A Última Lua
4 Requiem For a Dream
Notas iniciais
MANSÃO FAMÍLIA COSTA/ BARRA DA TIJUCA/ RIO DE JANEIRO
— Por alguma razão, ela sabe quem matou o Gael – ela expira – e quer me contar quem foi. (Tina)
Elenice fica nervosa pela própria amiga, coloca a ponta de seus cabelos escuros para trás da orelha e acaricia as mãos de Tina, que estava tremendo tamanho choque gerado pela carta.
— Você não pode acreditar numa coisa dessas... – ela fita Tina – ela pode ser a mesma pessoa que assassinou o seu marido, ela pode estar tentado te matar também... (Elenice)
— Não – ela vira a cabeça – eu não sei se acredito nisto. Quem matou o Gael foi alguém que já veio aqui em casa, que conhecia ele, ou no trabalho dele... (Tina)
Gael havia sido declarado morto por pneumonia, do dia para o outro, no meio de sua rua de trabalho. No dia anterior, estava bem e pulando com a mesma em um parque linear. Era impossível ele ter pegado pneumonia de um dia para o outro e ter morrido. E outra: havia sangue nos chãos. Porém, nada podia fazer, os peritos o declararam assim.
— E aonde esta mulher mora? (Elenice)
— No morro do alemão – ela engole em seco – dentro de uma comunidade. (Tina)
— Nem amarrada você vai pra lá – ela dá uma risadinha desesperada – está ficando doida? Isso tudo tem cheiro de ser uma grande armadilha... (Elenice)
— É a única coisa que eu tenho para poder me livrar das acusações da Stephanie... – ela se levanta e começa a caminhar em voltas pela sala – e descobrir de uma vez por todas quem matou o meu marido, e claro, o colocar na cadeia.
— Eu não sinto cheiro de boa coisa vindo desta... – ela pensa – qual o nome dela mesmo? (Elenice)
— Patrícia – ela assente – Patrícia Alexandre. (Tina)
Neste mesmo momento, Tina ouve as chaves da porta central se abrindo, e Stephanie entrando pela sala, com a mesma roupa que havia saído horas atrás. A loura esconde a carta por dentro de sua saia e olha para a garota apreensiva, que percebe a movimentação no cômodo.
— O que está acontecendo aqui? – ela se aproxima – uma reunião do coven para o próximo assassinato? (Stephanie)
— Não é nada disso... – ela gagueja, não pretendia contar nada a garota – a Elenice está me ajudando... (Tina)
Elenice olha para Tina também apreensiva.
— Ajudando no que? – ela abre um sorriso falso – (Stephanie)
— Como você mesmo disse horas antes – ela se aproxima da patricinha – não devemos satisfação uma para a outra! (Tina)
— Mas vocês estão na minha... (Stephanie)
— Na MINHA – ela a interrompe com ênfase no minha – casa! (Tina)
Stephanie fita Tina com ódio, e sem mais nenhuma palavra, vira de costas e começa a subir as escadas para o seu quarto.
Tina e Elenice suspiram aliviadas.
— Pensei que contaria para ela... (Elenice)
— Não – ela reprova com a cabeça – eu não vou dar esse gostinho para ela. Eu mesma vou à casa da Patrícia, provavelmente no domingo! (Tina)
— Você vai precisar tomar muito, muito cuidado... (Elenice)
— Eu sei... – ela suspira – eu sei muito bem me cuidar! (Tina)
Elenice apenas sorri para ela, e logo depois se levanta do sofá, se despedindo da amiga para voltar a sua casa ir dormir.
— Tem certeza que não quer dormir por aqui? (Tina)
— Não precisa desta gentileza – ela caminha até a porta – sei o caminho de saída. (Elenice)
Tina referencia com as mãos e observa Elenice fechar a porta principal, deixando ela a só na sala. A loura se joga no sofá e bufa. Todos aqueles segredos estavam a matando.
