Notas iniciais
"Use calma. A vida pode ser um bom estado de luta, mas o estado de guerra, nunca será uma vida boa."

Tomei um grande susto... Como aquele ser poderia querer me matar? Refleti... Mas era tudo tão confuso, tão embaraçoso que era difícil até pensar... Busquei então não pensar nisso por hora, já que eu tinha que ir atrás de meus pequenos irmãos. Imagino como eles estariam. Em perigo eminente, com fome, medo, falta de um abraço amigo e irmão... Aquele mundo em que vivíamos, infelizmente não existia mais.

Levantei-me. Peguei aquela faca e fui até o armário que ficava embaixo da pia da cozinha, reuni umas latas de ervilha, milho e salsichas, fui até o tanque, peguei uma caixa que continha algumas ferramentas, tirei um alicate e um martelo de alumínio (que não eram pesados) e a corda que ali estavam. Fui até o armário que ficava em cima da pia e olhei, observei... Peguei uma garrafinha de água e a enchi com água que estava dentro da geladeira. Coloquei tudo com cuidado dentro da mochila e então era hora de partir... Mas como sair dali em segurança? Para onde ir? E o que fazer depois? Eram tantas perguntas... Perdi-me entre tantos pensamentos...

Parei de raciocinar naquilo por alguns instantes e me veio à cabeça a minha bicicleta, que usava para ir as minhas aulas de Parkour e aos treinos de arco e flecha. Poderia ser uma forma de me locomover sem muito perigo e com rapidez, já que estava com uma mochila razoavelmente pesada.

Sai da cozinha e fui à garagem, mas antes de entrar pelo portão, dei uma espiada, para não encontrar de surpresa mais uma daquelas aberrações sinistras. Já sentia muito medo e agora muito mais. Havia em torno de 10 caras lá, rodando em círculos sem rumo. Observando mais, vi minha bicicleta lá no final, como se já não bastasse à presença deles. Logo lá no final? Cara... Que furada... E nem adiantava correr para pegá-la e sair rapidamente... Iriam me apanhar. Não tinha escolha, eu teria que enfrenta-los. Puxei a flecha, coloquei no arco e me veio outra questão na mente. Onde acertar para poder fazê-los parar e então conseguir sair ileso dali? Lembrei-me daquela mulher que eu havia acertado no braço e na perna, porém sem sucesso, só conseguindo me safar após furar sua face. Seria esse o único ponto fraco dessas aberrações? Não era hora para testar isso, então mirei na cabeça do monstro mais próximo a mim, mas ele andou pra direita e acabei acertando em seu pescoço. Bem, todos se viraram pra mim e então começaram a vir até mim que nervoso, repetia os mesmos movimentos, encaixar a flecha, mirar e atirar, tudo isso andando pra trás, tomando distância para acertar os alvos adequadamente e para também não ser atingido. Um, dois, três, quatro, cinco, eles iam caindo e eu pegando o jeito da coisa... Que terrível forma de pensar... Eu matando pessoas...

Todos caídos. Essa foi à cena que eu vi quando acabei. Alguns só tinham caído e eu não havia lhes tirado a vida. Puxei uma flecha, andei até eles e um por um tratei de conferir se ainda lhes restava um sopro de existência. Nos que ainda tinham movimento, lhes dei fim ao sofrimento ao encravar uma flechada na cabeça. Dos que eu tinha abatido ao chão, cinco estavam vivos, bem não mais agora.

- Droga, a lanterna! – Erro meu dizer aquilo em voz alta.

Abaixei a guarda, fui à cozinha novamente, peguei a lanterna e então retornei à garagem para subir na bicicleta, colocar a mochila nas costas e ir embora... Errado. Muitos daqueles seres abomináveis se acumularam na rua. Acho eu que foi por eu ter exclamado o esquecimento da lanterna. Mas poderia ser por outros motivos que eu desconhecia, quão ignorante eu era. Centenas deles estavam lá, andando e perambulando em meio à noite escura que convidava o medo e o desespero a um baile de horrores. Perdi o controle da respiração, entrava em pânico, quando já pensava em ser a minha hora de finalmente encontrar pessoas que eu amava. Mais uma vez errado. Ouvi então aquela voz doce, calma, falar em minha cabeça: “Nunca desista!”. Era minha mãe, me fazendo lembrar dos meus irmãos, da minha vontade de viver e das pessoas que eu amava e que agora estavam mortas. Não, suas mortes não poderia ser em vão, eu tinha que continuar e não desistir.

Subi na minha bicicleta, pedalei o mais rápido que pude e achando umas brechas entre os monstros eu escapei daquele desfile sombrio. Foi fácil no final. Às vezes, a nossa maior prova é controlar nossas reações frente ao perigo que parece ser invencível, mesmo que este não seja difícil de vencer. O medo e o desespero nos cegam frente aos nossos objetivos e temos que ser pacientes, ter calma pra podermos prosseguir. Prosseguir... Palavra chave de um caminho que não tem mais volta de algo que está em construção, de algo que deve continuar a existir. Minha vida tem que continuar a existir, a possibilidade de salvar meus irmãos deve continuar a existir.

Quando era menor eu ia a uma reserva florestal chamada floresta da Tijuca com meu pai, no Rio de Janeiro. Foi um local utilizado por Dom Pedro II para plantar café, porém o solo não era adequado e não rendeu o que se esperava. Então ele que desmatou toda essa mata atlântica, retirou a plantação de café e replantou todo esse bioma incrível de fauna e flora que hoje é uma reserva florestal. Ou pelo menos era.

