida que tentava se aproximar da luz, mais distante ela parecia. A impressão era de que quanto mais se adentrava na floresta, mais escura e fechada ela ficava, tendo como única iluminação a estranha luz que lhe servia de guia, até que em determinado momento ela parou, tornando possível o seu alcance.
Em meio a um círculo cercado de árvores altas e corpulentas, uma sombra se moldava atrás de uma varinha, que era a então fonte da tal luz. Uma risada de escárnio ecoou pelo cerco e a sensação de um frio terrível surgiu junto a um luminoso feixe de luz esverdeada, fazendo a garota despertar violentamente com o susto, levantando-se. Demorou alguns segundos para que ela pudesse assimilar onde estava e o que era real e o que não era. Sentou-se em sua cama de dossel e passou a mão em sua testa, que suava frio, segurando-a com os dedos. Não passara de mais um sonho ruim, afinal, pensou consigo Morgan.
Morgan, não conseguia ter mais sonos tranquilos desde os acontecimentos anteriores às férias. Em seu quarto ano em Hogwarts presenciou o lendário Torneio Tribruxo, que terminou de maneira drástica, com a morte de um dos estudantes de sua escola, Cedrico Diggory, que era capitão do time de quadribol da Lufa-Lufa e foi um dos campeões de Hogwarts. A suposta causa da morte de Cedrico também havia chocado a todos: de acordo com Harry Potter, o garoto que sobreviveu a uma Maldição da Morte e que teve seus pais mortos por ela, o mais temido bruxo das trevas, a quem Harry conseguira derrotar com apenas um ano de idade, Voldemort, havia retornado e matado o campeão lufano. Desde aquele dia, em que vira Potter carregar o corpo de Diggory ao sair do cemitério, Morgan não conseguia mais parar de sonhar com sua própria morte.
Morgaine Yaxley, ou simplesmente “Morgan”, era a caçula da importante família bruxa que levava seu sobrenome, também sendo herdeira de outra poderosa família, os Rosier, por parte de mãe, as duas famílias sendo membras das Sagrado Vinte-e-oito, compostas apenas por sangues-puros. A jovem bruxa vivia com seu tio e tutor, Corban Yaxley e seu irmão gêmeo, Sebastian, em uma pequena mansão vitoriana no condado de Hampshire, ao lado de uma densa floresta habitada por pôneis selvagens e outras criaturas.
Corban criara os sobrinhos desde a morte da jovem mãe de Morgan, Letha Rosier, quando tinham cinco anos de idade e os trouxe para morar na antiga casa de sua família. Seu irmão mais novo, Cam, pai dos gêmeos, morrera quando estes tinham apenas alguns dias de vida. Pelo que o tio contara à Morgan e à Sebastian, chamado por sua irmã e seus amigos de “Bash”, ambos os pais dos garotos haviam morrido de uma rara variação de Varíola de Dragão, epidemia muito comum na época e que, em alguns casos, poderia ser letal.
O tio, cujos olhos azuis lhe davam um ar frio e distante e cujos cabelos louro-esbranquiçados lhe davam a aparência de ser muito mais velho do que realmente era, não era exatamente um pai, muito menos presente. Por causa de seu cargo no Departamento de Execução das Leis da Magia no Ministério, o bruxo não passava muito tempo em casa e menos ainda com os sobrinhos, pois ficava a maior parte do tempo em seu quarto secreto no sótão ou em seu escritório. Por isso, a educação dos gêmeos Yaxley ficou sob a responsabilidade de outra familiar que lhes sobrara: Narcisa Malfoy, que era prima de Letha e nutria um forte apego pelos dois. Morgan e Bash passaram a maior parte de sua infância na mansão Malfoy, sendo instruídos por Narcisa ao lado de seu primo, Draco, com quem tinham relação próxima. Assim que ambos completaram a idade ideal para frequentar a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, os irmãos voltaram a morar definitivamente com Corban.
Percebendo que o dia já nascera, Morgan se levantou de vez da cama e vestiu seu fino roupão de seda, dirigindo-se à cozinha para o café-da-manhã.
— Já acordada? – perguntou o irmão aos bocejos, que saía do quarto à frente, acompanhando-a ao descer as escadas.
