A Aranha na Teia
15 Memories
Notas iniciais
Natasha não se considerava sensível, mas já fazia muito tempo desde que vira tantos corpos no mesmo lugar… Espalhados, caídos onde haviam morrido, nas poças do próprio sangue, os olhos vazios fitando o nada, nas mais variadas direções, apenas recipientes ocos do que já haviam sido. Às dezenas, talvez mais de uma centena, empilhados, retorcidos, massacrados sem hesitação. Mas não fora um ataque aleatório ou desorganizado… As sentinelas, do lado de fora, não haviam sido atacadas com armas: a maioria tivera as nucas partidas por golpes contundentes, e os responsáveis pelo controle dos portões internos ainda estavam vivos! Em total estado de terror, imersos em delírios de pânico incontroláveis, mas o mais surpreendente fora que o comando para abrir os portões viera exatamente daquelas pessoas.
— Eles sabiam exatamente quem queriam, e aonde ir. — Clint seguia o mesmo raciocínio de Natasha. — Thor, disse que Jane ligou para você…
— Quando ouviu o tiroteio, ela tentou sair da ala onde estava e encontrar os outros, mas a porta estava bloqueada. Jane se fechou em um armário e me ligou, então gritou, e a ligação ficou muda. Voei para cá, e encontrei as coisas assim.
— O celular dela ficou aqui. — Tony examinava o objeto, mas havia pouca coisa no modelo relativamente simples que Jane Foster usava. — Ela não usa aparelhos pessoais para a pesquisa. E os leitores, medidores e arquivos foram destruídos ou corrompidos: JARVIS está resgatando o que conseguiu.
— Controlaram a mente das pessoas que cuidavam do acesso, e o resto da segurança não viu o que os acertou. Morreram sem tempo para pegar as próprias armas. — Natasha acessava as filmagens de segurança, assistindo ao método de ação da invasão e sequestro. Infelizmente, não havia registros dos eventos no espaço externo, mas no interior… — Foram muito cuidadosos. Trancaram os alvos nas respectivas salas, durante o tiroteio, e os nocautearam com tranquilizantes, não golpes. Quiseram garantir que suas mentes estariam intactas. Vão interrogá-los, ou tentar forçá-los a colaborar com a HIDRA.
— Ou atar nossas mãos. — Banner falou pelo comunicador.
— Se fosse a intenção, estariam esfregando isso em nossas caras, agora. — Tony ponderou, mas Natasha rebateu:
— E não estão? Olhe em volta, Stark: parece um serviço limpo, para você?
— Deixaram uma mensagem para nós: sabiam o que era feito aqui, mas não estavam contentes em apenas interromper. Querem subtrair o trabalho deles e usar em benefício próprio. — Steve se mostrava ainda mais rígido do que de costume. — Eu arriscaria dizer que o Cetro pode dar mais trabalho do que imaginavam. A Dra Foster já é uma especialista em tecnologias alienígenas, faria sentido tentarem repor todo o pessoal que perderam, e recrutar pela força uma das maiores autoridades em tecnologia extraterrestre. Sabemos que ficaram com a tecnologia Chitauri da batalha em New York.
Nada daquilo parecia acalmar Thor, e os colegas todos podiam entender muito bem a ânsia do colega em arrasar até o último indivíduo responsável por encostar nas pessoas a quem amava. Os próprios olhos do deus desprendiam faíscas e pequenos raios.
— Como isso nos ajuda a achá-los? — O asgardiano estava a ponto de sair voando e revirar a Terra ele mesmo, até encontrar a namorada e os amigos.
— Não vão levá-los a nenhuma base que já tenhamos acessado, ou mapeado. Precisam de lugares antigos, com tecnologia que não esteja vinculada por rede às… — Stark bufou e revirou os olhos. — Natasha, eu odeio seu país… As bases da Rússia foram as únicas que não conseguimos acessar pelas de Nuremberg e do Canadá, com uma rede própria.
— Vão usar comunicações e meios de transporte mais difíceis de rastrear por quaisquer meios informacionais... — A mente de Natasha trabalhava a mil, o frenético e quase imperceptível movimento ocular denunciando os pontos ligados. Por um momento a russa fechou os olhos, e então os abriu. — Sei aonde vão!
— Aonde? — Thor se adiantou, mal dando tempo para a colega responder. — Natasha, aonde, pelas Nornes?!
— Três lugares possíveis. Bases muito antigas, que certamente foram aprimoradas, mas são da época da Guerra Fria, até anteriores, e contam com o aparato para continuar agindo, mesmo se todo o sistema informacional fosse invadido. Nos Urais. — A urgência em sua voz era muito evidente. Pessoas demais haviam morrido naqueles lugares, e ela não pretendia que houvesse aumento nos números. — Mas não tenho todas as informações… Ainda. Preparem-se para voar para a Rússia: roupas de neve, camuflagem, provisões. Eu tenho alguns favores a cobrar, encontro todos mais tarde. — Os sons externos avisaram que a SHIELD chegara ao lugar, e pela primeira vez desde os incidentes em Washington, isso não desagradou Romanoff, que se virou sem dizer mais nada. Contudo, a mão de Thor a segurou com força pelo braço:
— Natasha! Por favor!
— Thor, preciso que se preparem. Para podermos ir, preciso fazer uma coisa, e explico tudo em breve, mas até mesmo para saber a qual das bases levarão nossos amigos, preciso cobrar esse favor. — A mão enorme a soltou, mas a russa não conseguia sentir sequer irritação em relação ao amigo. O desespero e impotência em seus olhos falavam por si sós. — Cuidem das coisas por aqui, meninos. Fury me deve uma coisa.
Steve e Clint se aproximaram de Natasha, mas ela meneou a cabeça:
— Não, Steve. Arrume tudo. Lide com a SHIELD, aqui, volte para casa, garanta que nossa filha vá ficar bem, e eu encontro vocês. Os Urais não são para amadores, e precisam estar preparados para qualquer coisa. — Em seguida, a ruiva se voltou para Clint. — Sabe o que vai ser. Ainda quer vir?
— É exatamente o motivo pelo qual você teria que me aleijar, para me fazer ficar. — Uma anuência seca da espiã mostrou que não o impediria, e sua saída deixou a todos os demais com um horrível desconforto. O que ela saberia, ou precisaria fazer de tão ruim, que não pudesse partilhar com o restante da equipe?
