A Anbu
16 A espiã da vila da chuva
Keiko conduziu Akane pelas ruas entre as casas da vila fantasma aonde ela vivia. Pareciam estar indo a uma área mais isolada.
— De quem são essas casas abandonadas? — Perguntou Akane achando tudo um pouco além do sinistro.
Keiko riu baixo.
— São minhas. Este é o local que minha mãe pretendia usar para reerguer nosso Clã, mas ela morreu antes de poder completar esse sonho. — Disse Keiko casualmente, como se fosse algo normal e que se via todo dia.
Uma vila fantasma de um clã que nunca se re ergueria. O pensamento era mórbido. Era ainda mais estanho que Keiko vivesse ali, sozinha, não abrindo mal pra venda ou alugar nada daquilo.
Elas seguiram até o final do conjunto de casas, onde havia uma grande clareira. Keiko se sentou na grama do local e fez sinal para que Akane fizesse o mesmo.
A ruiva ativou o Rinnegan e Akane arregalou os olhos, recuando instintivamente. Nunca vira aquele padrão na vida.
— O que é isso? — Questionou.
Keiko olhou para a garota.
— Akane, a partir de agora você é minha discípula. O que lhe contei são coisas que não contei nem para meu irmão. Ele teve que adivinhar tudo pelo que descobriu vagamente sobre mim. Confiei em você e eu havia prometido jamais confiar em ninguém. Você é minha aluna e eu sua mestra. Eu sou agora a única em quem você pode confiar e vice-versa. — Disse Keiko, abandonando sua frieza. Ela estava séria, até mesmo solene.
Akane se perguntou como uma garota de dezesseis anos poderia ser tão séria. E porque aquelas questões de mestre e discípula eram tão relevantes... Mas Keiko a colocara contra parede! Não era como se ela tivesse tido muita escolha também. Ficou em silêncio.
— Irei analisar seu chakra a fundo e então verei quais são suas aptidões shinobi. — Avisou Keiko.
Akane assentiu hesitante. Keiko fechou os olhos e fez os selos Fūton, Doton, Raiton, Katon e Suiton.
Depois, ficou um bom tempo de olhos fechados e quando os abriu eles possuíam novamente a cor normal, tons de violeta azulado incomuns e bonitos.
— Afinidade com Fūton, Genjutsu e Fūinjutsu. — Declarou Keiko, mas havia algo nos olhos dela que dizia que a análise a incomodara.
Akane se sentiu meio decepcionada. Ela desejava mexer com fogo e combate real.
— Que tipo de shinobi você é? — Perguntou Akane.
Keiko sorriu.
— Na maioria das vezes fico no esquadrão especial, aqueles para shinobis que possuem jutsus secretos. Só que não há uma única parte de especialidades que eu não domine. — Disse Keiko calmamente.
Akane arregalou os olhos. Ok, talvez ter Keiko como mestra não fosse a pior coisa que pudesse lhe ocorrer.
— É graças a meu Kekkei Genkai, esses olhos. Só que eu tenho algumas coisas que eu dominei mais rapidamente. Suponho que seriam minhas afinidade se eu não tivesse esses olhos. Kunoichi de Fūinjutsu, Genjutsu e Fūton. — Disse Keiko.
Ela, de fato, tinha aprendido aquelas áreas mais facilmente. Keiko decidiu não mencionar o Iryō Ninjutsu, já que sabia que ela pretendia por Akane em afinidades mais ativas.
Aquilo era algo a Keiko ver como lidaria com o desenvolvimento da garota no treino.
— O que são esses olhos? — Perguntou Akane. A natureza de chakra de seu pai era Katon e a de sua mãe tinha sido Fūton. Ela queria ser um dos dois, queria ser como eles.
— É chamado Rinnegan, apenas três pessoas em todo o mundo conhecidos pela história os possuíram. Só duas estão vivas. Eu e um primo distante de Amegakure.
Akane arregalou os olhos.
— Tem parentes em Amegakure? — Perguntou.
Keiko negou.