*
QUARTO DE STEPHANIE/RIO DE JANEIRO
O dia amanhece e com ele Stephanie também. Havia passado uma noite estressante na festa, com um homem tentando assedia-la, e por isso havia voltado tão cedo. Pretendia virar a madrugada dançando, mas seus planos não ocorreram deste jeito. Ela olha para o relógio ao lado da cama, eram nove da manhã.
Relutando, ela sai debaixo das cobertas; vestia uma camisola de seda perolada. No banheiro, escova seus dentes e penteia seus longos cabelos castanhos.
Está enorme, pensa ela.
Em seguida, ela vai até a porta do quarto e o fecha com suas chaves, em silencio, voltando para o banheiro novamente. Fazia dias que não precisava fazer isso, pois seu estoque estava cheio, porém nos últimos dias, havia vendido bastante.
Stephanie agacha e com as mesmas chaves que abriu a porta, destranca a gaveta de madeira que possuía em baixo de sua pia e as abre. Sem delongas, ela puxa de lá uma pequena seringa, e logo depois, surge um saco de agulhas embrulhadas em suas mãos.
Ela, em sincronia, pega uma agulha no pacote que já se encontrava aberto e a encaixa na seringa. Logo depois, passa um pouco de álcool nos pulsos e com uma fita, amarra as nádegas de seu braço.
A garota insere a agulha da seringa na sua pele, a perfurando. Como um médico faria. Em seguida, puxa o gatilho da mesma para trás e retira um pouco de seu sangue avermelhado. Ao completar o necessário, ela retira cuidadosamente a agulha de sua pele e coloca o sangue em um vidrinho, o fechando com uma rolha.
Ela sorri.
— Está feito o de hoje – ela guarda as coisas – amanhã tiro mais! (Stephanie)
Como se nada houvesse ocorrido, ela guarda o vidrinho num suporte dentro da geladeira e destranca a porta de seu quarto, descendo as escadas rumo à luz do dia.
*
ESTADOS UNIDOS/ APARTAMENT STREET DENNY WAY/ SEATTLE
Leslye lixava suas unhas pintadas há pouco tempo por ela mesma. O que era um desperdício. Não saia de casa fazia dias, havia mandando vários currículos para empresas brasileiras, e esperava suas ligações. Nenhuma retornara, por que, ela não sabia.
Era uma garota bonita, bem sucedida, seus longos cabelos loiros bem claros eram bem comuns no lugar onde morava... Não via motivos para não ser chamada
Estava cansada de morar nos Estados Unidos e sentia saudades da alegria dos brasileiros, seu país de nascença.
Não tinha amigos. Não tinha mais família. Era só ela e seu irmão, Leon. No Brasil, teria tudo isso e um pouco mais de diversão.
Ela revira os olhos e joga sua lixa de unhas no chão, dobrando seu pescoço no encosto do sofá. Um milagre acontece. Seu celular toca.
Leslye levanta e descalça, corre para atender o seu smartphone. Vestia uma camisa de Leon, que era maior do que ela, chegando a seus joelhos.
XV: Alô? (Leslye)
XV: É a Leslye? (Giovanna)
Leslye revira os olhos, conhecia aquela voz.
XV: Giovanna? – ela bufa — prima, você me desculpa, mas eu não posso ficar conversando hoje... (Leslye)
XV: CALMA – ela aumenta o tom de voz – é uma boa proposta. (Giovanna)
XV: O que você quer? (Leslye)
XV: Quero te chamar para morar aqui comigo, no Brasil! (Giovanna)
O coração de Leslye dá um salto, era tudo que ela queria.