Natasha POV
Se eu estava assustada? Não realmente. Essas coisas simplesmente me anestesiavam, colocavam meu cérebro no piloto automático e eliminavam minha humanidade. Usei o desejo de respostas dos membros da SHIELD para que se dispusessem a me levar aonde queria ir, apenas levemente incomodada pela presença de Clint. Não ia ser nada bonito o que aconteceria, mas era decisão do Gavião o que ele queria ou não presenciar, e meu foco se encontrava totalmente em recuperar o que a KGB, a comando da HIDRA, tirara de mim há muito tempo: minhas memórias.
Toda a parte de protocolos e formalidades eu sequer me dei o trabalho de prestar atenção; era apenas rotineiro, feita vezes demais para exigir mais do que uma fração de meus pensamentos. Finalmente consegui passar pelo processo burocrático inicial, e me dirigi ao agente que havia me indagado sobre os eventos:
— Onde está o agente Fury? — Ele pareceu hesitar, mas lhe lancei um olhar firme, do tipo que não admitia questionamento. O fato de Clint estar ao meu lado, com olhar idêntico, com certeza tirou os últimos resquícios de resistência. Sim, havíamos construído uma reputação ali, de modo que o agente nos conduziu pelos corredores rumo à sala do diretor não-oficial. Ao meu lado, Clint perguntou em russo:
— Uvereny li ty, Nat? (Tem certeza, Nat?)
— Absolyutno. Yesli ne khochesh' smotret', ne stesnyaysya. (Absoluta. Se não quiser assistir, fique à vontade.)
— V tvoikh mechtakh, Romanoff. YA ne ostavlyu vas v pokoye, kak by vy ni lyubili prokhodit' ispytaniya bez postoronney pomoshchi. (Em seus sonhos, Romanoff. Não vou te deixar sozinha, por mais que você adore passar por suas provações sem ajuda.)
Revirei meus olhos, mas não consigo realmente me irritar com Clint. Estávamos ali um para o outro. Era isso. Não importavam as negativas e ameaças, sempre nos damos suporte, especialmente nas situações difíceis. Certo… Era bom tê-lo ali. Eu ficaria muito vulnerável, e Clint era o único em quem confiava para guardar minhas costas, nesses momentos.
Fury tinha sua sala nos andares inferiores, mais resguardado e menos visível, voltada para o pátio onde os cadetes e recrutas faziam o treinamento noturno, agora. Ante toda a situação, não havia tempo para volteios; assim que seu olho pousou em mim, declarei:
— Fury, preciso cobrar um favor. Urgente.
— Tem a ver com os sequestros?
— Preciso recuperar uma memória, em detalhes. Consigo achá-los, mas só com minha memória restaurada. — Meu ex-chefe esfregou o rosto e respirou fundo enquanto eu me mantinha impassível, decidida.
— Natasha… Da última vez que fez isso, você nos fez achar que ia morrer.
— Ainda estou viva. Se não conseguir recuperar essas informações, três inocentes e toda a minha equipe irão morrer. Não é um pedido, Fury: estou cobrando um favor.
Ele me encarou de modo exasperado, sabendo bem que eu não mudaria minha decisão. Longos segundos de silêncio se seguiram, e enfim o modo como seus ombros caíram denotaram sua rendição. Fury se levantou e anuiu, olhando para mim e para Clint:
— Vamos ao laboratório. Conseguirei o que precisa. Barton, suponho que a irá vigiar?
— Aonde ela vai, eu vou, chefe. Sabe como funciona.
— Vocês dois ainda vão ser a causa da minha segunda morte…
— Fury… — Interrompi, sem paciência. — O tempo está passando.
Ele nos guiou por inúmeros túneis e corredores, salas e alas laboratoriais, até chegarmos ao nosso objetivo: praticamente um quarto, completamente forrado e com uma cadeira de contenção. Estremeci internamente ante as memórias que o equipamento me trazia, mas imediatamente as sufoquei. Entrei no espaço branco e me sentei na cadeira enquanto, por ordens de Fury, um trio médico entrou, ligou-me a monitores de sinais vitais e fechou firmemente as contenções. Respirei fundo, controlando a ansiedade da antecipação enquanto as agulhas perfuravam minha pele, injetando a medicação.
— Já sabe como funciona, Natasha. Precisa se concentrar nas memórias que deseja obter. — Assenti para a informação óbvia de Fury e cerrei os dentes no tarugo de borracha colocado em minha boca, enquanto os primeiros sintomas surgiam: a mente levemente nublada, a sensação de estar fora do corpo, como os estágios que precedem o adormecer, onde não se está dormindo, mas tampouco desperto. Minha atenção estava toda voltada ao passado, às bases e fortalezas nos Montes Urais, e o que eu havia feito naquela época.
As primeiras memórias começaram a se descortinar enquanto as áreas afetadas de meu cérebro eram desobstruídas pelas drogas… Mas os sintomas de meu condicionamento prévio não tardaram a acompanhá-las: suor cobriu minha pele, náuseas violentas reviravam e feriam meu estômago vazio, tremores incontroláveis tomaram meu corpo, e sabia haver o risco de convulsões. Trinquei os dentes: eu podia aguentar. Suportei o desconforto, e continuei à procura dos detalhes. Estavam todos em minhas lembranças, bloqueados, e acessá-los dependia de mim.
Clint estava ao meu lado, e sua voz me incentivava a buscar, não permitindo que a dor e o desconforto me desviassem do trabalho. Nunca haviam, antes, e não iriam, agora.
“Abstraia. Dor é algo físico. Seu corpo é apenas um instrumento. Sua mente é a única coisa que importa. Dor, desconforto, reações biológicas… Isso está abaixo de você”. Não tinha certeza quanto a se essas palavras me haviam sido ditas no passado, ou formuladas por meus próprios pensamentos, e não importava. Minha mente me levava de volta às bases nos Montes Urais, pelos caminhos escorregadios e congelados das montanhas durante o inverno, protegidos por matas fechadas durante o verão… Enclaves fortificados de pedra e metal encravados em desfiladeiros rochosos.
Clint apertou minha mão esquerda, ancorando-me à realidade. Eu podia ouvir o monitor de sinais vitais, e sabia que minha pulsação ultrapassava 130 batimentos por minuto. Der’mo… Haviam acabado de injetar as drogas em mim… Foco. Não posso me distrair. Lembre, Natasha. Lembre do que tentaram apagar.
