A Aranha na Teia

6 Infiltrada - parte dois


Notas iniciais
Olááááá! Estou aqui, de novo, com mais um capítulo! Gratidão eterna a todo mundo que leu, e mais ainda a quem participa deixando seus comentários ♥ Sem mais delongas, vamos ao que interessa!

Natalia checou as horas no relógio: 5:25 da manhã. Mais um dia passado dentro da base, menos um dia disponível para cumprir seu trabalho. Precisava acelerar as coisas e, se os diretores do Projeto Lucy mantinham tudo em suspenso pela suspeita de terem um agente – mais precisamente ela – infiltrado, então teria de arranjar as coisas ao seu próprio modo.

Pegou no armário um conjunto de roupas de trabalho brancas, a pouca maquiagem que Lambert mantinha consigo e foi se aprontar no banheiro. Nada diferente do que a médica teria feito, mas a espiã sempre tinha seus recursos nos locais mais inesperados: nos dias anteriores, mapeara cerca de 60% das instalações subterrâneas, e encontrara as portas de acesso para a central de comando de todo o complexo. Conseguira também identificar o tipo de acesso e, felizmente, não precisaria arrancar nenhum globo ocular para entrar, graças às lentes de contato que Tony projetara, capazes de escanear os olhos de um interlocutor e reproduzir os padrões de retina em sua superfície. Obter as digitais seria um pouco mais difícil, mas algo ainda plenamente dentro de sua zona de conforto.

Cronometrando internamente o tempo que levava para se arrumar, destacou o espelho do estojo de mão e retirou de trás dele os papéis carbonados, cortando seis quadrados pequenos. Em um, raspou com a unha uma pequena quantidade do pó compacto, dobrou duas vezes e o deslizou para o bolso do jaleco. Os demais, manteve abertos e cuidadosamente lisos, para uma marca perfeita, antes de apenas programar o modificador facial para as cores de uma maquiagem leve, adequada a sua pretensa função, e deixar o banheiro.

Não havia qualquer arma, adaptada ou não, entre as posses de Natasha; não havia lhe passado despercebido que, dados os eventos do baile de gala, os diretores daquela unidade se mantinham aletas e, provavelmente, fariam diversos testes com os prováveis suspeitos de serem, bem... Ela, se passando por outra pessoa. E obviamente, enquanto única pessoa a testemunhar a morte do falso Izmar Von Hecker, Melinda Lambert figurava no topo da lista. A chance de ser atacada, talvez mesmo torturada, não era baixa, e reagir apenas a exporia. Não importava o que acontecesse, Romanoff tinha de agir dentro de seu papel: chorar, implorar, gritar, mas jamais reagir, mesmo que isso exigisse cada grama de sua vontade, para ir contra o condicionamento de uma vida.

Naquela manhã, a psiquiatra acompanharia as atividades ao ar livre da Cobaia 109, no intuito de avaliar seu desenvolvimento motor, físico e mental ante a exposição a outros seres humanos em dinâmicas diversas e treinamento de combate. Para tanto, deveria estar no corredor CXV – o qual levava à ala dos dormitórios – cinco minutos antes do toque de despertar, para observar o desempenho da mutante em sua rotina desde o momento em que acordava; os mínimos detalhes eram reveladores sobre aptidões, personalidade e pensamentos íntimos de alguém, quando se sabia o que procurar.

Já conhecendo o percurso – que convenientemente passava pela primeira porta de acesso aos elevadores centrais, que desciam ao núcleo do complexo — caminhou casualmente pelo corredor, de olho nas câmeras panorâmicas. Cronometrara nos últimos três dias o horário em que a vigilância se afrouxava — a troca de turnos, sempre ao início da manhã e ao fim da tarde, imediatamente antes do toque de despertar e de recolher — e agora utilizava-se disso para conseguir acesso à sala de arquivos e o comando central. Não entraria ali, agora, mas conseguiria as digitais de acesso para seguir com seu plano. Faltavam nove minutos e meio para o soar da matina, e isso lhe dava noventa segundos para executar a ação, a fim de estar no lugar devido, no momento certo, e sua contagem mental se iniciou no preciso instante em que passou pela tranca digital.

Sub-repticiamente, a Viúva Negra pegou em seu bolso o fino pó compacto que raspara previamente e o pulverizou com um sopro nas cinco janelas de leitura. Com a mesma destreza e discrição de gestos, pressionou os quadrados de papel carbonado que trouxera para a base oculto dentro de um supostamente inofensivo espelho de mão, e os guardou com a mesma agilidade nos bolsos internos. Sua contagem interna mal chegara a vinte quando se pôs a caminho novamente. Seis minutos antes do sinal para iniciar as atividades do dia, estava inocentemente a postos, com a mais neutra das expressões.

*

— Сильнее, дальше, быстрее! – A voz da treinadora trouxe memórias nem um pouco felizes a Natasha... Mais forte, mais longe, mais rápido... Gritava para as crianças o que ela ouvira de Ivan e da Governanta na Casa X da Sala Vermelha, quando seu corpo infantil não suportava mais, mas o orgulho e a consciência da punição que adviria com a desistência impulsionando-a a prosseguir. Isso a fortalecera, como golpes de martelo sobre o metal, mas não significava que desejasse o mesmo para qualquer outro jovem, especialmente em tão pouca idade!

As crianças eram fortes... Fortes o suficiente para terem chegado até ali, ao menos, e os relatórios que lera deixavam bem claro que fora tudo, menos um processo gentil. 70% das crianças haviam morrido com os testes e o treinamento, mas ali estavam as restantes. Não apenas resultados das fecundações in-vitro, mas pequenos mutantes roubados de suas famílias e condicionados... Algemados ao leito para dormir, proibidos de fazer perguntas, forçados aos imites de seus corpos e, com isso, também de suas habilidades.

