A Última Sentença
2 1º dia, 18/07/2013
Notas iniciais
1º dia, 18/07/2013
E eu estava sozinha lá, no meio da rua. Olhava para todos os lados possíveis, mas sem uma única alma viva. Todas as portas da rua estavam abertas. Todas, sem exceção. Portas de garagem, das lojas, das casas, portas de box de banheiros. O que fazer agora? Então eu me sentei no chão. Eu era uma garota de 16 anos, sozinha. Fiquei olhando para um ponto fixo no meio do nada. O que aconteceu aqui? Porque não tem ninguém na cidade? Cadê os carros? Porque todas as portas estão abertas? Onde está todo mundo?
Não vamos levá-la.
Uma luz forte tomou conta da minha visão. Alguém estava do meu lado, pronunciando palavras que eu não conseguia distinguir. Uma dor de cabeça muito forte estava me consumindo, eu não sabia onde estava ou o que estava fazendo ali. Ouvi o que achei que era um sussurro, que dizia “Não vamos levá-la”. Não vamos levá-la? Não vamos levá-la pra onde? Quem vai levar quem? Seria eu? Nesse momento, tentei levantar da superfície dura e fria em que me encontrava deitada. Fui detida no mesmo instante. Uma mão foi colocada na minha cabeça, e senti uma vontade irresistível de dormir.
Acordei de repente, na minha cama. Olhei no relógio: três horas da manhã. Ah, deve ter sido somente um pesadelo atoa. Deitei de novo e adormeci.
Desnorteada novamente, acordei. Estava com calor e o lençol estava molhado de suor. Minha respiração acelerada e meus batimentos cardíacos tremendo meu corpo, sentei, devagar, e suspirei. Só um pesadelo, acalme-se. O relógio na minha escrivaninha marcava 12:21pm. Á essa hora, esperava um cheiro de carne pela casa, mas minha porta estava fechada. Recobrando os sentidos, levantei da cama. Meus passos ecoavam pela casa.
A mesa do café estava posta, mas nenhum sinal de ninguém ter se sentado ali. Onde estariam meus pais? O portão de casa estava aberto, deviam estar todos do lado de fora. O sol ofuscou minha visão por alguns segundos e eu fui obrigada a parar. Escutei o som de um regador por perto. Andei mais um pouco, passando pelo portão, olhando para os lados.
– Pai? – Chamei. Os portões dos vizinhos também estavam abertos. Escancarados, um por um, exatamente como no meu sonho – teria mesmo sido um sonho?
Não ouvi nenhum tipo de som, nem mesmo os comuns latidos abafados pela distância de cachorro. As ruas estavam vazias, e a avenida ao lado de minha casa, muito movimentada normalmente, não tinha um único carro em sua longa extensão. Fui até as outras ruas que interligavam com a minha, mas não tinha ninguém, nem um carro, nem um cachorro, nada. Só eu. Olhei para casa do vizinho da direita: todas as portas escancaradas, como as outras, mas nunca ninguém em casa. Estava começando a ficar desesperada. O que aconteceu aqui? Cadê todo mundo? Comecei a correr em direção a nada. Corria, com minha camisola esvoaçando com o vento, me dando ar de dama em perigo. Seria até belo, se não fosse trágico. Corria, como se minha vida dependesse daquilo. O ser humano estava mesmo programado para correr ou lutar numa situação de perigo, como constatei.
A frase do meu sonho ecoava lentamente em minha cabeça. Não vamos levá-la, não vamos levá-la, não vamos levá-la. Subitamente, caí. Uma pedra mal posicionada me fez tropeçar. Estava mais ofegante do que quando acordara, e agora mais suada do que nunca. O sol do meio-dia queimava minha cabeça e meus joelhos sangravam. Não doía. Uma umidade a mais fez-se sentir em meu rosto e reparei que estava chorando. Abaixei a cabeça lentamente, deixando os soluços me possuírem.
Eu não podia estar completamente sozinha. Podia? Pois era o que parecia. Estava sozinha. Ninguém na cidade. Nenhum carro nas ruas. Nem mesmo animais. Estava sozinha. E eles não me levariam.
Um grito ecoou pela cidade que agora enegrecia à medida que o sol baixava. O meu grito, o meu. Nada fazia sentido. Estaria morta? Todos teriam fugido de algo e esquecido de me avisar? Uma sombra se moveu ao meu lado. Virei a cabeça rapidamente, na expectativa que alguém aparecera. Não, somente minha imaginação já agindo contra mim. Fechei os olhos com força, esperando acordar de mais um pesadelo. Acorde!, eu gritava para mim mesma. Acorde agora!
Mas eu não acordaria, por que não era um pesadelo. Eu estava sozinha, e eles não iriam me levar.
Não vamos levá-la.
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