— Nat, lembre-se dos Urais. As três bases que você mencionou. Ficavam equidistantes na cordilheira, você me contou isso. — Obrigada, Clint. Continue. Você sabe o que eu sei, ajude-me a conduzir as memórias que devem aflorar!
— Mar de Kara, no Norte. — Natasha ofeguei, cravando as unhas no braço da cadeira quando espasmos dolorosos contraíram minhas vísceras. O acesso por terra era quase impossível. A entrada principal passava por um túnel submarino, sob o gelo que selava totalmente as entradas de terra, no inverno. O túnel… Dividido em trechos inundáveis, galerias estanques que podiam ser preenchidas ou esvaziadas pelo sistema independente de bombas. Receptação de prisioneiros de guerra. Espiões inimigos… Eu mesma arrastei uma pessoa com capuz rumo à borda da geleira. Um agente rival, do qual tudo já fora tirado. A esse ponto, ele certamente imploraria pela morte, se ainda conseguisse falar. Segurei-o por trás, encostei a arma à sua cabeça e disparei. O corpo tombou no gelo abaixo, quebrando-o e mergulhando definitivamente no mar. Não, não… Não era esse o foco! Os controles… Era uma base militar. Um encouraçado pronto para resistir a bombardeamentos e abrigar pelotões.
— Natasha, respire devagar. — Senti a mão de Clint pressionar meu peito, reduzindo minha frequência respiratória por meio de sua força física. Não, Barton! O que estava fazendo! Eu preciso de ar, seu idiota! Minha boca se abria e se fechava em agonia, como um peixe tirado da água, a sensação de me afogar enquanto havia ar mais que suficiente em redor! — Você está bem. Sou eu, Nat. Confie em mim. Você está respirando.
Sim, eu estava. Aquilo tudo era apenas a mistura da reação física às drogas somado ao condicionamento para me impedir de lembrar. Minha cabeça parecia um tambor, reverberando com o mero som do sangue passando nas artérias e veias, a pressão nos ouvidos aumentando como se mergulhasse rápido demais, náuseas intensas revirando minhas entranhas… Eu aguentava. Já havia aguentado antes. Foco.
— Dyatlov Pass. — Havia vários nomes para o lugar, mas aquele era o mais conhecido, graças ao incidente de 1973 que quase expusera a principal base de experimentos armamentistas num raio de 1000 km. Construído no subsolo. Um grande pátio numa região isolada. Florestas. O degelo do verão inundava o pátio com água e lama, cobrindo tão bem quanto a neve qualquer rastro da presença humana… Cientistas… Havia equipes de cientistas, ali. Engenheiros. Químicos. Astrônomos. Geneticistas e médicos… A melhor proteção eram os próprios mitos locais, que se reforçaram depois que todos aqueles a se aproximar desapareceram. Quase ninguém tinha coragem de ir ali, e os próprios nativos evitavam a montanha à qual chamavam “não vá lá”, tanto quanto a Montanha dos Mortos. — Base de engenharia e testes armamentistas. As montanhas fazem ser impossível achar o lugar sozinho, e os nativos mansi têm medo suficiente, depois que muitos deles sumiram, sequestrados para uso como cobaias. Acham que o lugar é amaldiçoado. A entrada… No declive da montanha… — Abafei um grito de dor quando um raio pareceu explodir atrás de meus olhos, atravessando o cérebro. Mesmo de olhos cerrados, via apenas um clarão branco, sentia as restrições mantendo meu corpo firmemente preso à cadeira enquanto espasmos involuntários lutavam contra as algemas de couro e metal.
— Nat, fique comigo. — A voz de Clint soava abafada, eu mal entendia o que dizia enquanto usava cada gota de minha força de vontade para não sucumbir aos bloqueios mentais de minha programação. Eu precisava ir adiante, mas para conseguir isso, tinha de parar por alguns minutos… Não podia arriscar uma convulsão, ou qualquer situação que apagasse as lembranças libertas. — Natasha? Nat, fale comigo!
— Só se você parar de gritar. — Murmurei baixinho, as palavras com certeza mastigadas e abafadas pelo protetor bucal, mas ele entendeu. Sempre entendia. Senti as algemas serem tiradas de minhas mãos e pés, e a faixa que imobilizava minha cabeça ser puxada para cima. Agarrei com força os braços da cadeira, único ponto fixo enquanto o mundo parecia girar. — O que está fazendo?
— Levante. — Ele estava falando sério? Barton, não era hora para seus jogos… Mas seu semblante era sério o suficiente para que, mesmo mal conseguindo diferenciar chão e teto, eu me levantasse. A equipe médica havia saído? Quando?
— Clint, o que está tentando fazer?
— Pressionar os botões certos. Você quer lembrar? Precisa imergir na experiência, foi você quem me falou da primeira vez. Agora me acerte, Nat. Se ficar parada e restrita, vai ficar sofrendo os efeitos da adrenalina e acabar infartando ou tendo um derrame.
— Não vou bater em você. — Mais precisamente, eu duvidava que pudesse acertá-lo naquele momento.
— Não estou pedindo. — Aquele maluco avançou sobre mim e acertou meu estômago com uma joelhada. Mas não com toda a força que havia empregado: meu corpo reagiu, recuando e contraindo a musculatura para proteger os órgãos. Clint ou não, eu havia feito isso minha vida inteira, e atenuei seu golpe bem a tempo, revidando com um soco violento, do qual ele apenas se desviou, o que quase me fez cair no chão. — Vamos lá, Romanoff. Você faz melhor do que isso.
Eu sabia o que aquele papagaio idiota queria: libertar a Natalia que um dia veio da Rússia, ou melhor, a que ainda vivia lá. Fazer-me reviver aqueles dias, a fim de facilitar o acesso às recordações. Mas isso… Isso podia matá-lo! Maldito Barton!
— Você vai morrer, seu estúpido. — Rosnei, sem saber se havia falado inglês ou russo.
— Com você nesse estado, duvido muito. Se me acertar, já pode considerar uma vitória. Agora vamos, Tasha: tente me acertar de verdade. Canalize a adrenalina. E é melhor me acertar, ou eu vou acertar você. — Para confirmar suas palavras, Clint me desferiu uma série de socos e chutes, dos quais fui obrigada a me esquivar ou defender mesmo com os sentidos embotados. Seu cotovelo acertou minhas costelas com força, arrancando o ar de meus pulmões; Barton não estava brincando. Certo… Se ele estava disposto a isso, quem sou eu para protestar?