XV: O que? Você está zoando com minha cara? (Leslye)
XV: Não, eu estou te convocando para vir pra cá! Morar comigo. (Giovanna)
XV: E por que você faria isso? – ela gagueja — nunca gostou muito bem de mim! (Leslye)
XV: As afirmações adicionais eu te explico quando você chegar aqui... (Giovanna)
XV: Mas e o Leon? Eu não posso deixar ele aqui... (Leslye)
XV: Traga ele também – ela a interrompe – só preciso que você venha o mais rápido possível. Consegue em dois dias? (Giovanna)
Lágrimas enchem os olhos de Less. Estava mandando currículos para as empresas no Brasil para já ir para lá empregada e conseguir pelo menos alugar uma casa ou um apartamento. Agora que a prima a oferecera isto, não precisava mais tanto se preocupar em trabalho.
Sua morada em Seattle, também, estava com os dias contados. O apartamento nem era dela, e ela guardava as finanças para comprar uma passagem caso surgisse à oportunidade de viajar.
XV: E então? – ela fala sem delongas — aceita a minha oferta? (Giovanna)
*
PRAÇA SÃO PERPÉTUO/BARRA DA TIJUCA/ RIO DE JANEIRO
Tininha senta nos gramados da praça junto com sua cesta de palha, ao lado de Ronaldo. Eram dez da manhã e na noite anterior, haviam combinado tomarem café da manhã juntos. Ela abre a cesta e tira de lá pães, manteiga, requeijão e todas essas coisinhas de padaria.
— Você caprichou... – ele sorri – muita fartura! (Ronaldo)
Tina dá uma risadinha abafada e pega um pão, o cortando no meio e passando manteiga. Mais uma vez, por conta da noite anterior, pensara em cancelar o passeio com Ronaldo, mas decidiu ir para acalmar a cabeça. Parecia mágica, quando estava com ele, esquecia todos os seus problemas.
— Eu estou tão feliz agora, sabia? – ela sorri e abaixa a cabeça – que eu tenho até medo dessa felicidade! Sempre que acontece algo feliz, acontece também algo para estragar... (Tina)
Ronaldo se aproxima dela e coloca a ponta de seus dedos em seu rosto, fazendo todos os pelos da mulher se arrepiarem!
— Não fala isso – ela fecha os olhos – não vou deixar nada de mal acontecer com você... (Ronaldo)
Eles se fitam olho no olho. Os cabelos louros de Tina brilhavam sob a luz do sol, e seus olhos castanhos ganhavam uma luminosidade que Ronaldo se encantava de olhar.
— Esquece o mundo lá fora – ele se aproxima de seus lábios – pelo menos, neste momento... (Ronaldo)
Tina arqueja, mas não resiste e toca os lábios de Ronaldo, só que por alguma razão, de um jeito diferente. Com mais intensidade. Um beijo que a estava querendo criar asas para espalhar luz e felicidade para todos no mundo.
Ele toca a sua nuca, e a puxa para mais perto de si. O sol os esquentava e os iluminava, criando uma cena única para os dois, que pareciam apaixonados em pleno amanhecer.
*
APARTAMENTO DE RONALDO/ COZINHA/ BARRA DA TIJUCA
Cate anda até a cozinha do apartamento e lê o bilhete que havia sido escrito pelas mãos de seu pai. Ontem não o vira, pois dormira antes dele chegar; e agora, de manhã, era perceptível que não o vira também. Ele havia saído com Tina para tomar café e deixado 10 reais para ela ir à padaria.
A loira amassa o papel e o joga no lixo, morrendo de raiva. Não gostava do seu relacionamento do pai com outras garotas; principalmente aqueles com interesse.
— O que eu vou fazer para botar o meu pai no lugar dele? – ela pensa em voz alta – (Cate)
Não sabia; amor e traição elevaram seu pai a isso, amor e traição o transformaram neste homem ganancioso e sem escrúpulos. Amor e traição o levariam a destruição.
*
AVENIDA OLEGÁRIO MACIEL/BARRA DA TIJUCA/ RIO DE JANEIRO
Jojo caminha por dentre as ruas da avenida, para respirar um pouco de ar. Desde que conhecera Edgard, ficara falando com o garoto o dia inteiro pelo celular e ficou infortunada dentro de casa.
