A Anbu
8 A promessa de Uzumaki Kumiko
Eles saíram de trás da árvore. Itachi parecia totalmente indiferente para com a imagem de sua antiga discípula e aquilo doeu de uma maneira que Keiko nunca admitiria. Uma miríade de memórias com sorrisos, acalentos e brincadeiras vieram a sua mente contra sua vontade.
Ela tinha matado todos seus sentimentos, aquilo que Keiko sentia por Itachi deveria ter ido também... Mas ela devia saber melhor. Aquele sentimento era o que possuía de mais intenso na vida. Esperar que ele desaparecesse, mesmo depois de toda a carnificina e frieza, talvez fosse utopia mesmo para ela.
Não demonstrou nada, entretanto, e seus olhos e seu rosto estavam frios e sem sentimentos.
— Você veio me capturar? — perguntou Naruto, sério. Ele tinha que fazê-lo, estava em frente a Uchiha Itachi.
Keiko ficou satisfeita do irmão ao menos ter noção do quão poderoso era a pessoa diante deles e que, com ele, não havia gritos e desafios. Itachi não era um oponente a ser levado com leviandade, mesmo por Naruto.
— Não, não é isso. Eu vim apenas para conversar com você — disse Itachi, indiferente, como se o fato de ele ter tentado capturar Naruto anos atrás não fosse nada de mais.
Considerando que a frase vinha de Itachi, possivelmente ele não achava que fosse. Frieza serena escapava dele. Uma versão mais gélida da calma etérea que o dominara em sua adolescência.
Dois Kages Bunshin tentaram atacar Itachi pelas costas, mas este apenas lançou duas Kunais em direção a eles. Acertou em cheio os fazendo sumir; Itachi quase não se moveu ao fazer isso, mas era apenas o esperado.
Foi então que seus olhos pousaram em Keiko. Olhos azuis perolados encontraram com olhos negros, ambos frios e se recusando a demonstrar qualquer coisa do passado que compartilhavam.
— Como se eu fosse acreditar em você — disse Naruto, irritado. Keiko estava indiferente sob o olhar do moreno, que se recusava a deixá-la. Tanto quanto ele.
Ela parece ter mudado bastante pensou ele entre o satisfeito com o resultado e triste pelo que aquela mudança roubara da jovem.
Quando lutar com alguém com o Sharingan, se este for apenas um, corra e fuja. Se estiverdes acompanhado e este for apenas um, pegue-o pelas costas. Agora, mesmo quando ele esteja fazendo um selo, pode colocar seu alvo em um Genjutso apenas usando o movimento dos dedos. Tenho que ter cuidado, mesmo que Keiko seja fria, não irei submetê-la a essa luta. pensou Naruto. Ela pode se recusar a falar daquelas fotos, mas eu lembro delas.
— Sei muito bem que estão em apenas dois, duvido muito que a Kumiko lute. Então, por que não correm? — Itachi perguntou.
Keiko lhe lançou um olhar frio como gelo e cortante como uma katana afiada.
— Por que eu não lutaria contra você? — perguntou ela. Não ríspida, mas certamente não tão mais indiferente. Havia um desafio velado por detrás da escuridão do olhar de Itachi.
Pois venha, então. Parecia convidar. O corpo de Keiko formigou. Nunca lutará contra ele como um real oponente, mas ela conhecia seu estilo, seus jutsus e truques.
Itachi iria pressiona-lá a uma luta? O contexto de tudo que ocorrerá anos antes se perdera naquele tempo sem contato?
Não.
Itachi era constante e sólido. Ele não mudara, mas estava testando-a e medindo-a de alguma forma. O que ele queria? Porque aquilo tudo? E, por Kami, Naruto estava ali!
— Apenas creio que a aluna ainda não tenha superado o mestre. — disse ele, monotonamente. Keiko deu um meio sorriso coberto de desdém.
— Não caio nesse tipo de jogo, Itachi — disse Keiko friamente.
Ele notou, então, que ela o fizera de propósito; não o chamara de Sensei. Apenas o nome. O código.