***
— Missão concluída com sucesso, camarada Dmitrovov. Apresento-me para relatório.
Meu superior olhava para a dupla de engenheiros químicos que eu extraíra de Londres, sob os narizes de cinco agentes do MI-5. Os melhores do ramo bélico, inacreditavelmente úteis para a corrida armamentista travada contra o Ocidente.
— Mais uma vez, não nos desapontou, camarada Romanova. Reporte sua missão ao meu secretário, e retorne ao alojamento. Acredito ter um trabalho para você aqui, na base, pelos próximos meses.
— Moscou havia ordenado meu retorno imediato, após o relatório.
— Moscou é a minha alçada. Estou modificando as ordens.
Assenti e fiz como me fora dito. Relatei em detalhes os eventos de minha tarefa e seus resultados, para logo a seguir deixar os anexos da sala de comando e descer para os alojamentos dos agentes.
As memórias voltavam enquanto meu corpo se entregava à luta. A necessidade de foco, equilíbrio e velocidade de reação não me permitiam tomar ciência dos efeitos negativos da adrenalina sobre o corpo, conquanto me mantivesse em movimento. Quando o Gavião avançou novamente contra mim, joguei-me de joelhos a seus pés, girando para ficar atrás de si e encaixar meu ombro sob sua coxa, travando-lhe a perna com ambos os braços e nos lançando ao chão. Maior e mais pesado, ele caiu, e de imediato rolei para cima de seu peito. Meu cotovelo não encontrou seu esterno devido à velocidade de reflexos com que nossos treinamentos constantes o imbuíra, e tive o braço direito empurrado para cima enquanto suas pernas fechavam em minha cintura, num afrontoso roubo de meus golpes-assinatura!
O lugar era um panóptico. A central de segurança ficava ao centro, concentrando o armamento pesado na torre que dominava todo o ambiente em 360°, em seus vários níveis. Alojamentos no nível superior, área de treinamento no setor intermediário, laboratórios e área de testes nos níveis mais profundos. Acima desse panóptico, com livre acesso a ele, porém livres de sua observação, estavam a administração, acomodações dos oficiais, comunicações e todo o aparato que mantinha o funcionamento da base. A maior parte de meu tempo era passada entre o nível dos alojamentos e de treinamento; só era admitida no andar de testes quando retornava de minhas incursões à floresta e povoados mais próximos com prisioneiros para uso nas pesquisas. Tais incursões consistiam, também, nas únicas situações em que me via ao ar livre, durante a maior parte do outono. O que fariam com os prisioneiros não era de minha conta, não me importava. Mas eu fora criada para sempre saber o que acontecia. Não tinha coisa alguma a ver com o bem estar das pessoas que eu mesma levara, e sim com as informações que me poderiam ser úteis. Obviamente, era inteligente o bastante para manter minhas descobertas apenas para mim, ao menos até me serem úteis.
— Era disso que eu estava falando. — Clint estava ofegante e sua voz sai forçada enquanto prendo seu pescoço entre meus antebraços. Ele parecia a ponto de desistir, mas apenas usou a própria força e peso para me empurrar contra a parede acolchoada com uma batida violenta. Com mais duas colisões, ele me desequilibrou… O cretino sabia que estou tonta, com a cabeça explodindo de dor e ia usar isso. Bom aluno. Não devia ter ensinado tão bem. Larguei momentaneamente seu pescoço, apenas para engatar a dobra de meu cotovelo sob seu queixo e pisar com toda a força nas dobras de seus joelhos, o que eliminou sua posição firme e me permitiu puxá-lo para o chão, onde a diferença de altura não é uma vantagem para ele, mas para mim. Apenas até ele golpear minha cabeça com as mãos em concha, e a dor me fez gritar! Retribuí com uma joelhada em suas costas que o fez gemer alto e usar os cotovelos para me golpear e remover de suas costas, num giro se colocando às minhas costas e prendendo meu pescoço do modo como eu fizera consigo.
— Isso é tudo, Romanoff? Já se cansou?
— Só se for da sua arrogância, papagaio arqueiro. — Rosnei, chutando acima da cabeça de modo que meu pé acertou a lateral de seu crânio e o desorientou.
Dias gastos em trabalho inútil, que meros aprendizes seriam capazes de fazer, mas eu sabia muito bem o plano: estava sendo mantida ali porque ainda não havia acabado, e precisariam me enviar em algo realmente importante. Não faria sentido deixar que voltasse a Moscow, onde apagariam de minha mente todos os detalhes relevantes sobre a base, tão logo as informações fossem compiladas. Precisavam de mim, e precisavam que soubesse como o lugar funcionava, quem estava ali, o que faziam. Por semanas suspeitei de agentes infiltrados em nossa base, embora não tivesse como confirmar a situação, mas minha teoria foi comprovada quando me deram a ordem de assumir o papel de uma cientista vinda de outra base. Levei 24 horas para identificar o espião infiltrado, e mais 16 para descobrir a quem se reportava, rastrear a identidade da pessoa e eliminar o rival. Caçar sua parceira se mostrou uma provação mais difícil: Margareth Carter era uma oponente à altura.
Meu corpo havia entrado em piloto automático enquanto as memórias retornavam, a adrenalina utilizada para me tornar mais forte, mais rápida, melhor em todos os sentidos físicos. Clint agora apenas se defendia, e nós dois sabíamos que eu ainda estava me segurando… Machucá-lo de verdade era algo ao qual jamais me permitiria, uma pequena trava absolutamente inquebrável, como nem mesmo os condicionamentos da SV podiam ser. Ainda assim, o conceito de “machucar” é algo bastante flexível, e reviver aqueles anos forçava todo o sofrimento físico que me acometia a se manifestar em agressividade gelada e precisa. Como ele ainda estava em pé? Eu realmente o treinara muito bem, felizmente.
— Continue, Nat. Falta uma base. A que fica ao extremo sul, perto do rio Ural!
