Notas iniciais
Olá! Aqui estamos com uma nova história, diretamente relacionada à fic da senhorita CrowKiss (In The Sky: Após a Queda, no Spirit). Para os que já me conhecem (Elvish Song) de outras fics, não me matem, que vou continuar!
Bem, essa fic se inicia imediatamente no final de Capitão América: O Soldado Invernal, e se estende pelos eventos que se seguem. Aqui iremos utilizar linhas temporais tanto das HQs, quanto dos filmes, mas prometemos não deixar confuso. Ademais, esperamos que seja uma leitura agradável!
Beijos, e bom divertimento!

Nuremberg, 2010

Natasha acordou com o frio da mesa metálica em suas costas, e por um momento a confusão mental levou-a de volta à Sala Vermelha. Isso acelerou momentaneamente sua respiração e pulsação, denunciando a consciência para quem quer que estivesse ao seu redor através dos sons dos monitores.

— Ah, está acordada! – Disse uma voz feminina, em alemão. – Finalmente. Eu diria que isso é bom, mas claramente depende do ponto de vista.

A espiã tentou virar a cabeça, mas foi incapaz de fazê-lo: seu queixo e testa eram firmemente travados por peças de metal, os pulsos envoltos por algemas apertadas, assim como os pés, com cintos de couro atravessados sobre suas coxas e peito, tão justos que era difícil inspirar profundamente. Ah, não... Vacilara, e acabara alvejada com dardos tóxicos. O que significava que, agora, fazia parte dos “experimentos”... Fury ia acabar com sua raça.

— Melhoramento genético em seres humanos. Os países soviéticos trabalham nessa droga há mais de 70 anos, com um fracasso atrás do outro. – Disse a agente imobilizada, testando as algemas. – A Corporação X não sabe quando o jogo acabou.

— Ah, agente Romanoff... O jogo não acabou. – A mulher alemã entrou no campo de visão de sua vítima, e de imediato uma agulha grossa perfurou a perna de Natasha. Uma broca, na verdade, pois perfurou o osso até a medula. A vontade de gritar foi grande, mas a Viúva Negra não daria essa satisfação a ninguém, emitindo apenas um gemido alto, as mãos cerradas em punho. — Na verdade... Está apenas começando. — Através da abertura da broca de 3 mm, foi inserido um cateter para sugar a medula óssea. — Veja que estranha sorte: agora temos você, um dos maiores, se não O maior sucesso da Operação Black Widow. Decifrar seu código genético e a composição do soro em seu corpo elucidará melhor do que nunca como uma mutação pode ser infligida a todas as células de um indivíduo adulto. Mas é claro... — A cientista inseriu outra broca, na outra perna de Natasha, cuja respiração ficou descompassada ante o esforço de suportar a tortura. — Precisamos de uma grande quantidade de material genético de boa qualidade. De todos os tecidos, apenas na remota hipótese de você sofrer de quimerismo.

Quimerismo era uma condição rara, em que diferentes partes do corpo de uma pessoa apresentavam diferentes conjuntos genéticos. Um evento que afetava poucas dezenas de pessoas no mundo, o qual a ficha médica de Romanoff apontara como inexistente em seu organismo. E a Sala Vermelha fora meticulosa ao procurar, a fim de ter certeza dos resultados. A Corporação X sabia disso, portanto, o procedimento não era senão tortura pura e simples. Bem, se havia ainda alguma dúvida quanto à psicose de sua algoz, desapareceu quando ela utilizou a lâmina automática para remover um longo retângulo de pele na barriga da outra, camada por camada, até alcançar os músculos. Agora Natasha lutava e se debatia, até mesmo gritava, para a satisfação da Dra. Krasser, como seu crachá a identificava, cujo rosto estampava pura aprovação em relação ao próprio trabalho.

— Que pena. Eu esperava bem mais da Viúva Negra. Talvez não seja tão boa quanto...

A loira nunca terminou a frase, pois os gritos e contorções não haviam sido mais do que uma distração criada pela russa, que conseguira soltar a mão direita e apanhar um bisturi sobre a mesa de instrumentos. Lâmina essa que agora jazia cravada na têmpora do ora cadáver, enquanto Romanoff se livrava das restrições. Sua mão direita tinha um polegar fraturado na base, e a pele do dorso arrancada pela manobra de escapada, mas ao menos a agente estava livre. Estar nua e desarmada era um problema menor: removeu as brocas de suas pernas, xingando mentalmente, e pegou as vestes da mulher a quem matara, envergando-as. Cuidou de destruir o equipamento e contaminar as amostras retiradas de si, antes de ir atrás de continuar a missão para a qual fora enviada: roubar todas as informações do laboratório, e passá-las à SHIELD. Ela completou a missão, é claro, mas não antes de perceber que a corporação injetara algo extremamente agressivo em si. Quando retornou ao ponto de coleta, seu corpo queimava em febre e dor como se ardesse em uma fogueira...

New York, 2014

Natasha despertou bruscamente, percebendo ainda no sono uma presença em seu quarto, seus reflexos fazendo-a alcançar a pistola sob o travesseiro e já se sentar com a arma apontada para o invasor. O brilho do escudo redondo, branco, vermelho e azul, a fez reconhecer de imediato quem ali estava, e praguejar:

— Merda, Steve! Está tentando morrer?! E quem entra de escudo no quarto de outra pessoa?! — Largou a arma no criado-mudo e se levantou, ainda levemente trêmula das memórias. Ver o soldado, mesmo que ela jamais fosse admitir isso em voz alta, ajudava a espantar os fantasmas do passado; ela quase podia sorrir ao vê-lo em bermudas e camisa, tão à vontade ali, em seu quarto.