— Ainda não. – respondeu Morgan, também bocejando, fazendo Bash dar uma risadinha.
Os irmãos iniciaram seus estudos mágicos no ano de 1981, o mesmo ano em que seu primo Draco e a celebridade do mundo bruxo, Harry Potter, também entraram na escola. Assim como seu primo, Bash e Morgan foram selecionados pelo Chapéu Seletor para a casa de seus pais e antepassados: a Sonserina. Sebastian possuía um rosto fino e pontudo, suave e jovem como o de um bebê, assim como os lábios avermelhados, traços que herdou de seu pai, porém pálido, com pálpebras espessas, olhos verdes e cabelos pretos e ondulados, traços herdados de sua mãe. Robusto e de estatura média, era artilheiro do time de quadribol da Sonserina. Também era um aluno exemplar, muito inteligente e diversas vezes conseguia pontos para sua casa, assim como também era muito popular em seu grupo de amigos da Sonserina e por toda a escola. Já Morgan, diferente de seu irmão, não possuía tanto a aparência jovial de seu irmão, sendo esta muitas vezes ofuscada pelas olheiras e a palidez da garota, e também possuía uma anomalia em suas mechas onduladas e compridas da franja, que eram louras, ao passo que todo o resto de seu cabelo era preto, além de ser um pouco mais baixa. A garota também era muito inteligente, porém muito solitária na escola, preferindo a distância de seus colegas de casa, que por vezes não entendiam seu senso de humor sarcástico.
— O que temos para o café hoje, Dot? – perguntou Morgan, um pouco cansada e mal-humorada, à elfo-doméstica que cuidava da cozinha, ao entrar no cômodo.
— Bom dia, senhorita Morgan! – disse a elfo radiante, vestida com uma espécie de vestido feito de saco de batatas. – Bolos de cenoura, abóbora e chocolate, pudim de chocolate, maçãs, suco de abóbora, ovos fritos, mingau de aveia...
— Bom dia... – se limitou a responder Morgan, pois outro bocejo lhe tomou as palavras, sentando-se à mesa branca da cozinha.
— Hum....Dot, poderia fazer aquela vitamina de frutas e cozinhar dois ovos pra mim? – perguntou Bash, sentando-se ao lado da irmã. – Estou em uma dieta nova, pra ficar forte. – explicou ele à irmã, que lhe lançara um olhar impressionado, posto à grande quantidade de opções à mesa do café. O irmão sempre fora dedicado ao quadribol e sempre aderia a uma dieta nova para melhorar a sua performance, por mais que o time da Grifinória quase sempre levasse a melhor nos jogos.
— Mas é claro, meu senhor! – e rapidamente a elfo já começara a preparar o pedido de Bash. – Também quer algo específico, senhorita Morgan? – perguntou Dot, ansiosa para fazer qualquer coisa que a garota pedisse.
— Não se preocupe, Dot. Vou comer o mingau mesmo. – respondeu Morgan, servindo-se de uma quantidade generosa do delicioso doce.
A mansão dos Yaxley, pertencera aos pais dos garotos e, apesar de não ser tão majestosa e imensa como seu tio gostaria, era de acordo com o padrão de vida que tinha a família: luxuosa e muito espaçosa, com diversos cômodos e o terreno cercado por um jardim bem cuidado, repleto de diversas plantas mágicas. No térreo, havia um elegante hall de entrada, cujas paredes eram todas espelhadas, que dava de frente para a escada de mármore que levava ao o primeiro andar. Atrás da escada, uma sala de visitas muito bem decorada com quadros dos Yaxley do passado, que seu tio trouxera da mansão da família na Escócia. Passando pela sala de visitas, à porta do lado esquerdo, encontrava-se a sala de jantar, onde uma enorme mesa oval de carvalho se estendia, rodeada por cadeiras de assento acobreado, à frente de uma lareira negra e após um arco de madeira, encontrava-se a cozinha e a dispensa. No primeiro andar, encontravam-se as suítes dos gêmeos, a sala de estar, onde foi colocada a a tapeçaria da família Yaxley e a biblioteca. O segundo andar continha a grande suíte de Corban e seu escritório e no sótão ficavam os elfos domésticos, Dot e Dixie, a outra elfo, responsável pela limpeza da casa, e um quarto secreto, ao qual nem Morgan ou seu irmão tinham permissão para entrar.