— Não… — Eu parei, minha cabeça explodindo como se as memórias forçassem caminho através de cada neurônio, rompendo a bainha de mielina, ressecando os axônios, explodindo os núcleos… A dor ficou tão forte que meus joelhos se dobraram, meus dedos se cerrando com força nos lados da cabeça, e mesmo se quisesse parar de me recordar, seria impossível. Uma barragem fora rompida, e o fluxo de lembranças me inundava como uma enxurrada. Senti as mãos de Barton me segurarem, mas não conseguia entender o que dizia.
— A base nas planícies… Foi parcialmente destruída por bombardeios, e desativada em 65, quando todas as linhas de comunicação foram cortadas por… Por agentes inimigos. — Não conseguia me lembrar do responsável pela desativação, e não tinha certeza se a memória me fora arrancada, ou se jamais tomei ciência… Senti meu corpo se curvar para frente em uma sequência de náuseas, mas meu estômago já estava vazio, e apenas o gosto amargo da bile tomava minha boca. — Podiam reconstruir, mas havia coisas… Coisas confidenciais. Um experimento deu errado, e a URSS explodiu o lugar, para enterrar ali todos os envolvidos. Aah!!!!! — A dor era excruciante demais, até mesmo para mim. Eu queria que uma bala atravessasse meu crânio, apenas para interromper aquilo!! Não apenas a dor, mas as memórias… As coisas que fiz. Os assassinatos. O sangue em minhas mãos, em minhas roupas, encharcando o solo… Meu cabelo solto, grudando na pele manchada de vermelho. Os olhos frios dos cadáveres. As sensações nítidas enquanto os carregava e eliminava, jogando-os para o gelo, enterrando-os, esquartejando e jogando perto a covis de lobos, imergindo em ácido… Eu não queria me lembrar, não daqueles detalhes, mas a memória não era seletiva, e vinha como uma avalanche. Em algum momento, meu corpo colapsou, e a inconsciência sobreveio.
Flashback On (POV Narrador)
— Você está louca, Margareth? — Natasha gritou, golpeando com violência a agente britânica no estômago e correndo para os controles, inevitavelmente avariados. O manche não respondia direito, e a aeronave mergulhava em queda vertiginosa enquanto a espiã fazia todo o possível para estabilizar o avião e ao menos conseguir planar até um pouso forçado. Mas sobrevoavam a cordilheira dos Urais! Um pouso de emergência seria potencialmente letal, ainda que a única chance de sobreviver.
— Você perdeu, dessa vez, Romanova. As informações já estão em Londres. Não vai ter tempo de matar pessoa alguma, agora, e se nós duas morrermos… Fiz a coisa certa.
A russa teria baleado sua petulante rival, mas suas mãos se encontravam ocupadas mantendo o pouco controle que tinha sobre o avião, e a velocidade era vertiginosa demais para que Carter pudesse saltar de paraquedas. Além disso, mesmo o sucesso seria suicida, pois cairia no meio da cordilheira, em pleno inverno. Não havia chances de sobreviver ali, sozinha e, se sobrevivessem, Romanova daria cabo da inimiga tão logo estivesse em terra.
***
Tudo em si estava dolorido mas, por alguma estranha sorte, não havia qualquer ferimento grave no corpo de Natasha. Os múltiplos arranhões e lacerações eram superficiais, até onde podia ver, e foi com cuidado que rastejou para fora dos destroços, garantindo-se de não haver peças de metal presas a si que a houvessem perfurado, ou pudessem causar dano quando se movesse.
Com pelo menos duas costelas fraturadas, levantou-se e olhou em redor à procura da estúpida britânica que derrubara seu avião. Sua pistola Magnum se encontrava no chão, pouco à frente, e a agente a recuperou enquanto avançava cuidadosamente pelos destroços espalhados pela rocha coberta de neve. O frio mordia a pele, mas auxiliava a não sentir tanto os ferimentos, num primeiro momento, e seria seu aliado se a infeliz agente da CIA houvesse logrado uma fuga. Contudo, seus próximos passos deixaram claro não ser o caso: pouco adiante, presa sob uma grande placa de metal, com profundo corte na perna, outro na cabeça e inconsciente, jazia a mulher morena. A raiva pela trapaça que a colocara naquela situação e, principalmente, pelo consequente fracasso em sua missão, fez a mão da ruiva subir e mirar o ponto entre os olhos da inglesa. Já havia destruído muitas vidas, aquela seria apenas mais uma.
Deveria ser fácil… Era só puxar o gatilho, mas Natasha ainda carregava a cicatriz do ferimento de bala do qual aquela mesma mulher a salvara. Não apenas não a entregara à CIA — o que por si só teria quitado o débito de Carter para com Natalia — mas tratara de suas feridas, dera-lhe roupas limpas, alimento e um lugar seguro para dormir, junto com a chance de escapar livremente de um destino infinitamente pior que a morte. Tudo o que aprendera lhe dizia que Margareth fora apenas estúpida, mas puxar o gatilho parecia simplesmente errado. Após longos minutos de indecisão, a Viúva Negra guardou a arma no coldre e deu as costas à outra. Não precisava matá-la pessoalmente: se a concussão não o fizesse, o frio crescente com certeza se encarregaria disso. Presa sob a pesada peça de metal, a outra não iria a lugar algum, e morreria ali como consequência dos próprios atos. Sem culpas sobre os ombros da russa, ao menos dessa vez.
***
— Que o Diabo te carregue, Carter, por que insiste em continuar viva? — Natasha resmungou ao arrastar Peggy pela neve até o abrigo que escavara para se proteger. — Você é tão irritante que nem a morte te quer.
— Se não queria que eu sobrevivesse, era só enfiar uma bala na minha cabeça. Deixar alguém para morrer de hipotermia e hemorragia é baixo, além de não ser garantido. — Carter rebateu, abafando um grito quando foi puxada pelo acentuado declive para dentro da toca improvisada, e jogada no chão.
— Se prefere a bala, a pistola está comigo. — Natasha puxou a “porta” do abrigo para selar a entrada e manter o frio fora. Ali dentro, o fogo mantinha a temperatura estável, assim como a neve. Enquanto o exterior tinha temperaturas inferiores a -30°C, ali dentro orbitava o zero, talvez pouco mais.
À medida que o tempo passara, Natasha se incomodou com os sons fora do abrigo, e decidiu se certificar da morte da rival. Para sua perplexidade, esta não apenas se encontrava viva, mas desperta e sofrendo intensamente na tentativa de se libertar! Contra todas as expectativas. Mais uma vez aquela maldita sensação de débito acossou a russa, e esta se viu compelida a pagar de vez sua dívida, de sorte que agora tinha a rival deitada ao lado do fogo, dividindo consigo o abrigo nas montanhas.