Exercícios de atletismo, treinamento de combate, carregar pesos sobre os ombros, manter-se imóveis em posições dolorosas... Ela conhecia tudo aquilo e, infelizmente, reconhecia a eficácia para criar os melhores soldados e agentes. Mas nenhuma daquelas crianças chegaria ao final da linha... Eram apenas degraus que seriam colocados diante de Lucy, forçando a garota à escalada. E céus... Era como olhar um espelho mais jovem de si mesma... A expressão fechada, compenetrada, os movimentos ágeis e firmes, a determinação, repetindo quantas vezes lhe fosse dito cada uma das sequências. Mais rápido. Mais longe. Mais forte. Sempre. E ainda assim, a relutância sobrevivia nos olhos da criança enquanto lutava contra um oponente bem mais velho, com cerca de quatorze anos. Até onde percebera, este possuía uma mutação branda que lhe permitia antever os movimentos da menina, bloqueando-a de novo e de novo, derrubando-a. Isso não satisfazia a treinadora, que vez por outra golpeava Lucy com uma vara elétrica.

Isso se repetiu por sete ou oito vezes, antes que a raiva aflorasse da criança: movida pelos próprios sentimentos, seu próximo golpe não foi meramente físico, mas transmitiu por todo o seu corpo pueril uma onda de energia que foi liberada com intensidade, forçando a treinadora a dar um passo atrás, e derrubando violentamente o oponente mais velho. Foi extremamente rápido, e ao fim havia apenas a criança, em pé no chão de areia, ofegante e visivelmente insatisfeita consigo mesma.

Algo como orgulho ameaçou florescer no peito de Natasha, imediatamente reprimido e nem por um instante demonstrado em seu rosto. Orgulho que se tornou asco quando a Treinadora se aproximou de Lucy e declarou em voz firme:

— Muito bom, 109. Agora, termine isso. Você sabe como fazer.

O desejo de intervir quase tomou conta das ações de Romanoff, e ainda assim sua expressão era uma máscara impassível; podia ver com absoluta clareza no rosto da pequena que obedecer não foi sequer considerado. A garotinha olhou para o menino no chão com compaixão — como a compaixão podia ter sobrevivido naquela jovem alma, em um meio e criação tão abusivos? — e então recuou, encarando duramente sua superior:

— Não. — Ela estremeceu quando a vareta estalou com a descarga elétrica, mas insistiu. — Não vou fazer isso.

A vara desceu com força nas costas da criança, dez, quinze vezes, mesmo enquanto ela se enrolava sobre si mesma, braços cobrindo o rosto enquanto esperava que tudo terminasse. Todos os outros jovens se afastaram, com medo tanto da Treinadora, quanto do que Lucy poderia causar, se extrapolassem seu limite, e Natasha apertou o comunicador para falar com a Treinadora:

— Já chega.

A outra mulher, contudo, não teve tempo de obedecer à doutora Lambert: Lucy agarrara a extremidade do açoite e, de algum modo, invertera o caminho da corrente elétrica. Com um choque violento, a Treinadora convulsionou uma vez, antes de desmoronar no chão, inconsciente e com as mãos apresentando queimaduras de segundo grau.

O medo cobriu as feições da garota, que olhou para Natasha por um segundo, mas não enxergou ali nada que a pudesse salvar... Assim, não reagiu quando dois seguranças prenderam seus pequenos pulsos em algemas de borracha, antes que uma droga sedativa fosse injetada em seu pescoço, derrubando-a alguns segundos depois. E se já sentira o coração tão dilacerado em alguma missão, a Black Widow definitivamente não se lembrava. Um suspiro frustrado escapou de seus lábios, este genuíno, embora não motivado pelo que Hecker presumiu quando se aproximou:

— Sim, uma lástima. Se não a persuadirmos, logo, não haverá alternativa além dos tubos de criogenia, Melinda.

— Punições com choques elétricos e forçar uma criança de cinco anos a matar não vai ajudar, Izmar. Ou escutam minhas orientações, ou vão colocar tudo a perder! — A indignação e raiva manifestadas na voz da espiã eram apenas uma fração do que realmente sentia, mas convenciam muito bem. — Vão pôr a perder a primeira meta-humana genuína, por incapacidade de rever seus métodos!!!

Hecker assentiu, parecendo igualmente frustrado, antes de menear a cabeça:

— Os diretores lhe enviaram algum feedback?

— Nenhum. Disseram apenas que iriam analisar minhas considerações. — A vontade de socar algo, especialmente o homem ao seu lado, era enorme, mas ela manteve os gestos apenas levemente tensos de alguém irritada. — Você?

— Quietos como os mortos. Espero que não por muito tempo... — Ao seu próprio modo bizarro, o geneticista se preocupava com Lucy. Menos com a criança, e mais com o sucesso que ela significava, mas, ainda assim, era mais do que a maioria, naquele lugar. — Escute, vou jantar com minha família, hoje. Se quiser sair um pouco daqui...

— Ah, não, Izmar. — Natasha apertou de leve seu ombro, como se fossem amigos. — Vá ficar com suas garotas. Eu tenho trabalho e... Isso me ajuda a não pensar em Edmond.

— Eu lamento muito que a troca de identidades tenha causado a morte dele. Se houver algo que possa fazer para compensá-la...

— Ele conhecia os riscos. — um suspiro triste passou pelos lábios da mulher, que apertou os olhos para evitar lacrimejar. — Vou trabalhar com Lucy, hoje, tentar remediar o estrago que aquela estúpida causou. Vá para casa. Eu estou bem.