— Pareceu prudente entrar com o escudo no quarto de alguém que dorme com uma arma e acorda disparando antes de saber em quem. — Ele deu um meio-sorriso e largou sua proteção, indo até a mulher. Não era a situação adequada para esse tipo de comentário, mas ele nunca conseguiria deixar de sentir o coração acelerado ao se ver sozinho com a moça. — Pesadelos de novo, não é? Você estava gritando. – Ele conhecia a amiga bem o suficiente: haviam sido gritos de dor. E mesmo que ela reafirmasse a própria força todos os dias, através de ações e palavras, o instinto protetor de Steve falava mais alto. Não porque ela precisasse, mas porque... Bem, eles cuidavam um do outro. Desde que o Capitão voltara à ação, após o congelamento, haviam cuidado um do outro, mesmo com suas divergências.

— Quando se sonha com algo que já ocorreu, trata-se de um pesadelo, ou de uma lembrança? – Perguntou a espiã, a voz firme e aparentemente indiferente, mentindo antes para si mesma do que para ele, numa tentativa de se convencer de não ser importante. Mas Rogers a conhecia bem demais, e puxou a Viúva Negra para seus braços, beijando sua fronte.

— Nat, se vai mentir, para mim ou para si mesma, ao menos tente soar convincente. Foi você mesma quem me ensinou que a melhor mentira é aquela na qual você acredita. — Havia um tom leve em sua voz, enquanto acariciava as costas da amante, que se rendeu e passou os braços por sua cintura. — Não precisa fingir, comigo: você ainda está tremendo. Do que estava se lembrando?

A ruiva suspirou e o puxou consigo para a cama; o Capitão era o único que se atrevia a invadir daquele modo não apenas seu quarto, mas seus sentimentos. Verdade seja dita, não era ruim ter alguém em quem confiar... Pelo menos tanto quanto Romanoff fosse capaz de confiar em outro ser humano, além de Clint Barton.

Deitaram-se juntos, o americano acomodando-a sobre seu peito e mantendo os braços ao seu redor, até finalmente a espiã se obrigar a dizer:

— Nuremberg, 2010. Sonhei que estava novamente na sala de experimentos. — Deu de ombros, inexpressiva. — Não me afeta, quando estou acordada. Mas o subconsciente é fraco.

— Não. É apenas humano. Você não é de aço, sabe? Mesmo que pareça, às vezes. — Ele acariciou o rosto que se lhe tornara tão familiar e querido. — Toda armadura tem brechas, Tasha. Até a sua. É o que nos torna humanos.

— Por isso deixo você e seu escudo sempre atrás de mim — Respondeu ela, com um tom mais leve e divertido, tencionando mudar o rumo da conversa e banir os sentimentos de vulnerabilidade anteriores. — Você guarda as minhas brechas, e eu as suas. Não era o acordo?

— Sempre. — Steve Rogers se sentou, a mão esquerda no rosto da parceira enquanto unia seus lábios num beijo calmo e demorado. Afastou-se para perguntar se ela desejava que pernoitasse ali, quando Natasha eliminou a distância entre seus lábios e corpos a um só tempo, montando em seu colo, os braços em redor de seu pescoço. Muito bem, isso era claramente um pedido para que ficasse, e como poderia recusar?

*

Natasha acordou antes, com os primeiros raios do Sol; por algum tempo fitou Steve, apenas admirando o sono tranquilo dele. Seu semblante, no sono, tornava-se sereno como o de uma criança; havia ali uma pureza e inocência que nenhum dos horrores que já haviam visto pudera tirar. “O sono dos inocentes”, dizia o dito popular, e nada podia descrever tão bem aquela cena.

Ela nunca fora dada a romances e contemplações, mas com o americano... Com ele as regras do jogo vinham se tornando diferentes, e isso a assustava. Com todas as outras pessoas ela possuía um “plano de contenção”, um modo de chantageá-las e manipulá-las, uma ressalva sobre confiar e se entregar, porque podia ver a escuridão de cada um. Não era assim com o Capitão. Ele não possuía um lado realmente sombrio – não quando comparado a todos que a mulher conhecia – e a agente o admirava profundamente por isso. Admirava, confiava, aprendia com Steve... Mas as coisas vinham se tornando pessoais demais. Íntimas demais. Se ela fosse um pouco menos egoísta, iria se afastar antes que suas trevas pessoais fizessem mal ao homem. Sua mente gritava que devia se afastar antes de os laços formados se tornarem mais estreitos, e ainda assim, algo continuava a puxá-la para Rogers. Sentimentos com os quais preferia fingir não estar familiarizada, pois reconhecê-los e admiti-los era... Impensável.

“Estou ficando mole.” Repreendeu-se a espiã, levantando-se da cama e recolhendo a camisola esquecida no chão antes de entrar no chuveiro. Um banho frio sempre a ajudava a colocar as ideias em ordem, mas hoje parecia surtir pouco efeito para desligá-la dos sentimentos. Gostaria que fosse paixão, pois tornaria tudo mais fácil: com paixão e desejo ela sabia lidar. Mas em vez disso, a amizade com benefícios que vinham mantendo parecia se tornar algo diferente de tudo. Não era como a amizade com Clint, seu parceiro e amigo incontestável, que sabia tudo sobre ela, que lhe dera uma nova chance de viver. Não era como a aproximação com Banner. Como amizade, era mais sutil e individualizada, ao mesmo tempo que atada pelos vínculos de passar juntos através de tantas situações de risco, num elo bastante sólido. Como envolvimento pessoal, aos poucos fugia ao controle da mulher, porém de um modo que a fazia não querer retomar o comando. Uma situação a tecer por conta própria uma trama que não estivera nunca nos planos da Viúva Negra.

— Pare de ser estúpida, Natalia. – Sussurrou para si mesma. – Amor é para crianças. Romance não tem nada a ver com você, nem com sua vida, e sequer é o que está sentindo. Pare de sentir essas coisas de menininha idiota e encare a realidade.

Seu conlink apitou, e ela atendeu saindo da água:

— Bom dia, Tony. Os rapazes estão todos aí?

— Faltam você e o Rogers. Imagino que a noite tenha sido longa, mas precisamos dos dois aqui.