— Ano de N.O.M.s hein? – disse Bash, tomando um gole de sua vitamina, servida por Dot. – Já pensou no que vai fazer depois de Hogwarts?
— Eu não sei direito, acho que provavelmente vou trabalhar no Ministério, talvez no Departamento de Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas...- respondeu Morgan, levando à boca outra colherada de seu mingau, fazendo seu irmão franzir a testa.
Trato das Criaturas Mágicas era, sem dúvida, a matéria que Morgan mais gostava em Hogwarts. Ela a escolhera como optativa em seu terceiro ano, porém não considerava o professor, Hagrid, que também era o guarda-caça da escola, como o melhor para o cargo. Ficou imensamente satisfeita quando este fora brevemente substituído pela Profª. Grubbly-Plank no ano anterior, pois considerava ela muito melhor para ensinar sobre as criaturas do mundo mágico. Foi por gostar tanto da disciplina que acabou se tornando amiga de Luna Lovegood, um ano mais nova e da casa Corvinal, que partilhava dessa predileção pela matéria e pela professora. Ambas se conheceram na biblioteca, enquanto procuravam livros complementares sobre o assunto. Aos poucos, foram se tornando amigas, apesar da enorme reprovação dos colegas de casa de Morgan, porque todos na escola viam Luna como esquisita e maluca, pensamento que deixava Morgan enfurecida. Claro que a garota era excêntrica, mas isso não a tornava menos capaz ou menos inteligente, além de que ela era a única amiga de verdade que já tivera, com exceção de seu irmão.
O fato era que Luna, assim como Morgan, podia ver os estranhos, e um pouco assustadores, cavalos que puxavam as carruagens que levavam os alunos do segundo ano em diante da estação de trem até o castelo onde estudavam. Esses cavalos, como pesquisara com Luna no ano anterior, eram os testrálios e só podiam vê-los aqueles que presenciaram a morte, outro fato em comum que unia as duas. Luna vira a mãe morrer, assim como Morgan, aos nove anos, quando sua mãe experimentava alguns feitiços. Já Morgan, apesar de não ter memórias muito sólidas do ocorrido, presenciou a morte da mãe aos cinco, quando esta estava morrendo de Varíola do Dragão. Desta forma, somente elas tinham essa “habilidade”, o que aumentava sua empatia perante a outra. Durante o ano passado, as duas resolveram fazer um livro de imagens das criaturas que estudavam na aula, pelo simples prazer de estarem juntas e de estudarem o que gostavam. Depois do ocorrido no Torneio Tribruxo e dos sonhos que começara a ter, Morgan iniciou uma troca de cartas com Luna, para ter alguém para quem contar, apesar das respostas da amiga, mesmo com todas as crenças duvidosas, sempre envolverem a certeza de que “Você-sabe-quem” retornara e isso com certeza não deixava Morgan mais tranquila.
O quarto de Morgan era o mais iluminado da casa. Havia quatro grandes janelas espalhadas pelo cômodo, cobertas por finas cortinas de seda verde. Sua cama de dossel de antílope verde-escuro e com almofadas cheias e incrivelmente macias em tons pastel. Havia diversos quadros de paisagens sombrias e românticas, de menininhas de branco balançando-se em balanços ao luar que vez ou outra acenavam para ela. Uma grande lareira se encontrava ao lado da cama e várias cômodas de madeira preenchiam o canto, onde havia um enorme espelho. Em uma delas, Morgan guardava algumas das poucas fotografias de sua mãe e outros familiares da família Rosier, única herança que lhe fora deixada, além do nome e da mina de galeões em seu cofre do Gringotes. Ao lado da cama, na primeira gaveta de sua cômoda, a garota guardava seu livro de criaturas que estava montando com Luna e seu exemplar de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, de Newt Scamander.
Àquela noite, depois de arrumar seu malão para um novo retorno à Hogwarts, agora rumo ao quinto ano, Morgan viu que sua coruja, que era a Acinzentada que comprara no Beco Diagonal quatro anos antes, estava no parapeito da janela, segurando algo que Morgan sabia que era uma carta.