Longe das câmeras, Hecker conseguiu deixar Romanoff perplexa ao dar um beijo em sua cabeça, não um toque erótico, mas de amizade, e esse gesto de carinho a desgostou. Era mais fácil enfiar uma bala em alguém quando enxergava a pessoa como unidimensional, uma única camada de personalidade rasa definida pelo termo "inimigo". Quando o matasse, Von Hecker provavelmente se juntaria aos rostos que a assombravam, nas piores noites. Mantendo seu papel, deu-lhe um sorriso fraco e acenou com a cabeça:

— Vá logo. Cada minuto aqui é um minuto a menos com Kelly e Lizzie. — O moreno lhe sorriu e tomou a direção dos vestiários, deixando Romanoff sozinha, a mente se desligando do assunto "Izmar" e se voltando para o assunto "Lucy". Tinha muito a fazer, ainda hoje.

*

A criança estava na mesma situação da primeira vez em que Natasha a vira na sala de punição: sentada no canto, joelhos dobrados contra o peito, cabeça enterrada nos braços. Desligando os pulsos eletromagnéticos, abriu a porta devagar e chamou mentalmente pelo nome da criança. Nada. Uma segunda e terceira vez foram igualmente inúteis, até que enfim se abaixou ao lado de Lucy e lhe tocou o ombro:

— Lucy? – A reação imediata e assustada da garotinha foi erguer a cabeça e se inclinar para longe, olhos arregalados e respiração ofegante, levando bem três ou quatro segundos para perceber quem estava ali, consigo. Num gesto instintivo que pegou a espiã de surpresa, os bracinhos infantis passaram em redor de seu pescoço, e o rosto da garotinha se escondeu em seu colo em meio a lágrimas.

— Desculpe! Desculpe! Eu tentei fazer o que me disseram, mas não podia... Eu não quero machucar ninguém!

Natasha acariciou os cabelos da menininha, sem deixar transparecer suas emoções no próprio rosto, mas permitindo que aflorassem em sua mente, claras para a jovem telepata. Cuidado, culpa por não ter impedido a punição, orgulho pela coragem da criança em se manter fiel aos próprios princípios e, acima de tudo, admiração pela pureza daquela alma, pela bondade que insistia em florescer na ausência total de empatia e compaixão da parte dos que a cercavam, como uma flor desabrochando no deserto.

“Perdoe-me, Lucy. Tudo o que eu mais queria era poder intervir e te proteger... Mas se fizesse isso, provavelmente nós duas morreríamos, e as outras crianças...”

“Eu sei. Você falou como seria. Eu sabia. Mas... Desculpe, Natasha... Não posso machucar outras pessoas. Não posso matar outras crianças, elas não têm culpa de...” Os pensamentos eram confusos e rápidos demais para serem todos traduzidos em linguagem, mas Romanoff os entendia, e levantou Lucy consigo, segurando-a no colo pela primeira vez. Se alguém visse e indagasse, diria que estava estabelecendo um vínculo emocional com a criança, para torna-la mais propensa a obedecer; no momento, só importava confortar aquele anjo abandonado no inferno e, por tudo que era sagrado, ela passaria pelo que fosse necessário, sofreria qualquer coisa para tirar a pequena dali, para lhe dar uma vida real, com o que Lucy precisava e merecia.

“Não quero que você sofra por minha causa” Interpelou a criança, captando os pensamentos da mãe. “Não quero que se machuque.”

Natalia sorriu e acomodou a garotinha sentada em sua cintura, braços ao seu redor, como costumava fazer com Lila... Mas a afilhada nunca tivera os olhos cheios de lágrimas por um gesto tão simples, nem se agarrara a si com tanto desespero, e cada percepção dessas lacerava o coração da espiã.

“Shhhh, Lucy. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Vou tirar você daqui, antes do final do mês, e nunca mais alguém te machucará. Eu prometo. Apenas mais um pouco, malenkaya.”

“O que vai acontecer comigo, depois que eu sair daqui?” Havia medo e tristeza nos olhos da menina; podia ser uma vida terrível, mas era a única que conhecia... “As pessoas têm medo de mim.”

“Eu não tenho.” Natasha não pretendera fazer aquilo, até já ter feito. “Você ficará comigo. E posso não ser a melhor pessoa para cuidar de uma criança, Lucy, mas juro: ninguém voltará a te machucar. Nunca.”

A ruivinha não expressou nenhum pensamento em palavras, mas deitou a cabeça no colo da mulher e fechou os olhos. Não queria nunca mais sair daquele abraço, daquela sensação que não sabia nomear, mas era boa e lhe trazia paz, até mesmo felicidade. Contudo, após longos minutos daquele silêncio reparador, a voz da espiã a tirou de sua pequena bolha de segurança e paz:

— Lucy, já está tarde. É hora de você voltar para o alojamento.

As palavras doeram em ambas, mas a menina não disse coisa alguma ao ser colocada no chão; apenas segurou a mão de “Melinda Lambert” e a seguiu para os alojamentos, não sem notar o olhar fugaz da outra para os controles digitais, e entender que havia um plano maior traçado, ali. Um do qual ela não fazia parte, mas, por alguma razão, fora incluída por sua mãe. Porque, por algum motivo, Natalia Romanova se importava com ela, não por seu poder, nem pelas coisas que podia fazer. Apenas por ela mesma, e isso era tão confuso e assustador quanto maravilhoso.

Após deixar a garotinha aos cuidados das “babás”, a espiã tomou seu caminho para o corredor onde se situava a primeira barreira ao acesso dos elevadores; mais alguns minutos e ocorreria a troca de guarda, não havendo melhor hora do que a presente para arrombar aquela tranca e inspecionar o caminho à frente!

