A Anbu
23 A Morte de Uchiha Satsuki
Keiko tinha relatórios infinitos para analisar. Havia, é claro, um armistício entre as vilas enquanto a questão da Akatsuki se aprofundava, além da eminencia de uma reunião dos cinco Kages, mas isso não significava que a Anbu Ne o estava respeitando. Era naquele momento que seus espiões e seus ninjas especialistas em infiltração mais trabalhavam, então os relatórios apenas cresciam. Além das analises, ela tinha que reportar a Danzou.
Isso seria muito maios fácil de fazer caso Akane lhe desse algum momento de paz na tenda que lhe fora designada para ser o ponto de referência aos ninjas que se reportavam a ela.
— O que houve? Você está séria demais. — disse Akane, sentando ao lado de Keiko no sofá que havia ali. Keiko conteve um suspiro.
— Eu sou sempre séria, Akane. — Respondeu com um revirar de olhos involuntário.
Akane estava sempre tentando tirar significados mirabolantes para seus humores quando, na maioria dos casos, Keiko estava apenas trabalhando.
— Não quando está com Masaaki. —Akane provocou. Keiko grunhiu e se levantou, andando para a mesa central. Deixou os documentos ali, pois, realmente, perdera completamente a cabeça para aquilo. Ela se apoiou ali e encarou a garota friamente.
— O que está insinuando com isso, Akane? — perguntou Keiko com um alerta na voz. Akane sabia que Keiko não lhe faria mal, só que ela era impiedosa e a machucaria se necessário. Provavelmente seria descontado em formatos de treinamentos extras implacáveis. Isso não importava muito, só que Keiko não era alguém a quem Akane gostaria de provocar.
Ainda assim, a garota tendia a esquecer o perigo das pessoas que a rodeavam.
— Ele gosta de você, Kumiko-sama. Você deveria dar uma chance a ele. Você fica em paz perto dele. Deveria seguir com sua vida, não viverá apenas de batalhas e missões. — disse Akane e viu irritação crescer no olhar de Keiko. Se encolheu. Ela estava ficando realmente furiosa.
— Não sabe como me sinto, Akane. Eu nunca me envolveria com Masaaki. — disse Keiko, irritada, lançando um olhar ríspido para Akane, que se encolheu mais. Se tinha uma coisa que Keiko fazia bem, era intimidar as pessoas e Akane parecia nunca se acostumar com os olhares mortais da mais velha.
— Eu sei que você ainda ama o Itachi, só que ele está morto! O que aconteceu entre vocês acabou. Não vale a pena você ficar se destruindo ainda mais por isso. — continuou Akane, pois realmente queria o melhor para ela. Era insensível, mas sua mestra não tinha sensibilidade comum e Akane achava que valia a pena arriscar a raiva dela para chama-la para a realidade. Keiko havia fechado os olhos e seus punhos estavam cerrados.
Akane sabia que tocara em um assunto delicado para Keiko e aquele era um dos poucos motivos que a faziam perder seu temperamento controlado, ainda assim.. Keiko era uma mulher tão jovem, bonita e interessante. Ela merecia viver. Tanto de sua vida já tinha sido consumido pela vida ninja e aquele sentimento malfadado da infância.
— Você não sabe o que é isso, Akane. Não fale mais isso, ou eu garanto que... — ela dizia baixo e polidamente, só que Akane a interrompeu.
— Vai fazer o quê? Me matar? Vamos, Kumiko! Sabe que eu não tenho medo da morte! Você tem que se libertar disso! Esse seu amor mórbido irá matá-la. — disse Akane, começando a se irritar. Keiko relaxou os pulsos e riu.
— Achou mesmo que eu me irritaria tão facilmente, Akane? — perguntou Keiko, abrindo os olhos e dando um sorriso debochado. — Esqueça esse assunto. Eu não vou mudar o que eu sinto. Vá pra qualquer lugar. Depois falo com você.
Akane assentiu e saiu contrariada. O tom de voz da mestre era final e, caso continuasse, ela provavelmente a chutaria dali. Literalmente. Já tinha acontecido algumas vezes, então Akane sabia melhor. Queria espairecer também.
