A Última Romã

1 O Tempo Mudou


Perséfone sabia que ainda amava Hades. Talvez fosse essa a parte mais cruel.

Se tivesse deixado de amá-lo, haveria alguma facilidade naquela decisão. Se existisse raiva suficiente, uma ferida que pudesse ser apontada, algo concreto que explicasse por que aquilo precisava terminar, talvez conseguisse suportar melhor. Mas não havia. Hades continuava sendo Hades.

Depois de tantos milênios, ela ainda conhecia o homem à sua frente com uma intimidade que nenhuma outra criatura poderia alcançar. Reconhecia seu humor pelo modo como segurava a taça. Sabia quando estava cansado pelo peso discreto que surgia em seus olhos. Percebia quando ele estava irritado, preocupado ou quando simplesmente preferia o silêncio. Conhecia seus hábitos, suas manias, suas ausências. Sabia que Hades sempre deixava a primeira taça de vinho pela metade quando pensava em algo importante; que tamborilava dois dedos sobre a mesa ao perder a paciência e que, quando estava exausto, esquecia de ajustar a manga esquerda da própria túnica.

Ela conhecia cada um daqueles detalhes porque havia passado milhares de anos ao seu lado. E ainda amava cada um deles. Amava seus defeitos tanto quanto admirava suas virtudes. Hades era uma boa pessoa, um bom pai e um bom marido.

Perséfone ainda o amava. Esse era o problema.

Alguma coisa havia mudado. Não de uma vez. Não existia um dia específico que pudesse apontar; nenhuma manhã em que tivesse acordado e percebido que não o amava mais. O processo foi lento demais para que qualquer um dos dois percebesse quando começou. Ou talvez tivessem percebido e apenas escolhido não olhar diretamente para aquilo.

Milênios haviam se passado. O mundo mortal mudou incontáveis vezes; impérios surgiram e desapareceram, deuses foram esquecidos e os mortais contaram histórias sobre eles, alterando-as com o passar das eras, transformando acontecimentos em mitos e sentimentos em lendas. Eles haviam atravessado tudo isso juntos. Tiveram filhos, perderam pessoas, ganharam outras. Conheceram versões diferentes de si mesmos.

Houve momentos difíceis, erros e escolhas que poderiam ter sido feitas de maneira diferente. Mas nenhuma dessas coisas era a razão, nenhuma delas era o pivô. A verdade era muito mais simples e, justamente por isso, infinitamente mais dolorosa: o tempo havia mudado. E eles haviam mudado com ele. O amor permanecia; a relação, não.

Perséfone baixou os olhos para o prato.

Não, o pensamento veio imediatamente. Hoje não.

Mas outra pergunta surgiu logo em seguida: Quando, então?

Apertou os dedos sobre o colo. Não queria terminar. Talvez essa fosse a parte mais difícil de admitir para si mesma. Não queria partir por raiva, nem por falta de amor, tampouco porque Hades tivesse sido cruel. Apenas não sabia mais como continuar sendo sua esposa. E não encontrava uma maneira de explicar aquilo sem parecer injusta, ingrata, ou sem fazê-lo pensar que aqueles milhares de anos não haviam sido suficientes.

Se ele tivesse feito algo terrível, partir seria uma escolha inevitável. Daquela forma, parecia quase uma acusação contra tudo o que haviam construído.

Ela ergueu os olhos. Hades a observava. Perséfone desviou o olhar imediatamente.

Na mesa, entre os dois, havia um prato com romãs — algumas inteiras, outras abertas, exibindo as sementes vermelhas e brilhantes. Ela não sabia por que aquilo chamou sua atenção naquele instante. Talvez porque estivesse cansada de procurar significado em tudo; talvez porque as romãs sempre tivessem pertencido àquela história. Ao Submundo. A ela. A ele. Ao casamento que ergueram.