— Nem todos viram a noite como você, Stark. Pessoas normais precisam de sono. Vou me trocar e procurar o Steve. – Incrível! As mentiras mais descaradas e sem importância eram as que soavam mais naturais, quando falava com a equipe. Sem dar a Tony qualquer chance de fazer algum comentário descabido, desligou e se vestiu com roupas normais. Steve se mexia levemente, parecendo prestes a acordar e isso a fez sorrir:

— Bom dia, Capitão América. — Chamou, apoiada no batente entre o quarto e o banheiro. — O mundo já acordou, e temos trabalho a fazer. Tony e os outros já estão lá embaixo. – Viu os olhos azuis do soldado se abrirem e, ainda com expressão serena e satisfeita, jogou para ele as roupas que usava ao invadir seu quarto – Melhor se trocar, se não quiser o Stark fazendo o inferno com piadas idiotas. – Agindo com naturalidade, os sentimentos confusos de mais cedo empurrados para bem fundo em sua mente, começou a arrumar os cabelos bagunçados enquanto Steve se vestia. E teria sido uma manhã normal para “amigos com benefícios”, se ele não viesse abraçá-la e beijar seu rosto, permanecendo com os braços ao seu redor.

— Bom dia, Nat. – Rogers sorriu e virou a mulher para si, um tanto frustrado quando ela se esquivou com o típico olhar “Romanoff” – atrevido e provocador – e protestou:

— Vá se arrumar logo, Capitão! Assim vou achar que você está apaixonado por mim.

— Não estaria nas regras que estabelecemos para que isso funcionasse, suponho? – Ele perguntou, em tom igualmente atrevido.

— Devíamos redigir um contrato. – Steve riu de seu comentário e roubou um beijo da mortal espiã, que lhe deu um tapa fraco na barriga em retribuição. – Vá se arrumar. E se Stark pegar no nosso pé, a culpa é inteiramente sua.

— Vou anotar. – Concluiu o loiro, indo para seu quarto e deixando Natasha com uma leve vontade de rir. Era um bobalhão!

Ela desceu despreocupada, falou um “bom dia” para todos e ninguém especificamente, pegou seu sagrado café matinal, seu elixir do bom-humor... Tudo estava absolutamente normal, até Tony entrar na cozinha, sério o bastante para fazer até mesmo Banner se distrair de sua leitura.

— O que houve, Stark? – Perguntou o médico, estranhando o amigo, que raramente tratava algo com tal seriedade.

— Precisamos falar a sério, Romanoff. – Natasha franziu o cenho: detectava na voz de Tony algo que não condizia com a seriedade de sua expressão, então apenas cruzou os braços e o encarou com ar intrigado. – Quando você e Rogers vão se casar?

— O QUÊ?! – Os cinco outros Vingadores perguntaram em uníssono, o Capitão ainda no meio da escada, quase tropeçando nos degraus:

— Que insanidade é essa, agora, Stark?!

— Enquanto a Natasha saiu com homens aleatórios, a vida era dela. Mas agora essa... Sedutora barata e libertina veio desonrar nosso garotinho virtuoso! Precisa reparar a mancha no nome do Rogers! Levou o menino para sua cama, agora tem de casar! – O olhar da mulher misturava impaciência, ameaça e algum divertimento quando o impediu de continuar:

— É sério isso, Tony?

— Você realmente está monitorando as atividades particulares dos colegas de equipe, eu entendi direito? – Perguntou Banner, sem saber se ria do desconcerto de Steve e Natasha, ou se ficava bravo com Tony. Preferiu não se meter no assunto, ante o olhar da ruiva e a expressão de Rogers: não seria uma boa soltar o Hulk por ali. Thor, porém, não parecia ter os mesmos escrúpulos:

— Não precisam fazer essa cara de espanto, os dois. É tão óbvio quanto o sol num dia claro! Demoraram, se querem saber, mas... Felicitações ao casal!

— E desde quando minha relação com Natasha está aberta para a discussão de vocês, mesmo? – Steve estava realmente incomodado, não apenas por si, mas por encarar as piadas como um desrespeito com Natasha. Antiquado? Sim, mas ele nascera há cem anos. E bastava um olhar para a espiã para saber o quão incomodada ela se sentia. Clint também notou, e censurou os colegas:

— Tony, Thor, já chega. Não é porque as namoradas de vocês passam mais tempo viajando do que ao seu lado, que estão livres para se meter em qualquer que seja o relacionamento de Nat e Rogers. – Mesmo querendo encerrar o assunto, havia diversão em sua voz. Pelo canto do olho, ele encarou a amiga de modo surpreso e debochado, e ela lhe fez um gesto obsceno, discretamente, um riso quase escapando. Sim, mais tarde eles se alfinetariam em particular. Longe dos ouvidos do Capitão, e de Tony.

— Mesmo porque, é ridículo. Estão agindo como dois meninos de colegial. – Declarou a Viúva Negra, se servindo de frutas e pão quente para o desjejum. Mas nem mesmo ela estava realmente zangada; já esperava por isso, mais cedo ou mais tarde, quando a equipe descobrisse.

— Mas isso é um evento! – Continuou Tony, agora rindo – A Viúva Negra se envolvendo com alguém que ela não pretende matar, e Capitão América, bom... Envolvendo-se com alguém.

— Você não sabe segurar a língua, sabe, Stark? – Perguntou o soldado, revirando os olhos. – Natasha e eu somos adultos, e prezamos nossa privacidade. Se já se divertiu anunciando para todos, eu agradeceria se nos deixasse resolver os assuntos pessoais por conta própria.

— Steve, no seu lugar, eu fingiria não ouvir. – Bruce voltara a ler a revista. – Ele não vai sossegar, enquanto conseguir te constranger.

— Pelo menos vamos brindar! Steve Rogers já não é mais um menino inocente! E claro, temos que arrumar o casamento.

— Às vezes eu te odeio. – Disse o loiro, entre enfado e diversão. Não havia motivos para mau-humor, afinal, e quanto mais a sério levasse o assunto, mais incomodado ficaria. Bruce tinha razão: aceitar a brincadeira era o jeito mais rápido de fazê-la acabar.

