Seu tio parecia bem animado para alguém com quase, ou talvez mais de 100 anos, Calleb não sabia ao certo a idade do velho e não estava nem um pouco interessado em tentar calcular naquele momento. Acabara de ter um de seus galpões com o estoque de comida roubados, e o que sobrou as cabras devoraram. "Não é um problema, a colheita foi farta e o que não é grão ou carne seca iria estragar de qualquer jeito", as palavras do tio o deixaram ainda mais furioso, o velho estava caducando!

Entrou pela cozinha e bateu a porta, fazendo a cozinheira soltar um "Virgem Maria!" com o susto. Ele pegou um pão doce e saiu da mesma forma que entrou, sem sequer uma palavra. E antes que fosse dar alguma ordem para os empregados, viu o céu escuro pelas nuvens de tempestade, "é melhor deixar para amanhã", ele murmurou para si mesmo, o dia já terminava e a chuva seria incômoda ao seu pessoal.

Indo ao salão principal, sentou-se ao lado do tio, verificando se ele estava acordado, dormindo ou num daqueles estados de transe bizarro que o senhor se enfiava as vezes. Vendo o tio imóvel, pensou em se levantar, mas a mão enrugada segurou seu braço. Mesmo sendo um centenário, as vezes Bernard parecia ter mais força que um jovem cavaleiro.

—Diga-me, meu filho, desistiu de mandar Reinald buscar providências na cidade?

—Ora essa, a chuva se aproxima e as estradas estão perigosas, seria terrível arriscar a vida de um homem neste tempo.

Calleb bufou, o bendito velho tinha razão.

Uma batida na pesada porta de madeira tirou o lorde de sua concentração, já era tarde da noite e a chuva não parecia dar trégua, ao abrir encontrou o filho do cavalariço, ensopado.

—Mandaram chamar, uma mulher pede abrigo da chuva, está sozinha.

—Mas que diabos, hoje é o dia do cão! — profanou o lorde, seguindo o garoto.

Devia ser alguma velha cigana, ou alguma pobre coitada, um prato de sopa e um monte de palha no celeiro deveriam bastar, ele imaginou. Deu um nó na própria língua ao ver uma jovem cheia de lama, com o vestido rasgado e um ferimento próximo à nuca. Pálida e com arranhões no rosto, parecia assustar-se com a própria sombra.

—Erh.. Quem é a senhorita, como veio parar aqui? — Ele se amaldiçoou por soar rude, nunca fora bom em falar com o sexo oposto.

—Estou perdida, e bem, eu.. Eu não lembro..

Ele gemeu de frustração com a resposta, como raios alguém não sabe de si próprio? Demorando a responder, não percebeu o tio ao seu lado.

—Ela tem uma ferida na cabeça, já vi isso acontecer. -Ele sorriu com ternura para a garota, e ela deu um sorriso frouxo em resposta.Então virou-se para o menino que olhava a jovem com curiosidade-Chame Irma, mande preparar uma banheira com água quente e encontrar umas roupas novas. Agora menina, sente-se e respire um pouco, parece uma vela de tão branca.

Decidindo que seria melhor deixar a função de acalmar a moça com o tio, Calleb dedicou-se a observá-la. Era baixa, bem mais baixa que todas as moças do castelo, também tinha o corpo mais rechonchudo, agora que estava mais calma e ouvia as histórias do senhor enquanto comia pão e sopa, o rosto tomou uma cor rosada agradável, o que acentuou as sardas e combinava com os cabelos ruivos. "Não deve ser uma bruxa", ele riu sozinho, as roupas indicavam que possuía alguma nobreza. Uma capa azul cinzenta adornada com um broche que possuía uma águia desenhada, e um vestido de cetim rosa claro, tecido e cores que não eram nada simples.

Foi tirado de seus pensamentos pelo seu tio, a garota tinha sido levada à sala de banhos e eles deveriam voltar para a cama, Irma cuidaria do resto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.