Seria fácil viver lá, animais para caçar, dormiria em uma árvore, construiria uma casa com a madeira que dali eu retiraria, poderia explorar, enfim, viver lá. Neste instante, as luzes se apagaram tudo ficou escuro, a energia elétrica havia sumido e eu tive que acender a lanterna para poder desviar dos carros, corpos jogados à rua e postes que haviam tombado em meio a acidentes e caos. Acender a lanterna me ajudava a ver, porém me fazia ser visto o que não era legal, pois pessoas ruins e monstros conseguiriam me atacar.

Sabendo o caminho, à floresta me dirigi pedalando o mais rápido que eu podia para não ser atacado por aquelas aberrações. A correia da bicicleta se soltou, perdi o controle e bati em um carro capotado à minha esquerda. Fiquei nervoso, caí da bicicleta, me arranhei e tive que me levantar correndo, pegar a mochila rapidamente... Era muito difícil ver aquelas coisas se aproximando e ficar calmo... Eles vinham correndo me atacar e tive que pensar rápido...

Saí da rua, fui para a calçada, joguei minha mochila por cima da grade que tinha uns 2,5 metros de altura e com uma simples corridinha dei um salto pequeno do chão à grade, colocando meu pé esquerdo entre os ferros dela, agarrei o mais alto que podia e me puxei para conseguir dar a volta por cima da grade, ultrapassando um obstáculo que com certeza os seres infernais, não passariam.

Subi naquela construção, pulando entre seus espaços, passando por seus obstáculos, utilizando minha agilidade, subindo nos aparelhos de ar-condicionado e então cheguei ao telhado. Estava vazio e dali eu avistei luzes acesas próximas a uma esquina. Seria interessante ir até lá, para ver o que há, mas assim como eu, muitos outros seriam atraídos, sejam homens ou monstros... Não seria legal ter um contato com outras pessoas tão cedo, já que tudo estava naquele caos, o mais forte sobrevivemos, então para sobreviver, nós, todos nós, seríamos capazes de agir de muitas formas que antigamente não teríamos o atrevimento de proceder.

Ah aquelas coisas... O que eram todas aquelas pessoas que agora rondavam por aí sem se cansarem ou falarem, como se não tivesse mais consciência do que faziam? Fizeram meu mundo desabar, meus pais e minha irmã morrerem, meus outros irmãozinhos desaparecerem... Que vontade de desistir... Seria rápido, era só subir num prédio e... Jogar-me... Mas aquela voz me chamava novamente, como um alerta soa para um herói num momento crítico. “Nunca desista”...

Após ouvir essa voz, todos meus pensamentos pessimistas, de derrota e desistência, sumiram, para a entrada de uma coragem. Não falo daquela falsa coragem, estúpida essa, que te faz agir sem pensar e sem medir as consequências. Não, não era isso. A coragem da qual a voz me inspirava, era calma e serena, daquelas que nos faz raciocinar bem... E muito bem.

Deveria eu, encontrar um lugar para passar a noite. Aquele telhado no qual eu estava já não era mais seguro, pois aqueles monstros já estavam prestes a quebrar a porta de acesso ao local, me fazendo querer sair logo dali. Observando bem, avistei uma casa a 300 metros a noroeste. Eu vi que ali era um lugar de difícil acesso, com muitas arvores em volta, tornando a visualização dali por debaixo das copas mais complicada. Era mais fácil eu dormir ali, era tranquilo, não havia possíveis modos dos monstros chegarem até lá...

Desci da construção em que me via e correndo fui até o muro que dava ao quintal da casa, pulei e dei de cara com três horrendas caras, deformadas pela sua decomposição, com insetos e musgos. Senti nojo, mas tratei de encaixar uma flecha no meu arco e fazer o primeiro cair ao chão. Os dois foram em seguida. Subi então, no telhado e lá me arrumei pra dormir.

Caí no sono, sonhei com a minha antiga escola em mais uma daquelas aulas de literatura nos primeiros e mais sonolentos tempos da manhã. Nelas muitos dormem, outros torcem pra que passe logo, mas prestar atenção ninguém quer. Aliás, quase ninguém, porque Simone dos Santos, uma mulher de uns 40 anos, baixinha e gordinha, chamava a Jéssica lá na frente para falar algo à turma super interessada. Não tinha como eu dormir ou desviar minha atenção daqueles olhos verdes que brilhavam intensamente, ou não notar sua graciosidade nos movimentos dos braços na hora de falar.

- Jéssica! – Gritei, acordando de súbito...

Já era manhã, o Sol calmo e radiante, brilhava no alto, anunciando mais um dia de luta, quando ouvi:

- O que foi isso? – Uma mulher exclamou

- Não sei Ana – Respondeu um homem – Alguém aí? Sabe de onde veio? – Ele perguntou

- Não And, não. Pode ser que dali de cima...

Notas finais
A Floresta da Tijuca localiza-se no município do Rio de Janeiro, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil. Integrante do Parque Nacional da Tijuca (3 972 hectares), é a terceira maior área verde urbana do Brasil. Trata-se de vegetação secundária, uma vez que é fruto de um reflorestamento promovido à época do Segundo Reinado, quando se tornou patente que o desmatamento, causado pelas fazendas de café, estava prejudicando o abastecimento de água potável da então capital do Império.
A missão foi confiada ao major da polícia militar Archer, que iniciou o trabalho com seis escravos em 1861. Foram plantadas 100 000 mudas em treze anos, principalmente espécies nativas da Mata Atlântica.
- Galera, não esqueçam de comentar. Se gostaram, me ajudem na divulgação da história, favoritem e recomendem, obrigado e sexta que vem, tem mais!