O assunto morreu pouco depois, quando começaram a tratar da construção da nova sede para os Vingadores, bem como da rede de informações constituída pelos ex-agentes da SHIELD que não haviam sido comprometidos pela HYDRA. Rede essa coordenada por Stark, Maria Hill e Nick Fury, e constantemente alimentada por Barton e Romanoff, com boa ajuda de Sharon Carter. Agora vinham recebendo informações sobre localizações de bases reminiscentes da HYDRA, e tinham de agir para evitar que a corporação voltasse a se espalhar!

— Conheço esse lugar. – Disse Natasha, indicando a base em Nuremberg. A SHIELD pensava ser espaço de ação da Corporação X, eu roubei todas as informações... E as entreguei de volta ao proprietário... – Ela esfregou o rosto com uma das mãos. Não deixava os colegas perceberem, mas a queda da organização a quem pensara servir a abalara. Como dissera a Steve, trocara a KGB pela Hydra. Um mal por outro, ainda maior. E de certa forma, organizações associadas, uma vez que HYDRA se infiltrara na maioria dos governos mundiais, e o Serviço Secreto russo não fora exceção. – Se formos desativar o local, tenho o mapa e dados...

— Calma, Romanoff. – Pediu Thor. – Atacá-los a esmo não vai adiantar; preciso encontrar o cetro de Loki; é um artefato poderoso demais para ficar nas mãos dessa organização, e se os atacarmos, o usarão contra nós.

— Eles têm esse objeto há dois anos: estava numa das unidades europeias da SHIELD.. Já estão usando contra nós, antes mesmo de que soubéssemos. E não vamos conseguir mais informações ficando parados: vou para Nuremberg, investigo o que o Fury mandou, desmonto a base e, com alguma sorte, posso rastrear o cetro a partir de dentro.

— Estão faltando pessoas na sua última frase. – Declarou Barton. – Mas concordo com Romanoff; vale a pena ao menos uma investigação.

— Você concordando com a Viúva Negra... Deveria me espantar? – Perguntou Tony. – Mandar vocês dois é iniciar um protocolo de destruição.

— Que gera uma boa quantidade de informação, antes de se concluir. – Observou Banner. – O máximo que posso fazer é ficar no jato, para apoio médico. Não queremos um Código Verde, se a ideia é ser sutil.

— Ser sutil já deixa Thor e Steve de fora, também. – Considerou Stark – E antes que proteste, Capitão, teremos muita ação para recuperar o cetro. Mas para isso, precisamos acha-lo. Romanoff e Barton fazem isso desde sempre.

— Somos uma equipe. Devíamos fazer isso juntos. – Insistiu o loiro. – Não enviar dois dos nossos para correr perigo sozinhos.

— Louvável sua preocupação comigo, Rogers, mas Natasha e eu já fizemos pior. – Brincou Clint. – Vou preparar o jato. E fique tranquilo, Capitão: trago sua garota de volta, inteira.

— Não digo o mesmo de você, se não fechar essa boca, urubu-arqueiro. – Rebateu Natasha, a expressão séria a despeito do tom de voz. – Ande, vá trabalhar! Eu também tenho o que fazer, e quero sair antes do meio-dia.

O restante da equipe apenas aceitou: não havia muito sentido em discutir quanto à escolha dos agentes de campo. Os dois espiões eram a única escolha, e estavam certos ao dizer que ficar parados seria perder tempo.

— Bom, eles dois estão ocupados. – Disse Thor, quando a dupla saiu. – Tenho um trabalho a fazer, em Vanaheim. Os Nove Reinos ainda precisam de mim.

— Veja se não some de novo. – Alertou Tony – E NÃO OUSE CONJURAR SUA PONTE DE EINSTEIN-ROSEN FORA DO HELIPORTO!

— Anotado. – Respondeu o asgardiano, subindo para o último andar.

— Bem, se não precisarem de mim, também tenho com o que me ocupar. Os Vingadores precisarão de reforços, para operar sem ajuda da SHIELD, e tenho alguns amigos. – Sem dúvidas iria começar por Sam. – Qualquer coisa, sabem meu telefone.

— Celular. – Corrigiram os dois cientistas.

— Nome diferente, mesma função. – Sorriu o Capitão, que ainda frustrava as tentativas de Natasha e Tony em convencê-lo a usar celulares com mais recursos. – Até mais tarde!

*

— Então... – Começou Hawkeye, quando já estavam há um bom tempo em curso, e depois de terem repassado todo o plano. – Desde quando você e o Capitão estão juntos?

— Não estamos exatamente juntos. – A espiã deu de ombros. – Somos amigos, com alguns benefícios.

— Ele se preocupa com você, Nat. Até um cego vê.

— É claro que se preocupa. – Ela o encarou pelo canto dos olhos, checando seu equipamento e recarregando os Ferrões. – Estamos falando do Steve; ele se preocupa com todo mundo.

— Não era disso que eu estava falando. Quero dizer que, para ele, parece algo a mais. – Clint era a única pessoa que ousaria falar desse modo com Natasha Romanoff, e sabia disso.

— Ele é um escoteiro. Protetor, leal... O jeito “Steve”. Mas ambos concordamos que as coisas não poderiam passar do que são, quando isso começou. – Romanoff checou as pistolas, munição, e prendeu as armas aos coldres nas coxas e cintura. – Ele vai se encantar por alguém, cedo ou tarde, e vai esquecer rapidinho dessas escapadas.

Clint franziu o cenho: conhecia Natasha bem o bastante para reconhecer quando a amiga ficava desconfortável com um assunto; e se falar de Rogers a deixava desconfortável – ela nunca tivera problemas em falar de seus amantes, ou do inevitável fim de suas relações – então ela estava mentindo sobre a natureza de seus sentimentos pelo colega de equipe. Se para si mesma, ou para ele, não saberia dizer, mas provavelmente aquilo estava se tornando mais do que apenas algo físico, e a Viúva Negra certamente estaria empenhada em não deixar tais sentimentos crescerem. Isso, porém, era pessoal demais, se não fosse ela a iniciar o assunto, então o arqueiro fez o que fazia melhor: agir como um irmão, mudando o rumo da conversa E alfinetando a ruiva ao mesmo tempo:

— Certo. E desde quando você está enrolando o coitado na sua teia?