Por um segundo, uma lembrança atravessou sua mente: Hades, mais jovem — embora nenhum mortal pudesse chamá-lo assim —, sentado diante dela após uma longa viagem. Ele colocara uma romã sobre a mesa e perguntara, com uma seriedade que nunca combinava direito com o tom divertido dos olhos:

— Você vai continuar me olhando desse jeito?

Ela havia rido. Não lembrava qual foi a resposta, apenas da sensação. Da certeza de que havia escolhido aquele homem.

Perséfone piscou, afastando a memória. Não podia pensar nisso agora. Os filhos estavam à mesa. Não eram crianças e nunca haviam sido; como os pais, eram entidades antigas, com milênios de existência, responsabilidades próprias e vidas que se estendiam muito além daquela família. Conversavam entre si, trocando observações, discutindo questões antigas e rindo.

A vida continuava. Era quase cruel como tudo podia seguir normalmente enquanto Perséfone sentia carregar no peito uma sentença que não conseguia pronunciar. Tentou participar: respondeu quando lhe perguntaram algo, sorriu, até riu uma vez. Mas o silêncio sempre retornava.

E Hades percebeu. Ele sempre percebia.

— Perséfone? — chamou.

Ela ergueu os olhos.

— Sim?

— Você está quieta.

Ela quase sorriu.

— Estou?

Hades sustentou o olhar.

— Está.

Mexendo distraidamente no prato, ela murmurou:

— Não é nada.

Ele permaneceu em silêncio. Por um momento, ela teve certeza de que insistiria, que perguntaria novamente e a obrigaria a dizer. Mas Hades apenas assentiu.

— Certo.

Voltou a atenção para a mesa. O peito de Perséfone apertou. Ele aceitara, mas ela sabia que não acreditara. Hades a conhecia; sabia que aquele silêncio não era vazio. E ela percebeu algo mais: ele também sentia. Talvez por isso não tivesse insistido. Talvez estivesse com o mesmo medo da resposta.

O almoço prosseguiu. Enquanto os outros conversavam, Perséfone percebeu algo que tornou tudo pior: Hades também estava evitando olhar diretamente para aquilo. Ele sabia. Talvez não soubesse exatamente as palavras que ela diria, mas sabia. E talvez estivesse esperando que ela tivesse coragem primeiro — assim como ela esperava o mesmo dele.

Algumas horas depois, Perséfone o encontrou no parapeito do castelo. Ou talvez tivesse ido até lá porque sabia que o encontraria.

O Submundo se estendia diante deles. Ao longe, os Campos Elísios repousavam sob uma luminosidade tranquila, quase impossível de associar ao reino dos mortos. Perséfone sempre gostara daquele lugar. Havia paz ali — não a paz que procurava agora, mas uma quietude antiga, um espaço onde as almas descansavam depois de uma existência que já não lhes pertencia.

Hades estava apoiado na pedra. Ela parou alguns passos atrás dele. Ele não se virou.

— Você está me seguindo?

Ela quase sorriu.

— Talvez.

— Então está fazendo um péssimo trabalho.

— Por quê?

— Eu sabia que você estava aqui antes de você chegar.

Perséfone se aproximou.

— Convencido.

— Casado com você há milênios. Aprendi algumas coisas.

Ela parou ao lado dele. A frase era simples, quase banal, mas fez algo se contorcer dentro do peito de Perséfone.

Casado com você há milênios.

Lembrou-se de outra noite, séculos antes. Hades voltara de uma reunião entre os deuses particularmente irritado. Ela não perguntou o que aconteceu; apenas se aproximou, retirou a coroa de sua cabeça e a colocou sobre a mesa.

— O que está fazendo? — ele perguntara.

— Você está cansado.

— Não estou.

Ela sorrira.

— Está, sim.

Ele tentara protestar, sem sucesso. No fim daquela noite, dormira com a cabeça em seu colo.

Perséfone piscou, fazendo a lembrança desaparecer. Durante algum tempo, os dois permaneceram em silêncio observando o horizonte.