Não precisava de relógios para saber as horas: controlava a passagem do tempo em sua contagem mental, sabia quantas respirações moviam seu peito por minuto, quantos passos dava no mesmo período de tempo, quantos segundos levava para quebrar códigos de acesso. Então, foi no exato momento em que a troca de turno ocorria que ela substituiu as películas de digitais pelas de Herr Münherr, principal diretor do Projeto Lucy, cujas retinas também haviam sido escaneadas por si e agora eram reproduzidas por suas lentes. Quatro segundos e meio depois, a porta foi destravada.

O caminho diante de si levava por outra série de corredores em anéis dispostos em redor dos elevadores centrais – longos tubos cilíndricos e iluminados que conectavam os andares como um sistema vascular robótico. E se achara as artérias, bastava segui-la para chegar ao coração e, depois, ao cérebro daquele lugar.

A vantagem de grandes complexos informacionais – especialmente subterrâneos – era a incapacidade de se armazenar e processar tudo numa única central. Esta precisava se espalhar, como gânglios nervosos ou a medula espinal humana, em pequenas “filiais” e shafts onde informações menores eram codificadas e repassadas. Estações. E pela lógica, encontrá-las não seria difícil: as mais óbvias se encontravam junto às portas, elevadores e computadores. Mas havia outras, geralmente vinculadas à energia e redistribuição de sinal, que poderia hackear e usar para invadir estações maiores, obter informações e, principalmente, o mapa de todo o núcleo da base.

Escondendo-se das câmeras, mas mantendo sempre um caminhar normal, aproveitando-se de esquinas e sombras, armários e portas para ocultar sua figura de pouca estatura, encontrou enfim o que buscava: uma central de processamento de dados. Introduzir o microchip que trazia oculto dentro da palmilha dos sapatos e obter um mapa completo com as autorizações de Münherr não representou um obstáculo. Sair, contudo, exigiu mais habilidade do que entrar. Felizmente, ventilação de lugares profundos exige ductos diretamente proporcionais em diâmetro à profundidade da edificação, e Romanoff rapidamente se espremeu para dentro das tubulações, encontrando seu caminho para os níveis superiores através do labirinto de metal.

*

Dois dias se haviam passado com rotina similar, até que algo rompesse o ciclo: o comunicador de pulso similar a um relógio que os membros do Programa usavam constantemente recebeu uma mensagem ordenando a Melinda Lambert que seguisse para a Sala XV, geralmente usada para entrevistas e relatórios. Ela não era tola de achar que não haveria algo por detrás disso, e fortaleceu ainda mais a imersão em seu papel: se tivessem a menor desconfiança, trataria de destruí-la com uma atuação impecável, e foi com confiança que rumou para o lugar ordenado, mesmo que seu andar espelhasse apreensão, algo esperado de uma subordinada convocada para um interrogatório.

O silêncio no corredor incomodou e alertou Natasha; geralmente seus músculos se preparariam para o combate, mas ela os forçou a relaxar. Era apenas outro teste. Não podia reagir, nunca, pois seria entregar a si mesma, e no fim, tudo se resumia a não sair do personagem, não importava o que lhe fizessem, mental ou fisicamente.

Assim que abriu a porta, mãos brutas a agarraram com força e bateram contra a parede interna da sala ora vazia. Melinda gritou de susto e dor, encolhendo-se e tentando empurrar para longe quem quer que fosse. O lugar estava escuro demais para observar feições, e tudo o que enxergava era a forma do homem assomando-se sobre ela.

— Pensou que poderia se esconder sob nossas vistas, Black Widow? Você não é tão boa assim. — Ela foi batida novamente contra a parede, e um joelho veio ao encontro de seu estômago, arrancando todo o ar de seus pulmões, fazendo-a dobrar ao meio e cair para frente, trêmula e desesperada, em pânico e choque:

— Do que está falando?! — Sua voz soava cortada e falha de susto, medo e dor.

— Sua farsa pode parecer convincente, mas sabemos quem você é. — Ela não soube dizer se foi um pé ou mão que a acertou no rosto; doeu, obviamente, mas para quem fora treinada na SV, não causava efeito maior que um hematoma brando para um pugilista profissional... Ainda assim, não conteve um grito, e tentou recuar de costas quando seu corpo atingiu o chão. Todos os seus instintos de luta haviam sido voluntariamente suprimidos, e reagia totalmente guiada pelo desejo de fuga. — REAJA!

Era tudo uma armadilha: se soubessem mesmo tratar-se dela, Natasha Romanoff, teria sido uma bala em sua cabeça, e não um espancamento. A sala escura servia para instigá-la ainda mais a reagir e se entregar com a falsa sensação de segurança que isso lhe traria em relação à vigilância da central. Obviamente as câmeras possuíam modo noturno, e captariam qualquer movimento de combate.

— PARE! — Gritou encolhida em posição fetal, quando chutes acertaram suas costas e pernas. Dedos duros se enrolaram em seu cabelo e empurraram seu rosto contra o chão, enquanto chorava e tentava pateticamente se levantar e fugir. Mais golpes se seguiram nas costas, arrancando gritos e pedidos desconexos para que a agressão cessasse. Seu corpo foi bruscamente virado de costas para o chão, e dois tapas no rosto a aturdiram.

— Eu não sou quem você pensa! — Gritou ela, em pranto convulsivo, implorando. — PARE, POR FAVOR! Eu não sei... Não sou! Pare! Por favor, pare!