— Amizade colorida, Barton – Ela deu um risinho baixo. – Não estou enrolando ninguém. Ele sabe os termos.

— Colorida, é? Pensei que sua cor fosse o preto.

— Vai ser a cor que usarei no seu velório, se não tirar esse sorrisinho idiota da cara, papagaio. – Alfinetou a mulher, segurando o riso; a amizade de Clint era, atualmente, sua única certeza, e como agradecia por ter aquele elo! Parecia a única coisa realmente pura e sincera em toda uma vida de mentiras. O único laço afetivo profundo que ser permitia ter, e o qual não temia.

Barton fez cara feia:

— Papagaio?! – Protestou, fazendo-se de ofendido. – Agora está REALMENTE apelando!

— Ou posso te chamar de Tordo, Katniss. Mas já aviso que, se for selecionado, eu me voluntario em seu lugar.

— Referências a Hunger Games? Você realmente fez isso?

— O Cooper me fez assistir com ele, eu gostei e li os livros. Não julgue.

— Julgo é o que você anda deixando meus filhos verem, quando não estou perto.

— Os desenhos que os colegas dele assistem são bem mais perturbadores. Hunger Games é praticamente o nosso trabalho, Clint. Com pessoas menores de idade.

— Se a Laura ou as crianças fizerem piadas sobre eu ser a Katniss, vou saber a quem culpar. – Nada como mais um dia da amizade afiada e inabalável de ambos. Com sua vida arriscada, Clint ficava feliz em ter Natasha. Em meio aos turbilhões e missões, ela era ainda mais constante do que sua família, ao seu lado em todos os momentos, um ponto de referência que lhe mostrava onde sua cabeça devia estar. Ao contrário de qualquer outra pessoa, ele sabia poder confiar na Viúva Negra com sua vida, como sabia que ela fazia em relação a si. E confiava que ela sempre faria tudo para leva-lo de volta vivo, ou, caso não fosse possível, ao menos estaria lá por Laura e pelas crianças, se ele caísse. “Irmãos” parecia pouco demais para definir seus vínculos, mas era o que mais se aproximava.

— Ok, piadista, estamos chegando. – Informou a mulher, checando os controles de voo. – Passe direto e pouse nessa planície. – Ela marcou o ponto de aterrissagem em vermelho no mapa. – Preparado?

— Quando não estou? – Ele pousou a nave, ainda camuflada, e a dupla acionou seus próprios dispositivos de camuflagem. Antes que desembarcassem, porém, Clint se voltou para a amiga com genuína preocupação. – Eu sei que Nuremberg é uma lembrança ruim. Não se exponha desnecessariamente para provar alguma coisa.

— Já me viu fazer algo desnecessariamente, Arqueiro? – Devolveu a ruiva, com tom irreverente. – Vamos invadir, e causar um pouco de caos. – Sorriu, descendo a rampa do jato. Plantar bombas com temporizadores que criariam distração suficiente para lhes dar tempo de entrar; misturar-se aos inimigos; entrar na sala de comando, causando o maior número de mortes possível sem se anunciar; sair vivos e com as informações. Dois espiões contra aproximadamente trezentas pessoas... Nada particularmente desafiador.

*

— Eu já disse que estou bem! – Protestou Natasha, enquanto Bruce removia os estilhaços de bomba de seu flanco. O médico queria sedá-la completamente, enquanto a Viúva Negra consentira apenas em anestesia local, e agora estava imóvel na maca cirúrgica, deitada de lado e olhando zangada para Clint e Steve, os quais agiam como se ela estivesse prestes a morrer. – Steve, nem pense em me olhar com essa cara. E Clint, pare de se culpar. Eu fiz uma escolha ao não me proteger da explosão: era isso ou perder o que tínhamos ido buscar. E não, não tinha como você pular na minha frente, pelo que fico grata: minha roupa tem uma blindagem maior que a sua. Então os dois podem, por favor, parar de agir como se eu fosse ficar inválida?

— Natasha... Você desmaiou. – Argumentou Barton, cuidando de ficar longe do alcance de um eventual chute.

— É, Clint, acontece quando se bate a cabeça. Mas foram cinco segundos! Fala sério, eu já te nocauteei por mais tempo do que isso, treinando. Você já me deixou apagada por quarenta e dois segundos! Isso foi só um acidente. Alguns pontos, e amanhã estamos de volta a campo. – Ela contorceu o rosto e xingou em russo quando Banner começou a puxar uma lasca de metal profundamente enterrada entre suas costelas. – Ok... Depois de amanhã.

— Sem querer te deixar desanimada, Nat, mas isso vai te deixar de licença por uns quatro dias, no mínimo. E isso contando com sua regeneração rápida. – Interveio Bruce, cauterizando de imediato os vasos que começaram a sangrar quando removeu o fragmento. Natasha xingou de novo, e Clint brincou:

— Ow, que boca suja! Temos um cavalheiro na sala, Romanoff!

— Vá se danar, Barton. – Resmungou o Capitão, chegando um passo mais perto da maca. – Deixe Bruce te dar uma anestesia geral.

— Não é uma boa ideia. – A espiã suspirou, trincando os dentes, e isso fez Rogers instintivamente segurar sua mão livre, a qual ela fechou com força em torno dos dedos do homem, por reflexo. – Da última vez que me sedaram, acordar-me não foi uma situação segura. A quantidade necessária para me apagar é muito alta, então despertar de todo demora alguns minutos, durante os quais posso ser... Agressiva.

— Eufemismo. – Constatou Clint – você nocauteou o médico e dois enfermeiros, além de quebrar o meu nariz quando te segurei. Em cinco minutos, e sem ficar em pé.

— Exato. Não é uma boa ideia. E me conter com restrições ia fazer eu reabrir todos os pontos, lutando.

