A Aranha na Teia
20 Tempestade
Notas iniciais
Natasha se viu cercada por doze garotas, incluindo as duas adolescentes com que ela e Clint se haviam deparado. A mais nova teria dez anos, e a mais velha quinze; usavam uniformes militares pretos e cinza e traziam bastões elétricos e armas de fogo consigo. As duas mais velhas, Anya e Dalynka, tinham facas e pistolas semiautomáticas, e a adolescente de pele preta soltou uma exclamação de espanto ao ver a mentora largada ao chão, sangrando, enquanto a rival ensanguentada se mantinha em pé, as mãos — uma inteira e uma semidestruída por fraturas e esmagamentos — erguidas ao lado da cabeça.
— Ela não me deu escolha. — A ruiva falou, pondo-se de joelhos, os olhos trancados nos da menina de cabelos platinados, que se mantinha protetoramente à frente das demais enquanto sua colega examinava Nadya. — Sinto muito, meninas.
— Vai sentir mais. — Anya se afastou do corpo da tutora e se lançou contra Romanoff de faca em punho, golpeando furiosamente, cegamente, como um animal ensandecido. Mas mesmo que fosse rápida e extremamente hábil para uma jovem de sua idade, não poderia realmente rivalizar com Natasha, a qual se esquivava de modo magistral, a lâmina sequer chegando perto de sua carne maltratada, enquanto ela mesma desferia golpes que desviavam a arma, mas não feriam a adolescente.
— Está deixando controlarem sua cabeça, Anya. — Natasha imobilizou um dos braços da adversária de tal modo que esta não podia se mover, e falou às costas da mais moça: — Eu não sou sua inimiga.
— Você matou nossa treinadora! — Dalinka rosnou, e avançou com a própria faca ao ver a amiga ser sobrepujada. Natasha foi obrigada a recuar, tentando evitar ao máximo a luta física; para sua sorte, as mais novas pareciam perplexas e indecisas demais quanto ao que fazer sobre aquilo. Se conhecia os métodos que Reclusa herdara da SV, e os conhecia bem demais, dificilmente alguma das pequenas teria qualquer afeição pela mulher que as torturava diariamente sob o pretexto de um treinamento eficaz, ou coragem de lutar contra alguém habilidoso o bastante para haver matado sua algoz. Mas o condicionamento era difícil de romper, a noção de dever total e incondicional obediência e serviço aos treinadores, à instituição que as criava... Mas aquelas garotas, a menos que a avaliação da Widow estivesse muito errada (e raramente estava), não haviam sido levadas jovens o suficiente. A hesitação e perplexidade delas, o receio em seus olhos, mostravam restar algo que, quando levadas cedo o suficiente, jamais chegava a se formar numa "aluna".
As duas mais velhas agora lutavam contra Natasha, cujas mãos danificadas prejudicavam uma boa pegada para imobilizá-las; estavam furiosas e tentando se provar... Tinham em si toda a raiva que a crueldade do treinamento fazia acumular, além do luto pela amiga morta – até onde compreendiam – por causa de Romanoff, e a desesperadora perda de sua figura de referência. Mas ainda não eram assassinas, verdadeiramente. Talvez houvessem matado, mas ainda não haviam alcançado a frieza objetivada em uma Black Widow... Estavam fervendo, furiosas, e sabendo que jamais conseguiria fazê-las ouvir daquele modo, a Widow adulta protegeu a cabeça entre os braços e se abaixou junto ao chão, suportando os golpes sem se mover. As meninas chutaram com mais força, e Anya gritou:
— REAGE!!! ANDA, REAGE!!!
— Você não era a melhor??? Não era a mais forte?? REAGE!! — Dalinka rosnou, pisando a mão ferida da mulher, que sufocou um grito mas ainda assim não reagiu.
A imobilidade de Romanoff funcionou: frustradas e confusas pela ausência de uma reação violenta, as adolescentes pararam seu ataque, ofegantes, observando-a com olhos fuzilantes. A mulher se moveu muito lentamente, limpando o sangue que escorria da boca, e ergueu as mãos ao lado da cabeça, ainda sem erguer o rosto de modo a não oferecer qualquer sinal de ameaça, mas sua voz soou firme, ainda que calma:
— Eu não vou atacar vocês. Não vou machucar nenhuma de vocês. Se quiserem continuar, continuem. Eu não sou Nadya, não machuco garotinhas. — Ela ergueu devgar o rosto, fitando as jovens. — Eu sei que estão tentando fazer o que mandam, sobreviver a esse inferno, mas não tem de ser assim. Nadya as trouxe aqui, mas eu posso devolvê-las a suas casas, levar quem não tiver família a um lugar seguro, protegê-las de tudo isso. Eu sei o que estão sentindo, deixem ajudar.