Dentro da tenda, contudo, Keiko não estava sozinha.
— Nunca vi alguém que mentisse tão bem. — disse uma voz grave às costas, aparecendo por trás do sofá. — Quase acreditei que não havia se afetado com as palavras dela.
— O que quer, Masaaki? — perguntou Keiko, sem sair de sua posição, apoiada na mesa. Estava um pouco cansada dos amigos invadindo seu local de trabalho o tempo inteiro. Ele respirou fundo.
— Sabe que ela está certa, não sabe? Essa sua obsessão pelo Itachi destruiu toda a sua chance de futuro até agora. Não deixe isso continuar acontecendo. — disse ele seriamente. Seus olhos perolados estavam tão solenes como Keiko pouco via. Ele estava apoiado na parte de trás do sofá, meio inclinado para poder encará-la.
— Me. Deixe. Em. Paz. — sibilou ela, irritada. Keiko o encarava, furiosa. Masaaki se aproximou dela.
— Não. Sabe que ele te amava, não é? — perguntou Masaaki. Keiko desviou os olhos para o teto. Ela sabia que ele não se referia a Itachi.
— Eu sei. Ele me contou. — disse ela, suspirando.
— Itachi o matou por causa de sabe-se lá o quê. Ele lhe obrigou a ficar fria assim. Ele destruiu sua vida, Kumiko. — disse Masaaki. Keiko cerrou os punhos.
— Itachi não o matou. — falou entre dentes. Masaaki suspirou. Queria que ela visse a realidade uma vez na vida.
— Matou e sabe disso. Ele matou a todos que... — disse ele, só que Keiko o interrompeu.
— Não foi ele. — disse ela, irritada. — Eu matei o Satsuki.
Masaaki a olhou por um momento, vendo que ela voltara a encará-lo. Seus olhos confirmaram o que ela dizia, pois ali se instalava uma dor antiga, algo que ela não gostava de lembrar — e era óbvio. Só que ela não pôde evitar.
— Hoje será o teste final de vocês. — Declarou Danzou.
Eles estavam numa clareira gigantesca. Era um local afastado no alto de uma montanha. Só que dava para subir muito mais — tinha um caminho íngreme e rochoso a alguns metros para descer a montanha, que era, na verdade, parte de um vulcão que havia no topo.
Tinha também uma floresta à volta deles. Estavam totalmente isolados da humanidade. Um ambiente escolhido cuidadosamente para sediar momentos de destruição que jamais seriam descobertos. Kumiko respirou fundo. Ela sabia antes de Satsuki perguntar.
— Vamos logo. Qual é o teste? — perguntou Satsuki, parecendo entediado. Danzou lançou um olhar frio ao garoto de treze anos.
— Um combate. Até a morte. — Danzou respondeu com frieza. Satsuki arregalou os olhos, chocado, mas Kumiko ficou em silencio. O líder Anbu não gostava de Satsuki e sua atitude, pois tinha falhado em quebra-lo. Kumiko, a cada momento, tinha se adaptado mais ao formato proposto por ele.
— Espera aí. Ninguém me falou nada de combate até a morte! Por que será que você não parece surpresa, Kimi-san? — perguntou Satsuki, pronunciando seu nome com certo deboche. Ela abanou a mão lentamente de maneira displicente.
— Porque eu sabia. — respondeu e deu de ombros. Danzou deu um pequeno sorriso para a garota, que mudara muito nos últimos tempos. Era mais indiferente e não agia como uma garota explosiva e emocional que beijara seu sensei depois de ajudá-lo a matar todo seu clã.
Satsuki rosnou, irritado. Por que ela não lhe contara aquilo? Por que ela faria aquilo? Esperava que ele desistisse? Pois é o que ele faria. Ele não queria aquilo a ponto de lutar com Kumiko.