— Você, Natasha Romanoff, é um caso perdido. – Disse Steve, sorrindo terno para ela. E alguma coisa na espiã dizia a ela para se afastar, para tomar cuidado, mas naquele momento estava feliz por tê-lo ali. A mão dele segurando a sua quando a apertava parecia muito reconfortante, e preocupada em manter sua dignidade durante o procedimento, não pensava nas implicações de se deixar tão vulnerável na frente de Steve. Mesmo porque, pedir para que saísse seria, além de inútil, estranho, uma vez que Barton e Banner continuavam ali. Em última instância, eram colegas e amigos. Mesmo que parecesse muito errado se sentir tão reconfortada simplesmente por ele estar ali.

A sala ficou em silêncio, ouvindo-se ocasionalmente um ou outro gemido da espiã, até que Bruce houvesse removido todos os fragmentos de seu braço, costelas, quadril e pernas, e suturado os ferimentos.

— 150 pontos, Natasha. – Disse Banner, em tom de censura. – Você é praticamente uma colcha de retalhos, do lado esquerdo. E qual é sua paixão por sentir dor?

— Eu poderia jogar basquete. – Brincou a moça, sentando-se e fechando a camisola cirúrgica. – Se já entrar em quadra com 150 pontos, nem o Cap e o Clint juntos viram o jogo. – E ante a pergunta do médico, deu de ombros. – Fetiche? – Nada como mirar em um e fazer dois corarem! Rogers e Banner ficaram de um tom vermelho intenso, obrigando-a a rir. – Ai! Seus tontos, não posso rir! Dói!

— Quem manda ficar torturando os pobres homens de mente inocente? – Provocou Clint, ajudando Natasha a levantar. – Agora que você tem suas partes mantidas juntas por costuras, devo te chamar de Selly, como a companheira de Jack Esqueleto?

— O Estranho Mundo de Jack... Filme infantil já é algo baixo, até para você. – Ela tentou sorrir, apesar de os músculos voltando à sensibilidade protestarem contra ficar em pé.

— Não dá para te chamar de Leatherface, Tasha. Mesmo com seus esforços para mudar o fato, você é bonita demais para isso.

— Trouxa. – sorriu a espiã, virando-se então para os outros dois. – Obrigada, Bruce. Mesmo.

— Sou médico por alguma razão, Nat. É bom poder ajudar sem ser esmagando coisas e pessoas. – Sorriu o doutor, de volta, colocando dois comprimidos na mão da Viúva Negra – Tome, e vai dormir feito uma pedra até amanhã. A dor terá melhorado.

Sem questionar, ela levou as cápsulas à boca e as engoliu com um pouco de água que Steve lhe estendeu.

— Obrigada, novamente, meninos. Por me colocarem inteira, de novo, e aguentarem os xingamentos. – Bom, agora seu corpo começava a protestar de verdade. – Vou tomar um banho e seguir as “ordens médicas”. A gente se vê amanhã?

— Natasha... – Começou Banner, com um leve sorriso. – Nada de basquete.

— Ah! Só porque eu ia detonar o Steve e o Barton. – Ela revirou os olhos, divertida.

— Como você está fazendo piadas, depois de uma cirurgia praticamente a frio?

— Ficar de mau-humor não ajuda, e nem vocês merecem. Não é como se fosse a primeira vez que isso acontece... – Nat largou Clint e mancou levemente para a porta. Mas testar a perna apenas parcialmente sensível não foi uma boa ideia, quando seu joelho cedeu.

Nem Barton viu de onde Steve veio, empurrando-o para o lado e pegando Natasha antes que o arqueiro o fizesse! E em vez de apenas amparar a agente, o Capitão a ergueu nos braços como pegaria uma criança! Por um momento os dois espiões e o médico tentaram processar o que exatamente acontecera, mas no momento seguinte os dois homens morenos ficaram tensos, e Natasha se retesou como um arco pronto para disparar ao se ver no colo de Rogers.

— Steve... Agradeço a intenção, mas faço questão de voltar para o chão.

— É claro. – Havia algum desapontamento na voz masculina, mas ele percebia ter ultrapassado o limite. – Foi um reflexo, e peço desculpas.

— Eu sei. Agradeço se puderem me ajudar, mas apenas ajudar. – Ela aceitou a ajuda de Clint, que passou o braço pelo seu, deixando que se apoiasse nele com o lado são. Steve, constrangido, achou melhor deixar que a espiã seguisse com o melhor amigo, e mais tarde pedir desculpas. Ele achava tolo, mas sabia o quanto Natasha prezava o extremo controle do próprio corpo, mesmo às custas de dores fortes e sacrifício.

— Acho que fiz besteira. – Disse para Banner, que removia o avental, touca e luvas.

— Fez. Mas é a Nat, você sabe que ela não vai ficar pensando nisso. A essas alturas, ela já esqueceu.

— Por que ela faz isso? Não está mais na KGB.

— Ela não confia em ninguém, Steve. Ainda mais depois de tudo com a Shield, ela se sente sempre na mira, e isso não é segredo algum. Ela diz em alto e bom tom que se mantém preparada para qualquer coisa, e deixar-se cuidar, para ela, é mal-acostumar corpo e mente. – Banner parou por alguns instantes. – Ôh, meu pai... Você está apaixonado por ela.

Steve não falou nada, a princípio. Coçou a nuca e encarou o corredor, antes de finalmente encontrar palavras, embora seu silêncio e expressão dissessem tudo ao doutor:

— Não devia acontecer. Não estava no nosso acordo. – Havia algo de triste, mas também de conformado no olhar de Steve – Logo ela vai descobrir, e provavelmente terminar tudo. Ela não se permite fraquezas.

— Eu diria que você pode se surpreender.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que... Você é a primeira pessoa com quem ela se sente à vontade, tirando o Barton. – Disse o contemplativo médico, observador. – Quando segurou sua mão durante o procedimento... Ela confia em você. Não quero te dar falsas esperanças, Steve, mas talvez, só talvez, vocês devessem reconversar os termos desse “acordo’. Ela vai descobrir, cedo ou tarde, você mesmo disse... E será pior se ela descobrir sozinha. Você contar, por outro lado, ratifica a confiança que ela tem em você.