Kumiko tinha oito anos naquela época e ela acabara de ser promovida a Anbu. Itachi estava fazendo o relatório de uma de suas missões recentes quando ela entrou naquela cabana na floresta de Konoha. Era um local calmo que ele havia construído para reuniões do time de Keiko quando ainda eram Gennins, mas que raramente os outros usavam.
Itachi e Kumiko, porém, passavam muito tempo ali. Antigamente, Shisui costumava fazê-lo também.
Mas isso fora antes.
— O que faz aqui, Kimi? — perguntou Itachi naquele tom sereno típico dele.
Esse era o apelido dela, tão usual que muitas pessoas já haviam confundido seu nome com Kimiko, e como se irritava muito fácil, ficava brava quando seus colegas de classe brincavam com isso. Masaaki e Satsuki costumavam fazê-lo frequentemente, até que eles começaram a chamá-la de Kimi-san, e ela acabou se acostumando, como todos ao seu redor.
Apenas Itachi a chamava apenas de Kimi.
Masaaki e Satsuki também tinham apelidos, Aki-Kun e Suki-kun, porem não tão famosos como o de Kumiko. Eram apelidos utilizados ocasionalmente, apenas. Shisui costumava adorar atormentar Satsuki com aquilo...
Mas fora antes.
— Vim fazer companhia ao meu Sensei — disse Kumiko se sentando ao lado dele. Ela olhou brevemente o relatório, o reconhecendo rapidamente. Participará daquela missão também. Era muito útil ao trabalho, sendo um tipo de ninja que usava várias técnicas.
— Tenho certeza de que não é só isso. Andou escutando conversas escondida novamente? — perguntou Itachi, voltando a escrever o relatório. Ele estava bem no fim. Kumiko riu com gosto. Somente Itachi conseguia pegá-la quando estava se escondendo.
Mas o riso morreu rapidamente ao lembrar o que ouvira na conversa entre Hiruzen, Danzou e Itachi.
— Estava. Pretende mesmo fazer isso, Itachi-Sensei? — perguntou Kumiko abaixando a cabeça. Itachi terminou o relatório e se virou para ela, tocando o queixo dela com o indicador e levantando seu rosto.
Kumiko era linda, isso era óbvio. Seus olhos eram de um tom entre azul e violeta, meio escuros, incomuns, e seu rosto infantil trazia a ingenuidade de uma criança, apesar de Itachi saber que ela não era nem um pouco inocente, era na verdade muito mais esperta do que deveria.
Astuta, precoce e auto-suficiente. Kumiko vivia sozinha e tinha enfrentado muito mais traumas do que uma criança idade deveria.
Kumiko usava uma blusa amarela e verde longa com uma legging por baixo, junto à típica blusa ninja, que ficava sob o blusão. Seus cabelos lisos e ruivos eram tão longos que quando esta se sentava parte dele se arrastava pelo chão.
Aqueles grandes olhos azuis estavam cheios de lágrimas. Itachi tinha certeza de que ela estava segurando muito para não chorar na frente dele, para não demonstrar fraqueza na frente de seu Sensei, seu mestre.
Kumiko elevava a relação de mestre e pupila a níveis astronômicos. A devoção a Itachi era algo que o rapaz sabia que não teria como ser ignorada em todo aquele plano insano.
Kumiko sofreria ainda mais.
— Kimi, eu escolhi isso. Eu aceitei essa missão. Se eu não o fizer, toda vila pode ser destruída e você sabe disso. Não quero que fique triste ou chorando por minha causa. Eu salvarei minha vila custe o que custar. Esse é meu jeito ninja — disse Itachi baixo, calmamente. As lágrimas começaram a correr por seu rosto e ela o abraçou se jogando em cima dele.— Esse é o legado que Shisui me deixou e que eu deixarei para ti. Salvar a vila. Acima de tudo.
Suspirando, Itachi a envolveu com seus braços, enterrando seu rosto no cabelo ruivo dela. Deixou que ela chorasse. Ele temia que aquele fosse um de seus últimos momentos com sua querida discípula. Ele adorava aquela garota; Kumiko era luz onde passava. Mesmo quando estava triste, ela fazia com que as pessoas se importassem com ela e a animassem.