— Faz tempo que não ficamos aqui — disse ela.

Hades olhou para ela e voltou a encarar a paisagem.

— Faz.

— Eu gostava daqui.

— Eu sei.

Perséfone respirou fundo.

— Você ainda gosta?

Ele demorou a responder:

— Sim.

— Eu também.

O silêncio retornou. Não era sobre os Campos Elísios, e ambos sabiam.

Quantas vezes posso adiar?, pensou Perséfone. Quantos dias mais posso acordar, me vestir, conversar, sorrir e fingir que essa pergunta não existe?

O que aconteceu conosco?

Não havia uma data, um marco. O amor não desapareceu; apenas mudou. O tempo mudou, eles mudaram, a relação se transformou juntos. Mas uma dúvida a atormentava: Tenho o direito de deixar algo bom simplesmente porque deixou de ser o certo para mim?

Hades virou o rosto.

— Perséfone.

Ela o encarou. Havia algo diferente em sua expressão — uma cautela que ela conhecia bem, uma espera. A compreensão veio tão silenciosa quanto dolorosa: ele sabia. Talvez soubesse há muito tempo. Talvez estivesse esperando que ela dissesse, ou esperando encontrar a própria coragem.

— O que você está tentando me dizer? — perguntou ele.

Perséfone abriu a boca, mas nada saiu. Olhou novamente para os Campos Elísios, buscando alguma resposta, um sinal que tornasse tudo menos cruel. Não encontrou.

— Eu não sei como falar — a voz saiu baixa.

Hades não se moveu.

— Eu também não.

Ela finalmente o olhou. Não havia surpresa no rosto dele; havia medo. O mesmo medo que ela carregava.

— Você já sabia?

Ele demorou a responder:

— Eu sabia que alguma coisa estava errada.

Perséfone engoliu em seco.

— E não perguntou.

Ele desviou o olhar.

— Você também não falou.

Ela soltou um riso sem humor.

— Talvez eu estivesse esperando você falar.

— Talvez eu também.

Aquilo doeu. Perséfone virou o rosto, sentindo os olhos arderem.

— Isso é tão injusto.

— Eu sei.

— Não aconteceu nada — continuou ela. — Esse é o problema. Não aconteceu nada.

Uma lágrima escapou. Ela a limpou rapidamente.

— Eu queria que tivesse acontecido.

Hades franziu a testa.

— O quê?

— Qualquer coisa — a voz falhou. — Queria que houvesse um motivo. Algo concreto que eu pudesse apontar e dizer: foi isso. Queria poder ficar com raiva de você. Queria que fosse simples. Mas não é.

Hades baixou os olhos.

— Não.

— Você não fez nada. Foi bom comigo. É bom comigo. — A voz dela se partiu. — E eu amo você.

Hades abriu os olhos e a encarou, em silêncio. Talvez soubesse que qualquer palavra seria insuficiente, ou estivesse tentando impedir a própria voz de falhar.

Perséfone levou a mão ao rosto.

— É isso que dói tanto.

— Eu sei.

— Não, você não entende. Eu não quero terminar com você. Não estou fazendo isso porque deixei de te amar.

Hades olhou para o horizonte.

— Eu sei.

A confirmação dele doeu. A forma como não argumentava, não procurava culpados e não dizia que ela estava errada revelava tudo: Hades sentia o mesmo.

— Você também sente isso? — perguntou ela.

Após uma longa pausa, ele apoiou as duas mãos no parapeito e respondeu, com a voz baixa:

— Sim.

Perséfone fechou os olhos. Não houve gritos, acusações ou raiva — apenas duas pessoas que se amavam encarando a verdade que passaram tanto tempo evitando.

Ela chorou, e Hades não tentou impedi-la. Ficaram ali enquanto o céu do Submundo mantinha seu ritmo sereno. Milênios de lembranças pareciam comprimidos naquele instante: o primeiro momento em que se escolheram, tudo o que atravessaram, os filhos, as perdas, as mudanças, as certezas de que ficariam juntos para sempre. Talvez, para a época, para sempre tivesse significado exatamente aquilo.