Anya e Dalinka estavam em conflito: como as mais velhas, viam a si mesmas como responsáveis pelas menores e por tudo o que lhes acontecesse. Se um lado de ambas queria mais do que tudo se agarrar a qualquer esperança de sair daquele lugar, o outro estava alerta a qualquer possibilidade de traição, a toda e qualquer ameaça e também ao risco de desobedecer ao Quarto Negro da HIDRA. Todos os ensinamentos e instintos adquiridos lhes gritavam para cerrar os ouvidos e seguir adiante, eliminar a rival... Mas aquela ínfima parte que se recordava de tempos antes de tudo aquilo... Essa parte fez suas mãos hesitarem. E nos segundos de hesitação, uma garota mais nova — não teria mais de onze anos — deu um passo adiante, com uma pistola na mão, os dedinhos pequenos mal conseguindo se fechar uns sobre os outros sobre a coronha, mas ainda assim com um aperto firme — Natasha não conseguiu se impedir de ver a si mesma quando criança e a suas colegas de então refletidas naquela cena — e bradou:
— AJUDAR? COMO AJUDOU A MINHA IRMÃ?!! — Natasha viu o tremor de suas mãos, a hesitação de quem ainda não havia matado pela primeira vez e, sobretudo, o medo de uma menina levada já muito tarde para o Quarto Negro. Não era uma Widow, era uma criança assustada forçada a agir como uma. E com a técnica e prática de décadas, Romanoff de um bote a desarmou e teve imobilizada de costas para si, segura contra seu peito enquanto raiva, susto e medo faziam a pequena perder toda a técnica e se debater em fúria como um animal selvagem, xingando e gritando em italiano.
— Eu não matei sua irmã. Tentei salvar a vida dela quando levou três balas no peito da arma de outra pessoa. — Natasha removeu as munições da arma e disparou para cima, tendo certeza de haver esvaziado a pistola antes de arremessá-la longe. Contudo, não afrouxou o aperto, mantendo a garota firmemente segura diante de si, imobilizada. — Anya, Dalinka, por que não contam a ela quem foi?
A garota em seu aperto se imobilizou, o olhar subitamente tomado de raiva gélida ao encarar as mais velhas.
— Disseram que Lara morreu por causa dela. — Silêncio. Isso atiçou a raiva da menor. — QUEM MATOU A MINHA IRMÃ???
— Lara morreu por perder para Roma... — Dalinka não conseguiu terminar a frase.
— QUEM PUXOU A PORRA DO GATILHO??? — A menina de um puxão quase escapou à mão de Natasha para avançar contra as mais velhas, que recuaram.
— Todo mundo dentro e fora dessa sala sabe quem foi. — Uma garota com 12 ou 13 anos se adiantou: pele parda oliva, cabelos pretos e lisos e impressionantes olhos verdes que faiscavam de ódio. — Quem nos arrancou das nossas famílias, nos torturou, forçou a treinar até mais da metade de nós morrer? Quem nos tratou como lixo nos últimos quatro/cinco anos? Vocês são burras ou só fingem? — A pré-adolescente levou as mãos em punho à cintura e expirou num riso forçado de raiva. — Olhem, eu confio tanto nessa ruiva dos americanos quanto em qualquer estranho... Mas qualquer estranho é melhor do que esse inferno. Na pior hipótese ela está mentindo e vai nos largar no meio do nada para morrermos, mas eu não vejo desvantagem em relação ao que vivemos aqui.
Romanoff só estava menos perplexa do que as colegas da jovem, que se entreolhavam nervosas e sem a menor certeza do que fazer, tomadas de surpresa e tentando encontrar uma nas outras um indício de como agir. Isso irritou mais a rebelde:
— Qual é, vocês realmente querem isso que estamos vivendo?! Nadya odiava essa mulher a ponto de esquecer todo o resto, e isso já é motivo pra eu desgostar menos da Romanoff. Além disso, é nossa chance de sair daqui. Se tentar nos trapacear, matamos ela e damos o fora do mesmo jeito. O que temos a perder?
