A Alma De David
2 Morte
A voz do pai penetrou pela porta fechada de forma abafada, mesmo assim David entendeu bem a mensagem: era hora do jantar. Fechou o livro, colocando-o por sobre o criado mudo à esquerda da cama. Levantou-se desanimado, a nuca doendo um pouco. Calçou os chinelos costumeiros, mas não saiu do quarto de imediato.
Passou a observar a movimentação pela janela do quarto, observando a rua calma lá embaixo. Tinha muitas coisas na cabeça, e uma delas era a postura do pai. Desde a morte de sua mãe, há onze anos, não conseguia mais se aproximar do pai como antigamente. Eles viviam como que separados por uma barreira, um muro alto, do qual nenhum dos dois fazia questão de colocar um portão. E isso não aborrecia o garoto; não mais.
Contudo de uma hora para outra o pai decidira mudar isso. Passou a tratar David cordialmente, como quem anseia por algo. Levava-o a lugares dos quais David gostava, comprava presentes e até mesmo livros, artefatos que o pai nunca concordara em incentivar o filho a apreciar. Dentre todas as novas regalias, o garoto não se deixava enganar. Tinha algo de estranho e completamente absurdo nisso tudo, ele só não conseguia entender o que era.
Talvez seja uma nova namorada, pensou David. Não seria algo novo, e ele já não se importava mais. Sabia que o pai passara a namorar novamente semanas após o enterro de sua mãe, contrariando qualquer luto. E apesar de não as ver nunca, David sentiu um sentimento estranho de início, depois passou a ignorar. O pai fazia o que bem entendia.
— Não vai descer? — quis saber alguém atrás dele.
David virou-se por completo e encarou o pai. Tinha uma aparência severa, intimidadora. Contudo parecia estar ansioso para algo.
— Não estou com fome — mentiu David. Na verdade ele estava, e muito, mas encarou o meio sorriso do homem a sua frente com curiosidade, temendo o interesse dele para que descesse.
— Mas preciso que você desça — insistiu o pai, firme. — Tenho uma surpresa.
Com certeza tinha. David assentiu por um momento, depois virou novamente para a janela. Esperou ouvir o barulho do pai saindo do quarto, talvez fechando a porta, mas não ouviu nada. Quando se virou novamente ele não estava mais lá.
Estava apreensivo, entretanto não imaginou algo que fosse bastante ruim para impedi-lo de descer. Quando apontou no alto da escada para descer ao foyer, escutou uma voz diferente, aguda. Tratava-se de uma mulher. Estava certo, o pai tinha outra namorada.
David suspirou descendo ainda mais desanimado. Havia um corredor estreito à direita que dava à porta dupla de vidro da cozinha. Era normalmente ali que jantava, sozinho, mas luzes indicavam que a sala de jantar à esquerda fora preparada para a ocasião. À medida que se aproximava ele percebeu então o que conversavam.
— ... não fale assim, não foi isso que insinuei! — disse a voz femina, rindo em seguida.
— Claro que foi — riu o pai. Ele está rindo? David não conseguia compreender. — Mas não se preocupe, ele não é de todo estranho.
Ele estancou à porta vendo o pai abraçando a mulher loira e alta. Sabia que estavam falando dele, de forma irônica. Sentiu-se confundido e até mesmo atingindo.
— Vai ser até melhor ele ter uma nova mãe — continuou o pai. — O nosso casamento talvez até concerte ele.
Então era isso. Ele ia ser casar de novo.
O garoto não soube dizer o que o ofendeu mais, se foram as palavras do pai ou a forma como ele estava tratando aquela mulher. Ele nunca fora amoroso com David, muito menos com sua mãe, o garoto podia jurar. No entanto aqueles dois estavam juntos e pareciam felizes. Era um tipo estranho de felicidade, daquela que fazia as pessoas se sentirem excluídas.
David abandonou a cena e correu para longe, passando pelo foyer, pela porta da frente e pelo portão de entrada. Sentiu o coração bater mais rápido enquanto deixava aquele bairro rico e imponente para trás. Passou pelo quintal lateral de uma residência e embrenhou-se num bosque de árvores baixas, passando a diminuir o passo.
Ofegante, parou a alguns metros de um rio largo, fundo. Nunca tivera permissão de chegar perto dele enquanto criança, agora sabia o porquê. Respirou fundo, os pensamentos que reprimira voltando a ataca-lo como um animal.
Por que a mãe havia morrido, abandonando-o naquele mundo desigual, onde não tinha ninguém? Por que tinha que viver com alguém como o seu pai? Por que não podia ficar junto de sua mãe?
Na verdade... David podia.
Sem hesitar, ele respirou fundo e pulou no rio, de olhos fechados, prendendo a respiração. Sentiu-se cair lentamente, como se tivesse em câmera lenta, mas enfim a água lhe envolveu por inteiro. Era mais raso do que ele esperava, contudo era o bastante.
Soltou a respiração devagar, esvaziando o pulmão. Então tornou a enchê-los, aspirando o máximo de água que conseguiu. Isso queima, ele pensou, mas não tinha como parar. O desespero atingiu David como um soco, e ele tentou emergir, mas não havia mais forças... era só ele e a água. E pouco a pouco tudo foi se tornando turvo, enegrecido...
David sentiu a vida esvair-se leve, lentamente, para fora de seu corpo. Então isso era a morte, pensou. Não podia estar mais enganado.
Fale com o autor