— Não exatamente. Ele é alguém que eu e meu irmão temos que matar. Um de nós terá que fazer isso. Ele quer, já que Nagato matou o mestre dele. Meu irmão não sabe que ele é um parente nosso. — Disse Keiko com distração parecendo longe do próprio corpo.
Ela estava sendo realmente aberta com ela. Era daquela forma que poderia ser sua relação com Keiko? Elas poderiam ser francas e abertas uma com a outra sem medo? Fora assim o relacionamento dela com seu mestre?
Akane balançou a cabeça, de qualquer forma, consternada com as informações.
— Eu desisto de tentar entender sua vida. Só me diga uma coisa, você pode me ensinar Iryō Ninjutsu? — Akane perguntou, pelo menos aquilo ela queria.
Keiko assentiu quase sorrindo. Akane tinha que querer o que ela pretendia para o final?
— Sim, você tem sorte. Eu sou uma das melhores Iryō-nin de Konoha. — Disse Keiko.
Akane comemorou batendo palmas como uma criança.
Era verdade. Keiko há muito tinha superado Sakura e talvez até mesmo equiparado a Tsunade. Ela aperfeiçoou suas habilidade o máximo que teve nos últimos anos e aperfeiçoaria ainda mais. Ela só não fazia disso um show para o mundo como as outras faziam.
Não havia lucro em levantar uma bandeira do quão perigoso e habilidoso você é. Já bastava sua reputação na Anbu. Era bom que ninguém lá conhecesse seu rosto e ela convivesse pouco o suficiente na vila para que não tentassem descobrir.
Enquanto Naruto treinava para dominar o senjutsu, Keiko ajudava Akane com o básico de um shinobi. Ela disse a Akane que antes de um shinobi se tornar médico, ele deveria saber ao menos se defender.
— Sou uma Iryō-nin e mesmo assim me aperfeiçoei em tudo que tive tempo. Tsunade, a Godaime Hokage, também é uma e aperfeiçoou sua força. Haruno Sakura, aluna dela, aperfeiçoou seu estilo de combate muito bem também. Ela era uma kunoichi tipo genjutsu, como eu. Portanto, antes de se tornar médica, repassaremos aos jutsus básicos. O que sabe? — Perguntou Keiko a ela.
Akane sabia apenas o básico do básico.
Keiko revirou os olhos ao notar que tinha praticamente uma Gennin em mãos. Ela queria bater em si mesma e no maldito sentimentalismo contagioso que a fez ver algo se si mesma na garota e tirá-la da NE.
— Genjutsu é o melhor para começarmos. A manipulação da natureza será mais fácil se você já tiver uma base de controle de chakra. — Disse Keiko. Akane não estava realmente entendendo, mas acenou com a cabeça. A ruiva suspirou. — Quer saber? Vou te dar alguns livros. Danzou não te preparou de maneira nenhuma para treinos sérios. Eles iriam te massacrar.
Foi o que Keiko fez; deu uma pilha de livros a Akane e explicou que ela tinha que saber a teoria para entender a prática. Akane nunca encontrava Keiko quando a procurava com dúvidas, ela a encontrava pouco depois, mas era frustrante você nunca saber aonde o outro estava na casa.
Era como se Keiko se tele-transportasse.
— Como faz isso? — Perguntou Akane.
Keiko revirou os olhos.
— Sou uma kunoichi sensorial. Tenho o dom do Clã Uzumaki de sentir chakra. Quando o seu fica de um lado para o outro no Complexo, eu sei que você está me procurando. — Disse Keiko.
Akane estava ansiosa para começar o treino, mas, quando acordava, Keiko nunca estava em casa. Depois de um tempo, ela acabou por descobrir que Keiko ia ao núcleo da ANBU NE todos os dias.
Não sabia exatamente o que Keiko fazia lá, ao menos no início. Mas logo se lembrou que Keiko iria pegar seu histórico no núcleo.