— Até onde vai sua disposição a não reagir, Black Widow? — Seu atacante, quem quer que fosse, reuniu ambas as mãos da mulher na sua, prendendo-as acima da cabeça, e com a outra desferiu repetidos golpes contra suas costelas. Cada ataque era cuidadosamente direcionado para causar dor e instigar reações, mas não acertar de modo realmente lesivo.

Natália apenas se encolhia no fundo de sua mente, enquanto deixava Melinda reagir como uma mulher normal. Mas quando a mão que a agredia parou de desferir socos para correr por seu corpo de modo mais que sugestivo, foi quase impossível não lutar.

— NÃO! O QUE ESTÁ FAZENDO?!

Em vez de resposta verbal, mais um tapa, agora bem mais forte, e então um aperto forte em seu seio esquerdo, arrancando um grito de agonia dela; seu decote foi rasgado até expor o sutiã, o peso de seu agressor todo sobre seus pulsos e coxas, de um modo que apenas uma lutadora treinada poderia escapar, e então a boca dele estava em seu pescoço, mordendo até que ela sentiu a pele quebrar, e uivou em desespero.

— NOSSOS SUPERIORES VÃO ARRANCAR SUA PELE, SE FIZER ISSO! NÃO! SOLTE-ME!

Seus gritos, pedidos e ameaças foram totalmente ignorados enquanto outra mordida rompia a pele, agora no seio direito, e a mão brutal estourava o botão e zíper de seus jeans brancos para se enfiar entre suas coxas.

Contorcendo-se e chorando, a espiã já enviava a própria mente para o distanciamento que usara em cada vez que tivera de deixar seu corpo ser abusado e violado, um modo de sair daquele horror tão incólume quanto possível, enquanto sua personagem desistia de lutar, garganta ferida pelos gritos constantes, e apenas tremia e chorava.

De repente, tão rápido quanto começara, o ataque acabou. O abuso iminente se interrompeu enquanto quem quer que fosse o agressor saía de cima da mulher, a voz agora quase suave quando permitiu que ela se encolhesse, abraçando o próprio corpo e trazendo os joelhos para junto do peito, em choque.

— Perdão, doutora. Foram ordens. A Viúva Negra está nessa instalação, e precisávamos ter certeza de que não era ela, se passando pela senhora.

Lambert não respondeu ou reagiu, apenas chorando em silêncio no mesmo lugar, em choque demais para se mover, incapaz de encarar quem a ferira tão friamente, encolhida em tentativa de se ocultar em si mesma. Todos os seus músculos tensionaram, e o choro ficou mais forte quando foi erguida pelos braços do homem sem rosto – não queria olhá-lo, não queria saber quem era – e carregada por tempo indeterminado, até que suas costas maltratadas pousaram devagar numa cama macia. E mesmo que Melinda estivesse em choque e alheia ao mundo, Natalia não estava, e captou cada uma das palavras:

— Ela nem mesmo esboçou uma reação profissional. Essa mulher não sabe lutar mais do que uma civil qualquer. Não tem como ser ela.

— Nem mesmo um indício? Tem de ser, as câmeras a pegaram no setor interno...

— Se a Viúva Negra está aqui, pode estar brincando conosco e mudando de identidade o tempo todo. Escondida na tubulação de ar, nas casas de energia ou qualquer outro lugar, e assumindo aparências aleatórias ao seu bel-prazer. O senhor me pediu para testar se essa mulher, especificamente, era ou não a espiã, e não há nenhuma possibilidade de resposta afirmativa. Esta É a doutora Lambert. Se usasse qualquer força adicional, causaria lesões graves, e ela apenas... Reagiu como uma pessoa normal. Não. Não é a Black Widow. Ninguém conseguiria suprimir reflexos a esse ponto: as câmeras podem comprovar.

Natasha sorriu internamente, enquanto mantinha a fachada de mulher em choque após sofrer um horrível abuso físico; seus olhos abriram muito levemente, apenas o suficiente para entrever seu agressor e a pessoa com quem falava: o primeiro se tratava do mesmo agente que a socorrera no dia em que fora baleada – Artois, se não lhe falhava a memória – enquanto o segundo era o braço direito de Münherr, um homem calvo e pequeno, de olhos astutos e malignos, na ausência de melhor descrição. Dorcan, ou algum sobrenome similar, que ela ouvira apenas em uma citação por mensagem de voz entre Melinda Lambert e seus colegas. Obtendo o que queria, agitou-se e gemeu, apertando a mão contra o flanco machucado enquanto agradecia ao soro que a aprimorara. Aqueles chutes teriam quebrado os ossos da verdadeira doutora Lambert, tinha certeza.

As vozes finalmente pararam de discutir quando uma terceira, também masculina, porém bem mais jovem, exigiu que saíssem dali, por estarem deixando a paciente agitada. Em seguida, mãos mais gentis começaram a abrir suas roupas, mas a reação da paciente foi veloz: tanto quanto os “ferimentos” possibilitavam, arrastou-se para longe e abriu os olhos com medo, protestando:

— Não me toque! – Quem a fitava era um jovem médico ou enfermeiro na casa dos vinte e poucos anos, mãos erguidas no ar em sinal de paz. Tinha cabelos louros como Steve (que péssima hora para pensar no amigo/amante/namorado) e olhos escuros tranquilos como sua voz:

— Acalme-se, doutora Lambert. Ninguém a irá machucar, aqui, mas preciso remover suas vestes para ver os danos. – E ante a negativa com a cabeça da paciente, e seu tremor incontido, suspirou – consegue ficar em pé?