— Tem mais alguma coisa ferida, além da perna? — A ruiva perguntou com aparente desinteresse.
— Se tiver, vou descobrir amanhã, quando não acordar. — A britânica se ajeitou como podia, ignorando a perna fraturada. Tudo em si doía, mas de que adiantaria descobrir qualquer ferimento, presa ali? — O que vamos fazer?
— Vamos? — Natasha arqueou as sobrancelhas. — Achei que tinha um plano, quando sabotou o avião e o jogou no meio dos Urais. O meu plano é esperar a nevasca passar e descer a montanha.
— Estamos bem longe de qualquer base…
— Há aldeias Mansi por toda a cordilheira. Se não estiver morta até a neve acabar, pode descer até uma e conseguir contato com sua gente. Se os lobos não pegarem você, primeiro.
Peggy deu de ombros e se encolheu mais em suas roupas de frio, enrolada na manta térmica que a russa tirara do avião destroçado. Era quente e até mesmo confortável, comparado à sua situação anterior, e foi com surpresa que viu a colega de abrigo lhe estender uma garrafa metálica.
— Beba. Vai te esquentar. — Soou mais como uma ameaça de morte do que uma instrução, mas afinal, Natalia não precisava fazer nada daquilo. Peggy ainda não entendia completamente o que motivara a russa a não matá-la, mas ficava agradecida.
— Obrigada por não me deixar para a morte, lá fora. Mas você ainda é uma cadela. — Com alguns goles generosos, a vodca desceu queimando pela garganta de Peggy, espalhando seu calor por todo o seu corpo.
— Falou a responsável por estarmos aqui. — Natasha pegou a garrafa de volta e também bebeu. — E não me agradeça: se houver lobos, ainda posso usar você como distração para eles. Mas nevascas duram alguns dias, e seria muito solitário; você é irritante o suficiente para espantar a morte, mas sou masoquista.
As duas beberam e trocaram palavras ácidas, até se enroscarem juntas sob a manta isolante e adormecerem, exaustas.
***
Natasha viu o próprio sangue escorrer pelos braços e cair ao chão, ensopando o piso de concreto: o espancamento com cordas havia arrancado a pele de suas costas em diversos pontos, e tudo que a espiã podia fazer era abafar os gritos tanto quanto conseguia, incapaz de sequer se mover devido às correntes que a prendiam à alça de metal chumbada ao chão. Não se atrevia a fugir mentalmente para outro lugar, obrigando-se a sentir cada golpe, como era esperado de si. Merecia a punição, e sabia disso: merecia porque fora fraca, deixara a mulher inglesa sabotar seu avião e passar informações importantes para o Ocidente! Merecia isso e muito mais, principalmente pelos detalhes escondidos de seus superiores, como sua participação na sobrevivência da agente inimiga. Apesar de tudo, de saber que ter a pele das costas arrancada por açoitamento era apenas o começo, da vergonha por ter falhado, uma ínfima parte de si não se arrependia, e sabia que faria tudo da mesma forma, novamente. Mesmo porque, não fora um completo fracasso — não estaria viva, se houvesse sido — posto que corrompera as informações transmitidas para Londres. Carter havia transmitido, sim, mas dados truncados e facilmente interpretados de forma errônea. Mas ainda se deixara pegar pela outra, e para isso havia medidas disciplinares rígidas.
***
O rosto de Clint foi a primeira coisa em seu campo de visão, ao abrir os olhos; a cabeça latejava suavemente, o que era quase prazeroso após a dor insana à qual fora exposta anteriormente. O olhos do arqueiro se encontravam toldados pela preocupação, e sua voz chegou aos ouvidos de Natasha num tom abafado, como se a espiã se encontrasse sob a água:
— Como você está, Nat?
— Viva. — A Viúva Negra se sentou, tomando ciência de estar em um quarto de enfermaria, ainda na nova base da SHIELD. — Quanto tempo fiquei fora?
— Umas quatro horas. Tive medo que houvesse sofrido um derrame ou algo similar. — Barton se sentou ao seu lado. — Ainda se lembra de tudo?
— Mais até do que gostaria. — Ela se aprumou, saindo de sob a coberta que Clint colocara sobre si e virou de lado, deixando as pernas penderem da borda. Os sintomas anteriores a haviam deixado levemente dolorida, mas nada além, de sorte que se colocou em pé. — Você está legal?
— Eu? Qual de nós dois quase colapsou?
— Eu te acertei para valer, Clint. — Natasha apontou os cortes no supercílio e na maçã do rosto do amigo, além da contusão em seu maxilar, e nos hematomas, esfolados e arranhões pelos braços. Sabia que fora pior nas partes cobertas pela roupa. — Machuquei você?
— Nada que me impeça de ir a campo. — O arqueiro lhe lançou aquele meio sorriso cúmplice que dizia tudo, e era o sinal de as coisas estarem perfeitamente bem entre ambos. Confiança, afeto e o juramento de fazer o que fosse necessário, um pelo outro. Como sempre. — A pergunta é: você consegue? — Com os olhos ele lhe dizia para ser absolutamente honesta, afinal, saberia se a espiã estivesse mentindo. Era o único que sempre sabia.
— Consigo. Vamos trazer nossos amigos de volta. — Seus olhos cruzaram mais uma vez com os de Clint e, anuindo à preocupação muda neles, a espiã se aproximou e deixou a fronte do amigo tocar a sua. Iam conseguir, se fizessem isso juntos, era o que diziam em tal gesto. Não durou mais que um ou dois segundos, mas foi o suficiente para uma exclamação abafada de surpresa escapar da porta:
— Meu Deus! — A enfermeira que entrava girou nos calcanhares e fechou rapidamente a porta, após o que gritou um “Desculpe” apressado enquanto fugia pelo corredor.
— Agora todo mundo tem absoluta certeza de que a Lucy é sua filha. — Natasha levantou uma sobrancelha com divertimento.