— Ah, isso. Eu peguei. Eles fizeram questão de você por lá por causa da sua mãe. Já que ela possuía uma Kekkei Genkai, eles pensam que você talvez a possua também. — Disse Keiko com displicência quando Akane questionou.
Como se não fosse nada demais. Algo sobre sua mãe da qual ela jamais ouvira falar e não podia ser verdade, mas a possibilidade a animou. Um Kekkei Genkai!
Akane arregalou os olhos em animação.
— Você viu alguma Kekkei Genkai em mim, Kumiko-sama? Me ensine a usá-la! — Pediu quase desesperadamente.
Queria ser forte o bastante para que, quando fosse chegar o momento em que Keiko e Naruto lutariam contra Nagato, ela pudesse vingar seus pais ajudando a matar o homem que liderava aqueles que os assassinaram.
— Entenda, Kekkei Genkai é um assunto muito delicado. A maioria pede que o usuário desperte dois elementos ou mais, nem todos são Dōjutsu como o meu. Só que mesmo que você tenha, tem que despertá-lo antes. O que é estranho, já que o comum é que a pessoa consiga ativá-lo na infância. — Explicou Keiko a ela.
Akane abaixou a cabeça, triste e frustrada.
— Então eu não herdei o Kekkei Genkai da minha mãe? — Perguntou meio desanimada.
Keiko respirou fundo.
— Dificilmente você não o terá herdado. Eu creio que sua mãe selou algumas partes de seu chakra. — Disse Keiko friamente. Ela assumia essa voz quando mencionava da mãe da garota na conversa.
— Por que minha mãe faria isso? — Perguntou Akane desnorteada.
Sua mãe não faria aquilo. Faria?
— Sua mãe era uma Jōnin poderosa. Foi convidada para a ANBU dezenas de vezes e nunca aceitou. Ela era uma espiã, Akane. Uma espiã que havia se arrependido do que fez. Ela não foi assassinada por Amegakure atoa. Foi uma queima de arquivo. — Disse Keiko.
Akane não entendia aquilo.
Eram muitos termos complicados. Era um mundo cruel, cheio de regras e trâmites comuns a Keiko e que atordoavam Akane. Ela ficou piscando enquanto Keiko continuava a história mórbida que não poderia, não era, a da sua mãe.
— Nagato acha que eu sou aliada dele, mas sou uma espiã, assim como sua mãe foi e como Itachi era. Ele me contou que ela era uma kunoichi de alto escalão de Amegakure desde que era jovem, uma arma treinada para ser usada na guerra. Só que foi mais útil para infiltração e foi mandada para cá com o objetivo de descobrir mais sobre mim e sobre meu irmão. — Disse Keiko a ela.
Akane estava se arrependendo de ter perguntado. As informações não desciam garganta abaixo. Não conseguiam, mas ela se sentia num ciclo vicioso precisando de mais.
— Por que? O que ele quer com vocês? — Perguntou Akane com os olhos marejados.
Ela ignorou a parte sobre si e sobre Naruto, continuando a história da família de Akane.
— Sua mãe se casou para manter o disfarce de kunoichi que sonhava com uma família. O problema foi que ela se apaixonou de verdade e você nasceu. Sua mãe acabou por abortar a missão e Nagato se irritou, o que não se é sábio de fazer, já que as informações sobre meu irmão e eu eram preciosas. Ela mandou tudo o que descobriu, mas houve um momento em que ele mandou que ela continuasse a missão e ela se recusou. — Disse Keiko friamente.
Akane estava chorando, tentando controlar seus nervos, mas ela fracassou. Era um contraste absurdo com a tranquilidade fria, inexpressiva, de Keiko. Aquela garota tinha algum sentimento. Como ela podia falar daquelas coisas, relatar aquilo a uma filha, e não reagir sobre?
— Ela... Ela não era assim! Ela disse que nasceu em Konoha e conheceu meu pai na infância! Eles se amavam desde crianças. — Gritou Akane, furiosa. Aquilo só poderia ser uma mentira muito bem arquitetada.
Keiko tinha que estar mentindo.