Natasha perdeu a fala por um momento. Bem, isso não estava planejado: uma apoiadora fora a última coisa que esperara. Em sua mão, a irmã de Lara se aquietara, e virava-se para as colegas, parecendo drenada de suas forças:
— É verdade isso? Nadya matou Lara? — As duas garotas mais velhas se entreolharam, mas acabaram assentindo, o que arrancou da menor um grito de raiva, seguido do som de seus joelhos batendo no chão, cabeça pendendo para frente em fúria, dor e sensação de traição. Silêncio sepulcral reinou ali, enquanto dúvida, esperança e incredulidade paralisavam cada menina. Aproveitando-se disso, Natasha soltou a garota a quem estava imobilizando, e se dirigiu a todas.
— Sei que não têm motivos para confiar em mim, mas este lugar está prestes a ser explodido. A HIDRA está desmoronando metafórica e literalmente, e logo vocês vão ser menos úteis quando forem as provas e testemunhas de coisas demais. Se permanecerem aqui e sobreviverem à explosão, serão mortas e jogadas em uma vala, ou terão suas mentes apagadas, e sabem que digo a verdade.
A jovem de olhos verdes trocou olhares com Anya, Dalinka e mais uma garota que aparentava ter ascendência romani, então puxou a própria faca, indo até Romanoff e colocando a faca em seu pescoço, sem qualquer emoção nas feições:
— Eu não confio nada em você. Mas você já fugiu de um programa assim, antes, então prefiro me arriscar te seguindo do que com os malucos que comandam isso aqui. Vamos te dar uma chance de fazer o que está dizendo, mas, se vacilar, é melhor lembrar que está na desvantagem: eu não tenho problemas em abrir um sorriso no seu pescoço, se parecer que vai bancar a Nadya e nos trair ou machucar de algum jeito.
— Se eu as quisesse mortas ou prejudicadas de alguma forma, já teria feito antes, ou deixaria que fossem mortas. Agora, estamos perdendo tempo: logo vão sentir falta de sua professora e perceber que algo fugiu ao controle. — A voz de Natasha era totalmente calma e controlada. — Se formos rápidas, sairemos antes que nos notem, e encontraremos meus colegas a uma distância segura.
— É o que você diz. — Afirmou uma das meninas até então caladas, que devia ter quase catorze anos, de cabelos loiros presos em coque, recuando para a parede, tateando à procura de algo enquanto encarava as colegas. — Vocês sabem qual é a nossa lealdade, o nosso dever. Ela está brincando com suas cabeças, então vão em frente, se quiserem. Eu sei o meu lu... — Uma bala acertou a parede diante dela, e todas viram a arma na mão da garota que defendera Natasha, sua mão nem de longe hesitante e o olhar pétreo ao mirar a colega.
— Se der mais um passo pro alarme, o próximo é na sua cabeça. Se quer ficar aqui, a escolha é sua, mas ninguém vai me impedir de sair dessa merda, muito menos você. — A loira ergueu a mão, hesitante, e a de olhos verdes sibilou. — Vai. Me testa. Tô doida pra ver você correr.
Natasha sentiu um calafrio subir sua espinha: aquela adolescente... Essa, sim, tinha espírito de Widow. Não lhe agradou nem um pouco reconhecer o fato, mas a frieza e determinação que viu ali... Ela realmente explodiria a cabeça da colega, se deixasse, e a familiaridade daquela cena era demasiado perturbadora. Assumindo o controle de mais essa situação — tinha de dar às duas garotas o crédito por tomar-lhe o comando por aqueles instantes — a mulher declarou em tom firme:
— Não é hora para isso: os inimigos estão nos andares de cima, não aqui embaixo. Vocês são todas vítimas dessas pessoas, e lutarem entre si só fará o trabalho por eles. Vamos sair antes que fiquemos sem tempo, e vocês vão baixar essas armas agora.
A fala urgente, porém assertiva da mulher fez as que ainda não haviam se manifestado enfim migrarem para junto de Romanoff. Apenas quatro garotas permaneceram próximo ao corredor, a loira de tranças entre elas, que as mirava com perplexidade e raiva, ainda sob a mira da pistola da colega.