— Eu queria que houvesse um motivo — disse ela, cobrindo o rosto. — Algo que fizesse parecer que não estamos destruindo uma coisa boa.

— Nós não estamos destruindo o que tivemos — Hades disse, com a garganta fechada. — O que tivemos existiu. Foi real, foi bom, foi nosso.

— Então por que não é suficiente?

Hades fechou os olhos, sem resposta.

Quando Perséfone perdeu as forças, foi ele quem a puxou para perto. Ela escondeu o rosto contra o peito dele, e Hades a abraçou forte — não para fazê-la ficar ou apagar a conversa, mas porque ela estava sofrendo e ele ainda sabia cuidar dela.

— Eu sinto muito — sussurrou ela, segurando o tecido de suas roupas.

— Não.

— Hades...

— Não peça desculpas por me amar de uma maneira que mudou.

— Eu estou te machucando.

Ele demorou a responder:

— Eu sei.

— Então por que está me consolando?

Hades passou o polegar pelo rosto dela, limpando uma lágrima.

— Porque você está sofrendo.

— Mesmo que seja por minha causa?

— Principalmente porque você está sofrendo.

Perséfone fechou os olhos. Hades encostou a testa na dela.

— Eu não quero te perder — sussurrou ela.

— Você não vai.

— Não vai ser igual.

— Não — ele sustentou o olhar, sem mentir.

— Como vou viver sem você?

Hades sorriu com tristeza.

— Da mesma maneira que vou aprender a viver sem você.

Ela quase sorriu. Não era uma promessa de que tudo ficaria bem; nenhum dos dois sabia como seria. Só sabiam que precisariam aprender a existir separados.

Quando Perséfone se afastou, soltou a roupa dele devagar e recuou um passo. As mãos ainda continuavam juntas, com os dedos entrelaçados. Ambos olharam para aquele contato e depois para os Campos Elísios, contemplando a história que haviam construído e o amor que permanecia, mesmo com o fim da relação.

— Foi bonito — disse ela.

— Foi.

— Muito.

— Muito — soprou ele.

Não havia um mas. Não precisavam diminuir o que viveram para justificar o término. Havia sido bonito, grande e real — e havia acabado.

— Eu não quero soltar — confessou ela.

— Eu sei.

— Você também não?

— Não.

Ainda assim, precisava acontecer. Perséfone começou a soltar os dedos lentamente, um por um. Hades não a segurou; amá-la significava não transformar o medo em uma razão para forçá-la a ficar.

As mãos ficaram vazias. Perséfone deu mais um passo para trás. Olharam-se não como inimigos ou estranhos, mas como Hades e Perséfone: duas entidades que atravessaram milênios lado a lado e sabiam exatamente o tamanho daquela perda.

— Boa noite, Hades.

Ele demorou a responder:

— Boa noite, Perséfone.

Ela se virou, caminhou até a porta e parou por um instante. Nenhum dos dois disse mais nada. Ela atravessou, e a porta se fechou.

Hades permaneceu imóvel, com os olhos fixos no ponto onde ela desapareceu, como se uma parte dele esperasse seu retorno. Não voltou.

Atrás dele, os Campos Elísios continuavam silenciosos e imóveis. Ao lado, sobre a mesa esquecida, o prato de romãs permanecia intacto sob a luz suave do Submundo. Hades olhou para a fruta partida ao meio, com as sementes expostas, e depois encarou a porta.

Perséfone ainda o amava. Ele sabia. Talvez ela voltasse algum dia; talvez não. Pela primeira vez em milhares de anos, ele não sabia. Não havia promessas, destino ou certezas — apenas uma porta fechada e um prato de romãs sobre a mesa.

Hades permaneceu ali, sozinho.


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