— Não tem mais chance de desistir, garoto. — disse Danzou, parecendo saber o que ele pensava. — Vocês irão lutar, e um deve morrer. Se vocês dois tentarem desistir e descer essa montanha, ambos morrerão, pois serão considerados inaptos. Apenas um sobreviverá, e este será um membro da Ne.
Ele sumiu num sunshin de fumaça e Satsuki encarou Kumiko.
— Não irei lutar com você. — disse ele, cruzando os braços, e Kumiko ergueu as sobrancelhas pouco impressionada.
— Você ouviu, Satsuki. Um de nós tem que morrer. — disse ela, o encarando com olhar de indiferença. Ele se aproximou dela e a segurou pelos ombros enquanto a sacudia. O garoto estava exasperado e isso era claro, mas Kumiko permaneceu sem reação. Apenas permitiu que ele lhe sacudisse.
— Não, eu não vou lutar com você, Kimi-san. Não vou. — Repetia, alterado, e absolutamente perturbado. Kumiko o encarou com a própria irritação crescendo.
— Por quê? — perguntou. — Por que não luta comigo? Vingue-se. Vingue-se por eu ter ajudado a planejar o massacre de seu clã. Por eu ter ajudado a mata-los. Lute comigo e lute com tudo.
— Eu não consigo! — Satsuki gritou, se afastando e se abaixando no chão de costas para ela. Ele deu um soco no chão, deixando um grande buraco e Kumiko respirou fundo.
— Por quê? Por que não consegue?! Você não tentava competir comigo sempre? Não queria provar que era melhor? — perguntou ela, tentando persuadi-lo, manipulá-lo com seus pontos fracos. Ele se levantou, e Kumiko quase não viu o que houve.
Ele a abraçou. Enterrou seu rosto no pescoço dela, sentindo o cheiro de amora do cabelo dela. Era o produto que ela usava desde os quatro anos, e Satsuki sabia que era o único que conhecia aquele detalhe que para ela era insignificante. Para ele era importante. Era o cheiro dela. Sua marca.
— Aquilo era só pra chamar sua atenção, Kumiko. — disse ele baixinho, como se lhe contasse um segredo. — Eu te amo desde aquele dia na academia.
Ela sabia que ele se referia ao dia que o conheceu. Kumiko não se lembrava realmente daquele dia direito, pois era muito jovem. Sabia em geral o que acontecera, pois nunca pararam de implicar com Satsuki por conta daquele dia. Ela enrijeceu nos braços dele enquanto a confissão se afundava em sua mente.
— Satsuki... eu... não... — Ela não sabia o que dizer. Ele sorriu, triste, e se afastou minimamente dela, sorrindo e segurou o rosto da garota fazendo com que não tivesse escolha senão encara-lo.
— Está tudo bem. — disse ele, suspirando. — Me prometa algo.
— O quê? — perguntou ela, seus olhos ligeiramente úmidos.
— Depois que eu morrer, quero que use meu corpo naquele seu jutsu dos seis caminhos. — disse ele. Kumiko arregalou os olhos. Lágrimas transbordaram pelos seus olhos. Todo seu auto controle se estilhaçou com a declaração.
Queria discutir. Queria obrigar Satsuki a lutar contra ela. Ao mesmo tempo, ela lembrava dos anos de time deles. Das missões, das infinitas implicâncias, dos momentos onde eles tinham coberto a retaguarda uns dos outros e sido a única coisa entre a morte do companheiro. Kumiko o amava. Realmente amava. Só não da mesma forma que ele a amava.
Ela tinha promessas a cumprir. Decisões impossíveis para tomar. Seus ombros tremeram enquanto os soluços começavam a sacudir seu corpo. Queria gritar tantas coisas, mas tinha aprendido a sufocar os próprios gritos e enterrar o sofrimento no fundo de seu ser.
Satsuki passou seus dedos pelo rosto dela secando suas lagrimas com a maior delicadeza do mundo.
— Prometo. — Conseguiu responder, a voz entrecortada e ele sorriu. Satsuki tocou seus lábios de leve nos dela. Só um selinho. Ele sabia que ela jamais beijaria alguém que não fosse seu primo, e o invejava por isso.