— Não pode ser estúpida o bastante pra achar que essa su'ka vai mesmo nos soltar, Tatiana, depois de sairmos! Ela vai nos meter num buraco qualquer e jogar a chave fora! — A voz da menina se carregou em um sotaque escocês conforme se tornava mais raivosa.
— Olha a coincidência? Nadya já fez isso conosco, tem anos! Buraco por buraco, eu tô cheia disso aqui! Tô cheia de ser torturada, mandada pra campo e prostituída, de usarem a gente do jeito que cada cabeça doente deles inventa! Quer ser cobaia, assassina e puta deles pra sempre, Caleigh? É isso que você virou? A cadelinha que vai quando assobiam??? Quando que você virou essa covarde chorona?
— CALA SUA BOCA! — Caleigh tremia de raiva e medo, facas apertadas nas mãos. Não escapou a Natasha que apenas algumas das meninas possuía armas de fogo... As melhores. As outras não possuíam tal privilégio.
— VEM CALAR, PIRANHA! Mas vem pra me matar, porque eu não vou ficar presa nessa merda por causa da covardia de vocês. Então, se querem ficar, fiquem, mas vai ser com o crânio explodido. É o que vão fazer com vocês, mesmo, então só estou adiantando.
Natasha revirou os olhos para as palavras de Tatiana: era ótimo ter uma apoiadora ferrenha que, a julgar pelas reações de todas, possuía forte ascendência sobre as demais, mas isso já estava ridículo. Romanoff roubou a arma com um movimento experiente, guardando-a no próprio cinto, a despeito da expressão furiosa da garota.
— Nenhuma de vocês vai morrer, no meu turno. Guarde essa raiva para se manter viva, quando for necessário. — Ela encarou as quatro relutantes. — Vocês sabem onde vão parar, se ficarem. Estou dando uma chance a vocês. Sei que estão com medo e esperam o pior de todo mundo, mas não estou pedindo que confiem em mim. Estou pedindo para saírem comigo, e quando estiverem fora daqui, decidam o que quiserem.
Não eram só as palavras de Romanoff. Na verdade, suas palavras eram menos importantes do que o modo como as dizia. Com a certeza e firmeza de quem afirma que o céu é azul ou que o fogo queima. E com toda a promessa de quem descreve um lauto banquete a uma pessoa faminta... Seu tom, sua postura, seus gestos, o modo como sua cabeça se inclinava quase em ternura... Seu gestual ativava todos os gatilhos que fariam aquelas meninas famintas por tudo o que de mais básico havia nas necessidades de uma criança — cuidados, segurança, um mínimo de dignidade — e o modo como sustentava o olhar da oponente, sem o menor vacilo no que dizia, quebrava a determinação das jovens em acreditar na ideia de que era sua inimiga e uma ameaça. No final, eram só meninas feridas e com medo. Romanoff sabia bem que, no fundo de cada Widow, havia algo que nunca deixava de ser uma. E nesse preciso momento, a manipuladora mestra utilizava uma versão melhorada das palavras e posturas que um dia haviam sido suficientes para fazê-la desertar.
Finalmente Caleigh baixou a mão com a faca, o tremor em suas mãos mostrando que sua determinação fora quebrada, e Romanoff soube que havia ganhado. Como um voto de confiança, ajoelhou-se diante da menina e, com gestos lentos, colocou-lhe nas mãos a pistola roubada de Tatiana. Os olhos da adolescente se arregalaram, mas a espiã apenas respondeu em voz calma:
— Cada uma terá de proteger as outras. Preciso que as mais velhas cuidem das menores, porque vou ser a última a sair. Vou ganhar tempo para vocês. Pode fazer isso, então? Cuidar das colegas menores, e ajudar a tirar todas em segurança? Você, Tatiana, Anya e Dalinka são as maiores, e as pequenas as obedecerão.
O choque e perplexidade no rosto de Caleigh ao segurar a arma e anuir timidamente foram a confirmação de que a russa vencera. Com um sorriso de canto, Romanoff se levantou e encarou as meninas todas:
— Vão na frente. Eu alcanço vocês, depois.