O soldado esfregou o rosto, pensando a respeito, e enfim concordou:

— Falarei com ela, quando estiver melhor. Obrigado, doutor. – Esperou pelo amigo e saíram juntos da ala hospitalar, indo para o andar dos Vingadores, onde se serviram de chá e café enquanto começavam a analisar juntos os primeiros dados já decodificados por Jarvis.

*

Na manhã seguinte, Steve cuidou de escolher os alimentos dos quais Natasha mais gostava, colocá-los em uma bandeja e levar para o quarto da espiã. Ela já acordara, quando abriu a porta, mas os olhos sonolentos diziam que fazia apenas alguns poucos segundos que o fizera. Esboçando um sorriso preguiçoso, a mulher se sentou devagar no leito enquanto o amante colocava a bandeja sobre sua mesa de cabeceira.

— Bom dia, Capitão. – Seu sorriso se alargou um pouco mais – Steve, você me mima demais. Café na cama?

— Para garantir que você vai comer direito, e se recuperar. Os “meninos”, como você nos chama, não sobreviveriam um mês sem você. – Respondeu ele, se sentando aos pés da cama. – Como se sente, Nat?

— Já estive pior. – A moça pegou um cacho de uvas numa tigela, e colocou entre ela e o soldado. – Obrigada. – Levou alguns grãos à boca, e outros à boca do colega, cujos olhos manifestaram surpresa, mas aceitou ainda assim.

— O remédio que o Banner te deu ainda está agindo. Você, sendo carinhosa? – Provocou o loiro, recebendo um cutucão nas costelas em protesto. – Viu? É disso que estou falando. Isso é mais a sua cara.

— Queria saber quando foi que os meninos assinaram essa cláusula de que eu era o melhor alvo para piadas. É praticamente um complô! – Steve amava o modo como a voz dela soava leve quando brincava assim. Geralmente suas piadas eram mais carregadas de emoções densas, e vê-la relaxada daquele jeito era igualmente raro e bom.

— Nós deixamos sua vida mais feliz, admita.

— É claro que deixam. Eu sou masoquista. – Natasha adorava o modo como Steve segurava o riso num contrair de lábios, arqueando levemente as sobrancelhas, um sorriso teimando em aparecer enquanto ficava sutilmente vermelho, nas vezes em que não tinha como rebater uma farpa dela. Depois de quase dois anos convivendo diariamente, já sabia reconhecer os trejeitos do amante. Foi nesse momento que percebeu vir pensando nele frequentemente como algo além de um amigo. Um pensamento geralmente fugidio, mas que agora surgia com bastante frequência. E pior... Por mais que negasse, sabia que o Capitão também não conseguira manter os sentimentos dentro da esfera de amizade. Mas pela primeira vez, não sabia lidar com isso! Tudo o que aprendera praticamente gritava para cortar os laços, mas, ainda mais naquele momento delicado em que toda a equipe — principalmente eles dois – estava fragilizada... Ela não queria. Optou por deixar para lidar com isso quando seu corpo estivesse inteiro novamente, e se permitiu apenas tomar o desjejum na companhia do soldado, enquanto a mente divagava para poucos meses atrás...

Flashback

Era uma sexta à noite, uma das raras vezes em que Natasha e Steve haviam conseguido coincidir seus dias de folga. Ainda empenhada em fazer o amigo ter uma vida além do trabalho — não que ela fosse exemplo para dizer o que fosse, mas ainda assim... — a russa o convencera a sair e ir a um pub. Mas assim que entraram no lugar, a mulher tratou de segurar o riso ante a expressão de desespero do Capitão.

— Romanoff, lembre-me de te matar por isso, quando sairmos.

— Isso não é incentivo para me fazer sair, Steve. — Ela o puxou para alguns bancos perto do bar — Vamos apenas beber como duas pessoas normais, fingindo que podemos ficar bêbados e flertar com quem quisermos, sem culpa.

— Você quer mesmo me desvirtuar. — Sorriu o americano, bastante desconfortável.

— Estou tentando há um ano, mas você não colabora com os encontros que te arranjo. — Ela deu um de seus charmosos sorrisos de lado, e Steve pensou se ela saberia o quão diabolicamente linda era. Ah, é claro que sabia. Era Natasha. — Vou pegar bebidas para nós. Tente interagir com pessoas. — Ênfase clara na última frase, a ruiva se afastou em direção ao bar, e por alguns segundos seu colega a admirou por trás: a silhueta indiscutivelmente feminina marcada e valorizada pelo vestido verde, justo sem ser vulgar, os cabelos vermelhos fazendo um lindo contraste. Danação, e ela ainda lhe pedia que prestasse atenção a outras mulheres?!

Ninguém poderia dizer que Rogers não tentou conversar e interagir; sabia quem era Natasha, e que suas chances com ela eram perto de nulas. Mas a bem dizer, ele era um homem de outro tempo, e a única mulher com quem conseguiu conversar logo o reconheceu como o Capitão América. Isso agitou outras pessoas em redor, e agora tudo o que ele queria era sumir. Pouco depois, porém, um braço feminino passou ao redor de sua cintura, e Natasha surgiu ao seu lado:

— Certo, pessoal, acabou o show! — A maioria provavelmente não a reconheceu, mas Natasha não precisava ser reconhecida para colocar limites nas pessoas: sabia fazê-lo com os olhos. Com a maior naturalidade de namorados há anos, puxou o amigo consigo — Vem, amor, vamos nos divertir um pouco, longe dessas tietes.

Rogers podia apostar que ouviu mais de um xingamento contra Natasha, mas a agente não se importou nem um pouco, a não ser para rir maldosa:

— Suas fãs revoltadas querem minha cabeça, depois disso.

— Por que fingiu estarmos juntos?

— Porque ninguém pode questionar uma namorada ciumenta. Amigas não têm toda essa autoridade.