— Faça, Kimiko. — disse ele. Ela riu de leve. Um riso miserável entre lagrimas. Ele a irritara tantas vezes daquela maneira, e ali estava ele, fazendo aquilo mesmo sabendo que ela iria matá-lo.
— Sabe que odeio quando me chamam assim. — disse ela. Ele sorriu. Os olhos dela demonstravam que ela estava muito confusa. Ela não queria matá-lo. Ele fora sua única companhia naquele último ano. A única pessoa que esteve com ela. O único que a apoiou.
No meio da solidão infinita depois do massacre do clã Uchiha, Satsuki tinha sido a única pessoa que permaneceu. Ela sabia que não seria eterno. Sabia o que teria que fazer e acreditou que estava pronta, mas esperara tudo. Raiva. Uma batalha até a morte. Acusações. Deveria saber melhor.
— Eu sei. Apenas faça, Kumiko. Sei que isso é importante. — disse ele. — Eu nunca irei deixar de te amar, e sei que nunca irá esquecer de mim. Acredito que seja impossível, de tanto que eu te irritei nesses últimos sete anos.
Ela assentiu e tirou sua katana da bainha na cintura. A katana era feita de prata com fios vermelhos. Kumiko não sabia o que era aquilo e nem tinha vontade de saber. Ele se afastou um passo. Ele sorriu e apenas ofegou quando ela o perpassou com a katana.
— Adeus, Kimi. — disse ele com um sorriso, antes de seu corpo cair no chão. Um sorriso leve ainda em seu rosto. Ela caiu de joelhos ao lado dele, tirou a katana do peito dele e se debruçou sobre o corpo de seu melhor amigo. Seu corpo tremia violentamente com o choro. O desespero consumiu seu coração e alma.
Acabara de matar uma pessoa que confessara que a amava há sete anos.
Começou a chover e ela olhou pro céu, suas lágrimas se misturando com a chuva.
Keiko balançou a cabeça devagar, tentando tirar a lembrança da cabeça. Masaaki ainda a olhava, chocado, como se não acreditasse naquilo. Ela tinha explicado de forma resumida o que tinha acontecido. Masaaki merecia saber. Eles tinham sido um trio. Uma equipe. Tinham sangrado, chorado e evoluído juntos. Tinham conhecido os traumas um do outro. A família dos três tinha sido tão desestruturada que tinham se tornado família um para o outro. Três crianças quebradas que tinham sobrevivido juntos.
Agora, apenas dois tinham sobrado.
— Você... o matou depois de ele dizer que a amava? — Masaaki questionou com a irritação despontando em sua voz. Keiko aceitava aquilo. Preferia a acusação a empatia.
— Foi assim que me tornei quem sou hoje. Você queria saber, não queria? O que tinha destruído Uzumaki Kumiko? Eu perdi duas pessoas importantes para mim. Uma me abandonou e outra eu matei com minhas próprias mãos. Isso me tornou quem eu sou. — disse ela, irritada, mas seus olhos levemente marejados. Só que Keiko não iria chorar. Não mesmo.
Ela saiu da tenda, indo até sua casa, saltando entre as árvores com rapidez e agilidade. Não aguentava encarar Masaaki mais. Encarar quem tinha sido, o que perdeu pelo caminho, e como não queria seguir em frente. Por que deveria seguir em frente? Itachi e Satsuki estavam mortos. Por que Kumiko deveria continuar a viver? Ou viver além do propósito que tinha sido deixado a ela por eles? Não tinha a menor intenção disso.
Sentou em seu quarto e suspirou. Parecia que suas antigas memórias voltavam aos poucos para atormentá-la, para sugar o resto de sanidade que lhe restava, contudo ela tinha seus próprios planos.
Ela não deixaria. Não iria enlouquecer. Iria canalizar aquilo. Preferia morrer a desistir. Então, ela lutaria até o último momento. Se levantou e pegou o pergaminho de Madara e conjurou um deles. Ao abrir, podia-se ler no início:
Kekkei Genkai da família Namikaze.
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