*
— Meninos, é melhor estarem chegando: a situação aqui está... Levemente estressante. — Natasha engatilhou a pistola e disparou contra o agente mais próximo, enfiando-se novamente sob as grades do piso. Vinha tomando de surpresa um a um, em locais aleatórios e em pontos totalmente diferentes. Havia provocado curtos em sistemas e trancado passagens, dando tempo às jovens Widow de desaparecerem daquele lugar amaldiçoado. Ao mesmo tempo, o vírus de Stark terminara seu papel, de forma que só precisava aguentar até a chegada dos colegas, e não era sem tempo... Embora houvesse dito o contrário para os amigos, Nadya lhe causara bem mais dano do que imaginara. Havia costelas quebradas, perdera bastante sangue, suas pernas doíam terrivelmente, e a mão destruída estava inutilizada, latejando como uma bomba de dor a pulsar no ritmo dos batimentos cardíacos. É... Talvez três dias sem comer e mal hidratada tivessem diminuído sua resistência... Só talvez.
Rastejando pelo duto de fiação, Natasha alcançou outro alçapão. Seus braços trêmulos precisaram fazer enorme esforço para conseguir erguer a peça, mas enfim responderam, permitindo-lhe sair do espaço exíguo exatamente onde pretendia: a central de segurança. O primeiro inimigo presente ela eliminou com um tiro na nuca, os dois seguintes com projéteis no rosto e pescoço, e os dois últimos a mulher finalizou promovendo fogo cruzado entre ambos. Ao fim de vinte segundos ou menos, apenas Romanoff jazia em pé na sala de controle.
— Meninos, estou dentro. Me deem sua posição.
— Achamos que estava dentro faz dias, agente Romanoff! — Um sorriso aliviado se espalhou pelo rosto de Natasha ao reconhecer a voz de Stark. — Agradecemos a gentileza, mas não vai ser necessário atender à porta.
Com essas palavras, uma série de fortes explosões fizeram tremer a terra, criando rachaduras nas paredes e piso; num gesto de reflexo, a espiã se protegeu embaixo das mesas dos computadores a fim de evitar destroços em queda, aguardando ali até que os tremores se encerraram.
— Stark, informe posição.
— Thor e Banner abriram caminho até o terceiro nível. JARVIS localizou você, tente não sair até... — Botas pesadas ecoaram no corredor, e o som de tiros abafou as próximas palavras de Stark. Natasha rastejou pelo chão, usando o entulho e a fumaça para se cobrir, rolando para o lado quando um rugido de raiva seguido do som de esmagamento preencheu o lugar, antes de outra parede desmoronar para revelar o Hulk. E Romanoff sentiu seu coração afundar no peito ao reconhecer no colega a mesma raiva do dia em quase a matara, no quinjet.
Imóvel, a russa evitou se fazer notar pela fera mesmo quando esta saltou bem ao seu lado; ficou totalmente quieta, mesmo quando o chão trincou sob si, e toda a sala veio abaixo.
*
O piso do andar caíra, soterrando cada um dos Vingadores presentes naquele nível; no comunicador Natasha podia ouvir Clint gritar que havia um bloco de concreto esmagando sua perna, e Tony perguntando por cada um, enquanto os motores da armadura de Stark zuniam com o que parecia ser um esforço para se libertar dos restos de pedra e material de construção. Para piorar tudo, nenhum sinal de Thor — provavelmente perdera o comunicador ou não conseguia acionar o microfone — e o Hulk rugia em raiva frenética e animal. A espiã, por sua vez, encontrava-se sob vergalhões e pedaços inteiros de parede, tijolos, madeira e aço, e mesmo seus melhores esforços pareciam exercer pouco efeito para libertá-la, conquanto sua consciência parecia se desvanecer e retornar como um sinal luminoso em código morse.
Após o que pareceu quase uma hora, mas dificilmente teriam sido mais que minutos, Romanoff sentiu os destroços serem tirados de cima de si, e a priori pensou serem seus amigos, mas logo as vozes circundantes deixaram claro não ser o caso; mãos ríspidas puxaram seu corpo para fora dos escombros, e isso foi tudo quanto a mulher precisou para recobrar por completo a consciência, jogando as pernas em redor da pessoa que a erguia e quebrando seu pescoço, de um salto pondo-se em pé e usando o corpo de outro adversário como escudo, protegendo-se da saraivada de tiros. Buscou por sua própria pistola, mas esta se perdera na queda do piso superior. Sem muita escolha e sustentando o peso do inimigo agora morto com o braço dilacerado, usou a mão boa para tatear o chão à procura de qualquer coisa que pudesse usar como arma.
