A Única Exceção do Rei
5 A Visão
Notas iniciais
O leito em que estava despertou-me por minha consciência lembrar da minha atual situação. Não deveria estar em minha cama, decerto. A primeira coisa que consegui ver foi um par de olhos estupendos e azuis, tão claros e perfeitos que duvidei o céu não sentir inveja pela sua magnitude. Seu rosto era de uma pacificidade sem igual, e seus cabelos dourados pendiam de maneira espetacular, descendo delicadamente até parte de suas vestes brancas e douradas. Sua boca, seu nariz, suas sobrancelhas perfeitamente delineadas, tudo, encantara-me de forma sem igual. Aquela era a imagem da perfeição sem dúvida alguma.
Tentei me mover, porém meus braços e pernas estavam presos em correntes nas grades do leito. Minha voz falhou quando tentei produzir algum som de protesto.
O elfo aproximou-se ainda mais, encarando-me de forma minuciosa como se analisasse algum ser de outro mundo. Sabia que, provavelmente, eu estava esfarrapada e desgrenhada por causa da fuga, mas não era pra tanto. Seus cabelos encostaram-se em minha pele do rosto, fazendo cócegas. O elfo estava tão perto que podia sentir sua pesada respiração. Não consegui sequer piscar, mas meu coração seguia acelerando, fazendo-me perder o fôlego e a paciência.
— Você não é um Orc. – O elfo disse, afastando-se de mim finalmente.
— E concluiu isso agora? – Respondi, acompanhando-o com o olhar.
Ele voltou a me encarar. Seu olhar frio causou-me arrepios de medo.
— O que você é? – Ele perguntou, ainda analisando-me.
— Não é óbvio? Sou humana. – Respondi não entendendo a confusão do elfo. Por acaso nunca vira um humano de perto?
— Não me parece tão óbvio assim. Claro, percebi que se trata de uma fêmea, mas não uma humana. – Ele continuava a me encarar de modo que me arrepiava.
— Nunca vira uma humana de perto?
O elfo aproximou-se um pouco mais, dando a volta no leito e olhando-me de cima à baixo.
— Não tão feia assim.
Senti vergonha pelo que ele disse. Sabia que não era exemplo de beleza, porém não era pra tanto. Ele achara no início que eu era um Orc, e agora disse que eu era muito feia. Afinal, nem sou a pior das humanas da Cidade do Lago, e era jovem e conquistara um homem bonito e parcialmente importante.
— Desculpe não lhe agradar aos olhos. Nem todos nasceram loiros e perfeitos, como o senhor. – Respondi, vendo o elfo sequer esboçar outra reação que não fosse curiosidade e um olhar totalmente frio.
— O que fazia com aquela aranha? Por que a trouxe até meu reino? É, por acaso, alguma domadora? Feiticeira?
— O que? – Não acreditei no que ouvi. – Eu não trouxe aquela aranha! Ela me seguiu.
— E por que a atraiu? Estava tentando livrar-se dela?
— Não! Ela queria me comer! Eu não sou domadora de aranhas, nem feiticeira, nem nada do que está pensando. Ela me seguiu, e já estava perto da borda da floresta. Não tive culpa. – tentei esclarecer, mas notei o desespero tomar conta do meu tom de voz, e isso não era nada bom.
O elfo deu as costas, passando a observar a janela. De fora, via-se uma luz fraca e parcialmente dourada preencher o ambiente.
— De onde você é? – ele perguntou, sem tirar os olhos da janela.
Fiquei em silêncio. Não queria dizer que era da cidade do lago, e muito menos ser levada para lá outra vez depois de todo o meu esforço para fugir.
Ele voltou-se para mim.
— De onde é? – perguntou outra vez, alterando seu tom de voz calmo para aborrecido e parcialmente alto.
— Do mundo. – Respondi, encarando-o com desdém.
Os olhos do elfo arregalaram-se com minha estúpida resposta. Percebi suas pupilas dilatarem-se pelo estresse que começava a apontar e uma veia saltar em sua testa.
Antes dele responder, alguém bateu à porta. Um elfo ruivo de olhos verdes escuros apareceu cheio de cortesia.
— Majestade. – o elfo cumprimentou com uma reverência.
— Pois não, Hern? – o elfo loiro sequer olhou para o outro, ignorando sua reverência por completo.
— Não há sinais de outras aranhas, apenas aquela que a criatura trouxera.
