A Aldrava
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Trigger Warning: menção a estupro, bullying e depressão
Eu realmente tentei editar os espaços iniciais dos parágrafos várias vezes, mas por algum motivo todas as vezes que eu tentava publicar o texto, apenas o espaço do primeiro parágrafo aparecia, então por favor desconsidere a falta de espaço no início dos parágrafos. Vou tentar corrigir isso no próximo texto.
Inspirada na obra A Aldrava, de Fragonard
Quando aconteceu, Arthur não contou a ninguém, porque não havia ninguém em quem ele confiasse — ou sequer se importasse o suficiente; decidiu não contar a ninguém porque não faria diferença.
Nos primeiros dias, a raiva era tudo o que havia. Não foi a aula no dia seguinte, quebrou um copo, não respondeu mensagens, nem mesmo as de Francis. Depois, ele precisava fazer um esforço descomunal para levantar da cama e fingir que estava tudo bem enquanto estava na escola. Não funcionou. Foi estanho o fato de que a primeira pessoa a quem contou foi Matthew, o irmão gêmeo de Alfred. Alfred foi seu amigo, seu melhor amigo, contanto, certa vez tiveram a pior de várias outras brigas geradas pelo comportamento infantil de Alfred e a natureza controladora de Arthur; Fazia quase dois meses que não falava com ele, doía-lhe o semblante indiferente do outro quando cruzavam olhares nos corredores, ou quando compartilhavam a aula de Física. Também doía-lhe os outros atletas que insistiam em lhe prensar nas paredes e armários, e as coisas que diziam. Tentou pensar em outra coisa. A terceira coisa que lhe veio à mente foi o tímido gêmeo. Matthew e Arthur nunca conversaram muito, mas quando o inglês foi abordado por ele na saída, Arthur disse que estava tudo bem, mas não foi acreditado por um segundo, a despeito de sempre mentir bem — não uma característica a se orgulhar, porém, obviamente, é uma característica muito útil. Ele se impôs, e disse que não, que claramente tinha alguma coisa errada, e o menino quase se permitiu chorar, o que seria um golpe mortal a seu orgulho. Por fim, decidiu manter-se firme e aceitar o convite alheio para conversar em outro lugar. O café para o qual fora convidado ficava a três quadras de distância do colégio, o trajeto foi preenchido pelo constrangimento de ambos por não falarem nada, e só quando sentaram na mesa, a história foi contada. E só então ele percebeu que precisava muito falar sobre isso. Foi contado como ele não devia estar bebendo, por que não tinha idade, apenas uma identidade falsa e amigos dispostos a pedir cerveja e uísque por ele, contou-lhe também como seu algoz era mais velho, mas não conseguia sequer lembrar o nome por estar ébrio demais, que em seu estado completamente letárgico, lhe pareceu que o outro era alguém bonito e interessante (mas não contou a Matthew que o desconhecido se parecia um pouco com Francis, e que naquele dia ele estava particularmente chateado porque as meninas continuavam a dar em cima do francês), que foi convidado para sair dali e acompanhar o estranho até seu apartamento, e, até chegarem lá, ele realmente estava interessado, mas depois que foi prensado contra a parede, depois de muito mais vodca e cerveja oferecida pelo anfitrião, ele subitamente se arrependeu de ter ido até lá, e tentou dizer que não queria mais, que queria ir embora, mas foi prensado com mais força na parede e prendeu a respiração. A porta foi trancada, e depois foi prensado com mais força ainda no sofá. A partir daí, soltou a respiração e chorou e fixou o olhar vítreo na estante na frente dele. Lembrou nitidamente de ter encontrado vários autores em comum nos livros empoeirados na estante. Tinha Virgínia Woolf, Dostoiévski, Jane Austen, Orwell, Vitor Hugo, Agatha Christie, e vários outros. Contou que voltou para a casa cambaleante, sem nem saber onde estava direito, e como não sabia nome nem endereço de seu algoz, provavelmente não adiantava falar com a polícia. Matthew, geralmente bom para dar conselhos e confortar as pessoas, não sabia o que dizer, ficou lá, olhando para ele com os olhos de pena e desconforto que Arthur já esperava. O menino inglês estava agora mais quebrado do que antes, por isso tentou despedir-se e fazer com que o outro lhe prometesse não contar, e foi quando lhe foi proposto algo que, a princípio, soou estranho a seus ouvidos. Matthew pediu-lhe para falar com Francis. Não entendeu porquê aquilo lhe foi proposto. Ele era tão óbvio assim? Francis era seu vizinho e amigo -embora ele jurasse que não era bem assim porque não gostava do francês. Não considerava Francis exatamente um amigo porque era algo diferente e mais profundo que isso, embora considerasse a ideia de alguém como ele gostar de alguém como Francis ridícula, porque Francis era tão gentil, tão charmoso, tão bem quisto, tão popular. Alguém como Arthur jamais conquistaria alguém como ele. Seu colega insistiu até que enfim cedeu: contaria a Francis, porque lhe foi dito que ele estava muito preocupado com ele -algo que ele poderia notar pelas ligações e abordagens nas aulas, no refeitório, nos corredores, no caminho para a casa. No dia seguinte, ele iria falar com Francis. Assim que se deitou para dormir, chorou. Chorou também de manhã, enquanto colocava o material na mochila e trocava de roupa. Não se deparou com Francis no caminho devido ao atraso do outro, como descobriu mais tarde. Quando perguntou por Francis a Antônio, ele recebeu um olhar estranho, mas o espanhol não fez nenhum comentário além de informar onde Francis estava. Quando chegou na biblioteca, o encontrou concentrado em resolver exercícios de História. –Oi. -por fim quebrou o silêncio.–Oi, Arthur. Então você finalmente vai voltar a falar comigo?– Desculpe- disse, constrangido. Quase desistiu de seus planos iniciais, mas o outro lhe deu um olhar arrependido e se desculpou.