Sua visão periférica captou o entorno rapidamente: Clint ainda preso sob uma pesada viga de concreto, Thor assustadoramente desfalecido sobre vergalhões de aço que lhe atravessavam o abdômen; Steve protegia Clint dos tiros com o escudo, mas estava sangrando e não conseguia ganhar terreno. Enquanto isso, Hulk atraía para si a maior parte das atenções, atingindo desregradamente e com fúria cega tudo quanto se movesse em seu alcance, impedido de avançar contra o resto da equipe apenas pela ação de Stark, que o distraía e conduzia na direção dos oponentes. Mas isso não iria durar indefinidamente.
Em meio à situação calamitosa, os olhos da espiã pousaram numa arma específica: o martelo que Thor chamava Mjolnir estava caído ao lado do deus, apenas dois metros distante da espiã; ela jamais pensara em usar aquela arma, especialmente pelos discursos de Thor sobre “apenas os dignos erguerem Mjolnir” — ainda que ela pouco ou nada acreditasse naquilo — mas não houve tempo para pensar sequer que a arma poderia não ser erguida por seu braço. Ela não se lembrou de nada. Por sua mente passava unicamente a intenção de proteger seus amigos, e foi com tal intenção que a russa empurrou seu escudo humano sobre o atirador mais próximo e mergulhou rumo à arma asgardiana, mal sentindo a bala que atingiu seu quadril ao se expôr. Seus dedos envolveram o cabo trabalhado, e de uma só vez ela sentiu como se torda a energia de uma estrela ardesse dentro de seu peito, explodindo com a força de uma supernova e enviando todo aquele potencial para seus músculos.
A sala se iluminou em tons de azul enquanto raios se desprenderam do martelo, uma tempestade se formando em redor e sobre Natasha quando, totalmente focada em proteger e salvar os demais, avançou pelo enorme vão deixado no desmoronamento contra os soldados da HIDRA, esmagando-os com a potência de cada golpe. Nada era realmente planejado, havia só o instinto e os movimentos de combate que já se haviam tornado sua segunda natureza. O martelo apenas respondia a suas intenções, parecendo ter vida própria ao canalizar toda aquela energia que ela jamais teria imaginado como controlar contra os inimigos, enquanto poupava os amigos.
Porém, se Natasha mal percebia o que fazia, os demais enxergaram e compreenderam bem demais: seus olhos absorviam com perplexidade a imagem da ruiva de pequena estatura e ferida que, empunhando a arma asgardiana, tinha os olhos em turquesa brilhante e raios percorrendo toda a extensão e entorno de seu corpo. Os cabelos médios se agitavam freneticamente com a estática, e as feridas em seu corpo se fechavam ante a energia inominável de Mjolnir. Natasha nunca parece tão terrível, ou tão bela, como se pela primeira vez estivesse mostrando todo o potencial mais selvagem que escondia a sete chaves sob máscaras infinitas. Pela primeira vez, Tony não tinha comentários a fazer; Clint deu um grito de comemoração e gritou algo que soou como “agora vocês estão ferrados”, mas Steve… Steve se perdeu na cena, por um momento, mas tudo o que conseguia pensar era no quanto parecia certo. Ele sempre soubera que Natasha era digna, e agora parecia que ela saberia, também.
Como se houvesse brandido Mjolnir por décadas, a agente eliminou cada ameaça detectada até ter a área limpa; quando isso ocorreu, Steve havia libertado Clint, e ambos conseguiram retirar Thor dos vergalhões. Mais do que depressa, Romanoff se abaixou ao lado do amigo, colocando o martelo em suas mãos.
- Hora de acordar, grandão. Vai, colabora com a gente. — E como a mão de Thor pendia frouxamente, sem agarrar o cabo, Natasha fez a única coisa que passou por sua mente: ergueu Mjolnir acima da cabeça e se concentrou nos raios, em empurrar todo aquele poder que sentia em si para a arma asgardiana, direcionando-a então para seu legítimo dono. Descargas de luz azul e branca turvaram o mundo, e ela deixou a arma cair quando cada gota de força pareceu deixar seu corpo. A última coisa que viu foi o deus do trovão agarrando a empunhadura de madeira.
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