E, desde a primeira vez que se viram nos arredores da casa dela anos antes Kumiko despertara sentimentos profundos nele. Se havia alguém que Itachi amava e considerava tanto quanto o irmão menor esse alguém era Kumiko.
Mas era diferente.
— Itachi-Sensei, você não pode fazer isso. Maasaki e Satsuki precisam de você aqui. Eu preciso de você aqui — disse ela depois de vários instantes. Itachi queria acima de tudo acabar com o sofrimento daquela criança, porém isso estava além de seu poder. Não era como se Kumiko fosse muito mais nova que ele, ela tinha oito anos e ele treze anos.
Ambos eram crianças. Ambos tiveram pesos demais sobre si. Kumiko era madura e encarara a morte e o sofrimento em sua vida e em suas missões, mas... Quando se tratava dele tudo mudava de figura.
— Eu irei tomar algumas providencias antes de ir. Irão se tornar fortes. E eu eu quero que prometa que fará uma coisa — pediu Itachi a Kumiko. Ela se afastou o suficiente para poder olhá-lo nos olhos, mas continuou embalada por ele.
Kumiko era muito pequena em seus braços.
— Eu irei garantir que Sasuke se torne forte com o ódio, mas não quero que faça a mesma coisa, pois sei que isso não lhe faria bem. Você é Anbu e tem um dom raro. Você consegue ligar e desligar suas emoções se necessário... Já a vi fazer isso antes, Kimi. Vou indicá-la como Anbu Ne. Você passará por um treinamento, e quando isso ocorrer, quero que desligue suas emoções. Não apenas isso; quero que mate seus sentimentos. Todos os laços e sentimentos; Mate-os. Precisará disso no futuro. — explicou Itachi, calmamente. — Prometa-me que fará isso.
Kumiko o olhou de olhos arregalados. Ela parara de chorar, parecia chocada com que ele estava lhe pedindo. Matar os sentimentos? Era como matar a si mesma. Kumiko podia não ser a mais sentimental das crianças, mas era alegre. Gentil. Carinhosa.
Mas sem Itachi ali... O que sobraria?
— Eu... Na Anbu Ne? — perguntou Kumiko, chocada e com um pouco de medo na voz. Cogitar ou aceitar a perda de Itachi em sua vida era abrir mão de seu farol, mas Kumiko não sabia como não aceitar algo que ele dissesse.
Desde que o conhecera, Itachi era seu guia e sua lei. Se ele lhe pedia que fizesse aquilo, então ela faria. A despeito de qualquer coisa.
— Irei indicar você e Satsuki. No teste final da Anbu Ne você terá que matar um companheiro. Aquele com quem treinou. Será ou você ou Satsuki: um dos dois morrerá. Por isso eu quero que você mate os seus sentimentos. Não irá aguentar fazer isso de outra forma, Kimi. Tenho a impressão de que uma guerra será inevitável. Precisará disso na Ne. Precisará estar na Né. Prometa-me, Kumiko. Prometa-me que irá fazer o treinamento, que entrara para a Ne e que matará seus sentimentos — pediu Itachi com um pouco de urgência na voz.
Matar seus sentimentos e matar Satsuki. Kami...
Ela o olhou por alguns momentos. Itachi a encarava sério; ele não estava brincando, mas não era uma coisa qualquer o que estava pedindo, ele queria que ela se tornasse uma pessoa totalmente diferente. Apesar dos momentos em silêncio, não hesitou em responder.
Nunca houvera um escolha e ambos sabiam daquilo. A vontade de Itachi era lei na vida de Kumiko.
— Eu prometo, farei tudo o que você disse. Eu prometo — disse séria. A voz não tremeu e ela parara de chorar.
Itachi sorriu, era bem raro que ele sorrisse, mas o fez de forma suave e amorosa para a menina que era luz em sua vida.
— Eu irei embora. Quando me encontrar novamente me chame apenas de Itachi; não mais de Sensei — disse ainda com um meio sorriso.— Quando fizer tudo e for capaz de tudo.