Em resposta, a espiã se colocou sobre pernas vacilantes, gemendo de dores que não sentia realmente, mas convincentemente fraca e instável aos olhos do moço. Este então lhe entregou uma camisola hospitalar e puxou o biombo para que ela pudesse se trocar; quando voltou a deitar na cama, foi ainda sem ajuda, e o exame físico foi bastante lento, pois cada toque era rechaçado ou provocava movimentos de fuga. O tratamento de ambas as mordidas foi ainda mais penoso, especialmente a localizada no seio.

— Dra. Lambert, eu creio que já sei a resposta, mas é uma pergunta necessária: foi sexualmente abusada? Quero dizer... O ato chegou a se consumar?

Lágrimas encheram os olhos da “médica”, que meneou a cabeça negativamente antes de responder num sussurro:

— Não houve penetração. – e exausta, secou os olhos com uma das mãos. — Por favor, eu só preciso descansar, e de algo para a dor. Não quero mais ninguém me tocando, agora.

O jovem concordou, medicando-a com anti-inflamatórios e antibióticos para evitar que as mordidas infeccionassem – mais um lembrete a Romanoff dos benefícios de seus aprimoramentos: ser capaz de se curar praticamente sem ajuda, na grande maioria das vezes – e então dando-lhe cobertas térmicas para que repousasse. Sem mais nada a fazer, a espiã esperou estar sozinha para consultar mais uma vez o banco de dados anônimo que criara para si à partir dos dados roubados com o microchip. Já conhecia perfeitamente as instalações, e transferira para sua nuvem de dados listas de nomes, lugares e fichas completas de missões realizadas por agentes da HIDRA. Tudo isso apenas corrompendo o pequeno relógio-computador que levava o tempo todo consigo. HIDRA podia não ser um bando de amadores, mas haviam se esquecido de que tampouco ela era, e a ironia da situação curvou momentaneamente seus lábios: a organização financiara a criação de quem os derrubara, e vinha paulatinamente encontrando e aniquilando o que restara. Queriam uma superespiã... Bem, haviam criado uma. Apenas não haviam imaginado que esta jogaria no lado oposto do tabuleiro.

*

Dois dias na enfermaria foram suficientes para os ferimentos diminuírem consideravelmente – e Natasha só podia agradecer pela alta, pois espancar a si mesma quando ninguém estava olhando, a fim de manter os hematomas aparentes, não era exatamente a coisa mais agradável do mundo. Nesses dias, para sua infelicidade, Von Hecker tomara o lugar do outro médico, ainda que tal não fosse sua função, fazendo-lhe companhia e tratando de seus machucados nos horários livres de que dispunha. Conversavam muito sobre Lucy, e estava claro que o geneticista nutria pela menina não exatamente amor, mas o orgulho e afeição que um inventor ou artista dedica a sua maior criação. Eventualmente a espiã captou ideias reprimidas de retirar a menina dali, onde seria destruída e sub-aproveitada, mas foram falhas pontuais e momentâneas, que dificilmente outra pessoa notaria. Ainda assim, diminuiu levemente sua antipatia pelo homem. Apenas levemente: ter adoração por sua obra-prima não eliminava o número de crianças e mulheres que torturara e matara, até alcançar a combinação perfeita. Independente de possuir um lado brando ou não, Izmar receberia uma bala na cabeça, e isso ainda era uma morte muito mais rápida e limpa do que merecia.

Os dois dias afastada lhe haviam permitido traçar meticulosamente seu plano: os mutantes estavam divididos em dois grupos, de acordo com seu poder... O primeiro consistia em crianças concebidas na instalação ou sequestradas que apresentavam dons singulares ou potentes, por vezes ambos, e fariam parte da Fase Dois do Projeto Lucy, quando os genes da garota começassem a ser recombinados com outros tipos de mutações, criando mais exemplares da nova raça meta-humana; estes eram mantidos em níveis inferiores, junto à própria Lucy, em instalações de segurança elevada que podiam ser totalmente bloqueadas por blindagens a qualquer momento de crise. O segundo grupo era considerado descartável, mantido mais na superfície, utilizado basicamente como suporte para o primeiro grupo: oponentes nos combates, alvos, meios para testar e aprimorar as habilidades. Embora deixados em níveis superiores e menos seguros, suas celas individuais também possuíam os mecanismos de blindagem de emergência. Ela usaria isso, quando acionasse a ação dos X-Men: cerraria as celas após o toque de recolher, quando os demais estivessem prestes a chegar, e causaria uma distração grande o bastante sabotando a central de comando... Um incêndio bastaria. Em meio à confusão, tiraria Lucy dali, matando o maior número possível de envolvidos naquele lugar abominável. Simples de falar... Não tão simples executar, mas não chegava a ser impossível. Fizera coisas piores quando ainda era adolescente.

De volta ao próprio quarto, abriu mais uma vez a mensagem recebida pela manhã de seus superiores, a qual lhe exigira muita determinação para não explodir o lugar inteiro por conta própria: Lucy seria submetida à eletroconvulsoterapia de alta intensidade, a fim de minar sua resistência e torna-la mais “receptiva”. A resposta da espiã, alegando que estímulos elétricos cerebrais poderiam danificar ou modificar drasticamente os poderes da menina foram respondidos com os protocolos de execução do procedimento, que incluíam a não-sedação e o monitoramento da atividade cerebral por meio de um leitor eletromagnético, enquanto os eletrodos afixados à cabeça disparavam as descargas gradualmente mais intensas.