— Eu sou humana. – me exaltei. – Humana!
O que se chamava Hern aproximou-se do leito, seus olhos verdes cravaram-se em mim de modo assustado.
— É, ela é humana. – Ele disse, concluindo o que já era óbvio para o outro elfo.
Outra batida na porta. Dessa vez uma elfa ruiva, lindíssima e de olhos também esverdeados apareceu.
— Meu senhor. – ela cumprimentou o elfo loiro também, seguindo o seu olhar para mim. Parecia que eu virava a atração dos elfos no momento.
— Alguma notícia sobre as outras criaturas? – O loiro perguntou, retornando para a janela.
— Não, meu senhor. A Floresta está limpa mais uma vez. – A elfa disse, passando a me analisar também. – Talvez a... senhorita aqui tenha informações sobre algo.
Suspirei em desaprovação. Pra quantas pessoas eu deveria dizer que eu não era a culpada pela aranha estar andando pela floresta?
— Eu não sei nada sobre essa aranha. – Falei com convicção. – Eu não tenho culpa dela ter me atacado e me seguido. Eu estava fugindo dela, não a atraindo! – E me voltei para o elfo loiro visivelmente irritada. – E eu não sou uma feiticeira!
O elfo virou-se para mim com fogo nos olhos.
— O que fazia em minha Floresta?
— Estava fugindo. – Respondi.
— Fugindo de quê? – A elfa ruiva perguntou.
— Não posso dizer. Mas eu preciso que acreditem em mim, eu não queria fazer mal algum! Só estava viajando, e queria continuar com minha viagem, se não se importam.
A elfa entreolhou para o elfo Hern e o loiro furioso.
— Não sairá de minhas terras até dizer a verdade. – Ele disse, meio que concluindo em sua cabeça que tudo o que eu falara era mentira.
— Mas estou falando a verdade. – protestei. – Eu não fiz nenhum mal. Sou humana e estava fugindo.
Cansado daquela discussão, o elfo virou-se para a porta.
— Tauriel, tranque-a nas masmorras. – ele disse, virando as costas e saindo do local.
— Mas... não! – gritei — Eu não fiz nada! Porque estão me prendendo?
A elfa soltou minhas mãos e pés das correntes, enquanto o outro segurava-me com firmeza para não fugir. Tentei me soltar com todas as minhas forças, porém o elfo era muito forte.
Passando pelo caminho até as masmorras, vi o porquê de ninguém entender que eu era humana, e porque o elfo loiro dizer que eu era tão feia. No corredor, grandes espelhos estavam pendurados a cada dois metros, e ambos tinham tamanho suficiente para enxergar meu corpo inteiro. Meus cabelos estavam tão eriçados e sujos, que a cor dele mudara a medida que a poeira cinza apoderara dele. Minha pele estava toda coberta de sujeira e sangue, com vários cortes em todos os lugares do rosto, e no braço um enorme arranhão pingava sangue. Minhas roupas estavam rasgadas e imundas também. Realmente não parecia uma humana, nem a mais feia delas.
Na entrada das masmorras, vi grandes celas com alguns elfos dentro. Provavelmente estavam ali há muitos anos, e pareciam pertencer ao próprio povo da Floresta das Trevas, por serem a maioria ruivos e de olhos verdes, e que estavam tão sujos e jogados à própria sorte que deu pena.
Fui levada mais abaixo, num canto mais afastado e frio. Apenas alguns feixes de luz e um precipício abaixo das escadas era o que se via.
Fui jogada pelo elfo numa das celas menores. O lugar era apertado, e não tinha nada além de uma fossa. A água vinha da parede, e parecia brotar limpa, mas não haviam lençóis ou um colchão sequer.
Após me trancafiarem, fiquei sozinha por completo. Nem o barulho de uma mosca para me fazer companhia, o que me deixou desesperada.
Eu não gosto de estar só, apesar de prezar muito minha privacidade. Não tenho muitas amizades por causa da minha teimosia, isso é fato. Porém, eu não gostava da sensação de saber que não há ninguém por perto e que não há nada para fazer. O mundo parece não fazer sentido quando nos sentimos só e ao mesmo tempo trancafiados numa jaula.