— Faz sentido. — Concordou o soldado, se sentando junto ao bar. Natasha lhe entregou uma das bebidas e sorriu arteira:

— Então... Como um rapaz como você acabou num lugar desses?

— Uma amiga me trouxe. — Ele entrou na brincadeira. — Ainda estou decidindo se a perdoo por isso, ou não.

— Deve ser uma garota má. — Ela bebericou seu martíni.

— Ela é, sim. Mas não tanto quanto as pessoas pensam. Na verdade, também é divertida, insanamente corajosa, e se importa muito mais com as pessoas do que deixa transparecer. — Ele sorriu de leve. — Uma reputação a manter, acredito. Mas no fim, ela me lembra de outra garota que conheci, há bastante tempo. Peggy Carter.

Nat não conseguiu segurar o riso e quase engasgou:

— Sem essa, Steve. Está confundindo a Bruxa Má do Leste com Glinda.

— Deve existir um meio-termo entre elas, não acha?

— Talvez. — Devolveu Natasha, arqueando levemente as sobrancelhas e olhando para baixo. Os assuntos fluíram entre ambos, à medida que o tempo passava e pegavam novos drinks para experimentar. Até mesmo competiram quanto a quem ficaria bêbado primeiro, desistindo após vários shots que mal os fizeram diminuir os reflexos. Alto metabolismo e resistência a toxinas tornava impossível que ficassem mais do que levemente desinibidos e alegres. Mas ajudou os assuntos a virem, enquanto duas pessoas de quase um século de vida perdiam o receio de falar sobre coisas menos recentes. Não que por algum momento tenham falado de trabalho, ou coisas pessoais demais, mas entendiam o mundo em que o outro nascera e crescera, tornando a comunicação mais fácil.

Em dado momento, Natasha apoiou o rosto em uma das mãos, a outra tamborilando os dedos na mesa, e Rogers os cobriu com os dele. Apreciando o contato, a espiã fitou os olhos azuis do colega e amigo... Ela o admirava muito: Steve era leal até o âmago de seu ser, corajoso e justo, uma pessoa que não se deixava contaminar pela escuridão do mundo. Uma boa pessoa. Um bom líder. Um bom amigo. O tipo de pessoa com quem valia a pena passar uma vida longa.

De repente a ruiva percebeu o que fazia, e puxou a mão que Steve segurava.

— Não pense que vai me distrair e sair dessa noite antissocial como chegou! Vai ao menos dançar uma música com alguém.

— Você falou que flertar era um jogo. Para vir, beber e flertar com a moça mais bonita e interessante que encontrasse. Foi o que eu fiz.

Aquelas palavras causaram uma imediata descarga de adrenalina em Romanoff, que se levantou abruptamente, por reflexo.

— Ok, você perdeu. Está totalmente bêbado. — Tentou imprimir humor à própria voz, para fugir da situação sem deixar o clima pesado, mas Steve parecia ter aprendido bem demais com ela, nas últimas horas, e a agente se xingou mentalmente por ter dado tanto repertório como munição a ele, ao longo de um ano e meio!

— Não foi você mesma quem falou para virmos tentar nos embebedar, conversar e flertar como duas pessoas normais? — O maldito ainda parecia estar se divertindo! — Ou peguei a Viúva Negra de surpresa?

— Steve, eu nunca mais te deixo beber. — Respondeu a ruiva, tirando-lhe a taça. Droga! Droga! Romanoff, nem pense nisso! Steve não era homem para ela, ou melhor... Ela não era mulher para Rogers. Mas quando ele ficou em pé, extremamente firme para se supor embriagado, a assassina o encarou seriamente. Ia dizer algo, mas se esqueceu do que era, e nenhum dos dois soube quem iniciou o beijo no qual se perderam: intenso e quente como um vulcão, arrebatando-os do tempo por quanto durou. Foi o soldado quem se afastou primeiro, imaginando qual seria a reação de Natasha, a qual o fitava muito séria, ainda enlaçada pela cintura em seu braço.

— Steve, se for uma brincadeira, o limite é esse. Você não quer entrar no meu jogo. – Os olhos dela estavam sérios, insondáveis.

— Do que você está com medo? Se apaixonar? — Bom, definitivamente não era uma brincadeira.

— Eu não me apaixono, Rogers. Não há lugar para isso, na vida que levo. É você quem vai sair machucado, se formos adiante.

— Sua vida não é tão diferente da minha. E já pensou que talvez eu queira o seu jogo? — Mentalmente ele se xingava, sabendo que bebera demais, e perdera totalmente o filtro. Mas não conseguia se arrepender disso. Estava quase grato, na verdade, pois nunca teria agido assim, em outra situação — Diga que não quer, e isso nunca aconteceu. Mas não escolha por mim, achando que sabe o que quero, ou do que preciso.

Natasha meneou a cabeça, mais para si mesma do que para o colega, e suspirou antes de o fitar intensamente:

— Sem se apaixonar, sem interferir no nosso trabalho, e sem mudar nossa amizade. Consegue fazer isso? São os termos.

— Profissionalismo, discrição e manter nossa amizade intacta. Onde está o ponto negativo disso?

A certeza com que ele falava isso acelerou o coração de Natasha mais do que deveria, mas ela não estava preocupada com isso. Passou os braços novamente em torno do pescoço de Steve e uniu seus lábios mais uma vez, num beijo ainda mais intenso do que o primeiro.

Foi a primeira noite que passaram juntos, mas, definitivamente, nenhum dos dois pretendia que fosse a última. E assim as coisas se estenderam pelos próximos meses, e nem mesmo a queda da Shield abalara a relação de ambos. Se fizera algo a respeito, apenas contribuíra para aproximá-los; a teia da aranha era fortemente construída, e provavelmente foram seus fios que mantiveram juntas as partes das almas dos dois Vingadores, enquanto o mundo que pensavam conhecer colapsava ao seu redor.

Notas finais
E então, o que acharam?
O primeiro capítulo foi mais longo do que esperado; um bom tamanho, ou preferem que o próximos sejam mais curtos?
Digam o que acharam, ok?
Kisses!