Ela não se orgulhou nem um pouco de como suas emoções quase saíram ao controle, pura efervescência de raiva, seu coração se apertando em angústia enquanto sua mente revivia as sessões de eletrochoques, a dor excruciante, o modo como a noção do “eu” parecia se desintegrar, as perguntas se tornando névoa dissipada ao sol, a vontade minada, restando apenas os conhecimentos técnicos martelados tão intensamente em si, que se haviam tornado mais parte dela mesma do que a capacidade de falar sua língua materna. A passividade e obediência resultantes, sem questionamentos, sem compreender por que fazia o que fazia, mas incapaz de desobedecer... A ideia de Lucy submetida àquilo despertava o que havia de mais obscuro em Natasha, e construía em si uma determinação férrea. Tinha menos de 8 horas para executar seu plano, portanto, era melhor começar imediatamente. Indo para o armário, recuperou as vestes que usava no dia da gala e encontrou os brincos com comunicadores. Sem palavras, enviou um código vermelho para Jean Grey, e outro para os Avengers. Lucy seria levada ao toque de despertar e, se os amigos ainda não estivessem ali, precisaria resolver o problema sozinha. E pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo parecido com medo... Não por si, mas por Lucy. Falhar não era uma opção, dessa vez.

*

Ninguém poderia dizer que a doutora Lambert agia com menos do que impecável profissionalismo ao falar baixinho com a garota em pânico, acalmando-a para que as restrições isolantes pudessem prender seu pequeno corpo à mesa. Lucy chorava e soluçava, implorando para que não fizessem aquilo, mas todos permaneciam alheios aos pedidos aterrorizados da criança enquanto preparavam o equipamento. Eletrodos afixados em suas têmporas, atrás das orelhas e na nuca, e outros em todas as grandes articulações, diretamente sobre os nervos principais. Quinze pessoas iam para lá e para cá, configurando os leitores, programando os geradores de corrente, inicializando os softwares de leitura...

Enquanto tudo isso ocorria, a médica morena se mantinha ao lado da ruivinha, impassível, contendo-a quando necessário, usando palavras doces para acalmá-la. Apenas uma excelente fachada, enquanto o cronômetro da distração programada chegava cada vez mis perto de zero: na noite anterior, Natasha se esgueirara pelos túneis de manutenção de energia e, com equipamento encontrado no próprio complexo subterrâneo, instalara diversas bombas que acionariam as blindagens. Dentro de dois minutos, todas as portas da base seriam seladas, e as explosões apenas continuariam, mantendo a situação por tempo suficiente para a Black Widow assassinar todos os presentes na ala em que se encontravam, libertar Lucy e ir para a sala de comando principal, onde acessaria de fato todas as informações mantidas naquele inferno. 59 segundos... 40...

Quando a contagem chegou a 30, a máscara da Viúva Negra caiu: um movimento rápido arrancou um cabo de energia da tomada, transformando-o de imediato em um garrote improvisado, que se enrolou em um segundo na garganta do indivíduo ora curvado sobre Lucy. A espiã fixou seu pé direito sobre as vértebras e, com um solavanco, agora havia um cadáver no chão, o pescoço quebrado.

Num movimento contínuo, Natasha agarrou o braço de uma mulher e o rodou sobre si mesmo, deslocando o ombro dela enquanto a mão livre encontrava o jaleco de um homem e puxava seu rosto diretamente contra o joelho da assassina, esmagando os ossos faciais. Remover os fios conectados aos eletrodos de Lucy levou um segundo, e novamente estava munida de algo similar ao Fio da Viúva; deslizou sob um golpe em sua direção, torceu os cabos em torno do pulso do agressor e usou o impulso pra arremessá-lo sobre mais um. O caos e perplexidade dificultavam a reação ao grupo de civis, tornando-os ovelhas que a assassina imolava sem misericórdia: pescoços partidos, olhos e nucas perfurados por agulhas grossas, cabeças arrebentadas contra a parede. Doze jaziam no chão, sem vida, quando um dos sobreviventes conseguiu apertar o botão de emergência: em um segundo, Romanoff fraturara sua traqueia, mas as portas se haviam aberto e seis seguranças armados entraram no espaço.

Com Lucy como sua prioridade, Natalia empurrou a maca para trás, perto do maquinário, a fim de tirá-la da rota de tiros enquanto ela mesma se desviava do primeiro disparo, alavancando o cotovelo do agente diante de si contra o próprio ombro de modo a partir o osso e libertar a arma de seu aperto, disponibilizando-a para a ruiva. Um tiro direto na nuca do primeiro, e seu corpo dançou por entre os demais, promovendo fogo cruzado quando golpeava mãos ou usava corpos como escudos vivos. Foi rápido demais, fácil demais, breve demais. Tudo aquilo se passara dentro dos trinta segundos, pois só agora o som das explosões se fazia ouvir, disparando alarmes e acionando o trancamento automático de todas as portas, o que deixou a assassina isolada com Lucy e suas duas últimas vítimas: Hadjid e Hecker. O primeiro levou uma bala entre os olhos, mas o segundo, para a surpresa de Romanoff, desatara as restrições de Lucy e a mantinha atrás de si.

— Afaste-se, Hecker. Isso não vai te salvar. – Havia um alerta genuíno na voz de Natasha. Se ele obedecesse, teria uma morte rápida; se ferisse a garotinha, a russa teria prazer e arrancar sua traqueia com as mãos nuas.

— Sei que não. Apenas seja rápida, é o que peço. – Ele soltou a garotinha, que correu para Natasha e se agarrou a ela, cuja mão ainda apontava a arma para o homem. – Não deixe que a destruam, Romanova. Lucy é única.