Tentei recuperar o fôlego que perdia aos poucos. Meus pulmões pareciam buscar por mais ar do que eu aguentava, fazendo-me sentir uma estranha dor no peito. Senti meu corpo amolecer-se enquanto tentava conter as lágrimas do choro. Queria poder matar aquele elfo loiro. O que custava acreditar em mim? Não estava ali para confrontá-lo, ou para invadir seu reino, ou para levar aranhas gigantes. E eu só queria ir embora.
Deitei no meio da sujeira, tentando manter meu braço que escorria sangue para o lado que não atingia o chão. Estremecia ao sentir a dor quando minha mão apertava o machucado, tentando parar um pouco o sangramento que escorria bem lentamente. Após anestesiar-se um pouco, consegui adormecer no chão frio, duro e sujo.
~***~
Terceiro dia nessa jaula. Na tarde anterior, o rei Thranduil voltara para me ver e perguntar mais uma vez o que eu fazia em suas terras. Sinto meu corpo esquentar-se de raiva todas as vezes que o olho. Gostaria de poder enfiar minhas unhas naquele rosto perfeito e acabar com sua magnitude.
Tauriel me trouxe roupas limpas hoje, finalmente. Já não aguentava usar as rasgadas e sujas ao qual fui presa, e me sentia cada vez mais um orc de acordo com o passar dos dias. Também me trouxe outras toalhas, uns lençóis e boa comida. Já não aguentava comer um tal pão de elfos, e ela entendera que eu era frágil e estava definhando por nada naquele local.
Quando me certifiquei que não havia ninguém por lá, retirei toda a minha roupa para banhar-me com a água da fonte que caia da pedra dentro da cela. A água era muito fria, porém tão limpa que era boa de beber. Estirei a roupa velha no chão, e de joelhos e completamente despida, comecei pelos cabelos que já estavam duros como pedra. Foi um enorme sacrifício retirar toda a poeira e lama dele, enquanto tentava desembaraçá-los com as próprias mãos.
Depois de feito isso, passei a jogar água por todo meu corpo. Senti cada poro arrepiar-se com o frio, e a sujeira descer aos poucos, revelando minha verdadeira pele. Inacreditavelmente, esta estava mais lisa do que nunca, e imaginei ser por causa da lama preta que a encobriu.
Meus seios enrijeceram-se com o frio, porém a dor de estar nua e completamente molhada era misturada com a sensação de prazer por estar me limpando. Tauriel entregara-me também um sabonete, que tratei de passar pelos machucados de minha pele. Depois de três dias, me surpreendia estar sarando ao invés de pegar uma infecção. Mas, à medida que limpava meu corpo, percebia que não passavam de pequenos arranhões que já se curavam, e que não estava tão ruim como pensava.
Enrolei meus cabelos num coque, e me levantei em busca da toalha que Tauriel deixara. Agradeceria ela depois por me ajudar com essas pequenas coisas.
Ao me botar de pé, e me virar para frente da cela, percebi aquele mesmo par de olhos fitando-me curioso. Não pude acreditar que Thranduil voltara na mesma hora para me visitar, como fez no dia anterior.
Fingi calma. Mesmo nua e sob o seu olhar frio e assustado, fui em direção a toalha e a enrolei em meu corpo delicadamente, procurando esconder o máximo possível. Há quanto tempo ele estava ali sem pronunciar-se?
— Veio fazer seu questionamento rotineiro, majestade? – Perguntei, fingindo uma reverência.
Thranduil passou seus olhos por mim de baixo para cima. Sua boca entreabriu-se, depois engoliu em seco. Sua atitude pareceu envergonhada, mas seus olhos estavam vidrados em meu corpo de maneira nada sutil.
— Posso me vestir, se preferir, e depois o senhor volta para me ouvir dizer que não tive culpa daquele monstro me seguir.
Ele balançou a cabeça em negativo, depois, com os braços para trás, fez menção de dizer ou fazer algo. Porém, desistiu antes que a mínima palavra fosse dita, e desviando seu olhar buscou as escadas.
Atitude estranha por assim dizer. Provavelmente não esperava por ver aquilo, mas poderia apostar que estava ali desde o início, observando o monstro se revelar realmente humano. Talvez Thranduil não estivesse acostumado a ver mulheres nuas. Nem sei se ele é casado, se é viúvo ou nunca chegou a se casar, porém sabia que tinha um filho, então, de alguma forma, já vira uma “fêmea” nua antes.
Talvez eu não fosse tão feia quanto ele disse.
Talvez ele percebera isso.
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