— Por que isso vive acontecendo? — Clint riu baixo e começou a tirar ele mesmo os acessos endovenosos, antes que Romanoff os arrancasse. Já fazia muitos anos desde que sua amizade com Natasha crescera demais para continuarem sendo amantes; em verdade, seu relacionamento amoroso durara menos de três anos, antes de ambos virarem a página e se tornarem muito mais como irmãos do que qualquer outra coisa. Mas ninguém precisava saber disso, e não haviam se importado em fazer o restante da SHIELD saber sobre o fim de suas interações mais “físicas”. Isso os mantinha seguros, e a quem quer que fizesse parte de suas vidas, no futuro.
— Não finja que não é divertido. — Livre dos cateteres, a mulher baixou as próprias mangas, dirigindo-se com Clint para fora da ala hospitalar, à procura de Nick Fury.
*
— Hangar em trinta minutos, todo mundo. — Tony avisou para a equipe, quando se reuniram no andar dos Vingadores. Enquanto os demais terminavam de se aprontar, Natasha, Lucy, Stark e Pepper ficaram ali, pois fora acertado que a criança ficaria na companhia da madrinha, ambas protegidas pela Legião de Ferro e pela segurança pessoal de Potts. Não havia lugar mais seguro do que a Torre Stark, se a HIDRA estivesse disposta a sequestrar mais alguém relacionado aos Avengers.
— Estarão seguras, aqui. Cobrei mais um favor do Fury e, se houver alguma emergência, usem isso. — A espiã entregou à amiga e à filha dois pequenos controles pretos, com um único botão. — Vai acionar um alarme de emergência e mandar as coordenadas de onde estão, em tempo real. — Abaixando-se para falar com a criança, Romanoff falou em voz baixa. — Fique com a Pepper. Ela vai te proteger e, se algo ruim acontecer, você sabe usar tudo o que te ensinei. — A mulher entregou à pequena a pistola Glock semiautomática. — Lembra das regras?
— Arma não é brinquedo: nunca aponte sem ter a intenção de atirar, e não atire se não for para matar. — A criança tinha plena consciência de tudo o que ocorria, e do perigo a que todos estavam submetidos. — Vocês vão ficar bem, mama?
— Vamos. E vocês também. Moya khrabraya devushka (minha garotinha corajosa). — Com um beijo na testa da menina, a Black Widow se levantou e encarou Tony, o qual trocava sussurros com a noiva, pedindo-lhe que fosse cautelosa. Captando o olhar da colega de equipe, o Homem de Ferro soltou sua futura esposa e se afastou para olhá-la no rosto:
— Tome cuidado. Por favor.
— Você também. — Para completo espanto de Tony, sua companheira pegou dentro da bolsa algo que ele lhe dera, mas ela jamais utilizara: a pulseira de comando de uma das armaduras.
— Pep… Tem certeza disso?
— Atacaram diretamente a nossa família, Tony. Eu não preciso gostar disso, só ser capaz de manter Lucy e eu a salvo, e garantir que toda a sua atenção vai estar na missão. — Potts estendeu a mão para Lucy, que a aceitou e abraçou a cintura da madrinha, encostando a cabeça em seu peito. — Vamos cuidar uma da outra, está bem, Lu?
— Ninguém vai encostar na gente, tia Pep. — Os olhos índigo da pequena estavam preocupados, mas não exatamente assustados. Havia ali a certeza de poder lidar com qualquer situação, e isso era quase mais assustador do que os últimos eventos por si… Era apenas uma garotinha de oito anos, e lidava com tudo como muitos adultos não poderiam. — Vamos cuidar uma da outra, mesmo. — Por trás dessas palavras, brilhou claramente a intenção de advertência: ela não seria um peso morto a ser protegido por Pepper. Seria uma pela outra, de verdade.
O restante da equipe voltou logo a seguir e se despediu de Pepper e Lucy. Steve abraçou a filha com força e prometeu mantê-la a par de tudo, dizendo algo mais em irlandês, que ninguém além dos dois compreendeu. Havia uma atmosfera densa de tensão, mas esta foi dissipada quando os seis Vingadores se puseram a caminho do hangar; em poucos minutos, todos os arranjos estavam feitos, com Stark e Clint nas cadeiras de piloto e copiloto do quinjet, e Natasha compartilhando informações nos arquivos pessoais de cada um.
Enquanto punham o jato na rota certa, Thor andava para um lado e para outro como um animal enjaulado, cheio de angústia e impaciência. Banner tentara argumentar com ele, mas isso de pouco ou nada servira, sendo Steve quem conseguiu convencer o amigo de que o melhor a fazer por Jane seria se tranquilizar e entrar em combate com a mente limpa. Abençoada eloquência de Rogers!
— Em Asgard, chamavam meu irmão de Língua de Prata, por ser capaz de sempre ter as palavras certas. Em outros tempos, vocês teriam se dado muito bem. — Steve não tinha certeza quanto a se isso era um elogio ou um resmungo, então preferiu tomar como uma constatação:
— Só mais alguns minutos e alcançaremos altitude de cruzeiro: Natasha nos passará todas as informações, e traçaremos o plano. Vai se sentir melhor.
Thor assentiu, mas parecia muito pensativo, e enfim encarou a espiã russa com hesitação, decidindo se deveria falar ou não, optando finalmente pelo sim:
— O que farão com eles?
Romanoff teria preferido um murro no peito dado pelo deus, à pergunta de poucas palavras. Ela adoraria ter respostas boas, queria agarrar-se às melhores perspectivas… Mas mesmo as melhores opções não eram de grande consolo. Contudo, o silêncio apenas apavoraria o amigo, de sorte que respondeu:
— Depende deles. Se cooperarem, nada demais. Confinamento e supervisão, apenas.
— Jane não é o tipo que colabora, e Darcy já me eletrocutou por reflexo. Não acho que vão cooperar. Selvig já tem idade, mas mesmo ele é teimoso…
— Nenhum deles vai morrer, Thor. São preciosos para HIDRA. Também não seria inteligente feri-los fisicamente, ou incapacitar suas mentes, então tentarão persuadi-los. Privação de sono, controle da alimentação… — Havia coisas piores que poderiam ser feitas sem danos físicos relevantes. Dolorosas e cruéis, terrivelmente inventivas, mas saber disso não ajudaria em nada o colega. — Eles ficarão bem. Jane ficará bem. — O olhar do asgardiano, misto de raiva e dor, mostrava que ele também sabia haver mais tormentos passíveis de serem infligidos às pessoas que amava, e tentava com todas as forças não pensar nisso. Não havia nada a ser feito que já não estivesse fazendo.