— Itachi-sensei, já que farei isso, quero fazer uma coisa antes — Kumiko disse cotando a níveis absurdos.
Itachi a olhou, confuso. Ela sempre fora tímida e corava com uma facilidade absurda, mas aquele nível não ocorria a muito tempo.
— O que... — começou, mas foi silenciado pelos lábios dela. Ela estava com os olhos firmemente fechados e muito vermelha.
Itachi arregalou os olhos, chocado e levemente paralisado.
Céus, Kumiko era uma criança. Não deveria pensar naquilo. Itachi também era pouco além uma criança e nunca pensara nela mais do que uma amada aluna. Ou talvez pensara... Jamais cogitara beija-la, mas o nível de sentimentos que a menina despertara nele podiam ser explicados daquela forma.
E a proximidade que ele mesmo colocara entre eles sempre. Incluira Kumiko em sua vida e passara por cima de muito já para que ela não sofresse. Coisas que ela mesma não sabia que ele fizera.
Se começasse a se aprofundar no tema, sabia qual sentimento iria encontrar, mas...
Mas ele não ligou, não naquele momento, e fechou seus olhos correspondendo ao beijo. Ele era tão experiente naquilo quanto Kumiko, apesar dos cinco anos de diferença que os separava.
Foi leve, calmo, mágico para ambos, e quando seus lábios se separaram, Kumiko estava completamente corada. Itachi, do mesmo jeito, a olhava com ternura.
— Itachi-sensei... Eu... Desculpe-me... Eu... — ela dizia completamente embaraçada mexendo em algumas mechas do cabelo, nervosa. Arrebentou alguns fios, mas nem pareceu notar. Tentou se afastar, mas o Uchiha não deixou.
— Tudo bem, não se desculpe. — ele disse e soltou uma das mãos que a abraçavam para segurar a da garota, inquieta enquanto se prendia em seus fios. — Pare com isso, Kimi, está arrebentando vários fios do seu cabelo. Quando nos encontrarmos novamente, quero que ele continue sendo tão lindo quanto é agora.
Kumiko ficou ainda mais vermelha. Itachi não ligou; apenas sorriu. Aquilo era comum. Todo elogio era recebido com aquela reação.
E ele começara a entender o motivo.
— Mesmo que ela não lute, acompanhados a mim poderão ter de um a mil. E eu não posso fugir! Se te capturar, poderei ver o Sasuke — disse Naruto com um meio sorriso.
Itachi e Keiko haviam se lembrado daquilo no mesmo instante quase ignorando o monólogo de Naruto. Porém, Itachi não podia se apegar a coisas do passado.
Do passado e do futuro que ele e Keiko jamais teriam.
— Por que você é tão apegado ao meu irmão? — perguntou Itachi. — Ele é um ninja renegado.
— Porque, diferente de você, eu penso nele como um irmão. — Naruto respondeu ao passo que Itachi sorria fraco, quase inexistente. Keiko entendia o motivo daquele sorriso.
Naruto nem sabia, mas tinha que considerar muito Sasuke para se igualar ou superar o amor de Itachi. Por Sasuke, Itachi condenou sua própria vida. Seu futuro. Sua família inteira... Itachi venderá a própria alma para preservar a vida de Sasuke. E o irmão sequer sabia disso, apenas odiava aquele que fizera tudo por ele.
Keiko sabia que era assim que Itachi queria. Planejara aquilo, a despeito do quanto a alma de Sasuke se despedaçaria caso soubesse a verdade.
Mas ele nunca saberia.
Naruto avançou em Itachi, porém acabou parando antes que sequer chegasse perto. Keiko concluiu que ele havia sido pego no genjutsu do Uchiha.
E agora ela estava sozinha com Itachi.
— No mundo que eu criei, estou conversando com ele como pretendia. Aqui eu terei minha conversa com você, Kumiko — disse Itachi. Ele a encarava nos olhos.
Ela havia mudado muito, suas orbes antes tão expressivas, agora eram frias, e desprovidas de sentimentos. Keiko o encarou, respirando fundo.
O que Itachi poderia querer com ela depois de todos aqueles anos?
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