A última pétala
1 Sem saída
Notas iniciais
Por muitos anos, acreditei que conseguiria guiar minha família, meu pequeno e belo jardim de duas flores. Meu nome é Rachel Downfair, ou pelo menos costumava ser. Somente Rachel oficialmente, pois perdi meu sobrenome quando minha família me expulsou. Claro, que vergonha eu fui! Sujei o tão estimado nome Downfair e toda a sua glória.
Tudo por causa de Vincent Weltear.
Eu me lembro muito bem do dia em que tudo começou. Meu pai estava muito feliz pois finalmente sua pequena Rachel iria se casar, lhes dar orgulho, netos robustos e reuniões felizes aos domingos, ora que grande ilusão! Até eu cheguei a acreditar. Eu tinha somente doze anos quando Vincent pôs a aliança em meu dedo, ele? Já beirava os quarenta, mas não tinha filhos e eu era uma fértil oportunidade.
Nos primeiros meses eu aprendi muito sobre sua família, antes do casório eu costumava brincar com seu irmão, Claus Weltear... nós dois sonhávamos em ser médicos, mas isso obviamente não aconteceria comigo. Sempre achei estranho o fato de Claus ser mestiço claro e Vincent ser negro legítimo, não era racismo, e sim curiosidade, visto que seu pai era mestiço e sua mãe era alva. Mas essas eram questões que eu não ia solucionar, pelo menos não tão cedo, afinal com menos de um ano de casamento eu já carregava um bebê em meu ventre. Imagine isso! eu era uma criança que não sabia nem de onde as outras crianças vinham. Eu só sabia que doía o que Vincent fazia todas as noites, e queria que ele parasse, para que eu pudesse brincar com as minhas bonecas, mas ele nunca parava... Dizia que era necessário. somente quando Claire nasceu que ele decidiu me deixar em paz, mas só pelo fato dele não aguentar minha menininha gritando. Mas ela era... Linda, eu a amava do fundo do meu coração infantil. Foi quando Vincent começou essa história de me comparar á uma flor. ele dizia que juntos faríamos um jardim de alvas flores, com suas pequenas pétalas sorrindo para nós. Acreditei em seu sorriso e logo minha barriga começou a crescer novamente.
Claus:Rachel, será que dessa vez será um menino? — perguntou ele com a mão em minha barriga um dia.
Vincent: Claro que será um menino, preciso de um herdeiro!
Eu segurei a mão de Claus em cima da minha barriga naquele dia, foi o primeiro calor humano que eu senti em anos, Vincent só me tocava para " plantar sementes" como ele dizia e se eu não deixasse ele fazer isso, ele me bateria. mas até aquele dia, eram só ameaças.
Lembro-me que Claus não fez questão de se afastar de mim naquele momento, ele se abaixou, ficando de joelhos e sem tirar a mão da minha barriga e olhou bem para mim.
Claus:Se de fato for um menino, será um belo rapaz... pequeno Richard. — ele falou e encostou os lábios em meu ventre. Naquela hora eu decidi que aquele seria o nome do meu filho.
No frescor dos meus quinze anos, eu não sabia o que aquele beijo tinha iniciado, mas sabia que era algo sério e inapropriado, principalmente depois de ver o olhar de Vincent para nós.
E naquela noite, sem entender o motivo, eu levei a minha primeira surra de meu marido.
Tudo o que eu pensava era se meu pequeno Richard estava bem aqui dentro. Vincent foi perfeitamente peverso, mirando minha barriga e meus seios com seus chicotes. quando finalmente cansou, me jogou no chão e pisou em minha perna.
Vincent:Não vou aturar isso novamente, entendeu? Sua puta.
Eu nem sabia o que a palavra significava. Vincent havia me privado de todos os livros desde os meus doze anos.
A pequena Claire a tudo assistira, mas não chorara como de costume, acho que ela pressentiu o perigo.
Mas esta não foi nem de longe a pior de minhas experiências.
No dia do nascimento do meu pequeno Richard, Claus não apareceu, ninguém apareceu. Só me lembro da dor, e do súbito escarlate tingindo minhas vestes e o resto do cômodo, então o choro, meu bebê vindo ao mundo. Choro seguido de dor, dor e mais dor, apertei os lados da cama que estava, esperando por alguma reação de Vincent, segurar minha mão, talvez? Um gesto humano. Procurei Claire com os olhos e lembrei que ela não estava aqui, minha menininha... qual seria a sua reação ao conhecer o irmãozinho? E por que diabos Claus não estava aqui comigo? Ninguém mais teria escutado meus gritos de dor além de Vincent? Ninguém estava escutando o choro do meu filho agora? As perguntas iam e vinham na minha cabeça e eu estava completamente tonta, tudo do quarto estava coberto por uma névoa que envolvia a minha visão, a única cor que eu conseguia enxergar era o vermelho do meu sangue, sangue do meu filho. qual de nós dois está gritando mais alto agora? Eu não saberia responder. Respirei fundo e concentrei todas as minhas forças na imagem mental que eu tinha da minha família de hoje em diante: Eu e as crianças no jardim com Claus segurando Richard e Vincent segurando minha barriga já crescida novamente... Não haveria mais espancamentos, ele se apaixonaria por nossos filhos e faria de nós uma família feliz. Nunca mais eu veria aquelas varas, chicotes e... pensar nisso estava me acelerando novamente, pensei nas flores perfeitamente podadas dos jardins, minhas flores. E então veio o silêncio. Eu podia ver novamente.
Só que havia algo errado. Um urro de raiva, talvez? Ainda com as mãos sangrentas Vincent me encarava. havia uma pequena forma em suas mãos, pardo, sangrento, perfeito como o sol se pondo refletido no mar, meu filho. mas o que era aquilo nos olhos de meu marido?
Sorri para ele buscando o conforto que não veio. Vincent atirou a criança em mim.
Vincent: UM NEGRO? como ousas a me dar um negro?
o que? eu não conseguia nem falar. Richard era perfeito.
Vincent: Isso é por causa daquela surra? SUA PUTA! eu não quero essa aberração.
Eu não entendia. Meu pequeno Richard era mestiço, vindo de alguém branco como eu e um negro legítimo como Vincent, eu não esperava algo diferente, eu o imaginara assim, eu o queria assim. como Vincent pôde odiá-lo?
Vincent era racista.
Eu descobri isso depois de perder o nome Weltear e ser expulsa da casa antes mesmo de falar com Claus talvez ele concordasse com o irmão e me quisesse longe. Vincent também deu um jeito de fazer com que os Downfair acreditassem que eu havia o traído, minha família me olhou com desprezo e vergonha e eu perdi tudo. Eu não tinha para onde ir, eu não tinha para onde voltar. Era somente eu, uma criança e um recém-nascido jogados na rua durante o cruel inverno da Inglaterra. Eu não tinha nada, exceto um objetivo: proteger meu pequeno jardim.
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