— Ela é, mas você nunca entendeu o quanto. – Escondendo o rosto da criança contra si, Natalia puxou o gatilho, fazendo sangue e cérebro voarem nas paredes já manchadas. Izmar não merecia a morte rápida que teve, mas não havia tempo para isso. Livrando-se do jaleco e dos saltos, retirou dos cadáveres dos soldados as armas e munições que lhe seriam úteis, arrancou do rosto o modificador de feições e, com a voz ainda abafada pelo som ensurdecedor das explosões, abaixou-se e encarou a pequena, que não sabia como reagir. Por reflexo, passou os braços da garotinha por seu pescoço e a acomodou em sua cintura, do lado esquerdo, onde seu corpo ofereceria maior proteção à pequena, e seu braço poderia evitar golpes direcionados à criança. Ao mesmo tempo, tinha as mãos livres para atirar. – Segure firme: preciso das mãos livres. Se alguém nos atacar, solte e fique atrás de mim.

Lucy sequer pensou em desobedecer, agarrando-se com firmeza à mulher ruiva enquanto esta trabalhava na fiação para abrir a porta, e mais ainda quando Romanoff iniciou seu percurso em direção à central, onde havia grandes armários de adamantium nos quais poderia esconder-se com a menina, até chegarem reforços. Tony confirmara a vinda, portanto, deixaria que ele e JARVIS cuidassem do sistema de informações: sua prioridade era a criança em seu colo, enquanto atravessava as plataformas elevadas e corredores fechados pelas portas blindadas, as quais abria por meio de ligações cruzadas nas fiações atrás de cada painel. Não parou por nada, nem mesmo quando oponentes armados barravam seu caminho: cada um deles descobriria do pior modo que a picada da Viúva Negra era quase sempre letal.

*

Estavam ali havia bem um par de horas, o armário de adamantium protegendo ambas contra as sucessivas explosões, desmoronamentos e tiros que asseguravam Natasha da presença dos X-Men. Sentada no chão do armário, tinha Lucy encolhida em seu colo, estremecendo vez por outra quando seu esconderijo sacudia com os eventos externos.

— Está tudo bem, Lucy. Estamos seguras aqui dentro. — Afirmou, ainda tenso a garotinha envolvida em seu braço esquerdo, a mão direita empunhando a pistola pronta para qualquer eventualidade. Usando as modificações que fizera no comunicador interno, tentou novamente contato com sua equipe:

— Hawkeye, Capitão, Stark, vocês copiam?

Em resposta, a porta foi movida das dobradiças e arrancada, revelando as figuras de Clint, Steve e Tony, cujos olhares se tomaram de certa perplexidade ao ver a espiã apontar-lhes a pistola, protetoramente abraçada a uma versão menor de si.

— Deixe ver se entendi... Tem duas de você, agora? — Perguntou Tony, com leve ironia.

— Depois, Stark. — Natasha se levantou com a filha no colo; aliviada como nunca em ver os amigos, permitiu que o Capitão desse um leve beijo em sua testa, ciente do desespero dele em todos aqueles dias, antes de se virar para o Iron Man. — Recebeu o mapa que enviei? — Ela continuou antes que ele verbalizasse a afirmação. — Peça para JARVIS invadir o sistema deles. Têm informações relevantes.

— E a mini-você?

— Vou tirá-la daqui. – Ela olhou para Steve de modo que lhe assegurava estar tudo bem, uma vez que o Capitão claramente procurava a origem de todo aquele sangue. – Estamos bem: o sangue não é nosso. A equipe de Grey tem o controle da situação?

— Já fez sua parte, Nat. — Interveio Clint, ao que Steve completou:

— Os X-Men e o restante do time cuidam de encerrar isso. Você e Lucy precisam sair daqui.

— Eu cuido delas, vocês assumem daqui. — Barton e Tony se entreolharam, e o Homem de Ferro anuiu, voando para longe; o Capitão lançou um último olhar preocupado para Natasha, mas lhe sorriu e sussurrou um breve “cuide-se”, antes de se afastar para encontrar o restante do time, enquanto o arqueiro acompanhava a espiã para fora, direto para um dos carros, olhando a cada poucos segundos para a menininha ruiva e coberta de sangue — o mesmo que cobria Natasha, e muito provavelmente não pertencia a qualquer das duas — agarrada a sua amiga.

A entrada se convertera numa cratera calcinada – evidentemente atingida por um dos raios de Thor – de tal forma que a sensação, após todos aqueles dias, era literalmente a de estar deixando o Inferno. Os agentes se encaminharam para a mata e percorreram algumas centenas de metros até encontrar um dos veículos, bem oculto nas sombras das árvores e longe das vistas de todos. Não houve perguntas, nem a necessidade de muitas palavras.

Natasha entrou no banco de trás com a criança semiadormecida nos braços, o amigo tomou o volante e a encarou pelo retrovisor: era muito óbvio que os dias anteriores haviam sido, no mínimo, bastante difíceis, e não supunha isso pelas olheiras escuras, ou pelo estado calamitoso das roupas e cabelos dela — obviamente resultado das ações mais recentes — mas a sombra em seu olhar. O modo como a garotinha se segurava à espiã também dizia muito sobre o tipo de sofrimento que enfrentara... Ambas pareciam, em resumo, saídas do próprio inferno descrito por Dante.

— Vou levar vocês para casa, Nat.

— Sim. — Ela sabia a qual casa ele se referia. — Obrigada, Clint.

O arqueiro assentiu, passando o casaco que deixara no banco do carona para Natasha. Ela o envolveu no corpo trêmulo de Lucy e a segurou firmemente junto a si, eventualmente sussurrando palavras de conforto em russo, assegurando à pequena que agora estava à salvo, e nunca mais seria ferida.

Notas finais
Ufa, gente! Passou o pior (por enquanto, rsrsrsrs). O próximo capítulo é beeeeem mais light, e veremos Lucy e Natasha interagindo bastante, entre si e com os outros Avengers. Beijos enormes, e até loguinho!!! PS - qual cena foi a favorita de vocês?