— Altitude de cruzeiro alcançada e piloto automático ligado. — Stark anunciou quando ele e Clint se juntaram aos outros. — Romanoff, dessa vez o comando é seu. Precisamos de informações, para saber com o que vamos lidar.
A russa puxou a holotela no chão do quinjet e projetou em 3D a imagem da base e do entorno, começando a explicar aos amigos os detalhes sobre o acesso ao local e funcionamento das instalações. Seria tudo, menos fácil.
*
Todos se haviam vestido com trajes de isolamento térmico sob as roupas de camuflagem. Nada de uniformes, cores vibrantes ou marcas: preto e branco, tons de cinza e casacos manchados nessas três cores. O próprio escudo de Steve foi revestido com uma camada de tinta branca, enquanto Natasha substituíra seu habitual uniforme preto por outro, branco, e ocultara os cabelos vermelhos sob um gorro cinza. Botas de neve haviam substituído os sapatos normais para todos, exceto Thor: este não se preocupara com mais do que remover a capa vermelha e sujar a armadura com tinta, para se camuflar. As baixas temperaturas não o afetavam como fariam aos amigos: mesmo sendo março, as temperaturas oscilavam entre 0°C e -13°C. A iminência da primavera era outro inimigo imediato, trazendo maior risco de avalanches.
— Ninguém pode dizer que os russos não sabem como esconder um lugar. — Durante toda a preparação, Tony se sentia incomodado com a necessidade da furtividade. O controle da armadura estava em seu pulso, mas ainda se encontrava exposto, com excessão do colete de kevlar. — Lugarzinho de histórico encantador…
Natasha contara a história do incidente que ocorrera aos dezenove jovens, responsável pelo nome mais conhecido da região: as mortes nunca haviam sido oficialmente identificadas, o laudo responsabilizando uma avalanche por causar o pânico que fizera os experientes esquiadores abandonarem a segurança e calor da barraca apenas em camisas e calças finas, perdendo-se na noite escura em temperaturas muito abaixo de zero. As lesões inexplicáveis, compatíveis com um acidente de carro, também fora atribuída ao impacto da neve, ainda que não houvesse ocorrido nenhum registro de deslizamento de neve, e a barraca situada em terreno mais acima estivesse intacta. Mas a agente sabia bem como tudo aquilo fora adulterado: civis no lugar e hora errados, durante um teste de armamento. O barulho e as ondas enviados pela bomba eletromagnética certamente poderiam ter se passado pelo início de uma avalanche, mas uma vez fora da barraca os atletas haviam sido expostos a toda a intensidade da explosão, além de se depararem com um céu aparentemente em chamas. Somado ao ruído ensurdecedor, o cenário os levara ao completo pânico: ensurdecidos pelas ondas sonoras e cegos pela luz intensa, correram para a floresta; alguns tentaram escalar as árvores até suas mãos se rasgarem em pedaços nas cascas, enquanto outros se ocultaram em valas. Perdidos de seu acampamento, sem visibilidade, equipamento ou proteção contra o frio, foram vitimados pela própria natureza. As lesões encontradas em alguns dos cadáveres, nos laudos oficiais, eram post-mortem, e por isso não haviam deixado marcas de hematomas ou sangramento na superfície da pele. As filmagens e anotações sobre yeti e avistamentos de nativos Mansi foram apenas mais informações falsas plantadas quando as famílias insistiram na abertura do inquérito que resultou na “descoberta” dos corpos. Ela ainda se lembrava das piadas a respeito que circularam entre os agentes responsáveis pelas adulterações.
— A vigilância afrouxa nas primeiras horas do crepúsculo: é pouco antes da troca de guarda, e os sentinelas estão cansados, depois de patrulhar pela neve durante o dia todo, mas a guarda seguinte ainda não está preparada. Precisamos esperar. — Ela separava cordas, picaretas de neve e machadinhas de escalada. — A visibilidade cai a quase zero, à noite: chequem as lentes infravermelhas antes de sairmos.
— Ainda está claro demais, Natasha. — Banner estava bastante preocupado: ele não podia morrer, mas o mesmo não se aplicava aos amigos.
— São alguns quilômetros, doutor. Temos que ir devagar: não podemos transpirar, ou as roupas vão congelar e nos matar mais depressa do que uma saraivada de tiros.
— Hipotermia, exército, agentes especiais, armas de última geração, animais selvagens, nativos desconfiados… Alguma coisa na Rússia não é letal? — Tony começava a entender os motivos de os mongóis terem sido o único povo a lograr uma invasão naquele país. Havia estudado por alto, na escola, mas a diferença entre ler sobre e experimentar na pele… Especialmente quando se estava do lado invasor… — Coloquei JARVIS para escanear o terreno à frente e captar as imagens de satélite da região. Saberemos quem está aonde, e o que mudou desde que você se juntou à SHIELD.
— Ótimo. Quanto mais discretos formos, menores as chances de isso virar uma guerra entre Estados Unidos e Rússia. — O governo de seu país faria absolutamente tudo para encobrir qualquer coisa ocorrida às antigas bases que, oficialmente, não existiam… Mas uma ação dos Vingadores em solo russo, se chamasse a atenção indevida, seria uma catástrofe no cenário político internacional. Ela tinha motivos para estar triplamente apreensiva ante os potenciais desdobramentos daquela ação. — Thor, cuide do doutor Banner: vamos evitar um Código Verde pelo maior tempo possível. Steve, Clint? — Os dois homens a fitaram, aguardando por mais instruções. — Quero Clint na retaguarda, cobrindo o grupo com o arco. Se alguém nos vir, elimine. Capitão, preserve-se o máximo possível: vamos nos segurar para a luta lá dentro. — Apenas recordando as instruções que já dera no jato, para garantir que ninguém sairia do plano. Com o quinjet ativado no modo furtivo, deixaram a segurança do entorno da nave e seguiram silenciosamente para a floresta, por onde cruzariam o Passo. As lembranças voltavam à sua mente como se ainda ontem houvesse percorrido aqueles caminhos e, tanto quanto a maioria era odiosa, não deixava de haver a estranha sensação de estar em casa… Isso era o que sabia fazer, o que viera fazendo por toda uma vida. Mas agora, com uma mente própria e não mais a serviço de qualquer outro além de sua consciência. Hora de limpar um pouco mais de vermelho na própria lista.
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