–Eu... eu queria falar com você, se você não se importar, porque eu quero explicar o meu comportamento rude nos últimos dias. Você pode ir a minha casa hoje depois da aula?–Claro, e mais uma vez, desculpe por te tratar de forma rude. Mas diga, é algo com que devo me preocupar?–Não. Bom...você vai saber mais tarde. Então...te vejo mais tarde no portão ou você quer passar na minha casa mais tarde?–Eu te acompanho.–Então, te encontro mais tarde. Foi atrás de seu confidente.–Matthew, você por acaso disse alguma coisa para alguém?–Não, você me fez prometer, por quê? Alguém disse alguma coisa? Arthur, você provavelmente não percebeu, mas há pessoas preocupadas com você, sabe. Talvez você devesse denunciar, ir a um psicólogo, fazer alguma coisa. Alfred me perguntou de você ontem.–Bem, se você não disse nada, só esqueça isso.–E como exatamente eu poderia esque- foi interrompido pelo inglês, agora visivelmente nervoso.–Não me importa. Só por favor esqueça, tudo bem? Eu vou falar com Francis hoje, como você queria. Viu? Não precisa se preocupar. E por favor, não toque nesse assunto comigo de novo. Ignorou o que quer que o outro responderia e lhe deu as costas, andando rápido, com um nó na garganta. Foi até o banheiro, e ao ver sua imagem no espelho, quase riu de si mesmo por parecer tão patético. Sempre soube esconder o quão triste ele era, e agora, uma mera noite bêbado o desestabilizou completamente. Não era como se fosse a primeira vez. Depois de se recuperar, saiu de lá como se nada tivesse acontecido, e apressou o passo, ou iria se atrasar para a próxima aula. Geralmente, Arthur gostava de ter aulas, gostava de aprender, o que se refletia no seu brilhante histórico escolar, mas não naquele dia; naquele dia, ele só queria ir embora logo, queria se enrolar no cobertor e ficar lá até morrer. Na saída, pôde avistar seu vizinho lhe esperando perto do portão, conversando com um grupo de pessoas. Sorria, mas ele sabia que aquele sorriso era falso. Um pensamento passou por sua mente antes de se aproximar. Onde eu termino e você começa. E naquela tarde, sob a luz avermelhada do crepúsculo em sua janela, ele contou tudo, e foi fácil, muito mais fácil do que imaginara. Ficou levemente surpreso quando Francis lhe abraçou, com intensidade, e dor, e ferocidade. Portanto, não ficou nem um pouco surpreso ao sentir mornas lágrimas no seu ombro. Ouviu-lhe dizer que queria protegê-lo, com uma voz tão quebrada que chorou também. Ficaram mais próximos do que nunca nas próximas semanas, e as coisas foram se desenvolvendo lentamente, culminando finalmente na primeira vez que se beijaram, numa tarde de domingo, em meio aos livros de matemática e dos rascunhos, quando Francis sussurrou-lhe que lhe amava pela primeira vez. Não fizeram nada muito além disso naquele dia, mas em menos de uma semana depois, os pais de Francis saíram para jantar, e quando Arthur foi deitado na cama do francês com o máximo de suavidade e devoção que imaginaria, foi perfeito, foi tão lindo que não conseguiu conter a emoção que transbordou em forma de lágrimas. Nunca imaginaria que algum dia choraria de felicidade.
Notas finais
Se alguém ler isso e tiver alguma opinião sobre a história ou comentário quanto a estrutura textual/gramática, por favor sinta-se livre.
Eu tive a ideia a partir de um "mini" documentário de uma série sobre pinturas do Louvre (caso alguém se interesse: https://www.youtube.com/watch?v=gL_0WzEYmfg)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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