— Valeu, Eve. – agradeceu a garota, pegando a carta, acariciando levemente a cabeça do animal, que piou satisfeita com a entrega e com o carinho. Morgan analisou a carta e ficou surpresa ao ver de quem era: Draco não tinha o costume de mandar cartas e, se o fazia, geralmente elas eram endereçadas à seu irmão, que era também um dos melhores amigos (e capangas) do loiro. A garota resolveu, então, abrir para ver do que se tratava.
“Espero que tenha tido férias animadas”, Morgan bufou. Draco sabia que todas as férias na casa dos Yaxley eram sempre desesperadoramente tediosas. “Esse ano vamos ver se nos livraremos de vez da ralé. Papai me disse que agora finalmente as coisas vão voltar aos eixos e o ensino de quinta dessa escola vai cair. Nos encontramos amanhã. Draco.” A garota virou os olhos. Do que ele poderia estar falando? Mas em vez de se preocupar com o que o mimado de seu primo queria dizer, que com certeza tinha como objetivo irritá-la, Morgan simplesmente amassou o pergaminho e o jogou fora, dando de ombros e descendo para o jantar.
Ao entrar na sala de jantar, Morgan encontrou Bash já sentado, esperando o tio, que ainda não havia descido de seu escritório, e a irmã para a refeição.
— Animada com o retorno à Hogwarts? – perguntou ele, após a irmã se acomodar na cadeira à frente.
— Não diria animada. Não sei como vou encarar tudo depois do que aconteceu ano passado. – disse ela, dando de ombros.
— Acha que o Potter disse a verdade? Que “Você-sabe-quem” voltou? – perguntou ele sorrindo, mas havia algo de estranho em sua voz e seus pés balançavam embaixo da mesa, coisa que fazia quando estava nervoso.
— Luna acredita no Potter. Eu não sei bem no que acreditar. – respondeu a irmã, bebericando de seu copo de vinho, uma regalia que ganharam após completarem seus quinze anos. Bash fez uma cara de desgosto e soltou um leve gemido de descrença ao ouvir o nome de Luna.
— Sinceramente eu não sei como você pode andar com alguém como a Di-Lua. Ela é completamente maluca e muito estranha, assim como o Potter, se quer saber. – disse ele, fazendo Morgan morder os lábios e fechar os punhos.
— Não chame a Luna assim. E você não sabe realmente se tudo o que dizem sobre o Potter e o Dumbledore no Profeta Diário é verdade. – disse ela, entredentes. Bash a olhou com descrença.
— Ah, qual é, Morggie – disse ele, usando o apelido que carinhosamente lhe dera quando eram crianças. – O Dumbledore pode muito bem estar ficando caduco, olha só a idade dele! – disse ele, alteando o tom de voz. – E, além do mais, o Potter sempre foi cheio de fama. É natural que comece subir a cabeça. – finalizou ele, sorrindo debochadamente, ao terminar a frase e bebendo mais um gole de seu vinho.
— Ah, mas é claro que você vai dizer o que o Malfoy diria... – falou Morgan, agora quase gritando, enquanto os elfos serviam a comida, nervosamente diante da discussão dos gêmeos.
— Por que é que vocês estão gritando? – perguntou Tio Corban, irritado, ao entrar na sala de jantar e os irmãos viram que não seria inteligente continuar o assunto. Corban, apesar de nunca manifestar fervorosamente suas crenças, deixava claro qual ideologia defendia em casa. A primazia do sangue-puro e demais ideais dos bruxos das trevas do passado, incluindo o próprio Voldemort, não eram exclusivos da família Malfoy, de jeito nenhum, como podia-se inferir sobre as famílias dos membros da Sonserina e decididamente Corban, bem como todos os antepassados dos gêmeos, acreditavam nesses ideais. Por isso, Sebastian concluiu que a amizade entre Luna e Morgan e a suposta possível crença de Morgan em Potter e em Dumbledore deveriam ser assuntos que o tio não podia tomar conhecimento, para o bem da própria irmã.
— Não é nada. – os dois responderam em uníssono. O tio ignorou, como sempre, e se sentou para o jantar. Agora a mesa já estava completa e eles poderiam saborear a refeição.
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