Mas o que sua mestra ganharia dizendo aquilo a toa? O que Keiko poderia conseguir mentindo sobre sua mãe?
— Nagato começou a ameaçar a você e seu pai. Sua mãe continuou com a missão, até que não era mais necessária e Amegakure a matou. — Disse Keiko como se Akane não tivesse gritado nada.
— Por que... O que houve que ela não foi mais necessária? — Perguntou Akane.
Keiko a encarou. Akane a olhava desesperada e apavorada.
— Eu descobri que ela estava me espionando para Nagato. Eu sou conhecida na ANBU como A assassina silenciosa. Executo antes mesmo que minha vítima perceba que estava sob ataque. Nagato mandou que a matassem pois sabia que, se não o fizesse, eu o faria. Mas, antes disso, tiraria todas as informações sobre Amegakure e sobre ele que ela tivesse. Foi queima de arquivo para me impedirem de chegar até ela, pois Nagato sabia que, com as informações corretas, eu iria retaliar. — Disse Keiko, a voz vazia e indiferente.
Aquilo já fazia seis meses!
Akane se afastou de Keiko como se ela fosse a própria peste. A história se infiltrava nela, tensa e dolorosamente, e Akane tremia. Negava. Choramingava.
Keiko não reagiu.
— Nagato é líder da Akatsuki. E essa organização tem como objetivo capturar e matar todos os jinchūriki. Meu irmão é um deles. Ela estava dando informações que me impediriam de proteger meu irmão, de proteger essa vila. Eu faria qualquer coisa tanto quanto por Konoha quanto por meu irmão. — Disse Keiko friamente, a voz dura, sendo quase um golpe em Akane. — Sua mãe selou seu Kekkei Genkai para que não fosse poderosa e não se tornasse uma arma como ela foi.
Akane correu para longe, não aguentando mais uma palavra daquilo, se trancou em seu quarto e ficou lá. Chorando, ela não entendeu muita coisa em tudo aquilo.
O irmão dela era um jinchūriki, certo, apesar de realmente não saber o que isso significava.
Mas o que Nagato poderia querer com Keiko?
[...]
Keiko revirou os olhos. Aquela garota tinha que ser mais forte e mais fria, mas como Keiko faria com que ela ficasse ficar desse jeito? Akane quebrava fácil demais. Ela lembrava fracamente, na infância, de crises de pânico durante treinos e simulações. A memória despertava dores profundas em sua cabeça, talvez por ser jovem demais no início de sua vida ninja.
Ela fora endurecida. Ter Shisui e Itachi para ajudá-la agora teria sido interessante...
Ela tinha uma ideia, sim, mas envolvia traumatizar a menina e Keiko piscou ao perceber que estava hesitando. Nem mesmo Itachi hesitou quando fora com ela. Era ridículo.
Ela foi para seu quarto e desceu para o túnel subterrâneo. Sempre havia feito muito aquilo, já que o local era uma fonte de informações e ainda haviam muitas coisas que desconhecia.
Agora, estava estudando os kinjutsus Uzumaki.
Keiko estava pensativa enquanto estudava. Queria saber se deveria ou não tirar o selo do Kekkei Genkai de Akane, já que aquilo podia ajudar a garota muito durante o treinamento e também no campo de batalha.
Keiko se lembrou de Pakura de Sunagakure, que fora sacrificada para uma aliança com Iwagakure.
A capacidade de juntar vento e fogo era perigosa e poderia chamar atenção desnecessária para Akane. Sim, Akane definitivamente não era uma usuária de Futon apenas. Havia Katon na mistura.
Keiko mentira para não levantar suspeitas para o poderoso e peculiar Kekkei Genkai da garota.
Keiko, então, decidiu que iria ajudar Akane e tiraria seu selo. Quem sabe saber que o próprio toque era letal fizesse algo pelos nervos fracos de Akane. Ela tinha que confrontar o mundo ninja real.
Ela fechou o livro que lia com um baque ao sentir a garota perambulando pela casa novamente.
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