Passa sob um bar fechado, grandes prédios e restaurantes. Por alguma razão, não passava nenhum carro na avenida.
Stephanie caminha por dentre a calçada da avenida em busca de alguma loja que venda um cashmere, que ela solicitava para dar de presente a sua amiga. Nada parecia satisfazê-la e ela estava ficando irritada. Estava um pouco frio, o que não era habitual, e ventava muito. Venta tanto que o seu cachecol acaba voando de seu pescoço e vai para o meio da rua. Ela revira os olhos e sem olhar para os lados, corre para pegar o seu objeto.
Quando consegue recupera-lo, apenas ouve o barulho de uma buzina e uma mão a empurrando para longe. Uma freada brusca acontece, e de repente, a escuridão invade seus olhos.
*
Stephanie acorda no meio da calçada, se encontrava deitada no chão. Uma multidão de pessoas a cercava, e suspiram de alivio quando ela acorda.
Havia batido a cabeça no concreto e desmaiara, ela percebe. Uma vizinha dela, Ana, estava ao seu lado.
— Graças a Deus você acordou – ela suspira – pensei no pior. (Ana)
Ana era uma mulher de cabelos curtos e pretos. Usava óculos, era baixinha e morena. Aos olhos de Stephanie, uma mulher muito bonita.
Ela olha ao redor e vê um carro prateado parado, e na frente dele, uma garota de longos cabelos pretos, que não a parecia uma desconhecida.
— O que aconteceu...? (Stephanie)
— Você quase foi atropelada – ela fala com calma – mas aquela moça a ajudou empurrando você, e foi atropelada do seu lugar. O motorista parou antes que um estrago maior acontecesse. A garota não se machucou, só se ralou um pouco. (Ana)
Stephanie continua em silêncio. Tinha entendido tudo. O cachecol caíra no meio da rua, e ela fora pegar, quase morrendo atropelada.
Stephanie suspira em alívio. Ana continua a fitando.
— Se não fosse pela coragem desta mulher, você teria... (Ana)
Stephanie, agora sentada na rua, interrompe Ana colocando sua palma das mãos em sua boca.
— Não fala – ela sorri – graças a Deus eu estou aqui, eu estou viva e eu estou bem! O resto não importa... (Stephanie)
Jojo ouve o comentário e se vira para a garota.
— O que você disse? (Jojo)
Joanna se sentia dolorida e com alguns arranhões na bochecha e na perna, graças a Deus, o carro havia parado e ela só levou esses aranhões.
Stephanie a fita. Jojo se levanta do chão e aproxima-se da garota.
— O que você disse? – ela aumenta o tom de voz – (Jojo)
Stephanie fica apreensiva, e olha para Ana, que olhava para a cantora. Ela engole em seco e se recompõe, encarando novamente Joanna.
— Eu sinto muito pelos seus machucados... (Stephanie)
— Sente coisa nenhuma – elas se encaravam – você acabou de dizer que o resto não interessa, eu escutei! (Jojo)
Ana tenta tranquilizar a garota.
— Calma, ela está nervosa... (Ana)
— A bondade e dor dos outros não te toca? (Jojo)
Stephanie reprova com a cabeça e tenta ficar calma.
— Não, não é isso – ela se exalta – eu vou te explicar! Eu fui pegar o meu cachecol, e na hora que ouvi as buzinas e uma pancada, pensei que tudo estivesse sido comigo. Eu na hora imaginei minha morte, e desacordei. Tenho uma família, amigas, um namorado – ela se culpa por chamar Edgard de namorado – quando acordei foi um alívio... Eu estou viva e nada mais me importa, eu estou explodindo de felicidade... – ela falava sorrindo – (Stephanie)
Jojo limpa as lágrimas no canto dos olhos.
– Eu quase morri para te salvar; quase perdi a vida para que uma idiota feito você fosse feliz...? – as duas se encaram com raiva nos olhos – é isso? (Jojo)
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